O VIDEIRINHO

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

- Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais alcoólicas, das drogas mais poderosas, das ideias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Podes até tentar empurrar-me para o abismo que eu vou sempre dizer: Adoro voar !

A QUASE MORTE DO ARTISTA

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Quando te hospedas sozinha, todos os quartos de todos os hotéis são a mesma cidade. 

As mesmas paredes assépticas, a mesma cesta de boas-vindas, a mesma cama inabarcável, o mesmo móvel bar (sempre insuficiente mas no qual nunca tocas), as mesmas toalhas bordadas sem o teu nome, o mesmo toalhão de banho sempre grande que cheira a nada, a mesma escrivaninha repelente de musas inspiradoras, uma televisão com todos os canais menos o teu, uma bíblia na gaveta que não abrirás e esse telefone de cor cadáver que nunca toca e pegas no auscultador para escutares se funciona, porque às vezes tudo em teu redor funciona menos tu. 

Assomas-te à rua e as janelas são outro canal diferente da mesma TV, os mesmos outros carros, a mesma outra gente que caminha. 


Sabes bem porque estás aqui mas interrogas-te: que fazes aqui? 

Sabes por que te hospedas sozinha mas interrogas-te porque te hospedas sozinha, porquê esta cama contriste, porque não há rasto de silhuetas passadas ou de copos partidos?

Mas deitas-te e agora o quarto é mais pequeno que no teu período anterior e evitas olhar o ecrã do telemóvel, mas ainda o tens na mão, nunca o abandonaste. 

Daí de dentro é o único vínculo com o teu mundo exterior, tão longe mas tão perto, tão falso tudo e no entanto imprescindível. 

Abres o teu e-mail, abres o Facebook, o H5, o Twitter. 

Tudo novidades, mas nada de novo. 

Da mala, sacas o teu bilhete de volta. 

Amanhã ás onze horas. 

Abençoado este maldito bilhete encerrado. 

Usa-lo como máscara para poder dormir (a luz de emergência chateia-te). 

E dormes e sonhas um sonho emprestado. 

O mesmo sonho de todos os hotéis.

 

Na manhã seguinte desperta-te o telefone que nunca toca. 

O recepcionista, em inglês pausado, diz-te que tens um táxi à porta à tua espera. 

O mesmo táxi que te transportará ao aeroporto, ao avião da tua vida passada e futura e de sempre. 

Desligas. 

Na TV há um filme de James Dean. 

Sem pensares ou pensando mais em branco que nunca, abres o móvel bar, escolhes uma garrafita de Jack Daniel’s e escorropicha-la de um trago. 

Sabe a lençol amarrotado. 

Abres a janela e lanças o telemóvel pelo vazio. 

Aproximas-te e olhas para baixo. 

Deste-me com ele na cabeça. 

Soubeste-o imediatamente. 

Sorris. 

Agora digam-me se nós, os taxistas, temos de estar sempre de pernas abertas para aturar isto???

27JUL2011
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terça-feira, fevereiro 14, 2012

- Contaremos as estrelas, perderemos a cabeça, mas é proibido olhar o relógio...

CIRCULAR

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O meu táxi não é mais que uma desculpa para fugir como fugimos os pobres: em círculos. 

A cada amanhã piro-me tão longe como dite a casualidade, mas sempre regresso ao meu ponto de partida. 

De quem fujo? 

E tu mo perguntas? 

Claro está: de mim! 

Durante as minhas fugidas, tendo a fixar-me nos utentes que me ditam qual será o novo destino. 

Apaixona-me o porquê dos trajectos. 

Há sempre uma razão para cada causa. 

Deus não existe. 

Depois está o amor subjacente, as flechadas subjacentes. 

Sair de casa com a firme intenção de encontrar pelas ruas a mulher da minha vida. 

Ter esperança e uma margem de pulsações folgada. 

Viver expectante, com as pestanas coladas ás respectivas sobrancelhas. 


Os únicos acidentes que sofri na minha vida foram por seguir com o olhar, mulheres caminhantes que romperam o íris dos meus sentidos.

No último (embati por detrás num todo-o-terreno) saí do táxi correndo para a garota, toquei no seu ombro e quando se voltou apontou o acidente e disse: 

- O que sinto por si está no fumo que sai do ‘capot’ desse táxi. 

