- Este hospital é livre... livre para aqueles que podem pagar e livre daqueles que não podem... !
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
REFLEXOS
.
Quando soube que os espelhos retrovisores laterais do meu táxi eram convexos e o espelho interior côncavo, compreendi porque sempre me interessaram mais os meus clientes do que as ruas do trajecto.
Os espelhos convexos, os exteriores, fazem-te ver as ruas e os carros que vais deixando para trás mais pequenos do que aquilo que realmente são.
O espelho côncavo do habitáculo, aliás, amplifica a imagem do cliente fazendo-o mais avantajado que quaisquer edifícios refectidos nos espelhos exteriores.
Para dizer a verdade, isto não só me faz sentir intimidado pelos meus próprios clientes, como também condiciona o tom das conversas que costumamos manter.
CÔNCAVOS e CONVEXIDADES
Não é o mesmo falar cara a cara com um cliente do teu mesmo tamanho que fazê-lo com alguém cuja cabeça triplica a tua.
Do mesmo modo, ao veres as ruas minimizadas através dos espelhos laterais também condiciona a tua forma de conduzir, já que pensas que o teu carro é muito maior que os que vêm atrás.
E isso, quer queiras ou não (e ainda que se trate tão só de uma ilusão óptica), anima.
Utilizo tantas horas dependente desses espelhos que quando saio do táxi me custa encontrar as coisas no seu tamanho real.
Espero que agora entendas porque, sempre que nos encontramos, te pergunto se foste operada ás mamas.
.
terça-feira, fevereiro 28, 2012
DUPLOS
.
O espelho reflectiu-me com tão exacta perfeição, que a imagem tornou-se realidade.
Saiu caminhando desde o vidro espelhado, saudou-me estreitando-me fortemente a mão e foi-se da sala fechando a porta à sua passagem.
Eu, nervoso, assustado, confundido com a situação, olhei novamente o espelho e aí estava, outra vez eu, reflectido, tão magnificamente reflectido que a figura retornou à realidade, saiu caminhando desde o espelho e, tal e qual a anterior, saudou-me amavelmente e saiu da sala fechando a porta à sua passagem, deixando no ar um marcado aroma a melancolia.
Rapidamente me afastei do espelho para evitar ver-me novamente clonado e depois de reflectir sobre o sucedido, decidi cobrir o espelho com uma manta para tapá-lo e colocá-lo de cabeça para baixo.
Imediatamente saí da sala e encerrei a porta à minha passagem para começar a busca pelos meus outros eus.
13MAR2011
.
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
MORTE NA ARENA
.
Ouve-se o bruar da multidão.
Disputa-se a final do torneio de xadrez: “Máquina contra Homem”.
Assiste ao evento um estádio repleto que observa os representantes de cada equipa sobre o quadrilátero.
A figura antropomórfica de um andróide representa os milhares de gigas de memória que vão competir contra os exercitados músculos da brilhante mente humana.
Milhões de telespectadores acompanham o evento.
Evolucionado o jogo, o homem, jogando com as peças brancas, faz o seu movimento, saca de um afiado punhal do seu cinto e coloca-o na garganta de seu oponente.
O jogador das peças pretas, frio como o aço, antecipa-se à clássica ansiedade do seu adversário e com a tranquilidade que só uma máquina pode manusear, move a torre, desembainha um revolver e aponta-o à cabeça do ser humano.
Dispara sem duvidar.
Um pequeno corte sobressai sobre a pele artificial que cobre o pescoço do vencedor.
Um supercomputador fabricado pela Fujitsu converteu-se no computador mais rápido do mundo, segundo a classificação TOP500, elaboradas por universidades americanas e alemãs e recolhida pelo diário Nikkei.
A lista dos computadores mais rápidos do planeta, efectuada duas vezes ao ano, coroou o computador japonês, baptizado como “K” (ainda em desenvolvimento), como o mais veloz.
“K” o nome da palavra japonesa “kei”, que significa 10 biliões, é um supercomputador localizado no Instituto RIKEN do campus de Ciências da Computação em Kobe, Japão.
“K” alcançou o melhor rendimento de referência Linpack de 8162 petaflops (mil biliões de operações de pontoflutuante por segundo), para ser colocado no topo da lista.
Além disso, o sistema registou um altíssimo nível com um rácio de eficiência de 93 %, o que o tornou no mais rápido do mundo.
