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Uma doce anciã perguntava ao seu enrugado marido:
"amor, recordas-te quando te perguntava se te recordavas e nos recordávamos?"
Não sei se estou no princípio, no equador ou final da minha vida, mas a verdade é que começo a ser consciente de que esqueço e isto preocupa-me; reconheço que o meu temor não é tanto por esquecer, mas sim pelo dia que não possa recordar.
Sinto que com o passar dos anos, o tempo começa a carcomer a minha memória, limando detalhes, anedotas e experiências, não por abundantes, mas sim por longínquas.
Preocupa-me desprender-me de cheiros e canções, dói-me perder caras e cromos, incomoda-me que se esfumem ódios e perdões, aterroriza-me que se desvaneçam vivos e mortos, entristece-me perder olhares e lágrimas, “lixa-me” não me lembrar do que me lembrava.
A memória serve para não metermos os dedos nos buracos das tomadas e para não regressar nunca mais a um mau restaurante, mas há ocasiões em que uma boa memória é o recurso perfeito para poder perdoar e portanto esquecer.
Admiro todos aqueles que perdoam e esquecem, porque neles radica a inteligência; maldigo todos os que se aproveitam dos que esquecem e perdoam, porque eles representam a mesquinhez; lamento-me por todos os que, como eu, não perdoamos e se nalgum momento esquecemos é por um desgaste neuronal; e desconfio dos que perdoam sem esquecer e esquecem sem perdoar.
Não posso perdoar a quem perdoa tudo, não posso esquecer quem se esquece dos que verdadeiramente perdoam.
No dia que esqueça e perdoe a todos os tiranos intelectuais, déspotas uniformizados e estranguladores de sonhos, enterrarei o meu cérebro na areia.
Como recordação para todos os esquecidos.
"amor, recordas-te quando te perguntava se te recordavas e nos recordávamos?"
Não sei se estou no princípio, no equador ou final da minha vida, mas a verdade é que começo a ser consciente de que esqueço e isto preocupa-me; reconheço que o meu temor não é tanto por esquecer, mas sim pelo dia que não possa recordar.
Sinto que com o passar dos anos, o tempo começa a carcomer a minha memória, limando detalhes, anedotas e experiências, não por abundantes, mas sim por longínquas.
Preocupa-me desprender-me de cheiros e canções, dói-me perder caras e cromos, incomoda-me que se esfumem ódios e perdões, aterroriza-me que se desvaneçam vivos e mortos, entristece-me perder olhares e lágrimas, “lixa-me” não me lembrar do que me lembrava.
A memória serve para não metermos os dedos nos buracos das tomadas e para não regressar nunca mais a um mau restaurante, mas há ocasiões em que uma boa memória é o recurso perfeito para poder perdoar e portanto esquecer.
Tirada DAQUI
Não posso perdoar a quem perdoa tudo, não posso esquecer quem se esquece dos que verdadeiramente perdoam.
No dia que esqueça e perdoe a todos os tiranos intelectuais, déspotas uniformizados e estranguladores de sonhos, enterrarei o meu cérebro na areia.
Como recordação para todos os esquecidos.
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