A fulana sacou da sua carteira, de um lenço de papel e disse-me: 

- Está a sangrar da testa. 

Peguei no lenço e ela foi-se embora. 

Partiu sorridente. 

O meu amor por ela durou o que demorou a oficina a consertar o táxi. 

Foi mais de uma semana sem dormir e sem comer, vítima do feitiço dos seus olhos azuis.


Pelos pontos de sutura que levei na testa soube que o amor dói sempre. 

Pelo agravamento do seguro do táxi soube que o amor nunca é barato. 

Estou a escrever isto a partir do balcão de um botequim. 

Dentro de três ou dez cervejas regressarei a casa, meter-me-ei na cama e quando fechar os olhos voltarei a reencontrar-me comigo. 

Com um pouco de sorte o álcool conseguirá que o tecto gire como gira o meu táxi durante o dia. 

Com um pouco de sorte continuarei fugindo até cair rendido.

26JUL2011
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segunda-feira, fevereiro 13, 2012

- Sou um masoquista inveterado, sei que a minha garrafa de whisky não me afoga as mágoas, só as irriga... mas insisto !

ÁLCOOL AMIGO

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"A sua mente absorvia, como uma esponja, absolutamente tudo o que os seus olhos viam, tudo o que os seus ouvidos escutavam, tudo o que as suas papilas gustativas degustavam, tudo o que ele mesmo dizia. 

Incapacitada para esquecer, a sua memória, ainda que privilegiada, atentava contra a sua cordura ou sensatez já que o conteúdo da mesma ocupava demasiado espaço no seu cérebro.  

Recordar com detalhe todos os acontecimentos da sua vida, incluídos os mais quotidianos, era uma verdadeira tortura. 


Cada nome, cada rosto, cada data de anos, cada festejo, cada lugar, cada marca de automóvel, cada paisagem, cada definição, cada mínimo detalhe do acontecido; tudo se armazenava no seu cérebro sem nenhum tipo de filtro e a informação acumulada, na sua grande maioria, era totalmente inútil. 

A única solução consistia, evidentemente, em tratar de esquecer o recordado e esvaziar um pouco a mente. 

Finalmente encontrou, no álcool, a solução que o tempo não poderia dar-lhe."


Cada vez exercitamos menos a memória, o que acarreta algumas consequências. 

Segundo um estudo publicado na revista Science, motores de busca como o Google e as bases de dados da Internet, converteram-se numa espécie de “memória externa” do cérebro humano, o que provocou que percamos retentiva de dados, mas ganho em habilidade de busca. 

O homem está cada vez mais dependente da informação da Internet, assinala a psicóloga Betsy Sparrow, professora adjunta da Universidade de Columbia (Nova Iorque) e autora de um estudo. 

Foi a sua experiência pessoal que a levou a aprofundar os hábitos de estudo e aprendizagem das novas gerações.


Como exemplo assinalava um casal em que o marido confia que a sua esposa recorde as datas importantes, como consultas médicas, enquanto ela confia que ele se recorde dos nomes de familiares mais afastados, de tal modo que não duplicam informação nem “ocupam” memória. 

A Internet é uma grande memória colectiva. 

À raiz desta teoria, Sparrow interrogou-se se a Internet estava a desempenhar esse papel para todo o mundo, como uma grande memória colectiva e, juntamente com a sua equipa, fez uma série de experiências com mais de uma centena de estudantes de Harvard, para examinar a relação entre memória humana, a retenção de dados e a Internet.


A equipa descobriu que quando os participantes não sabiam as respostas ás perguntas, automaticamente pensaram no seu computador como o lugar onde encontrar essa informação. 

Somos realmente eficientes. 

Além disso, averiguaram que se os estudantes sabiam que a informação poderia estar disponível noutro momento ou que poderiam voltar a procurá-la com a mesma facilidade, não recordavam tão bem a resposta como quando acreditavam que a informação  não estaria disponível.


O estudo sugere que a população começou a utilizar como o seu “banco pessoal de dados”, conhecido como efeito Google e, os computadores e os motores de busca online converteram-se numa espécie de “memória externa” à qual se pode aceder consoante a vontade do utilizador e à qual a memória humana se está a adaptar. 

Segundo Sparrow, não a surpreendeu constatar que cada vez mais pessoas não memorizam dados porque confiam em que os podem conseguir, basta possuir habilidade para os encontrar.

