O VIDEIRINHO

terça-feira, fevereiro 14, 2012

CIRCULAR

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O meu táxi não é mais que uma desculpa para fugir como fugimos os pobres: em círculos. 

A cada amanhã piro-me tão longe como dite a casualidade, mas sempre regresso ao meu ponto de partida. 

De quem fujo? 

E tu mo perguntas? 

Claro está: de mim! 

Durante as minhas fugidas, tendo a fixar-me nos utentes que me ditam qual será o novo destino. 

Apaixona-me o porquê dos trajectos. 

Há sempre uma razão para cada causa. 

Deus não existe. 

Depois está o amor subjacente, as flechadas subjacentes. 

Sair de casa com a firme intenção de encontrar pelas ruas a mulher da minha vida. 

Ter esperança e uma margem de pulsações folgada. 

Viver expectante, com as pestanas coladas ás respectivas sobrancelhas. 


Os únicos acidentes que sofri na minha vida foram por seguir com o olhar, mulheres caminhantes que romperam o íris dos meus sentidos.

No último (embati por detrás num todo-o-terreno) saí do táxi correndo para a garota, toquei no seu ombro e quando se voltou apontou o acidente e disse: 

- O que sinto por si está no fumo que sai do ‘capot’ desse táxi. 

A fulana sacou da sua carteira, de um lenço de papel e disse-me: 

- Está a sangrar da testa. 

Peguei no lenço e ela foi-se embora. 

Partiu sorridente. 

O meu amor por ela durou o que demorou a oficina a consertar o táxi. 

Foi mais de uma semana sem dormir e sem comer, vítima do feitiço dos seus olhos azuis.


Pelos pontos de sutura que levei na testa soube que o amor dói sempre. 

Pelo agravamento do seguro do táxi soube que o amor nunca é barato. 

Estou a escrever isto a partir do balcão de um botequim. 

Dentro de três ou dez cervejas regressarei a casa, meter-me-ei na cama e quando fechar os olhos voltarei a reencontrar-me comigo. 

Com um pouco de sorte o álcool conseguirá que o tecto gire como gira o meu táxi durante o dia. 

Com um pouco de sorte continuarei fugindo até cair rendido.

26JUL2011
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