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IRENE não é alta, não tem um corpanzil, nem estilo para se vestir, nem um rosto excessivamente belo.
Tão-pouco domina a arte da conversação, não atrapalha e o que sei da sua vida é que é qualquer coisa pouco interessante.
Trabalha como empregada de uma sapataria na Rua de Cedofeita e dorme num andar compartido com dois estudantes.
Não se interessa muito pela música, nem pelo cinema, nem com a cozinha, nem com os livros.
Tão-pouco notei nela projectos ou sonhos para além de tentar manter o seu posto de trabalho e passar pela vida em bicos de pés.
Há cerca de dois anos saiu da sua terra natal, deixou a sua família e os seus amigos, para se instalar sozinha no Porto (ainda desconheço o motivo, se é que há algum).
A partir de então, leva uma vida do mais discreto possível, da sapataria para casa e pouco mais, apenas algum café com a companheira de trabalho, tudo muito superficial, nenhuma amiga digna de menção.
Quase todas as tardes, quando sai do trabalho, vai caminhando para casa não mais do que para fazer tempo e para preencher as horas.
Se desta vez apanhou o meu táxi foi porque tinha comprado um televisor e a embalagem era difícil de transportar à mão.
Meti-a na mala do carro e partimos: primeiro, supostamente como é lógico, em silêncio.
Depois deu-me para fazer um comentário e surgiu uma conversa com dificuldades, entrecortada apenas com um punhado de frases, o típico diálogo de elevador.
Mas aí dei conta de algo: Irene não tinha nada que oferecer-me, nada pelo que eu pudesse perder a cabeça.
E isso foi, precisamente, o que me atraiu nela.
Naquela conversa veio a lume onde trabalha e foi precisamente ali que me plantei na tarde seguinte, com a desculpa de andar à procura de uns sapatos tamanho 45.
Ela atendeu-me com todo a profissionalismo e eu, como moeda de troca, ofereci-me para a transportar outra vez no meu táxi, mas desta vez com o taxímetro desligado.
Irene a principio mostrou-se reticente, talvez não tivesse entendido que interesse eu podia ter nela, mas mesmo assim esperei que fechasse a loja, insisti de novo e acabou por aceitar.
Naquele segundo trajecto contou-me o que já descrevi dela, sempre muito serena, reservada, como que com medo a fornecer-me informação a mais.
Inclusivamente dizia-me volta e meia que a sua vida carecia de interesse: não sabia nem queria vender-se.
Talvez Irene tenha aparecido no momento preciso.
Não tem nada para me oferecer e essa simples sensação apresa-me.
De certo modo, necessito de Irene para não pensar em nada.
Aprender com a sua falta de substância.
Deixar-me ser seduzido pelo vazio.
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1 comentário:
Nos livros do Vilhena as moças que trabalhavam na cidade singravam sempre.
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