O VIDEIRINHO

terça-feira, maio 01, 2012

IRRADIAÇÃO e CAPTAÇÃO




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Só me fixei naquele detalhe já o trajecto ia bastante avançado. 

Neste caso, aquela passageira do meu táxi, não sei se por descuido ou deliberadamente, levava espatada no pescoço, a escassos centímetros da sua orelha esquerda, uma agulha de acupunctura. 

Pode muito bem acontecer que o seu médico acupunctor se tenha esquecido de a retirar ou, talvez a tenha deixado cravada na sua pele como parte do processo curativo. 

Por prudência não disse nada, (também que dizer nestes casos?: “Você sabe que tem uma agulha espetada no seu pescoço?"), mas não pude evitar que aquela imagem me mantivesse por longo momento pendente do espelho. 

Tenso e pensativo. 

Num semáforo peguei no telemóvel para colocar no Twitter uma anedota que me ocorreu, mas nisto vejo no ecrã um aviso com a seguinte solicitação de contacto: 

 

Verónica Lopes deseja contactar contigo via Bluetooth. ACEITAR/REJEITAR”. 

Por curiosidade aceitei (e porque no fundo me sinto só e gosto de desafios).

Nesse instante apareceu-me uma mensagem da tal Verónica Lopes: 
Baixe um pouco a temperatura, por Deus! Estou a assar...” 

Olhei a passageira. 

Estava no seu mundo, observando alheada a rua. 

Baixei um par de graus a temperatura e nisto a passageira sorriu, ainda que sem sequer olhar para mim, nem disse nada. 

Depois chegou-me outra mensagem: 
Gosto muito dessa canção. 
Pena é que o volume esteja tão baixo”. 

No rádio soava “Love will tear us apart” de Joy Division. 

Aumentei o volume e então ela olhou-me surpreendida, arqueou as sobrancelhas e voltou a sorrir-me 


Aí soube que através daquela antena, digo, agulha cravada no seu pescoço podia aceder com o meu telemóvel aos seus pensamentos sem que ela o soubesse. 

Mas ainda desconhecia se aquele invento era reciproco. 

Poderia meter-me na sua cabeça? 

Para comprová-lo pensei em enviar uma mensagem a Verónica Lopes através do telefone. 

Escrevi: 
Fecha os olhos”. 

E ela fechou os olhos. 

Uau!, pensei. 

Humedece os lábios, languidamente, com a língua”, voltei a escrever. 

E ela assim o fez. 

Aproxima-te do taxista e beija-o na boca”. 

Verónica colou-se entre os assentos dianteiros e com os olhos cerrados juntou os seus lábios com os meus. 

Enquanto me beijava intentei teclar o meu próximo desejo, mas ao mover-me desprendeu-se a agulha do seu pescoço. 

 
 
Nisto abriu de súbito os olhos e, ao ver-se tão pertinho de mim, afastou-se como um raio e deu-me uma sonora bofetada. 

Então saiu do táxi batendo a porta. 

Pelo menos tenho a sua agulha em meu poder. 

Cravei-a na mesma zona do pescoço que ela e tentei pôr-me em contacto comigo mesmo via Bluetooth para interagir comigo mesmo e obrigar-me a levar melhor vida através do telemóvel, mas não funciona. 

Agora estou num bar. 

Confuso e borracho como todas as noites.
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segunda-feira, abril 30, 2012

- É mais fácil enganar um povo do que um homem !

FELICIDADE

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Hoje ao retomar ao mundo da escrevinhice, vou propor umas dúvidas existenciais. 

Realmente acreditais que o mais importante nesta vida é ser feliz?   

Acima de tudo e de todos? 

Temos que renunciar a certas coisas para conseguir a felicidade ou acaso a felicidade consiste, precisamente, em não ter que renunciar a nada? 

Mas que raio é a felicidade? 

O que eu penso que penso : 

"A felicidade é precisamente não fazer estas perguntas. 
É como o amor, se tens que te interrogar se queres a alguém ou não, é porque não a queres. 
A felicidade é igual. 
De todos os modos não existe, a base do género humano é o inconformismo, assim que ninguém será mais que pontualmente feliz. 
O que já não é pouco. 
Também, penso, que o mais importante não é ser feliz, não acredito que ninguém se possa sentir feliz durante muito tempo, porque a felicidade é frágil por natureza.
Penso que é assim porque não depende só de nós, escapa-se-nos das mãos…  
O mais importante é sentirmo-nos completos, perfeitos, orgulhosos de nós mesmos, tranquilos. 
Basicamente porque temo-nos que aguentar durante muito tempo… 
Quiçá isto seja, para alguém, um tipo de felicidade"

 
 
Em todo caso, é um tema muito particular… como tudo o que diz respeito aos sentimentos. 

