O VIDEIRINHO

sábado, maio 19, 2012

FORMALISMO (PARTE I)

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1 –O protocolo era discreto e conhecido por todos: tinham que fingir naturalidade e desenvoltura. 

Todo o mundo o sabia e todo o mundo o fazia, de tal maneira que (vá lá saber-se porquê) se chegasses a sentir-te tão despreocupado como para mostrar verdadeira naturalidade, tinhas que fingir que fingias naturalidade; isto também fazia parte do protocolo. 

2 – Não fingir que fingias naturalidade era uma grave ofensa para os que fingiam: denotava soberba e sobrevalorização própria, era considerado como uma intenção de se destacar, de submeter, uma liberdade imperdoável que, se se perdoava, era tão só porque não perdoar ia contra o protocolo; o protocolo era sábio e justo. 

 

3 – O protocolo velava por nós, estava criado por e para a nossa plenitude, protegia-nos de nós mesmos; podia dizer-se que a terra seguia girando graças ao protocolo, era uma exageração protocolar. 

Não sentir-se completo era essencialmente anti-protocolar, mas era muito pior manifestá-lo, algo quase inverosímil que ameaçava a estabilidade do sistema. 

4 – O protocolo remontava a tempos imemoriais, nos que não convinha pensar; na realidade sempre tinha existido. 

Foi idealizado a partir da obrigatoriedade de acatá-lo, de modo que era fácil entendê-lo por todos. 

Pensar no protocolo era bastante anti-protocolar; na realidade pensar era anti-protocolar, sem dúvida estimava-se a inteligência, pelo menos oficialmente. 





5 – O protocolo era a coisa mais natural do mundo, ninguém colocava em dúvida a sua autoridade e valor: não é necessário dizer que pô-la em dúvida não era protocolar. 

Todo o mundo cumpria o protocolo; não cumpri-lo era o mais anti-protocolar, pois os que o cumpriam viam-se obrigados a odiar-te, o que era contra o protocolo.  

 6 – Todo aquele que não cumpria o protocolo era sistematicamente marginalizado: os seus amigos viravam-lhe as costas, era deserdado pela sua família, a sua esposa começava a ir para a cama com o carteiro, os vizinhos deixavam de lhe emprestar sal e salsa e negavam-lhe uma saudação, os seus inimigos começavam a saudá-lo, os putos apontavam-no na rua − com o dedo indicador − e riam cruelmente, sem piedade. 

Ser humilhado não era anti protocolar, mas tinha toda a pinta de ser doloroso. 

Marginalizar e humilhar era anti-protocolar; era mais correcto educar ou instruir.


 7 – O protocolo não deixava pontas soltas; qualquer falha que se lhe encontrasse tinha que ser necessariamente um erro de interpretação, um erro humano. 

Interpretar era anti-protocolar, acatar era mais correcto. 

Os erros não eram anti-protocolares, mas estavam mal vistos. 

CONTINUA… 
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