O VIDEIRINHO

sábado, janeiro 29, 2011

EXCITAÇÕES

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Como todas as tardes desde o início da minha nova vida, fui com o meu táxi buscar a Natália à saída do trabalho, no Monte da Virgem, (RTP), mas desta vez não fomos para minha casa, nem para a dela, nem para nenhum bar, nem nenhum karaoke. 

Entrou no carro, fechou a porta e deu-me um beijo na testa e disse-me: 

- Leva-me para um bosque escuro com árvores, pássaros e lobos. 

– E onde há disso? 

– Não sei, tu é que és o taxista. 

Não me perguntem porquê, mas veio-me à mente a mancha verde da zona de piqueniques do Monte da Virgem. 

– Já sei. 
Vais gostar, disse-lhe sem dar mais detalhes. 

Arranquei das instalações da RTP e fui. 

Minutos depois rumei a um caminho que me pareceu perfeito. 

Pese a mudança de rumo, Natália seguiu com os olhos bem abertos a torre da RTP, inclusivamente virando-se sobre o assento para olhar pelo vidro traseiro. 


– Não tens medo? Exclamou. 

– Chegámos, disse-lhe parando o táxi entre umas árvores. 

Parei o motor. 

Natália colocou-se entre os bancos até aceder aos lugares traseiros e, sem deixar de manter os olhos naquela torre, tirou o casaco... o pulôver... a blusa... o sutiã... 

Acedi ao banco traseiro pela parte de fora do táxi. 

Coloquei-me a seu lado e finquei o meu olhar nas suas mamas. 

– Já te disse alguma vez que tens umas mamas belíssimas? 

– Sim. 
A última esta mesma tarde. 
Por SMS. 
Disse-me enquanto tirava as botas e as calças. 

– O que te apetece fazer agora? 
Perguntei num tom ingénuo. 

– Lembraste-te de trazer o tabuleiro de xadrez? 
Perguntou-me enquanto retirava a tanga. 

– Não. 

– Pateta! 
Então não sei… 
Podíamos “pinar”. 

Dito isto sentou-se sobre mim. 

Agarrei-me às suas mamas como um náufrago, lendo Braille dos seus mamilos até ficar cego. 

Apalpei o seu pescoço, o seu queixo e ao chegar à sua boca entreaberta, notei-a seca, sem língua que me chegasse aos dedos. 

Abri os olhos. 

Natália continuava absorta, olhando a torre da RTP sobre a minha cabeça. 

Planeta Terra chamando Natália, disse-lhe com uma voz de entoação metálica

Sem afastar os olhos da torre, desabotoou-me os botões das calças, introduziu a mão, sacou a minha pistola do amor e afundou-a no seu "coldre".

Chegada a este ponto ficou quieta. 

Sem um movimento. 

Passo seguinte: FRIÇÃO, disse-lhe. 

– Não te movas, disse ela. 

TIRADA DAQUI
Sem movermos as nossas pélvis um milímetro sequer, Natália começou de repente a gemer e a pressionar-me mais fortemente com os seus dedos na minha cabeça. 

Depois de um longo indício de amplo fôlego, soltou um grito continuado e o seu ventre começou a contrair-se. 

Estava a desfrutar de um orgasmo. 

Um orgasmo brutal. 

E sem fricção nenhuma. 

Tardou uns minutos a recompor-se, com o seu olhar ainda cravado na torre. 

Recostou-se sobre o meu ombro e disse-me: 

- Foi o melhor orgasmo da minha vida. 

– Alegro-me (por ti) 

– Amo-te meu cavaleiro andante. 

– Amo-te meu borrachinho...
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quarta-feira, janeiro 26, 2011

- Se pudesse retornar à juventude, cometeria todos aqueles erros novamente; só que mais cedo !

NATÁLIA (3)

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Cinco dias depois daquele encontro casual no táxi, quatro dias depois daquele primeiro beijo, Natália convidou-me para jantar em sua casa. 