A felicidade é o não desejares nada mais, a ninguém, é a paz que se sente quando não queres que nada mude. 

Epicteto dizia:
 “A felicidade não consiste em adquirir nem em gozar, mas sim em nada desejar, consiste em ser livre”.

 Mas se não fizermos caso de Freud, que sabia muito de psicologia mas depois era um triste e dizia que: 
“Existem duas maneiras de ser feliz nesta vida, uma é fazer-se de idiota e a outra sê-lo”.
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domingo, abril 29, 2012

- Sou eu que crio o meu amanhecer e o meu ocaso ! (josé torres)

FERRETE

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 A “garina”* estendeu-me um pedaço de papel quadriculado com um endereço escrito a esferográfica azul. 

Por baixo da rua e número do ‘cliente’ que ia “visitar”, fixei-me na seguinte anotação:  60-30m+2T. 

Segundo a minha experiência taxista no transporte de “garinas”, 60 será o preço estipulado para meia hora (30m). 
Os táxis de ida e volta também são a cargo do cliente (+2T). 

De facto, ao sair do táxi e como tantas outras vezes, a p*ta pediu-me um recibo que depois entregaria ao “cliente” como justificação do pagamento. 

Aparte a frieza que representa procurar prazer noutro corpo desalmado como quem compra um quilo de carne picada, nesta ocasião deu-me para pensar nos motivos do preço: porque é que “saltar p'ra cima” desta “artista”, ou ela deixar-se “montar” pelo cliente, custava 60€ e não 50, ou 250, ou até 25.000? 

Que listas ou escalas determinam as tarifas de aluguer de corpos? 

 


Aí está o atroz: é o mercado. 

A beleza relativa mede-se em euros: o número ou grandeza do sutiã, o peso, as medidas (o traseiro, cintura, peito, altura), as características, a cor do cabelo, a cor da pele… a nacionalidade. 

É importante a nacionalidade: as mais caras em Portugal são sempre portuguesas, também cotadas em alta estão as japonesas (não confundir com chinesas ou asiáticas), as belezas nórdicas depreciaram-se à medida que aumentou a oferta de russas e ucranianas e desceu o seu prestígio (para saber bem até que ponto nós, os portugueses somos racistas não é necessário mais do que saber o preço médio das putas, em função do seu país de origem). 

Numa bitola, digamos, média baixa, teremos as espanholas, brasileiras, africanas e latino-americanas. 

Aparte, padroniza-se a beleza até atingir um grau de objectividade consentida que assusta, somada a uma macabra lei da oferta e da procura. 



Estamos a falar de seres humanos negociando com a profissão mais antiga do mundo. 

Estamos a falar da casualidade de ter nascido num meio ou outro (elas), com umas ou outras características físicas também fruto da casualidade (elas), cujo conjunto determinará quanto será capaz de pagar o homem, qualquer homem com dinheiro, quer ele seja bonito, feio, asiático, obeso ou maníaco depressivo (o dele não importa). 

Ela, essa “garina”* em questão, do meu táxi, tinha consciência de que não podia cobrar mais de 60€ dada a concorrência, ou a crise, ou o seu grau de beleza padronizada numa escala do zero ao dez. 

Tirada daqui 
O seu trabalho consistia em atrair clientes através de um anúncio no JN, aceder aos encontros, abrir as pernas e engolir (no duplo maldito sentido da palavra). 

Desconheço, como é lógico, os motivos que a levaram a ser p*ta, se forçada (a maioria, desgraçadamente, exerce contra a sua vontade) ou por decisão própria. 

De qualquer maneira há algo nesta sociedade que não funciona. 

Nunca funcionou. 

E continuará sem funcionar. 

*”Escrevo "garina”, para não começar, logo de entrada, com ‘puta, que é afinal o vernáculo.
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sábado, abril 28, 2012

- Há um clube de viúvos excepcional. Inscreves-te, ainda casado, por só 500 € e eles tratam de tudo o resto !

DOS DELES...


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E aí, quando tratava de cruzar a Av. dos Aliados para o túnel de Ceuta, vindo de Magalhães Lemos, ao volante do meu táxi, é que me dei conta. 

Não só me deram “cabo da mona”: também se me esgazearam os olhos. 

Viste aquele “xico esperto” que se plantou diante do teu táxi e te obrigou a travar? 

Se não buzinas não passas”, gritou-te eufórico ao mesmo tempo que ondulava a bandeira da sua equipa de futebol. 

Este tipo e outros centos deles que, em conjunto, faziam alas na avenida, creditavam-se triunfadores, orgulhosos, felizes: como possuidores da verdade absoluta. 

