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Quando te hospedas sozinha, todos os quartos de todos os hotéis são a mesma cidade.
As mesmas paredes assépticas, a mesma cesta de boas-vindas, a mesma cama inabarcável, o mesmo móvel bar (sempre insuficiente mas no qual nunca tocas), as mesmas toalhas bordadas sem o teu nome, o mesmo toalhão de banho sempre grande que cheira a nada, a mesma escrivaninha repelente de musas inspiradoras, uma televisão com todos os canais menos o teu, uma bíblia na gaveta que não abrirás e esse telefone de cor cadáver que nunca toca e pegas no auscultador para escutares se funciona, porque às vezes tudo em teu redor funciona menos tu.
Assomas-te à rua e as janelas são outro canal diferente da mesma TV, os mesmos outros carros, a mesma outra gente que caminha.
Sabes bem porque estás aqui mas interrogas-te: que fazes aqui?
Sabes por que te hospedas sozinha mas interrogas-te porque te hospedas sozinha, porquê esta cama contriste, porque não há rasto de silhuetas passadas ou de copos partidos?
Mas deitas-te e agora o quarto é mais pequeno que no teu período anterior e evitas olhar o ecrã do telemóvel, mas ainda o tens na mão, nunca o abandonaste.
Daí de dentro é o único vínculo com o teu mundo exterior, tão longe mas tão perto, tão falso tudo e no entanto imprescindível.
Abres o teu e-mail, abres o Facebook, o H5, o Twitter.
Tudo novidades, mas nada de novo.
Da mala, sacas o teu bilhete de volta.
Amanhã ás onze horas.
Abençoado este maldito bilhete encerrado.
Usa-lo como máscara para poder dormir (a luz de emergência chateia-te).
E dormes e sonhas um sonho emprestado.
O mesmo sonho de todos os hotéis.
Na manhã seguinte desperta-te o telefone que nunca toca.
O recepcionista, em inglês pausado, diz-te que tens um táxi à porta à tua espera.
O mesmo táxi que te transportará ao aeroporto, ao avião da tua vida passada e futura e de sempre.
Desligas.
Na TV há um filme de James Dean.
Sem pensares ou pensando mais em branco que nunca, abres o móvel bar, escolhes uma garrafita de Jack Daniel’s e escorropicha-la de um trago.
Sabe a lençol amarrotado.
Abres a janela e lanças o telemóvel pelo vazio.
Aproximas-te e olhas para baixo.
Deste-me com ele na cabeça.
Soubeste-o imediatamente.
Sorris.
Agora digam-me se nós, os taxistas, temos de estar sempre de pernas abertas para aturar isto???
27JUL2011
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