Ás 20:30 toquei a campainha. 
Do outro lado da porta escutei latidos de um cão e a voz de Natália gritando: 
- Cala-te Shane! Para a cozinha! 
A porta abriu-se e ela acercou-se para me dar um beijo. 
Calçava umas botas Camper, um quimono vermelho até aos tornozelos e tinha duas tranças.
– Não sabia que tinhas um cão, disse-lho com ar de meio assustado. 
– Não. Era uma brincadeira. Só queria ver a tua cara.
– Ahhh. Mmmm… Pois… Tu ladras…. E muito… bem. 
– Obrigado! Anda, entra. 
Entrei num salão tipo mansarda. 
O que primeiramente me chamou a atenção foi um telescópio, disposto num tripé e focado na direcção de uma enorme foto da lua, pendurada na parede. 
 
Acerquei-me da lente e através dela vi a ampliação de uma cratera em alta resolução. 
– Tudo é mentira, disse-me. 
Um copo de vinho? 
– Está bem. 
E essa flecha? 
Perguntei-lhe, referindo-me a uma seta branca fixada em diagonal no centro da janela. 
– É o ponteiro (cursor) do Windows.
Cada vez que o sol incide justamente por trás do ponteiro, clico e abre-se uma nova janela. 
Havia livros por todo o lado, inclusivamente nos locais mais insuspeitos. 
Ajudando Natália na cozinha, encontrei a Bíblia e o Corão sobre o frigorífico. 
Numa prateleira onde existiam copos, o livro “Madame Bovary”, o “Trópico de Câncer” e “As idades de Lolita”, metidos numa tupperware.
Mais tarde no quarto de banho deparei-me com dezenas de volumes (Moby Dick, As Vinte mil léguas submarinas, 'O Amante de Lady Chatterley', 'História de O', etc.) empilhados no bidé.

A cisterna da retrete não tinha tampa. 
Espreitei. 
O que vi no seu interior deixou-me perplexo. 
Era um pato de borracha flutuando na água. 
Puxei o botão e então o pato começou a descer com a água até ficar varado no fundo do autoclismo. 
Começou a entrar água e o pato subiu até alcançar o seu nível inicial. 
Aí gritei pela primeira vez: 
Nada bicho! 
– Como?, gritou ela a partir da cozinha.
Entrou no quarto de banho e viu-me com os olhos cravados no pato, puxando uma e outra vez o botão do autoclismo. 
– So…be e des...ce… 
O meu pato? 
É "O Príncipe das Marés”. 
Nessa noite comi sushi no seu ventre (e ela sashimi na minha boca), dançámos, compartindo em orelhas opostas, dois pequenos auriculares enganchados no seu iPod (assim é mais romântico, disse-me), jogámos a adivinhar os sinais um do outro e acabámos fazendo amor sobre um mar de almofadas. 
Vários orgasmos depois, compartilhando um último cigarro, deu-me para lhe perguntar:
Porquê eu? 
– Antes de te conhecer deixava meio salário em táxis.
Dito isto voltou-me as costas; apaguei o cigarro e dormi como um koala num zoo para cegos.
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segunda-feira, janeiro 24, 2011

- Tenho que fazer dieta; iniciei com a ginástica da carteira !

ELES

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Cena do filme "O Clube de Combate"

O cliente tratou de explicar-me o seu estilo de vida através de passagens e trechos do filme “O Clube de Combate” de, 1999 (salvo erro). 

– “Unicamente quando se perde tudo somos livres para agir”. 

– Defina-me lá liberdade, pedi-lhe. 

– Poder permitir-se actuar de uma maneira não condicionado. 
Sem medos, nem entraves. 

– E como se consegue isso? Perguntei. 

– Também é explicado no  filme, “O Clube de Combate” com outra frase bem simples: “Parabéns. Tocaste fundo”. 