26JUL2011
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domingo, fevereiro 12, 2012


- Toda a grande ideia dos políticos passa, obrigatoriamente, por "sugar" mais dinheiro á classe média.
A inteligência não lhes dá para mais !

SILICONE

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A passageira tirou o casaco e de súbito emergiram no meu espelho retrovisor duas enormes mamas (protegidas por um botão prestes a implodir da blusa). 

À simples vista desarmada foi-me impossível discernir se aquelas mamas eram reais ou não. 

Tão-pouco lho perguntei, não por falta de uma vontade indómita, mas por essa lei não escrita do decoro (a mesma que faz da vida um grande mistério).

Para mim era importante saber se aquele fenómeno era fruto de um capricho de deus, ou se seriam simplesmente bunkers de silicone. 

Essa nuance, para que me possam perceber o que tento dizer, condicionava a minha capacidade de assombro. 

A nós homens atraem-nos as mamas talvez por uma rara ligação com a nossa infância. 

E talvez também por isso eu recuse o silicone (nenhum lactante poderia sobreviver sugando uma substância que igualmente serve para vedar portas e janelas). 

 

Além disso, o conceito de beleza natural abate-me. 

Não me seduz apalpar uma densidade que previamente foi aprovada numa assembleia de accionistas, ou que teve que passar certos controlos acima do controlo das minhas caricias. 

Custa-me admirar um tamanho eleito por catálogo, ou uma forma moldada numa sala de operações ao gosto da portadora e ao pulso de um cirurgião. 

E que dizer dos mamilos? 

Com que avidez e desejo se estimula um mamilo se não podemos deixar de evitar pensar que uma vez (pelo menos) foi levantado como uma tampa de iogurte? 

Enfim. 

Milhentas coisas. 

Os famosos implantes PIP

Esse silicone defeituoso que se rompe e espalha-se interiormente. 


Se em lugar de silicone fosse um cúmulo de lembranças concentradas na memória das suas mamas, lembranças com defeito que explodem e inundam o seu corpo, ao menos teria o seu quê de poético. 

Mas estou a falar de um produto industrial fabricado em série, por amor de deus... 

O caso é que a passageira que deu origem a esta história terminou o seu trajecto, pagou-me a viagem e saiu do táxi; fiquei sem saber se aquelas mamas eram reais (naturais). 

Nunca disse que a profissão de taxista fosse perfeita.
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sábado, fevereiro 11, 2012

- Limpando os tapetes do meu táxi resgatei sete beijos órfãos, três alianças adulteradas, nove lágrimas e meia saqueta de heroína !

EQUAÇÕES COMPLEXAS

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Conduzo o meu táxi atrás de uma mota. 

Sigo de perto essa moto porque nela viaja tudo o que entendo por sensual: uma longa melena loira, um rosto aberto à imaginação (leva capacete), costas côncavas e apenas uns centímetros de carne à intempérie, espontânea pela postura. 

Esses poucos centímetros incluem um fio de uma tanga de cor fatal: é a base invertida de um triângulo equilátero cuja máxima tensão o transforma em isósceles. 

Sensual, é intuir que aquela tanga desafia todas as leis da trigonometria. 

Todos os seus vértices prolongam-se, convertendo-se em linhas e a linha do vértice inferior viola sem querer esse infinito caracol da mesma vida e, transforma-se de novo, noutro triângulo algo maior que o do outro lado do seu corpo, abaixo do umbigo, que também imagino com um piercing. 


Não existe equação que o demonstre, mal posso ver uma mínima parte daquele complexo tipo trama, mas sei que é assim e essa geometria imaginária põe-me louco. 

Sensual é o triunfo do descuido acima do pudor. 

Essa pista extra que me ajuda a tirar do fio, essa nova peça a encaixar no puzzle que pouco a pouco vou formando na minha cabeça. 

E cada nova peça (talvez uma tira do sutiã num descuido, ou o rebordo dos seus olhos se levantasse a viseira do capacete, ou uma nova tatuagem num tornozelo) é celebrada em grande estilo, como uma criança que conseguiu o cromo mais difícil do álbum. 


Mas a mais complexa sensualidade radica em saber deter-me a tempo, em não querer ver mais do que o necessário, por medo ou decepção. 

E se os seus peitos não são tal e qual os imaginei? 

