
Hoje tenho Saramago presente.
Há uns dias regressava a casa, dormitando no assento traseiro do automóvel, depois de um dia cheio de peripécias.
Saramago tinha morrido... chegando a Portugal ... e a sua morte foi acompanhada com um “que pena” do meu “motorista”.
Continuei no limiar do silêncio, sem querer abrir os olhos ou comentar.
Pensava.
Pensei que já tinha idade para morrer, vá, algum dia a ceifeira aparece e, Saramago arrastava uma leucemia que nos idosos é tão lenta, tão pouco virulenta, que os acompanha até aos seus últimos dias debilitando-os pouco a pouco, como uma perniciosa anemia que termina numa eterna letargia.
Saramago tinha cerca de noventa anos.
Acredito chegar mais além dos noventas.
Do mesmo modo que acreditava na sua imortalidade.
Saramago já tem rotulado a a sua etiqueta de eterno, o Prémio Nobel da Literatura converteu-o num escritor universal, um eterno reconhecido um inolvidável.
Ainda sem Nobel, Saramago já tinha edificado a sua imortalidade.
Há uns dias regressava a casa, dormitando no assento traseiro do automóvel, depois de um dia cheio de peripécias.
Saramago tinha morrido... chegando a Portugal ... e a sua morte foi acompanhada com um “que pena” do meu “motorista”.
Continuei no limiar do silêncio, sem querer abrir os olhos ou comentar.
Pensava.
Pensei que já tinha idade para morrer, vá, algum dia a ceifeira aparece e, Saramago arrastava uma leucemia que nos idosos é tão lenta, tão pouco virulenta, que os acompanha até aos seus últimos dias debilitando-os pouco a pouco, como uma perniciosa anemia que termina numa eterna letargia.
Saramago tinha cerca de noventa anos.
Acredito chegar mais além dos noventas.
Do mesmo modo que acreditava na sua imortalidade.
Saramago já tem rotulado a a sua etiqueta de eterno, o Prémio Nobel da Literatura converteu-o num escritor universal, um eterno reconhecido um inolvidável.
Ainda sem Nobel, Saramago já tinha edificado a sua imortalidade.
Durante séculos e séculos o ser humano tem procurado o elixir que o converta em imortal ou em eternamente jovem, sem se aperceber que a imortalidade não perdura o corpo, mas perdura a nossa vida e a vida realiza-se em obras, em criação.
O resto, não se cansem, é pasto de vermes ou cinzas espargidas em mares ou desertos.
Também é certo que para alguns, Saramago não só está morto, como nunca existiu.
Não seria o primeiro caso na história e não será o último.
Saramago nunca bajulou a vida.
Nunca se dobrou e só perdeu a verticalidade do corpo, na tumba.
Muitos “ladraram” sem som nem tom e sem terem lido a “pauta”.
Por vezes invejo a felicidade dos ignorantes, sobretudo em certas ocasiões, assim tipo, “olhos que não vêem, coração que não sente”: não ser consciente da grave crise económica, do que significa a palavra terrorismo, ou redes mafiosas, ou o poder do urânio nas mãos de um louco, o diagnóstico de uma enfermidade, pegar num livro … já não digo, nem exijo lê-lo.
Lembra-me a atitude de alguém (não vou divulgar quem), vizinho de proximidade, que após uma análise escandalosa de creatinina foi levado para a urgência, sem perda de tempo; “e se deixarmos isto para depois do Natal. Se é coisa da urina, tão-pouco será grave” dizia ele, com vontade de esquivar-se, como se o estivessem a mandar ao supermercado ou à padaria e não tivesse vontade de ir e todos a pensarmos no seu sangue envenenado em questão de dias e o seu fracasso renal.
A cara de quem ignora e não quer saber, é a imagem da tranquilidade.
Agora faliu e faz diálise três vezes por semana.
Mas retorno a Saramago.
Quando não se morre é porque o que se foi capaz de criar e doar ao mundo, transcende a fronteira do tempo e despreza o conceito de temporalidade, de perecível, de caduco, de mortal.
Se não me equivoco, “A Viagem do Elefante” foi a sua última obra.
A morte anunciada é empreender talvez a última senda que se diz empreender todos os elefantes em busca do seu cemitério.
A cara de quem ignora e não quer saber, é a imagem da tranquilidade.
Agora faliu e faz diálise três vezes por semana.
Mas retorno a Saramago.
Quando não se morre é porque o que se foi capaz de criar e doar ao mundo, transcende a fronteira do tempo e despreza o conceito de temporalidade, de perecível, de caduco, de mortal.
Se não me equivoco, “A Viagem do Elefante” foi a sua última obra.
A morte anunciada é empreender talvez a última senda que se diz empreender todos os elefantes em busca do seu cemitério.
A sua enfermidade avançava inexoravelmente … silenciosamente. … mas era certo que um homem de “oitentas” anos continuava a criar, profícuo na gestação de criaturas que viam a luz e continuavam a contribuir para a sua imortalidade, como o fazem, “As Meninas”(1656- Diego Velázquez), ou “O Grito” (1893-Edvard Munch), ou o “David” (1504- Michelangelo), ou a “Gioconda” (1503-Leonardo da Vinci), ou a “Sagrada Família” (em construção desde 1882-Antoni Gaudí), ou “Imagine” (1971-John Lennon).
Mas é muito importante não morrer para quem sempre amámos em vida, para quem fomos peça do seu puzzle e foi peça do nosso puzzle e que contribuíram, ao fim e ao cabo, a que todas casassem na perfeição.
- "Entrarei no nada e dissolver-me-ei nele"
Na primeira página da sua última obra uma dedicatória:
“À Pilar, que não deixou que eu morresse”.
.
Mas é muito importante não morrer para quem sempre amámos em vida, para quem fomos peça do seu puzzle e foi peça do nosso puzzle e que contribuíram, ao fim e ao cabo, a que todas casassem na perfeição.
- "Entrarei no nada e dissolver-me-ei nele"
Na primeira página da sua última obra uma dedicatória:
“À Pilar, que não deixou que eu morresse”.
.



2 comentários:
Que lucidez, mau caro!
Aos que ladram...
deixá-los ladrar...
que o tempo se encarregará
de mostrar quem são as bestas
de carga...
Forte abraço
Claro que é:
MEU CARO.
;)
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