 
O poder e as “posses” tornam-te dependente. 
Quem pode sentir-se livre com uma hipoteca sobre a casa que presume 40% do salário durante os próximos 30 anos? 
O sistema torna-nos escravos. 
Os anúncios da TV lobotomizam a mente. 
Os centros comerciais impedem-nos de pensar por nós próprios; ou pior ainda: fazem-nos acreditar que pensamos por nós próprios, quando não é nada disso. 
São ELES que pensam por nós; ELES marcam os nossos hábitos de consumo; ELES condicionam o nosso estilo de vida. 



O consumismo é a ditadura do primeiro mundo. Trabalhamos como escravos para comprar ‘coisas’ que não necessitamos, só pelo prazer de possuir o que ELES nos querem vender. 

– É aqui? Perguntei, chegado ao seu destino. 

– Sim. Sim. 
Nessa esquina. 
Quanto devo? 

– Uma murraça. 

– Como? 

– Saia comigo fora do táxi e dê-me um valente punhão com todas as suas forças. 

– É tiro e queda, amigo.
 
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sábado, janeiro 22, 2011

- Não importa o porte, mas sim como se comporta !

NATÁLIA (2)




Natália não é como as outras.

Apaixonei-me dela sem sequer conhecer o tamanho das suas mamas nem as suas curvas, nem a sua massa corporal, nem as dimensões do seu umbigo, nem a elasticidade relativa da pele dos seus cotovelos (vestia um casaco grosso que não convidava em absoluto à imaginação). 

De facto no instante do ‘impacto’, não me importei nada com o “esqueleto”. 

Tinha algo. 

Tinha diversas camadas de roupa. 

Isto é tudo. 

Eu, como muitos outros, sou superficial para o sexo sem compromisso mas profundo no amor sem compromisso. 

Não creio no amor à primeira vista, mas sim ao primeiro palpitar. 

E Natália tem muito que me ensinar. 

Muitas camadas. 

As primeiras são a sua carapaça. 

Mente privilegiada. 

Humor ácido. 

Eterna conversação. 

 

Ontem à noite ceámos pela primeira vez e esqueceu-se-me por completo de me fixar no seu peito. 

Natália é jornalista, funcionária de um jornal. 

Salta de reportagem em reportagem e molda-se e escreve o que lhe apetece. 

Escreveu guiões de country, de techno, de tango, de salsa e outras músicas. 

Faz entrevistas seja a quem for (documenta-se, investiga, lê e depois saca-lhe os fígados com toda a subtileza do mundo). 

Também trabalha para a RTP. 

A televisão é o pior de mim” disse. 

É culta mas não alardeia. 

Quando disse que escrevia, que se afanava no jornal e tinha um blog e um livro publicado, disse-lhe que sabia-o mas sem conhecer os detalhes. 

Sabia que eu escrevia, mas não onde. 

– Tens olhos de escritor. 
Tu olhas, procuras palavras que definam o que vês, disse-mo. 

O jantar demorou três horas. 

Os copos cinco. 


Bebe quase mais do que eu e sem perder um ápice de talento. 

E o primeiro beijo chegou, como não poderia ser de outra forma, no momento mais inesperado. 

– Vamos lá fora fumar um cigarro? Disse-lhe. 

– Fuma tu. 
Espero-te. 
Mas mantém, ao entrares, o fumo na tua boca. 
E depois beija-me. 
Fumarei de ti aqui dentro, na privacidade das nossas bocas. 
Nada nos poderá denunciar... 

Fumei aquele cigarro com a ânsia de um colegial. 

Mantive o fumo da última “puxa” na minha boca, entrei veloz no bar e beijei Natália apaixonadamente. 

Ela, por sua vez, roubou-me o fumo. 

Depois daquele beijo, fechou a boca e saiu para o passeio para expulsar o meu fumo. 

– Somos bons ante a lei e perversos na intimidade, disse-me ao entrar. 



Brindámos para a próxima e iminente lei anti-beijos. 

Já borracho (eu mais do que ela), acompanhei a Natália até ao portal da sua casa. 

– Convidar-te-ia a entrar na minha casa, mas excita-me mais prolongar o momento, disse-me ela. 

– A mim excita-me excitar-te, disse-lhe. 

