O VIDEIRINHO

quinta-feira, maio 03, 2012

POSTURAS


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Limpadora outonal de casas, esta proverbial empregada doméstica, sem se depilar, abraça-me segurando a foto do seu marido perdido no mar há quarenta anos e um "papelote" dela. 

Em sua casa aprendi a desenvolver essa nova ética que flui para substituir a raiz chamuscada nas ruínas do rio. 

Inclusivamente refugiei-me ali absolutamente "pedrado" ou 'chapado' ou simplesmente chateado do trabalho e de todos, quando não tinha onde cair morto. 

Ela sempre me acolheu como um filho, com as pernas abertas e a carteira escondida num local que eu sabia. 

Terezinha era de hábitos moderados, racionalmente operária até ao tutano, orgulhosamente associada por amor e destino ao bando que perdeu a grande guerra. 

 

Olhava de frente a vida, sem hematomas na alma e vivia sem dissonâncias elitistas em tudo, excepto ao fazer amor comigo. 

Gostava de dispor com ordinária mas vigorosa imaginação, de decoradas  fantasias e propor situações excêntricas para o acto. 

Exigia que me duchasse sempre e vestia-se com peças de lingerie inverosímeis, subtraídas nas casas de linhagem que tinha limpo durante anos. 

Eu fazia-o com cuidado e carinho, às vezes derramando lágrimas no seu ombro, estremecido de gemidos em cima e dentro dela, que me abraçava enquanto lhe gotejava água e sémen. 

Depois, oferecia-me sempre, pelo menos duas "doses" mais das que lhe comprava para revender. 

 
Desenho de Carl Barks
 

Ave Maria, santa Terezinha, breve nos encontraremos no inferno. 

Terezinha falava muito, tivesse ou não gente à frente. 

Parlapateava com sentido sobre a guerra, assomava nos seus comentários o rancor vingativo à classe menosprezada pela história. 

Insultava em crescendo os ricos, generalizava como só os analfabetos podem fazer se são da facção derrotada. 

Desprezava anedotas jocosas e algo soezes para com a raça que subjugou a sua, mas que nunca pôde com o seu espírito. 

Roubava nas casas que limpava. 

Furtar era, na sua opinião, a justiça poética que mereciam os fascistas. 

A sua casa era um museu desses sequestros, uma galeria de recomposições históricas do proletariado, uma grinalda de reféns decorativos. 


 

Encantava-me ver como se duchava, lentamente, meticulosa. 

Deleitava-se com o prazer da higiene; quiçá careceu dela durante a sua infância no bairro dos pescadores. 

Eu sentava-me na bacia de retrete e ela permitia-me observar, em silêncio, como se ensaboava através dos vapores da água quente. 

O seu corpo rosado tinha um surpreendente brilho suave, excitante, uma solidez de formas insólita para a sua idade. 

Por vezes masturbava-me vendo as suas rotinas de limpeza e penso que ela, apesar de parecer ignorar-me, comprazia-se com isso. 

Desfiava, nessas ocasiões, todo um reportório de novas posturas, dignas de postais eróticos do século XIX, como as que coleccionava o meu avô “Jetas”.
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