O VIDEIRINHO

quinta-feira, maio 10, 2012

PARASITAS…

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Tinha um aspecto impecável, fato italiano à medida, gravata de seda, pele bronzeada e o branco dos olhos, mais branco do que o branco que os meus olhos viram, (recordo imediatamente a asserção de Aquilino Ribeiro: “Olho branco em cara portuguesa, ou é de filho da puta, ou erro da natureza”). 

Antes de se sentar tirou o sobretudo, dobrou-o com suma mestria e pousou-o a seu lado como se de um delicado ser vivo se tratasse. 

Fechou a porta, indicou-me o destino com demasiada amabilidade e, já em andamento, sacou do telemóvel e começou a falar: 

- Tomás. 
O que se passa com esses despedimentos? 

Disse sem alterar o mínimo tom de voz. 

– (…). 

– Não quero desculpas, Tomás. 
Trinta do andar. 
Despede trinta do andar. 
É muito fácil. 
Termina-lhes o contrato, este mês, a quarenta e sete. 
Despede trinta desses, os que mais raiva te dêem. 
Antes de Agosto. 
E ao encarregado esse … como se chama?

– (…). 

- Germano, é isso. 
Despede-o também. 
Com o novo código sair-nos-à mais barato. 
Têm que se equilibrar as contas, seja a que preço for, entendes? 

– (…). 

– Não há desculpas. 
Se não és capaz de escolhê-los tu, terei que prescindir, também, dos teus serviços. 
Trabalho Tomás! Trabalho Tomás!
Ou estás connosco ou contra nós. 

E desligou sem sequer se despedir. 

Ajeitou a gravata, olhou as unhas e por último lançou um sorriso que me deixou gelado. 

Era um desses sorrisos de triunfador, de líder, de “eu quero, posso e mando”, de “tenho-vos todos sob controlo”. 

Sem dúvida que tinha a situação controlada: o futuro de trinta famílias, nem mais, nem menos. 


As suas vidas inteiras e a de muitos à sua inteira disposição. 

O deus do seu microcosmos. 

Tudo impecável no seu ponto de vista. 

A sua aparência física, as suas maneiras, a sua bruta moradia com piscina (este foi o nosso destino), a sua margem de lucros e a sua falta de escrúpulos. 

Um perfeito psicopata, enfim, socialmente aceite. 

E o mais grave: admirado por muitos. 

Pagou-me com uma nota de 50 € recém estreada e ao roçar um dos seus dedos senti um arrepio de frio e invadiu-me um medo indescritível. 

Estaremos todos nas mãos de psicopatas?
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