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Ontem entrou no meu táxi a vigésima sétima mulher da minha vida.
Tinha os olhos cor verde militar e sem qualquer dúvida, transmitiam uma paz indescritível: olhavam como a pedir perdão e os seus cílios eram toldos contra o pranto acumulado.
O seu lábio inferior tinha pequenos sulcos, como os discos de vinil e cada vez que passeava a ponta da sua língua da esquerda para a direita, qual agulha de gira-discos, soava uma canção diferente dos Beatles.
Pena que a ponta do seu queixo apontasse um decote até onde eu não podia viajar: demasiado alto o horizonte do meu espelho retrovisor.
No meu táxi não falo a ninguém do meu “INSÉTE”.
A ninguém, excepto ás vinte e sete mulheres da minha vida.
A esta, em concreto, disse-lhe que estava a trabalhar numa nova telenovela e que com a sua maneira de comer a rua com os olhos, dava o perfil que andava à procura para uma de minhas personagens.
Ela mostrou-se muito encantada:
- A sério?
- Diga-me: o que vê?
Em que se fixa? perguntei.
- Fixo-me nas pessoas.
- Pode precisar um pouco mais?
- No vulgar que é a gente.
Dedico-me ao mundo da moda e horroriza-me o mau que costuma vestir o pessoal em general.
- De verdade?
Porque entrou no mundo da moda?
- Sou lésbica.
- Como?
- Que sou lésbica.
Excita-me desenhar roupa de mulher.
Imaginar o corpo perfeito e vesti-lo ao meu gosto.
Confeccionar o vestido e prová-lo em modelos.
Ajustá-lo ali e acolá, sentir o contacto da sua pela com a minha própria criação... Buff...
É tudo.
- Puxa!
- O quê?
Já não me encaixo no perfil que procuras?
- Mmmm...
Não de todo, mas interessa-me muito o que disse.
Talvez mude de personagem.
- A verdade é que ficaria encantada ser uma personagem de telenovela.
Agora tenho pressa, mas se quiser podemos encontrar-nos outro dia e falamos com mais calma, disse-me
– Sim, pois claro.
Começou a procurar algo na sua carteira.
- Toma este cartão de visita.
A direcção é do meu estúdio.
Liga-me ou envia-me um e-mail e falamos, OK?
- OK!
- Aqui.
Para aqui.
Nesse portal.
Quanto te devo?
Perguntou-me abrindo o porta-moedas.
- Não, não.
Nada.
Nunca cobro nada aos personagens da minha telenovela.
- Viva!
Obrigado!
Falamos depois, sim?
- "Tá bem!"
- Tchau.
E saiu do táxi.
Por alguma estranha razão atraía-me mais ainda.
Olhei o cartão de visita.
Chamava-se Ana.
Guardei o seu contacto no meu telemóvel: LesbiANA (22381...).
Posso chegar a apaixonar-me por esta “catraia”.
Telefono-lhe???
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