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Tinha-lhe levado maçãs pela manhã, porque gostava muito e há uns dias que não comia.
Minha mãe, uma mulher bela e alegre, que tinha gosto em falar e rir-se.
Tinha
uns olhos castanhos e um sorriso de que eu gostava muito.
Porque era como ver o
sol.
Acho que não foi de todo feliz como merecia; pelo menos não sentiu o que teria
sentido hoje, olhando para os seus filhos e netos: o afecto que por ela tivemos, ainda que nem sempre lho
fizéssemos chegar.
Os últimos tempos da sua enfermidade, consciente ou
inconscientemente fomos despedindo-nos um pouco cada dia, com amor e também com
muita dor, que nem percebíamos, mas que meu pai nos transmitia, mesmo sem
querer.
Não sei em que momento ela pressentiu que se ia, quando me olhava daquela
sua maneira tão peculiar, que a mim me chegava à alma e ma partia…
Dizem, que
quando alguém vai morrer, escolhe o momento e as pessoas com as que quer
fazê-lo.
Minha mãe, fê-lo.
Les Paul and Mary Ford - Vaya con Dios
Tinha-lhe trazido maçãs pela manhã e apenas
mordiscou uma.
Não seriam as melhores maçãs, mas eram as que a minha pequenez
me autorizava alcançar e colher (no chão).
Então pressentiu a sua partida.
Meu pai a seu
lado chamou-me e pediu que me aproximasse.
Quando cheguei, já tinha perguntado
mil vezes por mim.
Enquanto meu pai chorava partiu com a sua mão na minha.
Fiquei com minha mãe naquele quarto até me afastarem, levarem-me e vê-la pela
última vez.
Não a pude ajudar por não saber; não chorei porque não sabia o chorar daquele momento; não tive medo da morte porque ignorava o que era.
Mas
alentei-a a voar sem medo, foi como um convite para saltar para o outro lado da
vida, com todas as palavras que não conhecia… e não balbuciei.
Foi um dia como
hoje, com manhã, tarde e noite.
Era dia alto, sábado 10 de Janeiro de 1953…
Tinha 35 anos…
Hoje, 10OUT2012, faria 94 anos.
Hoje, 10OUT2012, faria 94 anos.
Pelas janelas e porta, saía, Vaya
con Dios - Les Paul and Mary Ford.
Foi a última maçã de minha mãe.
Descanse em
paz.
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