– Telefona-me quando chegares a casa. 
É só para saber que chegaste bem. 

– Não penso fazê-lo. 

– Alegro-me. 
Era uma prova. 
Esperava essa resposta. 

– Boas noites. 

Aquele último beijo não nos soube a nicotina, mas sim a vitória. 

Apanhei um táxi e parti. 

Feliz como um drogado milionário. 

Não me recordo do tamanho das mamas da Natália.

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sexta-feira, janeiro 21, 2011

- O orgasmo consiste em alcançar o que se deseja; a felicidade, em desejar o que se alcança !

NATÁLIA (1)

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A cliente não seria cientista, nem médica. 

Talvez só curiosa, como eu. 

E bonita de morrer. 

Apanhou o meu táxi na estação e apenas nesse primeiro intercâmbio de gestos e frases já notei e também quis notar nela, uma dessas ligações cósmicas. 

Três semáforos depois os olhares pelo espelho perderam o inicial decoro. 

Cinco STOP mais tarde, a nossa conversa de elevador subiu tanto que acabámos a falar com os pés a cem palmos do chão: 

- Há tempos li algumas teorias que explicavam porque é possível ver essa luz ao fundo do túnel instantes antes de bater as botas; sabe ao que me refiro? Disse-me. 

– Sim, sim… 

- Alguns cientistas imputam-no a um excesso de dióxido de carbono no sangue. 
Outros dizem que, um pouco antes de o corpo entrar em paragem cardio-respiratória, o nosso sistema nervoso gera uma forte descarga eléctrica (algo parecido com um electrochoque natural) que às vezes consegue, por si mesma, reanimar o coração. 



E como os nossos globos oculares têm milhares de terminações nervosas, o que vêem os moribundos não é nenhuma luz mística, senão um clarão total. 

– E que me diz daqueles que asseguram ver desfilar toda a sua vida, em imagens, durante uma fracção de segundo, instantes antes de morrer? Perguntei eu. 

– Uma espécie de “montagem do encenador”? 

– Sim, rsrsrs. 
Com o título e uma conclusão final para o Comic Sans

– Ah! Ah! 
E sabe quem aparecerá no título? 

– Bem, vejamos… Mmmm… 
O realizador seria… mmmm… o meu pai e a minha mãe, logicamente. 
O produtor executivo: o Fisco (sou funcionária pública, sabe?). 
A directora: eu! 
Não é incrível? 
Banda sonora: The Smiths, sem qualquer dúvida. 
Actores secundários: os meus ex e os amigos de infância, certamente. 
Actor principal…


Nessa exacta fracção de segundo e antes de me dizer o nome do seu actor principal, vi nela uma luz encadeante e centenas de imagens coladas nas paredes do meu túnel, a toda a velocidade: um cartaz dos “Smith” (There´s a light that never goes out) e ela esculpida para sempre no meu espelho, os seus olhos demasiado expressivos, as suas preciosas feições ao falar, a ansiedade, a dor de centenas de nós no estômago e ela e eu prolongando aquele trajecto no meu táxi durante séculos e, aprender coisas novas e, sentir-me só e, só eu vivo a seu lado e querer mais, bem mais: 
TUDO. 
E agarrando-me à luz, adiantei-me à sua resposta e disse: 

- EU! 

– O quê? 
Parei o carro, rodei o corpo para ela e soltei de seguida: 



– Quero ser o actor principal do resto da sua vida ainda que o filme que nos sobra não tenha o mínimo interesse para o resto ou acabemos convertidos numa má cópia pirata de nós mesmos com poses e silhuetas de cabeças fazendo amor em cada plano. 

Quero estar aí quando essa última chispa lhe funda os fusíveis. 

Não se preocupe por mim. 

Acabam de me explodir os olhos. 

Acabo de ver a luz. 

Estou morto. 

“Mataste-me”, filha do mal. 

– Calma aí, pázinho. 
Primeiro vamos tomar um café e depois faço o casting. 