E eram jovens, como tu. 

Ali vitoriando, olé!, olé!, encontrava-se o futuro de um país que, inexoravelmente, está a ir para a merda. 

A nossa geração perdida louvaminhando o triunfo de uma equipa composta por multimilionários sem estudos, os heróis do nosso particular circo romano. 

 

Agora pensaste, as empresas ou “os outros” manipulam os nossos sentimentos, por ordem alfabética: “Benfiquista, Portista ou Sportinguista (escolhe a teu gosto, a tua ‘religião’)”, até à medula, orgulhoso dos feitos e conquistas de Mourinho, do Ronaldo, da dupla campeã do mundo, Beatbombers (DJ Ride e Stereossauro).

Não importam as dívidas dos clubes de futebol ante um país em ruína. 

Não importa que as nossas maiores empresas por “trocadalhos do carilho” tenham deslocado a sede para a Holanda e aí paguem os impostos, chegando-se ao inédito de até as empresas públicas “fugirem”, (para dar o exemplo, calculo eu). 

Sempre ficaremos nós, os que sustentamos esta alcateia de chulos. 

Assumimos, sem tugir nem mugir, a escalada dos preços dos combustíveis enquanto a Galp distribui milhões de euros em benesses a administradores executivos. 

 

Tão-pouco parece importar as facadas na saúde e a subida das respectivas taxas,  o corte na educação, em todas as suas vertentes, o assalto aos bolsos dos contribuintes, nomeadamente os de rendimentos mais baixos, retirando-lhes as parcas regalias, mas aumentando o IVA, IRS, IRC e “familiares” destes impostos. 

A subida da luz, do gás, dos transportes… do DESEMPREGO!!!

A fuga de cérebros e da mão d’obra mais qualificada. 
 
O importante é que ganhem os nossos. 

Mas então, com jovens a gritar eufóricos “se não buzinas não passas” à volta do táxi, o teu passageiro diz-te: 

- Buzine, buzine. 

E tiveste que buzinar, e abriram-te a passagem porque pensaram que eras um dos seus, um deles. 

Mas tu não te sentiste dos seus (deles). 

Talvez até não te sintas de ninguém. 

Nunca mais.
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quarta-feira, abril 25, 2012


CANÇÃO PARA UM POVO TRISTE  - VIEIRA DA SILVA


LIBERDADE

Nasci quase em segredo amedrontada
Sou filha dum Abril e da aventura
Comigo iniciou nova alvorada
Que pôs fim à mais longa ditadura.

Fui trazida pela mão de alguns bravos
Sem sangue esta revolta foi capaz
Trocando as suas armas pelos cravos
Em sinal que este gesto era de paz.

Meu grito chamado Vila Morena
Trazia no peito fraternidade
E a promessa de liberdade plena.

Instaurei o direito à igualdade
Sou vossa, estou aqui, valeu a pena
Nasci p'ra todos vós... Sou Liberdade!...



quinta-feira, abril 12, 2012

SUCESSOS

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Sempre me foi muito complicado opinar sobre o mundo da arte. 

Por um lado creio que há muito artista impostor, que o único de arte que lhe reconheço é precisamente viver dela e, por outro, muito público talibã e néscio que espezinharia uma obra e lapidaria o autor pelo mero facto de não entendê-la. 

Nos concursos de misses não é a mais bonita do universo quem ganha o certame, é simplesmente quem é eleita pelo júri, entre as que se apresentam. 

Creio que nas diferentes disciplinas artísticas ocorre o mesmo... não é o melhor pintor quem é representado por uma importante galeria, é o mais cotado, mas não o melhor. 

Conheci péssimos artistas com mais lábia que discurso e magníficos criadores carentes de veia comercial.




O divórcio existente entre público e arte, parte muitas ocasiões do criador, a figura do artista excêntrico que levita lançando-nos a sua obra para ser interpretada enquanto se retira, voltando-nos as costas, é ridícula. 

A arte é comunicação, assim, quem pretender reduzi-la a uma expressão, onde só uns poucos privilegiados, dotados de um dom divino são eleitos para saboreá-la, estão sujeitos ao fracasso. 

Como seria uma feira internacional de arte se ocultassem o nome dos artistas e das galerias?

Quem abriria os cordões à bolsa? 

Não estou a tentar desacreditar nada, nem ninguém, pelo contrário. 

Creio cegamente em todo o tipo de corrente ou expressão artística, indo ao ponto de acreditar nas que não gosto. 

O que penso é que se devia estabelecer mais pontes entre a arte e o público. 

