O VIDEIRINHO

quarta-feira, setembro 15, 2010

ERUDITO A PEDIR

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A crise fez com que o número de mendigos e vagabundos que se vêm pelas ruas crescesse de forma notável.

Há os que pedem à porta do supermercado, sentados numa espécie de banco ou mesmo numa parca cadeira e com cara de terem infinita paciência; há os que colocam a sua tabuleta ou dístico, que normalmente estão replectos de faltas de ortografia, indicando que necessitam de dinheiro para voltar ao seu país de origem ou para alimentar uma longa prole; abundam também os que aproveitam os semáforos para passarem o gorro entre os condutores depois de terem feito jogos de malabarismo ou números de mímica (o limpar os vidros já passou à história por estar muito visto).


Oswaldo Guayasamín - "Las manos" da colecção 'La Edad de la Ira'

Há uns dias vi uma pessoa com um letreiro em que avisava a quem tivesse a amabilidade voluntária de dar-lhe algo, que aceitava comida.

Não é habitual e até há alguns que o rechaçam irados.

“Oiça, não estou tão necessitado”, já ouvi dizer.

A semana passada tropecei com um caso deveras singular: um homem talvez com um pouco mais de trinta anos, bastante sujo, estava sentado no chão, à porta de uma agência bancária.

A seu lado, um pequeno cesto com algumas moedas.

Até aqui nada de novo.



O apelativo era que, alheio à passagem das pessoas que poderiam dar-lhe algo, como se não se importasse patavina que lhe dessem ou não, lia com grande atenção um livro de dimensões mais do que notáveis.

Calculei umas 700 páginas.

Não me atrevi a perguntar-lhe o que lia e agora estou arrependido.

É que poderia escrever uma epopeia grandiosa com esta história.

E acima de tudo, teria chegado a compreender algo mais sobre o que nós, seres humanos, temos de estranhos.

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6 comentários:

De acordo com disse...

Se tem quem mate milhões de seres humanos e animais pelo poder e pelo dinheiro, por que não pode haver alguém que desistiu da rotina da vida viva para cair no cotidiano morto-vivo das calçadas? "Melhor pedir do que roubar!", dizem os mais velhos. Melhor é cuidar de si. Aos que não conseguem, restam os restos. E nos países de terceiro mundo, a mendicância é setor produtivo, de quinta categoria, mas com força pra atravessar mais dois séculos!

Fa menor disse...

Interessante, sem dúvida! Por aí se vê que a miséria está a subir de posto.

xistosa - (josé torres) disse...

De acordo com

Ai de quem não sabe pedir.

Diz o nosso adagiário "Cada qual pede para seu santo".
Neste caso, quem pede pode considerar-se santo ... (e pede para ele, rsrsrs)

xistosa - (josé torres) disse...

Fa menor

Quem não se instruir ... vai-se destruir!!!
(ou será assim mais ou menos)

Táxi Pluvioso disse...

Portugal já teve mendigos a mais. Houve um rei qualquer que chegou a não permitir abertura de mais ordens mendicantes.

xistosa - (josé torres) disse...

Táxi Pluvioso

Já no tempo de Salazar os mendigos eram "sazonais".
Quando aparecia um "cão" grande a visitar-nos ... "desapreciam", mesmo sem serem proibidos.
Suponho que iam de férias.