E se ao desmontar da moto o seu traseiro perder a tensão dessa postura e deixar de ser tão perfeito? 

E se tira o capacete e com isso desaparece essa beleza que imaginei, conjugando o seu cabelo com o seu corpo? 

Por isso, quando ela por fim se coloca a meu lado com a moto e sobe a calçada com o fim de prosseguir o seu trajecto, decido não seguir os seus passos. 

É melhor acelerar o meu táxi e ficar com essa imagem sensual e nítida que sempre será mais bela que a realidade. 

Repito: SEMPRE!
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sexta-feira, fevereiro 10, 2012


- A partir de hoje conduzirei o meu táxi com auscultadores colocados nos ouvidos.
Não quero que nenhum passageiro me acuse de escutas ilegais !

ARMAS FEMININAS

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A princípio todas as mulheres me compreendem e assumem-me. 

Sabem que sou um individualista, um solitário, que vivo e quero continuar a viver só, que frequento e continuarei a frequentar bares de duvidosa reputação, que não madrugo e que o meu táxi (e também o meu blog) estará sempre acima delas (ao ponto de cancelar qualquer plano se a musa investir). 

Sabem-no porque, depois do segundo ou terceiro encontro, acabo sempre por colocar as cartas na mesa: sou feliz assim, não quero mudanças. 

Todas elas, supostamente, escolhem livremente aceitar as condições ou marcharem-se. 

No entanto, a que decide ficar, sempre tende a considerar-me um repto ou desafio. 

Aceita as minhas condições porque sabe que, no fundo, só ela será capaz de modificar os meus hábitos sem que eu dê conta (de uma maneira quase invisível, subliminal). 


E então aplicará as suas armas de mulher: primeiramente dar-me-à a liberdade que requeiro. 

Se passado um tempo prudente não cedo aos seus encantos, passará (digamos) ao plano B: tratará de me fazer ciumes com outros homens para que valore o seu potencial. 

Se tão-pouco isto não funciona, tornar-se-à submissa, delicada ou talvez rude comigo. 

Explorará, em qualquer caso, todo o meu espectro com a intenção de procurar os meus pontos débeis (todos os temos). 

Se por exemplo gosto de carinho, será mais carinhosa. 

Se me agrada uma boa conversação, atacará por aí. 

Ainda que pareça o contrário, este modo de actuar não determina uma falta de personalidade da sua parte. 

 

Tão só cede temporariamente até que abrande e caia na sua rede. 

É um desafio, repito. 

Não tanto por amor mas para impor a sua vontade. 

De facto, só aguentam as mais teimosas. 

Aguentam pelo menos até que, num último intento desesperado, plantam a sua escova de dentes no meu quarto de banho, ou abrem um buraco na minha cómoda e então sou eu que tenho de cortar o mal pela raiz. 

É assim com uma, com outra. 

Tem sido assim nos últimos sete anos. 

Nota: 
Gosto de viver sozinho e de mulheres. 

Por esta ordem.
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quinta-feira, fevereiro 09, 2012


- À minha direita, um taxista beija ardentemente uma passageira.
Parou o taxímetro em 5,45€.
O meu recorde está em 7,35€.
Que cabrão!

CURVAS QUASE RECTAS

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Não sabia o número exacto, assim que a mulher com cerca de 40 (bom porte, cabelo loiro volumoso, um pouco pálida, magra, com uma criança ao colo) me indicou uma famosa pastelaria da rua Senhora da Luz como referência aproximada ao seu destino: 

- Sabe ao que me refiro? 

- Claro... nessa pastelaria fazem uns crepes muito bons... também uns bombons... e gelados. 

- Não me diga isso, gosto muito de doces, mas, já sabe... não me posso permitir... 

- É diabética?, perguntei antes de reparar na indiscrição cometida. 

- Não, não é isso... os bolos, chocolates e gelados engordam demasiado... 

Girei a cabeça para ela. 

Não podia acreditar... 

- Desculpe, mas... vejo-a com bom aspecto, menti. 

Na realidade pareceu-me demasiado magra: pelo menos os seus braços pareciam arames. 


- Não acredite... as aparência enganam... gosto de doces em geral, mas, já sabe... os homens também gostam que exibamos aquele “tipito” ideal... e as duas coisas não são compatíveis... 