Três horas e cinco cafés depois, nomeou-me para uma segunda prova, amanhã mesmo, num restaurante que indicou. 

Foi-se-me a cabeça com ela, sei-o. 

Mas tendes que a ver. 

É perfeita. 

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quarta-feira, janeiro 19, 2011

- Viva o sexo oral... e o escrito !

ALTA NOITE

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Saí de casa com a firme intenção de trabalhar, mas não sei o que se passou, juro-o, a luzinha do táxi (“ficou muda e queda”, acesa, como a indicar Livre para o exterior e Ocupado para o interior) e claro que interpretei a avaria como um sinal (para que o meu interior se mantivesse ocupado nos seus assuntos, ou algo assim). 

Por isso acabei (sem sequer ter começado algo) naquele “after hours”, mais fresco que uma rosa e rodeado de crápulas desorientados, coleccionistas de relógios avariados e demais fauna sem flora nas veias. 

Como não serviam café aquelas horas da manhã, pedi uma “cuba livre”, uma esferográfica e um guardanapo, como as musas. 


Paguei com uma nota enrolada e com a esferográfica em riste dispus-me a descrever o horizonte em verso e rima concordante, em consonância com o “deep house” dos meus ouvidos. 

Sintonizei em palavras, (de escrita pós-guardanapo ilegível agora, mas ainda sóbrio), os seguintes registos: 

5 quarentões solitários tratando de entabular conversa com a mesma camareira, 
3 bebedolas dançantes das esquinas, (com as fúcias perto da pista de dança - chão), 
2 estudantes com cio (como terão acabado à meia-noite desta quarta-feira, neste decrépito lugar?), 
3 tipas, maiores de idade por um fio e,
1 friorento fulano com pingalim, entrando e saindo do WC a cada 15 minutos. 
 

Quinze versos depois acercou-se de mim uma jovem, com ar cândido e que me disse: 

- O que estás a escrever? 
É a lista das compras? 

– Não, trabalho num jornal, na secção da necrologia. 
Estava a tentar inventar a vida de um par de mortos. 

– Bonito. 

– Apetece-te morrer de mentira e ocupar, amanhã mesmo, um oitavo de página impressa a nível nacional? 

– Parece divertido. 

– Diz-me o teu nome. 

Disse-me o nome completo e os seus sonhos: 
- Sempre sonhei ter a minha própria cadeia de cabeleireiros caninos. 

– És cabeleireira de cães? 

– Não. 
Sou puta. 
Se quiseres vamos para tua casa, cobro 100 € por hora. 

– Bem. 
Se queres que publique o teu sonho em vida e a tua morte falsa, cobro 100 € por anúncio publicitário. 


A cirandeira afastou-se e eu pedi outra cuba livre e continuei com os meus versos até altas horas da manhã, da tarde ou da noite. 

Não me recordo bem!

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domingo, janeiro 16, 2011

EDGAR CARNEIRO (Poeta)

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Morreu, ontem com 97 anos, professor e poeta flaviense;  sempre foi esquecido pelas luzes da ribalta; publicou onze obras.

FLORES PARA MORTOS
Não se comem lírios,
Nem cravos e rosas.
De contrário, os poetas
Não as escolhiam
Para as suas glosas.
Nem as flores seriam,
Agora mais raras,
Cobertura fácil
Para as campas rasas.

D E P O I S   DE  A M A N H Ã
Não canto ontem nem hoje
canto depois de amanhã
não mais cantarei a fonte
só a gaivota na foz
não canto o grito de agora
só o silêncio depois
quando no meio da noite
despido de glória vã
erguer a voz que sobrou
para cantar amanhã
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- Nas curvas entretenho-me e nos buracos detenho-me !

MUDAR DE VIDA

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EI PESSOAIS E OUTROS MAIS QUE TAIS!!!

Ultimamente tenho sido um errante, tipo homiziado. 

Mas… há sempre um mas em tudo e tudo é uma compilação de vários mas… e factores que me conduziram à condição de conduzir um táxi.