Com este reconhecimento, o Japão, colocou-se pela primeira vez (nos últimos sete anos) no topo da classificação que historicamente liderou junto com os EUA (nos últimos anos tinha sido ultrapassado pela Índia e China).
Citado pelo Daily Telegraph, o investigador define o "K" como «uma máquina bastante impressionante», que ocupa 672 compartimentos, consome a mesma energia do que cerca de 10 mil casas e custa 10 milhões de dólares por ano aos seus criadores.
12JUL2011
.
domingo, fevereiro 26, 2012
O SAPO
.
Ao limpar os tapetes do meu táxi, encontrei uma pastilha esbranquiçada com a aparência de um caramelo, o típico caramelo para a tosse.
Sugestionado, talvez por aquela descoberta, comecei a tossir sem controlo.
Assim, o impulso seguinte foi comer o rebuçado.
Não era de menta ou eucalipto como pensei.
Tinha um sabor bem mais ácido, a 'modos que' corrosivo, mas conseguiu radicalmente eliminar-me a tosse.
Continuei com as minhas limpezas enquanto o rebuçado se derretia na boca e nisto, levantando um tapete do chão do táxi, encontrei uma nota manuscrita e assinada mesmo por Henry Miller:
“Se algum homem se atrevesse alguma vez a expressar tudo o que transporta no coração, a consignar o que é realmente a sua experiência, o que é verdadeiramente a sua verdade, acho que então o mundo se faria em fanicos, que voaria em pedaços e nenhum deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia voltar a juntar os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que intervieram na construção do mundo”.
Notei que alguém me tocava no ombro.
Voltei-me.
Era Cavaco Silva com o uniforme da bomba de gasolina perto de minha casa.
Na mão levava um saco de plástico quase cheio de água e com um peixe a nadar lá dentro.
O saco tinha um pequeno furo e saía água, mas ele parece que não se dava conta.
Estendeu-me o saco ao mesmo tempo que se aproximava de mim para me dar um beijo, mas consegui safar-me e correr para a loja de conveniência da bomba de gasolina.
Aí encontrei uma máquina de ovos e abracei-me a ela.
Tinha um tacto suave: surgiu o amor repentino (à primeira vista, ou ao primeiro contacto).
Voltei-me.
Era Cavaco Silva com o uniforme da bomba de gasolina perto de minha casa.
Na mão levava um saco de plástico quase cheio de água e com um peixe a nadar lá dentro.
O saco tinha um pequeno furo e saía água, mas ele parece que não se dava conta.
Estendeu-me o saco ao mesmo tempo que se aproximava de mim para me dar um beijo, mas consegui safar-me e correr para a loja de conveniência da bomba de gasolina.
Aí encontrei uma máquina de ovos e abracei-me a ela.
Tinha um tacto suave: surgiu o amor repentino (à primeira vista, ou ao primeiro contacto).
Como demonstração do meu amor para com a máquina, peguei numa moeda, rodei o manípulo e saiu-me uma bola com um mamilo erecto dentro.
Como é complexo o sexo, pensei.
Consegui abrir a bola e ao ver Cavaco Silva a correr (desta vez vestido de Harry Potter), fiz-me pequeno, meti-me na bola e fechei-a por dentro.
Escondi-me atrás do mamilo e por sorte Cavaco Silva passou ao largo.
Depois tropeçou e espetou a varinha mágica no... num dos costados.
Imediatamente se converteu num sapo com cabelo, mas eu não tive nada a ver com isto.
Juro-o!
Como é complexo o sexo, pensei.
Consegui abrir a bola e ao ver Cavaco Silva a correr (desta vez vestido de Harry Potter), fiz-me pequeno, meti-me na bola e fechei-a por dentro.
Escondi-me atrás do mamilo e por sorte Cavaco Silva passou ao largo.
Depois tropeçou e espetou a varinha mágica no... num dos costados.
Imediatamente se converteu num sapo com cabelo, mas eu não tive nada a ver com isto.
Juro-o!
.
sábado, fevereiro 25, 2012
ÁRVORE DAS PATACAS
.
![]() |
| Tirada DAQUI |
Naquele tempo o meu avô vivia no campo, longe de casa e os meus pais levavam-nos a visitá-lo sempre que podiam.
A minha irmã e eu sentíamos uma incrível fascinação por ele.
Além disso, se ainda fosse pouco, no pátio da sua casa tinha uma imensa planta de caramelos.
