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Uma fulana que passeia, olha-se de soslaio no reflexo de uma
montra.
Um homem que caminha em sentido contrário pára de repente, alça da sua
máquina fotográfica e começa a fazer fotos ao reflexo da jovem.
Ela de repente
acerca-se dele, furiosa e diz-lhe:
- Oiça lá, por que me está a fotografar sem
a minha permissão?
Ele contesta que as fotos fê-las à montra, não a ela e que o
reflexo do seu rosto foi casual.
- Já agora, retorna ela, mas focou-se
propositadamente no meu reflexo.
- Efectivamente, retorque ele, mas ninguém é
dono do reflexo que projecta.
Ela não aceita aquela desculpa e pede-lhe que elimine
aquelas fotos.
O homem contesta que, em
todo o caso, a autorização deveria ser pedida ao dono ou encarregado da loja
proprietária da montra e, que portanto, também de qualquer reflexo que se projecte nela.
- Espere e já
aclaramos a situação, acrescenta.
O homem entra na loja.
Ela aguarda.
Passado
um instante o homem sai e diz à fulana que o encarregado lhe deu autorização
para fazer tantas fotografias quantas quisesse, já que a montra faz parte da
via pública.
Ela ri nervosa e solta ironicamente:
- Vejamos, artista, mostre-me
essas fotos.
O homem procura no ecrã da máquina uma foto em concreto e
mostra-lha.
Ela fica estupefacta.
Ele diz:
- Aqui consegui sobrepor o reflexo
do seu rosto com o rosto do manequim da montra.
Procurei dar vida ao manequim,
ou tirá-la a si.
A questão é, quem ganha a quem?
O seu rosto vivo e formoso
sobre um corpo inerte, ou talvez o manequim lhe subtraia vida?
Inclino-me pelo
primeiro.
O seu enquadramento perfeito parece conseguir que o manequim deseja
quebrar a montra e fundir-se no seu corpo como uma luva.
Nota:
Eu estava a
escassos metros deles numa paragem de autocarro.
Fui testemunha de tudo e
escutei tudo.
Também quando os dois zarparam juntos, ele com um braço sobre os ombros dela, para tomar um café.
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1 comentário:
Ainda chegaremos ao tempo em que apalpar a sombra será criminalizado como assédio sexual.
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