O VIDEIRINHO

domingo, maio 20, 2012

FORMALISMO (PARTE II)

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…CONTINUAÇÃO 


8 – Não existia, na realidade, o mencionado protocolo. 

Não era anti-protocolar falar do protocolo, mas falar de coisas que não existem é um agudo sintoma de alienação mental. 

Segundo os dementes, o protocolo  sustentava que demente é aquela pessoa inconsciente da consequência dos seus actos. 

Falar do protocolo sendo consciente que isso implica ser rotulado de demente, eximia-te da definição de demente dos dementes, mas era anti-protocolo. 

O desconhecimento ou a negação de umas normas vigentes que certamente não existiam, não te eximia da culpabilidade de não cumprir o protocolo. 

9 – Conceitos como paz e harmonia eram redundantes e indecorosos por carecerem de antónimos a um nível prático e real; a dor não era anti-protocolar, mas era absurda: quem no seu perfeito juízo haveria de encontrar algum motivo para o infortúnio? 

A infelicidade, que na realidade não existia, era um sintoma de demência, mas não era anti-protocolar se o sujeito era consciente e reconhecia a sua loucura. 

 
10 – Virtude e inteligência não eram anti-protocolares, mas eram pouco frequentes. 

Não existiam instruções precisas a respeito da moral e da ética: o bem e o mal eram susceptíveis de interpretações pessoais, que para algumas coisas eram livres. 

A justiça, em consequência, estava sujeita a interesses e parcialidades individuais, conformando um complexo compêndio de leis intrínsecas subtis que se contradiziam quando o que convinha a um, não convinha a outro: isto também fazia parte do protocolo; o protocolo respirava-se por todos os poros. 

Cumprir o protocolo não exigia bondade, mas violá-lo era um sinal inequívoco de maldade e deslealdade. 

11 – Mostrar os sentimentos era de mau gosto; ocultar, no entanto, era anti-protocolar. 

Amor, por ser antónimo de ódio, que era anti-protocolar, era, não uma virtude, mas sim algo palpável, evidente, que se movia por todos os lados; no protocolo tudo estava cheio de amor. 

12 – O aspecto teológico é restrito ao conceito de que o ser humano, ao estar feito à imagem e semelhança de deus, possuía poder divino, o que queria dizer é que, estritamente falando, o protocolo foi obra de Deus. 

 

0 – O protocolo retro-alimentava-se com o protocolo: assim tinha sido sempre, assim continuaria sendo, assim tinha que ser. 

O planeta continuava girando... 
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