“Tenho um chorão (salgueiro) que começou a dar caramelos de chocolate”, contou-nos numa das nossas visitas e imediatamente nos conduziu à árvore que estava por detrás do armazém onde guardava o tractor.
Desde aquele dia, quando os nossos pais nos deixavam ficar a dormir, o avô levantava-nos para tomar o pequeno almoço e ao terminar dava-nos permissão para juntar «os frutos do chorão mágico», como lhe chamava.
Lamentavelmente, no dia em que o avô faleceu, a planta dos caramelos de chocolate perdeu a sua magia para sempre.
Ainda estranho estar sentado sobre os seus ombros, cortando os fios que atavam os frutos aos ramos…
04JUN2011
.
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
CLONAGEM
![]() |
| Tirada daqui |
“Duas cabeças pensam mais do que uma”, interiorizou-o o cientista e sem duvidar, começou com as suas investigações.
Entusiasmado leu alguns livros e manuseou algumas células mãe até que finalmente logrou clonar o seu crânio.
Durante vários meses fez testes com tartarugas até que finalmente se sentiu seguro para agregar um novo crânio ao seu próprio corpo.
Entusiasmado leu alguns livros e manuseou algumas células mãe até que finalmente logrou clonar o seu crânio.
Durante vários meses fez testes com tartarugas até que finalmente se sentiu seguro para agregar um novo crânio ao seu próprio corpo.
A cirurgia, praticada por ele mesmo, num acto de soberba auto-suficiência, durou um dia completo.
O resultado foi um retumbante êxito total.
“Efectivamente duas cabeças pensam mais do que uma”, corroborou o cientista fazendo uso das suas duas mentes com as que depois reflectiu sobre alguns detalhes estéticos em que não tinha reparado.
Junto com o cérebro, também vieram adjuntos dois olhos, duas orelhas, um nariz, e uma boca.
Agora que pode pensar duas vezes, arrepende-se.
16MAR2011
.
O resultado foi um retumbante êxito total.
“Efectivamente duas cabeças pensam mais do que uma”, corroborou o cientista fazendo uso das suas duas mentes com as que depois reflectiu sobre alguns detalhes estéticos em que não tinha reparado.
Junto com o cérebro, também vieram adjuntos dois olhos, duas orelhas, um nariz, e uma boca.
Agora que pode pensar duas vezes, arrepende-se.
TARTARUGA COM DUAS CABEÇAS
(a da esquerda, Magda, a da direita Lenka)
(a da esquerda, Magda, a da direita Lenka)
16MAR2011
.
quinta-feira, fevereiro 23, 2012
ÚLTIMA GOTA
.
Bar um milhão num turbilhão.
Onze e trinta da noite (ou vinte e três e trinta).
Cinco mesas vazias, uma máquina caça-níqueis ilegal, modificada e dissimulada num qualquer inocente joguito, outra de tabaco, paredes lisas e o balcão custodiado por um barman com olheiras cor licor de amora.
No total, sete clientes; um com um copázio na mão na ilegal máquina de poker e os outros seis ao balcão, bebendo sozinhos, em silêncio.
Sento-me no único tamborete livre, no extremo esquerdo do balcão e peço uma cerveja.
– Fino ou garrafa?
– Garrafa.
Sempre.
Deito um olho ao táxi.
Continua em segunda fila.
Rua calma.
Não há problema.
O empregado serve-me a cerveja e junta um pires (para petiscar) com algo difícil de decifrar.
Parecem bocaditos de carne com molho de tomate.
Ou fragmentos de dedos gordurosos recentemente mutilados.
Comerei por decoro.
Curioso mundo dos petiscos.
Curioso este costume.
Não pedi isto.
Bem-vindo seja.
O paroquiano número cinco pede: “outro caneca, Pedro”.
O número três sai até ao passeio para fumar.
Todos parecem cortados pelo mesmo padrão.
O padrão de um alfaiate com Parkinson.
Cada um no seu mundo.
Cada caneco fazendo as vezes de oráculo.
Dá-me um “Tomatin Single Malte 18 Anos” de apoio e moverei o meu mundo.
Deus fliparia (alucinar-se-ia).
Dante, ainda mais.
Nisto, ao cliente da merda da máquina caça-níqueis, sai-lhe a “sorte grande”.
Tilintam 120€ numa gaveta na parte inferior da máquina.
Olha em redor, desconfiado ou querendo avisar os restantes da sua boa hora.
