.
Por fim chegou o tão
ansiado momento de delírio.
Mas conto-vos.
Noutro dia fui a uma entrevista de muitas
a que tenho acedido, não me recordando bem do que se tratava; palavra puxa
palavra, desbobinam-se recordações e ás tantas pediram-me que contasse uma das
minhas anedotas, preferentemente, passada no táxi.
Imediatamente me veio à cabeça
uma em concreto e contei-a com todo o luxo de detalhes.
O caso é que depois
recordei que, nesse dia, aquele episódio tinha-o inventado de princípio ao fim
para este blog.
Não era real, mas descrevi-a, para aquele “entendido”
convencido de que sim, que o era, recordando inclusive a descrição física e os
gestos exactos do passageiro em questão.
Longe de preocupar-me, aquilo pareceu-me
um milagre.
Quando chegas a um ponto de confundir ficção e realidade e começas a
ter lembranças nítidas de ficções criadas por ti, é tentador construir um
passado “a la carte”, subtraindo traumas e adicionando realizações ao teu
capricho.
Imagina que reescreves a tua própria infância e adolescência e em
lugar daquele miúdo que te chateava nos recreios (ainda não havia o bullying),
inventas que eras tu que o chateavas e a jovem feiosa que desvirginaste,
converte-la em princesa, ou o teu fracasso escolar em cum laude.
Imagina
que assim corriges os teus pecados: reescrevendo com um tom realista um passado
paralelo.
Imaginai as massas que teria aforrado em psiquiatras (e em álcool) se
o tivesse sabido antes.
.


1 comentário:
O passageiro só pode ser o Marcelo Rebelo de Sousa.
Enviar um comentário