É isso mesmo. 
A minha ajudante para espeleologia
Pensei dedicar-me à pesca, mas a maldita minhoca não dava nada… e desisti.

A partir desta data festiva, (em plena campanha eleitoral), qualquer um pode ser meu passageiro itinerante pelo emaranhado de vielas, (não pielas), ruas e avenidas desta vida.

Portanto… ao dispor de “vocelências” para toda e qualquer tarefa. (Não conseguiram ver, mas tirei o boné e fiz a vénia da praxe; desculpem se não se aperceberam).


Então até já.
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sábado, janeiro 15, 2011

- Lá fora da minha janela só vejo carros velozes, motos aloucadas, que deixam o trânsito para trás.
Aprendi uma pequena verdade, o mundo quer-te rápido para que chegues a tempo; quer-te veloz para recordar só o som dos teus passos e é por isso que quando te lembras que não vais a lado nenhum aceleras !

ACELERAS



DE CADEIRA DE RODAS NA AUTO-ESTRADA




Alguns reformados vão espreitar obras e outros… viajam em cadeira de rodas pela auto-estrada. 

Pessoal, os nossos velhotes estão a ficar antiquados. 

Falai com os vossos avozinhos e convençam-nos de que já não está na moda jogar à malha ou ás cartas. 

Que não tenham medo e brinquem como faz este homem nos Estados Unidos. 

Para que façais uma ideia, este avô deve ter-se aborrecido lá por casa e, sem pensar duas vezes (uma expressão que se escreve mas ninguém diz numa conversação… topas? Estás a falar com um amigo e dizes: “Pois ainda hoje me levantei ás sete da manhã e, sem pensar duas vezes, fui dar uma volta ao bilhar grande”.

Além disso não sei o que te poderia responder o teu amigo)… bom, voltemos ao que estava a contar porque se armo confusão, no final não nos entendemos.



Dizia pois então, que este homem devia ser pouco sorna ou ter muita pressa, porque pegou na sua cadeira de rodas motorizada e meteu-se na auto-estrada, tendo sido gravado pelas câmaras de segurança até à saída número não sei quantos da dita cuja auto-estrada em Connecticut. 

Segundo as minhas fontes (rsrsrs), (que não são mais do que a imprensa americana, já sabem que não faço a coisa por menos), o homem não recolheu o ticket para entrar na auto-estrada ou, pelo menos a polícia não tem conhecimento disso. 

Claro, como ia retirar o título? 

Se não possui tablier, onde colocamos sempre o dito cujo, onde é que colocaria o dele? 


EM CADEIRA DE RODAS A MAIS DE 60 KM/h (Brasil)




Sabeis e, se não sabeis é porque nunca leste o código da estrada, mas eu digo-vos, não se pode rodar de cadeira de rodas na auto-estrada, nem em Portugal, nem nos EUA, nem na China, nem no Brasil como também já aconteceu

Não se pode e pronto. 

Bom, agora que o penso… quase que é melhor que não digais nada aos vossos avôs, porque muitos “velhotes” gostam de querer fazer as coisas em grupo e não me quero nem imaginar como seria uma viagem do pessoal da Caixa de Pensões em cadeira de rodas motorizadas pela auto-estrada fora.

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terça-feira, janeiro 11, 2011

- Coro das minhas acções; só penso se terei accionado todas as tuas terminações ! (josé torres)

SOU O MEU DEUS

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Não sou mais do que o fiel produto da minha invenção; criado por mim mesmo à minha imagem e semelhança e portanto, por mais que me desagrade, devo reconhecer que padeço dos meus próprios erros. 

Ainda assim, tiro partido e benefício das virtudes que me caracterizam. 

Sou o que quis ser e serei o que a mim mesmo se depare. 

De agora em diante rezarei para favorecer outros no caminho e amaldiçoar-me-ei decepcionado comigo mesmo, quando não possa controlar a minha sorte. 

Esculpirei ícones no meu nome e sacrificarei a quantidade de cordeiros e legumes que façam falta para me recompensarem. 

