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O meu táxi não é mais que uma desculpa para fugir como fugimos os pobres: em círculos.
A cada amanhã piro-me tão longe como dite a casualidade, mas sempre regresso ao meu ponto de partida.
De quem fujo?
E tu mo perguntas?
Claro está: de mim!
Durante as minhas fugidas, tendo a fixar-me nos utentes que me ditam qual será o novo destino.
Apaixona-me o porquê dos trajectos.
Há sempre uma razão para cada causa.
Deus não existe.
Depois está o amor subjacente, as flechadas subjacentes.
Sair de casa com a firme intenção de encontrar pelas ruas a mulher da minha vida.
Ter esperança e uma margem de pulsações folgada.
Viver expectante, com as pestanas coladas ás respectivas sobrancelhas.
Os únicos acidentes que sofri na minha vida foram por seguir com o olhar, mulheres caminhantes que romperam o íris dos meus sentidos.
No último (embati por detrás num todo-o-terreno) saí do táxi correndo para a garota, toquei no seu ombro e quando se voltou apontou o acidente e disse:
- O que sinto por si está no fumo que sai do ‘capot’ desse táxi.
A fulana sacou da sua carteira, de um lenço de papel e disse-me:
- Está a sangrar da testa.
Peguei no lenço e ela foi-se embora.
Partiu sorridente.
O meu amor por ela durou o que demorou a oficina a consertar o táxi.
Foi mais de uma semana sem dormir e sem comer, vítima do feitiço dos seus olhos azuis.
Pelos pontos de sutura que levei na testa soube que o amor dói sempre.
Pelo agravamento do seguro do táxi soube que o amor nunca é barato.
Estou a escrever isto a partir do balcão de um botequim.
Dentro de três ou dez cervejas regressarei a casa, meter-me-ei na cama e quando fechar os olhos voltarei a reencontrar-me comigo.
Com um pouco de sorte o álcool conseguirá que o tecto gire como gira o meu táxi durante o dia.
Com um pouco de sorte continuarei fugindo até cair rendido.
26JUL2011
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