O VIDEIRINHO

sábado, dezembro 18, 2010

ANJO NO PASSEIO

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Hoje espreguicei-me mais tarde. 

Era quase fim de tarde/noite quando me aconcheguei no meu táxi. 

Fui.

Eludo dois carros e detenho-me no semáforo. 

Na rádio enleava-me com “Raoui”, na voz doce, quente e sensual de Souad Massi. 

Aumento o volume do som. 

Pela minha frente atravessa uma velhota com sacas cheias de compras, três jovens e um casal de idosos. 

Olho para cima onde fileiras de luzes piscam como um insone. 

Alguém me dá uma buzinadela; o semáforo acabava de abrir. 

Conduzo em direcção à Rotunda da Boavista e a cerca de cem metros distingo a silhueta de uma mulher na borda do passeio. 

Poderia querer um táxi. 

Reduzo a velocidade.


A cinquenta metros as suas curvas tornam-se mais nítidas; casaco preto à ¾, calças de ganga e botas. 

Não levanta o braço, mas olha na minha direcção. 

A vinte metros reparo no seu cabelo escuro, muito escuro, ligeiramente esguedelhado. 

A cinco metros o seu rosto prostra-me: maçãs do rosto proeminentes, olhos doces, lábios sedosos de seda finíssima. 

Olha-me mas não faz qualquer gesto para eu parar. 

Mantém as mãos nos bolsos do casaco. 

Cruzamos o olhar numa fracção de segundo, gira num movimento de rotação com a minha passagem e através do espelho comprovo que me seguiu com o olhar. 


É um anjo, pensei. 

Acelerei. 

Dou uma volta na rotunda. 

Necessito cruzar-me, com ela outra vez: é que senti algo na forma como me olhou. 

Algo novo, mítico. 

Mistura de formigueiro e dor nas costas. 

Como “vítima” de um tacto rectal inesperado. 

Subi Nossa Senhora de Fátima, desci Oliveira Monteiro e Augusto Luso , virei para a Boavista e segui no meu andamento mais ou menos vagaroso. 

Desta vez paro em frente a ela. 

Agora sorri. 

Imaculada boca de dentes alvos. 

Baixo o vidro com o dedo a tremer. 


 
Ela mete a cabeça dentro e diz-me: 

- Olá. 
A sua voz também é de um anjo. O seu olor, a nuvem discreta. 

– Olá, respondo-lhe, aprisionado nos seus olhos. 

– Queres conhecer-me melhor? Diz-me. 

– Quero conhecer tudo, digo. 

– Oral 30 euros. Transar 50. 

Ainda que não esperasse a sua resposta, aqueles olhos hipnóticos tornaram-me seu escravo. 

Nada fizemos, mas paguei para olhá-la. 

Os dois sentados no mesmo táxi durante 90 euros (não tinha mais dinheiro), frente a frente, sem dizer nem tocar em nada.

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2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Vá lá, por um momento pensei que ele ia encontrar a mulher ou a mãe no ataque na berma do passeio.

xistosa - (josé torres) disse...

O outro veio da Guiné de sopetão e foi esfaquear a mulher no "Moulin Rouge" aqui no Porto na Trav. de Cedofeita.
Já passaram mais de 38 anos (foi em 1972), mas há coisas que nunca mais se esquecem... não só físicas (de físico), como guerreiras, de faca de mato para executar a "fatah".

Umas boas festas.