O VIDEIRINHO

domingo, março 04, 2012

IRENE

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IRENE não é alta, não tem um corpanzil, nem estilo para se vestir, nem um rosto excessivamente belo. 

Tão-pouco domina a arte da conversação, não atrapalha e o que sei da sua vida é que é qualquer coisa pouco interessante. 

Trabalha como empregada de uma sapataria na Rua de Cedofeita e dorme num andar compartido com dois estudantes. 

Não se interessa muito pela música, nem pelo cinema, nem com a cozinha, nem com os livros. 

Tão-pouco notei nela projectos ou sonhos para além de tentar manter o seu posto de trabalho e passar pela vida em bicos de pés. 

Há cerca de dois anos saiu da sua terra natal, deixou a sua família e os seus amigos, para se instalar sozinha no Porto (ainda desconheço o motivo, se é que há algum). 

A partir de então, leva uma vida do mais discreto possível, da sapataria para casa e pouco mais, apenas algum café com a companheira de trabalho, tudo muito superficial, nenhuma amiga digna de menção. 


Quase todas as tardes, quando sai do trabalho, vai caminhando para casa não mais do que para fazer tempo e para preencher as horas. 

Se desta vez apanhou o meu táxi foi porque tinha comprado um televisor e a embalagem era difícil de transportar à mão. 

Meti-a na mala do carro e partimos: primeiro, supostamente como é lógico, em silêncio. 

Depois deu-me para fazer um comentário e surgiu uma conversa com dificuldades, entrecortada apenas com um punhado de frases, o típico diálogo de elevador. 

Mas aí dei conta de algo: Irene não tinha nada que oferecer-me, nada pelo que eu pudesse perder a cabeça. 

E isso foi, precisamente, o que me atraiu nela. 

Naquela conversa veio a lume onde trabalha e foi precisamente ali que me plantei na tarde seguinte, com a desculpa de andar à procura de uns sapatos tamanho 45. 


Ela atendeu-me com todo a profissionalismo e eu, como moeda de troca, ofereci-me para a transportar outra vez no meu táxi, mas desta vez com o taxímetro desligado. 

Irene a principio mostrou-se reticente, talvez não tivesse entendido que interesse eu podia ter nela, mas mesmo assim esperei que fechasse a loja, insisti de novo e acabou por aceitar. 

Naquele segundo trajecto contou-me o que já descrevi dela, sempre muito serena, reservada, como que com medo a fornecer-me informação a mais. 

Inclusivamente dizia-me volta e meia que a sua vida carecia de interesse: não sabia nem queria vender-se. 

Talvez Irene tenha aparecido no momento preciso. 

Não tem nada para me oferecer e essa simples sensação apresa-me. 

De certo modo, necessito de Irene para não pensar em nada. 

Aprender com a sua falta de substância. 

Deixar-me ser seduzido pelo vazio.
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1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Nos livros do Vilhena as moças que trabalhavam na cidade singravam sempre.