- Nós os homens, acima de tudo, gostamos que das mulheres comam, que se alimentem bem! disse elevando o tom. 

- Já reparou no corpanzil que têm essas adolescentes de 18, ou de 20 anos?… com as suas curvas… o seu ventre plano… o seu bem proporcionado e perfeito… não sei… acho que há demasiada concorrência… 

- É casada? 
Tem namorado? Perguntei. 

- A minha última relação durou sete anos. 
Separámo-nos há um par de meses... 

- E qual a opinião dele sobre o seu aspecto. 

- Gostava do meu corpo... inclusivamente dizia-me que devia comer um pouco mais; mas eu sabia que mo dizia para me agradar. 
Os homens podem-nos enganar, mas os espelhos, nunca.
Importante é gostar-se a si mesmo, já sabe... 

Aquela mulher ao sair do táxi, com a criança ao colo, confirmei as minhas suspeitas: A fulana parecia um saco de ossos. 

As suas costas ao ar demonstravam uma coluna vertebral bem marcada, omoplatas e quadris salientes, andares débeis, fracos… 

Reflexão: O aspecto físico é importante. 
Sem dúvida, o aspecto físico não é o mais importante.
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quarta-feira, fevereiro 08, 2012


- A eloquência não é sexy? 
Quase como um par de seios avantajados: ficas tão hipnotizado que até te esqueces de prestar atenção ao que ela está a dizer !

POR UMA FRINCHA

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Há sempre algo mais para além do horizonte. 

É essa fina linha que assoma pelos bastidores do teu decote (talvez sem querer, tu sem o saber, prefiro assim). 

O suave tule do sutiã vermelho procurando ar, alargando o peito, que ameaça o pudor da tua blusa (talvez sem querer, tu sem o saber, prefiro assim). 

Apenas dois milímetros de sutiã são suficientes para manter-me em suspenso durante o trajecto. 

Perplexo e vulnerável. 

Malicioso em segredo. 

Olho-te de soslaio, tu a meu lado. 

Nessa postura a tua blusa descreve uma curva entre dois botões que me permite afundar ainda mais na metafísica do sutiã que intuem os teus peitos. 


Não quero acreditar que o sutiã sujeite nada. 

Prefiro acreditar que protege delicadezas perfeitas. 

Protege do vento duas frágeis dunas. 

Entramos na A28. 

Ajustas o cinto de segurança, que agarravas sem prender, entre ambos os peitos e agora o teu corpo parece um sinal de proibição (cor de luto). 

Morreu asfixiada a fresta com vistas entre esses dois botões. 

Amaldiçoo as normas do código de estrada. 

Não sei porque imagino os teus peitos sem mamilos. 

Uma vez li, (não me recordo onde nem o seu autor), o relato de uma criança que acreditava que as mulheres não tinham mamilos. 


Os mamilos são formados quando o bebé lactante, por sucção, sorve pela primeira vez o peito virgem da sua mãe. 

A criança tinha inveja do seu irmão mais velho porque pensava que este tinha tido o privilégio de “criar” os mamilos da sua mãe. 

Não sei porque relacionei esta história com os peitos da minha passageira. 

O inconsciente é raro. 

Procurar as conexões é tornar-me louco.

12JUL2011
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terça-feira, fevereiro 07, 2012

- Inopinadamente um bêbado acaba de me explicar em que consiste a lei dos vasos comunicantes !

EU NÃO PAGO!!!

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Ao longo da minha vida “taxial” conheci não poucos taxistas realmente obsessionados pelo dinheiro. 

Taxistas que em tempo de bonança económica trabalhavam até 24 horas seguidas, só porque depois de terem pago a sua habitação habitual, o táxi e alguns, uma casita na aldeia, ansiavam por comprar um chalet na praia e uma moto d'água e um relógio d'ouro... 

Tal era a sua estúpida obsessão, que apenas conseguido o seu objectivo já tinham outro em mente, mais ambicioso e mais caro do que o anterior, para o qual necessitavam continuar a matar-se a trabalhar. 

(O termo “matar-se” não é casual. 
Já conheci pelo menos quatro casos de taxistas “ambiciosos” que morreram na estrada por terem adormecido ao volante). 

Agora, com a actual crise económica, como o trabalho (ainda que com todas as horas do mundo) já não dá para pagar tantos empréstimos ou caprichos, muitos desses taxistas estão desesperados ou de baixa médica por depressão. 

