O VIDEIRINHO

quinta-feira, setembro 30, 2010

SOBRE QUALQUER CADÁVER

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Hoje sinto-me metafísico e como não podia deixar de ser, melancólico.

Dá-me para me por a pensar em coisas graves e em assuntos profundos.

É melhor ser admirado ou ser querido?

É melhor vencer ou convencer?

O triunfo dá-nos sempre a felicidade ou por vezes tira-no-la?

O fim justifica os meios?

O Real Madrid é um dos clubes com mais aficionados em todo o mundo, mas também um dos mais aborrecidos.

Os êxitos históricos estão por detrás de uma outra atitude: há muita gente medíocre que só se encosta aos vencedores para pôr um pouco de cor na sua parda vida e há muita outra gente ressentida que os detesta unicamente por inveja.

Mas o assunto é muito mais complexo e fascinante.

As razões pelas quais alguém pode passar uma semana deprimido pela derrota da sua equipa ou pela vitória da equipa rival, são profundidades da alma humana – nada excepcionais e cada vez mais propagadas – que sou incapaz de decifrar.

É verdade que todas as cores as podem colocar nas suas vitrinas, mas acho os triunfadores de raça bem mais que os perdedores de sempre.



O meu amigo Pedro, (do Restaurante Atlanta em la Manga del Mar Menor) um “incha” doente do colosso Real, assegura que os verdadeiros “sofredores”, não são os aficionados do Atlético de Madrid, como se diz sempre, mas sim os do Real Madrid.

E tem mais razão que um santo.

A habituação à derrota, caleja o espírito e converte o fracasso numa forma de vida tolerável.

Contrariamente, os “doentes” do Real Madrid começam a espumar pela boca ao primeiro revés e encolerizam-se quando perdem.

Depois de um ano sem títulos, têm que tratar-se.

E é muito provável que o índice de suicídios dispare.

Disse o amigo Pedro que quando vai ao Santiago Bernabéu ouve os piores insultos que um aficionado pode dizer aos seus próprios jogadores e ao seu treinador.

Os madrilenos sim, é que sofrem.

Encontrei-o há cerca de um mês.

Mais calmo e lúcido – ainda que pareça mentira – dizia-me a propósito de Mourinho.

- “Era só o que nos faltava! Se já nos odiavam, agora vamos ser o centro do alvo”.


É verdade.

Mas Mourinho vai para o Real como o anel no dedo e é o seu digno representante.

Porque para além de tudo, há gente que odeia o Real por pura inveja, mas muita outra que o odeia pela sua prepotência, pelos seus ares de permanente superioridade, pela sua jactância de “mata sete”, pela sua papagaíce incomparável.

Pela sua forma de devorar os próprios filhos, hoje Pellegrini – que não deve ser esquecido, ao conseguir mais pontos que qualquer outro treinador anterior – ontem Del Bosque.

Pela sua maneira de fazer uma equipa à base do livro de cheques, obscenamente.

Por essa busca ansiosa, desesperada, irracional do triunfo.

E nesse estilo, fica como uma luva perfeita Mourinho.

Mou.

Uma pintura bem conseguida e abrangente do meu amigo Pedro.

“Os resultados decidem quem é o melhor”, disse Mou na conferência de imprensa da sua apresentação, em que inusitadamente se mostrou discreto.


DI STEFANO, PUSKAS, GENTO e KOPA (os quatro fantásticos)




É verdade?

Os resultados decidem quem é o melhor?

Esse é talvez o grande erro do nosso tempo.

Passamos o dia inteiro lamentando-nos da perca de valores, do descrédito, do esforço pessoal, do prestígio, da fama frívola e logo enaltecemos um indivíduo que representa isso simplesmente: o que conta é o resultado, seja por que preço for, sem matizes, sem adjectivos.

Secamente.

É possível que o Real Madrid ganhe a Liga espanhola, a Liga dos Campeões e inclusivamente o Festival da Eurovisão, mas tem assegurada uma antipatia cada vez maior.

Entre o Real de Mou e o Barça de Pepe (Guardiola), uma liga – que é o que mais importa – já está sentenciada.

No mundo em que vivemos, não é melhor fracassar?

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2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

O Real é uma empresa como outra qualquer, claro que os aficionados vêem outra coisa mas isso faz parte da estratégia para que consumam.

Agora, bem que precisamos de futebol para o nosso povo animar.

xistosa - (josé torres) disse...

Táxi Pluvioso

Consumam de consumir ou de consumar?
É um berbicacho esta resposta, se consumar de exaurir ou consumir de gastar.