O VIDEIRINHO

sábado, novembro 03, 2012

DEMÊNCIAS MODERNAS...

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Era um condomínio fechado, distante de tudo. 

Um autêntico inferno, (para beber um copo), tendo em conta que o bar mais próximo encontrava-se a não menos de três quilómetros. 

Procurava a saída com o dispositivo luminoso aceso (de livre), virando à direita e à esquerda segundo as indicações do GPS. 

Já no acesso principal àquele labirinto, um homem postado numa paragem de autocarros, fez-me o sinal habitual de levantar o braço e chamar-me à atenção.. 

Detive-me à sua altura; acercou-se do táxi e em vez de abrir a porta do seu lado, contornou o táxi e fez-me sinal para baixar o vidro. 

- Tem um carregador de iPhone? Perguntou-me. 

- Como? 

- Se tem um carregador de iPhone. 
Fiquei sem bateria. 

- Mmm... Sim! 
Mas quer que o leve a algum sítio? 

- Não, não. 
Estou só à espera do autocarro. 
Se não se importa de esperar aqui comigo enquanto eu carrego o meu iPhone... 
Coloque o taxímetro a funcionar e quando chegar o autocarro pago-lhe o que marcar, está bem?


- Bem, de acordo, disse-lhe. 

O homem estendeu-me o iPHone e eu coloquei-o a carregar no carregador do táxi. 

Depois accionei o taxímetro. 

- Não prefere entrar no táxi até que chegue o autocarro? 
Aí fora está frio. 

- Está bem, de acordo, disse-me e sentou-se ao meu lado. 

O homem era parco em palavras. 

Para quebrar o gelo perguntei-lhe quanto tempo demoraria a chegar o autocarro; respondeu-me que cerca de quinze a vinte minutos. 

Imediatamente se fez silêncio. 

Um silêncio incómodo, estranho. 

 

O homem olhava para o seu iPhone como quem espera numa fila para comprar droga. 

Era uma mistura de decoro e urgência, de desejo e síndroma de abstinência. 

- Se você acelerar o motor carregará mais depressa? Perguntou-me de repente 

- Temo que não, disse-lhe. 

Minutos mais tarde adverti-o que o autocarro se aproximava. 

Parei o taxímetro, o homem pagou-me os 3,50 € da "não viagem" e saiu do táxi. 

Aquele foi sem dúvida o trajecto mais curto da minha vida. 

Mas acrescentou-lhe um novo argumento à minha teoria do caos: 

Estamos a tornar-nos irreversivelmente loucos.
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