Estarei presente em cada acto da minha própria presença. 

Serei o meu próprio deus. 

Içarei uma pedra e aí estarei. 

Levantarei um grão de areia e aí estarei. 

Levantar-me-ei a mim mesmo e aí estarei, esticando os braços, preparado para ser elevado pelas minhas próprias mãos.

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segunda-feira, janeiro 10, 2011

- Amo o meu país, tenho medo é do governo !

PUNHADO DE VONTADES

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Ao novo ano que agora entrou peço-lhe que me peça o que queira. 

Um par de pulmões novos (ou na falta destes, uns pouco usados), papel reciclado, sete esferográficas e uma embalagem de corrector Tipp-Ex seco (ou na sua falta, vazio). 

365 beijos desses que oferecem 12 meses de garantia, ou então troca ou devolução. 

364 amores diferentes + 1 de bónus que inclua uma noite contigo. 

Um alambique que transforme as gotas de pranto em saliva (e a saliva em colcheias). 

Um punhado de vontades. 

Aprender a dar murros e aprender a esquivá-los. 

Um contador de bocejos com alarme. 

O teu número de telefone. 

Rosas frescas cada dia (ainda que sejam de mentira) para o banco traseiro do meu carro. 

Um punhado de vontades. 

Ideias próprias ou recicladas do meu próprio lixo. 

Projectos, ainda que se não cumpram. 

 
Saúde para brindar á saúde dos restantes. 

Não voltar a fazer ‘merda’ ou levar sempre areia nos bolsos para tapar de imediato as minhas cagadas. 

Pensar que qualquer tempo passado foi anterior. 

Aprender a escrever com a esquerda e aprender a pensar com a esquerda. 

Um punhado de vontades. 

"Dessintonizar a TVI". 

Dizer as baboseiras que me possam sair pela boca fora. 

Continuar a aprender com os professores e corrigir os imbecis que se fazem de inteligentes (lição de hoje: o pronome pessoal “tu” jamais leva acento agudo). 

Continuar a escrever o que me der na real gana. 

Não corrigir quase nada. 

Um punhado de vontades. 

Desejar-te o melhor. 

Brindar por ti. 

Alço o meu cálice.

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sábado, janeiro 08, 2011

- O início na cama quente; o fim na terra fria ! (josé torres)

ALTRUISMO

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— Não há melhor maneira de se ganhar a vida que a de ser um homem que se oficia de altruísta —disse-lhe e estiquei-me para cofiá-lo com a mão. 

Ele correspondeu ao gesto e desde esse preciso instante selámos um pacto. 

Os anos foram passando e aquele miúdo que me salvou a vida ao tirar-me da rua, foi-se convertendo num homem. 

Nunca o perdi de vista. 

Fui mais fiel que a sua própria sombra e ele, por bondade, ofereceu-me tecto e comida. 


Aprendi com ele e portanto segui o seu exemplo. 

Agora protejo-o do perigo caminhando à sua direita, mostrando os dentes a qualquer pessoa que se acerque alguns passos. 

Cuido-o, a troco de nada. 

Ele afaga-me as orelhas a troco de nada.

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quarta-feira, janeiro 05, 2011

- Falando de bolachas: “molhadinhas” são muito melhores !

PUTANATOS AUTOMÁTICOS

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Viver o instante para não recordar momentos críticos do passado: colocar o motor do meu quatro rodas a trabalhar e dar umas voltas por aí a escutar CDs personalizados, assépticos. 


Fixar-me nos cartazes das ruas, em todos. 

Procurar “borrachos” a caminhar pelas ruas e calçadas. 

Eliminar do telemóvel velhos contactos inoperacionais. 

Cancelar a minha conta no Facebook por inabilidade de uso inata. 

Abrir uma outra conta noutro qualquer local de “reunião”. 

Comprar uma camisa Victor Emmanuel ou Ralph Lauren para colocar a luzir nos diversos encontros… 

Falar com os meus vizinhos de imbecilidades (o tempo, a crise, Sócrates, fdp e demais merdas idênticas). 


