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…CONTINUAÇÃO
8 – Não existia, na realidade, o mencionado protocolo.
Não
era anti-protocolar falar do protocolo, mas falar de coisas que não existem é
um agudo sintoma de alienação mental.
Segundo os dementes, o protocolo sustentava que demente é aquela pessoa inconsciente
da consequência dos seus actos.
Falar do protocolo sendo consciente que isso
implica ser rotulado de demente, eximia-te da definição de demente dos dementes,
mas era anti-protocolo.
O desconhecimento ou a negação de umas normas vigentes que
certamente não existiam, não te eximia da culpabilidade de não cumprir o
protocolo.
9 – Conceitos como paz e harmonia eram redundantes e indecorosos por
carecerem de antónimos a um nível prático e real; a dor não era
anti-protocolar, mas era absurda: quem no seu perfeito juízo haveria de
encontrar algum motivo para o infortúnio?
A infelicidade, que na realidade não
existia, era um sintoma de demência, mas não era anti-protocolar se o sujeito
era consciente e reconhecia a sua loucura.
10 – Virtude e inteligência não eram
anti-protocolares, mas eram pouco frequentes.
Não existiam instruções precisas
a respeito da moral e da ética: o bem e o mal eram susceptíveis de
interpretações pessoais, que para algumas coisas eram livres.
A justiça, em
consequência, estava sujeita a interesses e parcialidades individuais,
conformando um complexo compêndio de leis intrínsecas subtis que se
contradiziam quando o que convinha a um,
não convinha a outro: isto também fazia parte do protocolo; o protocolo
respirava-se por todos os poros.
Cumprir o protocolo não exigia bondade, mas
violá-lo era um sinal inequívoco de maldade e deslealdade.
11 – Mostrar os
sentimentos era de mau gosto; ocultar, no entanto, era anti-protocolar.
Amor, por ser antónimo
de ódio, que era anti-protocolar, era, não uma virtude, mas sim algo palpável,
evidente, que se movia por todos os lados; no protocolo tudo estava cheio de
amor.
12 – O aspecto teológico é restrito ao conceito de que o ser humano, ao
estar feito à imagem e semelhança de deus, possuía poder divino, o que queria
dizer é que, estritamente falando, o protocolo foi obra de Deus.
0 – O
protocolo retro-alimentava-se com o protocolo: assim tinha sido sempre, assim continuaria sendo, assim tinha que ser.
O planeta continuava girando...
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