Não parece ter êxito.
Ninguém despega os olhos dos copos.
Pescoços flácidos: eu mesmo com o meu mecanismo.
De que serve ganhar cento e vinte euros se ninguém viu, para além dele?
Volta a introduzir moedas.
Pede outro whisky com coca cola.
Agora o barman muda de canal com o comando à distância.
Futebol em diferido, televendas, horóscopo, filme a preto e branco, ténis.
Detém-se sobre um documentário acerca do cosmos.
Aparecem estrelas fugazes.
O barman observa a televisão e suspira.
Levanto-me e vou à casa de banho.
Sento-me na retrete, puxo pelo telemóvel e procuro na agenda a Eduarda.
Depois de tanto tempo sem saber dela, envio-lhe uma mensagem:
AMO-TE.
16MAR2011
.
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
A VOZ À MINHA VIZINHA (Parte II)
.
... continuação.
Na escola chegaram um dia a mandar-me ao psicólogo, apanharam-me no quarto de banho a falar comigo mesma…
Mas para minha surpresa, essas raridades levaram-me direitinha ao reino da loquacidade; onde melhor se poderia perder, que nessa consulta, uma mulher amante das boas e eternas conversas?
Porque ainda que pareça que é falar por falar, não é bem assim, enquanto duram os cruzamentos de frases e as chuvas de pensamentos, um grupo de mulheres compartilha o seu tempo sem outra preocupação que falar e falar.
Além disso sempre se aprendem coisas novas e quando a conversação perde o ritmo e não sabes como prosseguir, o melhor é voltar onde se iniciou e começar a desbobinar o fio.
Ainda que às vezes fique sem fala, com a graciosidade que tenho e o que gosto de dar à língua.
Pois sim, de repente, invade-me o silêncio, até creio que se me pusesse a dizer algo me espalharia.
– Olha para ti, ficaste calada, de certeza que acabas de dar conta de que ‘ele’ entrou.
Desde logo filha, é o único homem que te consegue deixar sem palavras por um instante.
– Não estou calada, o que se passa… é que quando o vejo dá-se-me um nó e nesse instante, tudo o que tinha previsto dizer-lhe, como que se evapora da mioleira e claro, as ideias amontoam-se e não sei o que se passaria se abrisse a boca.
O pior de tudo é que me dou conta de que, quando se passa isto, até mudo o tom de voz e oiço-me dizer um: “Olááááá”, que parece saído de um romance dos anos vinte, com voz esganiçada ridícula e o último “á” soa a: dá-me um lenço que me cai a baba.
Mas é que isto é o bom que tem ser mulher, que todas estas saloiadas vão diluídas nas nossas hormonas e é a desculpa perfeita para justificar que não temos culpa de nada, são enganos simples que nos gastam a nossa genética.
E como ficamos prontas muito antes, aproveitamos pois, porque nos encanta desfrutar de eternas pequenas conversas saborosas.
Assim, agradeçamos ao calendário o detalhe de presentear um dia para honrar todas as mulheres: ás mães que dão a vida, ás irmãs que a compartilham e ás filhas que continuam com o sorriso de suas avós.
Mas que conste, que nós, fiéis aos refrãos, se por acaso, já tínhamos escolhido o resto do ano para dedicámo-lo porque pode suceder que o dia indicado não seja ao nosso gosto.
Mulher prevenida, vale por duas.
(A minha vizinha).
14MAR2011
.
terça-feira, fevereiro 21, 2012
A VOZ À MINHA VIZINHA (Parte I)
.
Aqui está a solicitação da minha vizinha (que eu não podia, de maneira nenhuma, recusar):
Já sei que, a nós mulheres, não há quem nos entenda e que, também, somos nós que nos complicamos a vida e muitas coisas mais.
Mas vejam, até temos um dia do ano dedicado só a nós e deve ser por algo importante, digo eu.
Ainda que tenha que confessar que, a mim, gostaria que os homens também tivessem o seu, que não sou nada invejosa e como tal, gosto de celebrar algo…
O “Dia do homem”, mmm..., soa-me um pouco estranho, mas pois bem, que tudo seja pela igualdade, que depois não se queixem alguns e com razão, ouve…
Porque, vamos lá, não dedicar-lhe nem um só dia, ou quiçá é que lhos dedicamos todos.
Uma coisa que eu acho muito impressionante é ver como somos capazes de falar durante horas ao telefone, somos as únicas que realmente amortizamos a taxa de tarifa plana.