 

Digo isto, não para criticar o maralhal taxista (afortunadamente nem todos são iguais e imbecis, há-os em todos os lados), mas como exemplo próximo dos vícios capitalistas. 

Quando um trabalho te permite a possibilidade de ganhar mais ou menos dinheiro, em função do número de horas que prestes, sempre haverá imbecis que inventam ilimitados objectivos traduzidos, por outro lado, numa eterna e profunda frustração: não existe um limite para o que só anseia dinheiro. 

O problema chega quando essa ambição cega que criou, precisamente o capitalismo, também afecta e repercute-se nas suas vítimas, em que não só ansiamos por dinheiro e aspiramos por outras coisas (conformo-me com o que tenho, asseguro-vos, mas que não mo tirem). 
 

Porque àparte todo o dinheiro que têm esses idiotas (não me refiro a esses pobres idiotas taxistas, que ao fim e ao cabo, não fazem mal a ninguém, mas sim aos grandes e insaciáveis mafiosos da banca e da finança) também quererão o nosso dinheiro por escasso que seja. 

E se ninguém puser limites a essa cegueira, se ninguém travar essa obsessão insaciável por dinheiro (alguém me pode explicar para que carago quer Carlos Slim, 74.000 milhões de dólares?) o mundo será cada vez mais profundamente desigual e, sobretudo, cada vez mais perigoso. 

Insta, por conseguinte, uma alteração do modelo. 

E como aqueles que controlam o modelo actual são, precisamente, esses mesmos imbecis, temos de enforcá-los com as suas próprias amarras, encurralá-los cortando o cabo que os alimenta.

EU NÃO PAGO!!!
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segunda-feira, fevereiro 06, 2012

- Está certo.
Tu dizes sempre a verdade.
Mas são muito mais divertidas as minhas mentiras !

PASSAGEIRA

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A finas tiras do top branco e justinho de Laura, tratam de esconder, sem o conseguir, as alças de um sutiã, preto, de copa grande. 

Suspeito que os “encheu” ainda que os seus hipotéticos seios não pareçam necessitar de nenhum realce: sugerem ser médios e firmes, em perfeito equilíbrio com a sua débil estrutura e um rosto de traços doces, nada agressivos. 

Cabelo escuro, natural, até aos ombros, ainda que frisado por sobredose de espuma, sobrancelhas de minuciosa depilação que conseguem alegrar os seus neutros olhos cor de mel, maçãs do rosto angulosas com sardas “salpicadas”, lábios grossos e suaves, e queixo em bico sinuoso como fim de festa. 


O que sei da sua pele é que é um pouco bronzeada, nada peluda. 

Ombros estreitos, cintura escultural (ainda que evite mostrar o umbigo), calções negros curtos com bainha, pernas hidratadas (ligeiramente mais morenas que os seus ombros) e botas largas de couro. 

Ronda os 25 anos. 

Agora Laura permanece com as pernas cruzadas, teclando no seu BlackBerry. 

Trajecto: Dragão para Pinheiro Manso. 

Recebe uma chamada e responde. 

É uma amiga a quem conta a sua enésima bronca com Victor. 

Pela sua conversação denoto uma certa dependência dele, ou melhor, um conceito de futuro bem definido e decidido. 


Apesar das suas evidentes divergências com Victor, continua a pensar perdoar-lhe e “assumir” que ele é assim e que nunca o irá conseguir mudar. 

O seu ”projecto” pesa mais que os matizes do seu presente. 

Segundo o que interpretei pelo que falou, Laura está a utilizar a sua interlocutora para vincar a sua postura. 

Monopolizou por completo a conversação. 

Agora anima-se e diz que Victor, no fundo, não é ninguém sem ela. 

Despede-se com um “vemo-nos no sábado”, desliga e franze o cenho, olhando para a rua com ares oníricos. 


 

Chegamos ao seu destino e agora Laura mostra-se tímida. 

Estende-me uma nota de 20 €, enquanto espera o troco passa as mãos no cabelo. 

Aproxima-se do táxi um jovem de aspecto despreocupado. 

É Victor, suponho. 

Ela abre a (sua) porta, sorri-me, talvez para que ele veja quanto supostamente agradável foi a viagem. 

Victor aproxima-se e beija-a no canto da boca. 

Parece forçado.
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