O VIDEIRINHO

segunda-feira, março 05, 2012

VIDA SIMPLES

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Caminho com Irene desde o trabalho dela até à sua casa. 

Desta vez deixei o meu táxi num parque perto da sua loja. 
Cruzámos diversas ruas, caminhando descontraidamente. 

Irene dá passadas longas, relaxadas, prolongando cada passada como a câmara lenta, sempre com as mãos nos bolsos do casaco. 

E ainda que caminhe olhando o chão, nunca chega a chocar com ninguém: são os outros quem a esquivam, alguns no último momento. 

Acaba por ser estranho ver como caminha pelo mundo como se nada existisse e entretanto confia em que o mundo jamais chocará com ela. 

Tento falar, manter uma conversação, mas Irene mostra-se hermética, esquiva cada pergunta com um:”Não sei. 

 

Nunca mo haviam apresentado”, ou devolvendo-me o golpe: “E tu?. 

À medida que avançamos avenida abaixo, noto que as suas respostas são cada vez mais curtas, como se os passos tenham engolido as suas palavras até torná-las raquíticas. 

De facto, enquanto avançávamos, pronunciou o que foi a sua última frase do dia e depois o silêncio: 

- Deixei a minha terra e vim para o Porto porque sim. 

Penso no porquê dessa frase. 

Ninguém sai da sua terra natal “porque sim”, muito menos para levar uma vida insípida, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem amigos nem vontade de fazê-los, nem projectos, nem sonhos. 

 

Sei que deve ter sucedido algo, um detonador que levou Irene a zarpar da terra natal (para instalar-se numa cidade com o Porto, onde é mais fácil passar despercebida). 

E talvez nesse motivo se encontre a chave deste seu hermetismo. 

O que poderá ter acontecido a Irene? 

Como conseguirei sabê-lo?
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