– Mas de que é que necessitamos falar tanto?
Pois é muito “facilíssimo”, os temas vão-se enlaçando e entrelaçando maravilhosamente e assim se vai passando o tempo e quando nos damos conta de termos passado toda a tarde sentadas na varanda, o sol já se pôs e ainda somos capazes, ao despedirmo-nos, de soltar:
“Bom, já falámos de manhã” .
Não falha com a minha mãe, minhas amigas, minhas companheiras ou minha irmã, todas as mulheres, sem excepção, somos estupendas tertulianas.
– Recordas-te do que te contei a semana passada?
Pois inteirei-me que não a tinham convidado…, e assim começamos de novo por onde iniciámos, porque claro está, este último detalhe muda totalmente a visão do assunto.
E está aberto o debate, todas a opinar e cada uma a sua versão, que supostamente faz parte das suas próprias experiências.
Se é que nos envolvemos a falar de sentimentos e acabamos choramingando porque não nos dá na real gana controlar as nossas emoções, por isso somos mães e abraçamo-nos e apoiamo-nos umas nas outras, que isso, em nós, mulheres, é uma mostra de amizade e companheirismo.
A verdade é que cavaquear, para mim, é relaxante e uma magnífica terapia.
Quando era pequena até falava só, de maneira a não estar calada, sozinha interrogava-me e respondia-me ao mesmo tempo.
continua ...
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
IMPARÁVEIS INSUBMISSOS
.
Durante os últimos dias li o livro de Gene Sharp, “From Dictatorship to Democracy” editado pela Albert Einstein Institution (Janeiro de 2008, Boston).
Este livro, realmente fascinante, constitui um autêntico manual de acção para a revolução pacífica.
Foi, ao que parece, o livro de cabeceira de muitos dos “protestantes” pacíficos nos países árabes, que utilizaram os conselhos deste sábio, desconhecido para muitos.
O mérito não é totalmente seu, pois as redes sociais ajudaram a difundir, entre a população civil árabe, os casos de corrupção dos ditadores desses países, postos em evidência por – entre outros – Wikileaks, cujos fios condutores foram postos a nu pela imprensa.
Esta revolução pacífica deixa-nos, a todos os que não sofremos na própria carne, fascinados e intranquilos.
Apesar da reacção dos ditadores (genocidas, como no caso de Gadafi ou Khadafi), os “protestantes” aguentam as provocações e os assassinatos convencidos de que o fim que perseguem é mais valioso que a sua própria vida.
Fascina-me por variadas razões.
A primeira, pelo inesperado do movimento e da valentia dos seus intérpretes.
Enquanto todos os cristãos ocidentais intentam avistar a luz ao fundo do túnel (que eles mesmos escavaram), eles acendem focos de esperança por uma vida melhor, mais digna e livre.
Mas também me fascina, pela importância do facto.
Junto com a queda do muro de Berlim, este é possivelmente o acontecimento mais relevante da história recente.
Mas ao mesmo tempo intranquiliza-me.
Como é possível que não haja lideres claros à frente destas revoluções?
A história ensinou-nos que a derrocada de ditaduras pode dar lugar, ás vezes, a ditaduras piores se a insurgência é aproveitada por pérfidos.
Mas não menos preocupante parece-me a nossa atitude, os ocidentais, democratas de toda a vida, que acompanhamos as notícias, fazemos declarações e condenações estabelecidas.
E, enquanto isso, repassamos urgentemente os arquivos, temerosos de encontrar informações comprometedoras das relações que mantivemos com estes sátrapas.
.
Claro, quanto a Berlim (1989) não havia petróleo em jogo, nem gás, nem vendas massivas de armamento a uma zona militarizada.
Agora, em lugar de ajudar, preocupamo-nos com a pressão do gasoduto, do estado do oleoduto, da carteira de encomendas de pedidos de armas, do possível fluxo migratório até aos nossos países, da cara de Israel, do saldo líquido comercial…
E esses povos?
Os povos árabes isentam-se a si mesmos, procuram a liberdade, a dignidade e um futuro melhor escolhido por si mesmos e liderados pelos seus.
Enquanto isso, nós os ocidentais, democratas de longa vida, temos lucros na Bolsa de valores e não por acaso.
“A liberdade nem sempre é livre”.
06MAR2011
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



























