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Caminho com Irene desde o trabalho dela até à sua casa.
Desta vez deixei o meu táxi num parque perto da sua loja.
Cruzámos diversas ruas, caminhando descontraidamente.
Irene dá passadas longas, relaxadas, prolongando cada passada como a câmara lenta, sempre com as mãos nos bolsos do casaco.
E ainda que caminhe olhando o chão, nunca chega a chocar com ninguém: são os outros quem a esquivam, alguns no último momento.
Acaba por ser estranho ver como caminha pelo mundo como se nada existisse e entretanto confia em que o mundo jamais chocará com ela.
Tento falar, manter uma conversação, mas Irene mostra-se hermética, esquiva cada pergunta com um:”Não sei.
Nunca mo haviam apresentado”, ou devolvendo-me o golpe: “E tu?.
À medida que avançamos avenida abaixo, noto que as suas respostas são cada vez mais curtas, como se os passos tenham engolido as suas palavras até torná-las raquíticas.
De facto, enquanto avançávamos, pronunciou o que foi a sua última frase do dia e depois o silêncio:
- Deixei a minha terra e vim para o Porto porque sim.
Penso no porquê dessa frase.
Ninguém sai da sua terra natal “porque sim”, muito menos para levar uma vida insípida, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem amigos nem vontade de fazê-los, nem projectos, nem sonhos.
Sei que deve ter sucedido algo, um detonador que levou Irene a zarpar da terra natal (para instalar-se numa cidade com o Porto, onde é mais fácil passar despercebida).
E talvez nesse motivo se encontre a chave deste seu hermetismo.
O que poderá ter acontecido a Irene?
Como conseguirei sabê-lo?
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