WALL STREET

Domingo, Janeiro 15, 2012

...ANA

 .

Ontem entrou no meu táxi a vigésima sétima mulher da minha vida. 

Tinha os olhos cor verde militar e sem qualquer dúvida, transmitiam uma paz indescritível: olhavam como a pedir perdão e os seus cílios eram toldos contra o pranto acumulado. 

O seu lábio inferior tinha pequenos sulcos, como os discos de vinil  e  cada vez que passeava a ponta da sua língua da esquerda para a direita, qual agulha de gira-discos, soava uma canção diferente dos Beatles. 

Pena que a ponta do seu queixo apontasse um decote até onde eu não podia viajar: demasiado alto o horizonte do meu espelho retrovisor. 

No meu táxi não falo a ninguém do meu “INSÉTE”. 

A ninguém, excepto ás vinte e sete mulheres da minha vida. 

A esta, em concreto, disse-lhe que estava a trabalhar numa nova telenovela  e que com a sua maneira de comer a rua com os olhos, dava o perfil que andava à procura para uma de minhas personagens. 

Ela mostrou-se muito encantada:

 

- A sério? 

- Diga-me: o que vê? 
Em que se fixa? perguntei. 

- Fixo-me nas pessoas. 

- Pode precisar um pouco mais? 

- No vulgar que é a gente. 
Dedico-me ao mundo da moda e horroriza-me o mau que costuma vestir o pessoal em general. 

- De verdade? 
Porque entrou no mundo da moda? 

- Sou lésbica. 

- Como? 

- Que sou lésbica. 
Excita-me desenhar roupa de mulher. 
Imaginar o corpo perfeito e vesti-lo ao meu gosto. 
Confeccionar o vestido e prová-lo em modelos. 
Ajustá-lo ali e acolá, sentir o contacto da sua pela com a minha própria criação... Buff... 
É tudo. 

- Puxa! 

- O quê? 
Já não me encaixo no perfil que procuras? 

- Mmmm...  
Não de todo, mas interessa-me muito o que disse. 
Talvez mude de personagem.

 

- A verdade é que ficaria encantada ser uma personagem de telenovela. 
Agora tenho pressa, mas se quiser podemos encontrar-nos outro dia e falamos com mais calma, disse-me 

– Sim, pois claro. 

Começou a procurar algo na sua carteira. 

- Toma este cartão de visita. 
A direcção é do meu estúdio. 
Liga-me ou envia-me um e-mail e falamos, OK? 

- OK! 

- Aqui. 
Para aqui. 
Nesse portal. 
Quanto te devo? 
Perguntou-me abrindo o porta-moedas. 

- Não, não. 
Nada. 
Nunca cobro nada aos personagens da minha telenovela.  

- Viva! 
Obrigado! 
Falamos depois, sim? 

- "Tá bem!" 

- Tchau. 

E saiu do táxi. 

Por alguma estranha razão atraía-me mais ainda. 

Olhei o cartão de visita. 

Chamava-se Ana. 

Guardei o seu contacto no meu telemóvel: LesbiANA (22381...). 

Posso chegar a apaixonar-me por esta “catraia”. 

Telefono-lhe???
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