Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
DARWIN e o BERGANTIM "BEAGLE"
Desenho de uma das expedições do Beagle à Terra do Fogo, (Wikipédia)
Na literatura sobre viagens são contadas as obras que conseguiram uma perfeita amálgama de curiosidade intrépida, destreza narrativa e reflexão de alta importância.
"Tristes Trópicos", de Claude Levi-Strauss, soube fazê-lo no campo da antropologia.
E "A Viagem do Beagle", de Charles Darwin, escrito por ele próprio sobre as ciências naturais.
Em 2009 comemora-se o bicentenário do seu nascimento e talvez uma desculpa para fincar os dentes no triplo clássico da literatura científica, inglesa e naturalista.
Cinco anos duraram as andanças do jovem Darwin no "Beagle", um bergantim britânico comissionado para bordejar as costas da América do Sul, com objectivos cartográficos.
Em 1831, com 22 anos, embarcou em Plymouth na qualidade de naturalista, (biólogo, zoólogo, botânico), numa travessia com escala no Rio de Janeiro, Buenos Aires, Patagónio e Galápagos.
Voltaria a casa com um diário de viagem que seria o gérmen de uma teoria revolucionária.
Vindo de uma família abastada, este filho do eruditismo britânico, licenciado em Teologia e dotado de uma aguçada capacidade de observação, encarna um momento na história da ciência, no qual o aventureiro, o "gentleman" ou cavalheiro e o erudito se fundem numa só pessoa, com tempo e recursos para dedicar vários anos a um itinerário formativo, (daí essa despreocupação, ausente em Levi-Strauss, a quem a ideia do atraso na expedição produziria na sua carreira, não o deixava dormir, naquelas noites amazónicas).
Como um Indiana Jones do seu tempo, escalou picos e montanhas, atravessou desertos a pé e no lombo duma mula; internou-se nas pampas com os gaúchos, alimentando-se de animais exóticos, expondo-se a tribos hostis, tempestades, insolações e picadas de todos os bichos inimagináveis,
Hipocondríaco, propenso ás saudades e aos enjoos, (todo o trajecto enjoado!), não deixou pedra por remover, nem fósseis e plantas por coleccionar, em tal quantidade que os seus companheiros lhe perguntavam se tencionava afundar o "Beagle".
Foi testemunha compassiva do extermínio dos aborígenes ás mãos de colonos, como um certo Governador argentino, cuja "ocupação favorita era a caça aos índios; em pouco tempo matou 48 e vendeu os seus filhos, a três ou quatro libras cada".
Na Terra do Fogo, presenciou o retorno de três índios "yamanas", que tinham sido "civilizados" na Grã Bretanha e que os ingleses repatriaram com a piedosa esperança de que evangelizariam os seus; uma funesta experiência de cujo desenlace descreve com minuciosos detalhes.
Aos olhos dos leitores da época, "a sua odisseia foi uma fascinante viagem no tempo": partiu do "cúmulo da civilização", (Grã Bretanha) escalou locais históricos, passando pela barbárie, (as Repúblicas da América do Sul), pelo selvagismo (os indígenas) e culminou na pré-história (as estranhas criaturas dos Galápagos).
Tudo com o apoio de Robert Fitz Roy, o capitão de 26 anos que reclamou a presença a bordo de um naturalista para não enlouquecer de solidão.
Os dois eram jovens e por sorte simpatizaram um com o outro, ainda que Darwin se tivesse arrependido de fornecer ao segundo a oportunidade deste dar o tiro de misericórdia no relato do Génesis.
Na sua "vagabundagem" austral, Darwin anotou as observações que resultariam vitais no desenvolvimento da teoria da selecção natural.
Do périplo do "Beagle" diz-se que é uma das mais famosas viagens marítimas da história.
Para mim é um dos mais portentosos percursos jamais narrados.
Que um livro científico tenha aguentado tão bem o passar do tempo, deve-se à sua escrita e em especial ás descrições vividas de animais, paisagens e pessoas, como a rainha Pomarre do Haiti, pintada como "uma mulherona torpe e desajeitada, sem nenhuma beleza, graça ou dignidade.
Só possuía um atributo real: uma perfeita imobilidade expressiva em qualquer circunstância".
Uma oportuna comemoração de que um pensamento científico alcança a sua máxima eficácia quando vem unido a uma descrição clara, amena e elegante.
A Viagem do Beagle:
Para quem entende bem inglês, aqui vai uma boa dica: o site do museu de história natural inglês tem uma viagem virtual interactiva do Beagle, que mostra os pontos por onde Darwin passou e uma descrição do que ele fez. É só clicar na imagem, do site, para embarcar.
(clique no texto de cima)
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