Mal chegue a casa ligar a televisão e enviar uma catrafada de SMS. 

Recortar, com paciência, o cupão do JN para o poder trocar por um copo de vidro bera ou uma faca ‘Made in RPC”, de aço inoxidável que por qualquer motivo oxida-se mais do que um prego de meia galeota. 

Tomar nota dos resultados de futebol da 1ª e 2ª divisão, bem como resenhas dos números ‘rifados’ no Euromilhões para fazer paciências e tentar acertar no próximo sorteio. 

Saber as frutas de cada época do ano, abstraindo-me de viveiros ou conservação artificial. 

Les demoiselles d'Avignon - Picasso

Adormecer à força de comprimidos. 

Que o despertador toque, oito horas depois de cada comprimido. 

Masturbar-me ao ‘som visual’ de vídeos de lésbicas ucranianas. 

Telefonar aquela antiga amiga três vezes por semana. 

Construir um puzzle de mil peças e colá-lo à parede. 

Matricular-me num ginásio e num curso de culinária. 

E… sobretudo, EVITAR AS CAIXAS AUTOMÁTICAS



Não voltar nunca mais a introduzir o cartão nessas rachas, (seja porque pretexto for), tão parecidas umas com as outras, absolutamente todas, até à da Paris Hilton, nem digitar a contra-senha do amor órfão nesses botões em Braille que são, muito certamente os mamilos dela. 

Não vou voltar a meter o meu… cartão na sua racha, nem esperar que ejacule dinheiro e não repetirei gastá-lo em p*tas de catálogo que se pareçam com ela.

sábado, janeiro 01, 2011

- Todos sonhamos voltar a ser crianças, inclusive os piores de nós; talvez os piores mais do que ninguém !

CHIVAS

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Fazia frio, tremiam-lhe as mãos e doía-lhe a cabeça. 

Acredito que ardesse em febre. 

Mesmo assim, foi uma experiência gratificante tê-lo visto cair pelo alcantilado. 

Não pude destrinçar se as lágrimas eram de alegria ou de tristeza, nem tão-pouco se a inevitável gargalhada foi de nervos. 

Colocou o seu flácido corpo sobre a ‘poltrona’ do condutor e sacou a pedra que sujeitava a embraiagem. 

A 1ª velocidade engrenada encarregou-se do resto do trabalho. 



O veículo avançou lentamente, mantendo-se com indolência sobre o orvalho da madrugada que se aderia à relva. 

Os pneus marcaram duas impressões “digitais” paralelas até que o chão desapareceu e o automóvel se inclinou para começar a descida para o seu inevitável final. 

Ainda tenho a imagem gravada na memória, vendo-o cair, sustentando com delicadeza uma garrafa de Chivas que ela mesma lhe tinha sujeitado na sua mão.


Tinha incluso o álibi perfeito. 

Estava muito doente, com febres altas. 

A enfermeira tinha-a deixado no quarto do hospital há cerca de uma hora e não voltaria nas próximas três ou quatro horas, quando tivesse de mudar-lhe o soro. 

Então soube que tinha chegado o momento. 

Aproveitaria a ocasião para perdê-lo da vista, utilizando a melhores armas que tinha à mão: álcool e o volante. 

Ninguém suspeitaria dela, doente, abandonada numa cama do hospital por um bêbado sem sentimentos. 

Colocar-lhe-ia uma garrafa na mão e despenhá-lo-ia com o seu carro, por uma ribanceira. 

 
Seria muito fácil, ele colaboraria sem pensar. 

Mal acabou com ele, estendeu-se na cama do hospital com uma dor pungente na cabeça e uma sensação de náuseas. 

Quando a enfermeira regressou de novo ao quarto olhou em redor e moveu a cabeça com pesar. 

Pelo intercomunicador avisou o médico de serviço: 

- Quarto 113. 
Parece que a senhora Natércia voltou a ter alucinações. 

Hoje meteu a almofada e a garrafa de água na retrete…

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