 

Acho que é paradoxal assistir a inaugurações onde os participantes estão mais dependentes de se deixarem ver e olhar por quem os observa, do que observar o que tinham ido ver. 

Não gosto da arte quando se converte em negócio e não gosto dos simplistas que atacam qualquer iniciativa artística “diferente”, gosto das mentes criativas que empregam a arte como dique de contenção alternativo ante outras formas superficiais de desfrutar e entender a vida. 

Gosto dos pais que levam os seus filhos a exposições e museus, gosto de todos os criadores que criam por necessidade de criar. 

Gosto dos artistas que gostam de outros criadores. 

Não gosto de contadores de histórias.
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domingo, março 25, 2012

- A misericórdia também corrompe !

EXCESSIVAMENTE

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A paixão demonstra-se respirando. 

É paixão os olhos arregalados como faróis, as unhas que ameaçam, um gemido. 

A gravata vermelho escuro de um servidor público, a camisa enrugada do cientista, o aposentado apalpando os melhores kiwis, o impoluto livro de registos do bibliotecário, o segurança com seu pin de Star Trek, os orgasmos de uma puta. 

O taxista que toma nota de tudo: origem e destino de cada usuário, os seus tiques, a que cheiram, a cor dos seus olhos ou para onde olham. 

Paixão é cantares muito a sério e muito mal nos karaokes, ires sozinho aos karaokes, comprares flores para ela, tentares caminhar em linha recta quando vais bêbado e ninguém olha. 

 

Paixão é maquilhares-te para ires comprar pão, sublinhares como realce, os livros, fazeres footing, cada dia, ás oito e meia, sonhares com uma ilha, fotografares objectos. 

Paixão é marimbares-te para o árbitro, dar murros na mesa, chorares com Unchained Melody dos Platers, ter visto Pulp Fiction mais de cinquenta vezes, passares os teus apontamentos a limpo, procurares droga numa cidade que não conheces. 

Paixão é chupares os bornes de uma pilha de 9 volt, lavares e aspirares o carro aos domingos, dizeres ao padre que te masturbas. 

Paixão é comentares neste blog, insultar a mãe que pariu o blogueiro. 

Paixão é querer continuar a viver. 

Contra tudo e contra todos e seja a que preço for.

A vida é um bem que se não sente!!!
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sexta-feira, março 09, 2012

- Será que no "photoshop" é possível retocar a minha biografia ?

O ENGANO

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Gustavo era um homem que tinha grande capacidade de transformar o seu próprio corpo quando necessitava e, as transformações davam-se, maioritariamente, quando havia uma mulher presente; era inexorável. 

Gustavo, possuidor de um dom certamente estranho, podia inflar o peito, endireitar as costas, meter a pança para dentro (não por via endoscópica) e apresentar marcas de abdominais numa questão de segundos. 

A princípio não conseguia aguentar a mutação durante muito tempo e portanto, passados pouquíssimos minutos (dois ou três), necessitava de soltar-se.



Deixava que o seu corpo voltasse ao seu estado normal e nesse preciso momento renasciam as gorduras, caiam os ombros e esvaziava-se o peito. 

Ainda assim, Gustavo continuou a treinar e a melhorar a sua destreza, aguentando cada vez mais tempo a postura ideal, até que hoje em dia, especialista em metamorfoses, só solta a pança de noite, recostado na sua cama, quando já ninguém pode ver a sua verdadeira figura e a sua companheira acabou de fugir com medo do “monstro”. 

22MAR2011
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quinta-feira, março 08, 2012

- Hoje todas as ruas e avenidas levam-me ao teu baixo-ventre !

PARABÉNS

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O miúdo observou com particular atenção o comportamento dos seus 'companheiritos' de escola. 

Como um Pai Natal, não tão gorducho, muito mais jovem, sem barba e roçando o metro e meio de estatura, analisou como era tratado pelos seus amigos e amigas e, de se ver atacado ou envergonhado por um deles, ditava a sua sentença no acto. 

«Agora não te vou convidar para o meu aniversário», informava sem titubear e ao longo do ano teve necessidade de realizar a ameaça em sete ocasiões diferentes. 


Tal foi assim que uma semana antes do seu aniversário, ajudado pela sua mãe, mandou os envelopes com os convites a todos os seus amigos. 

Mas para os sete Judas que de alguma ou outra maneira o tinham ofendido, ele mesmo se encarregou de preparar sete cartões especiais. 

Recordo-te que não estás convidado para a minha festa de anos”, escreveu como maneira de vingança.

 

Uma adolescente de Chatswood, New South Wales (Austrália), teve que cancelar a sua “pequena festa de anos” depois de umas 200.000 pessoas, ás quais não tinha convidado, confirmarem a sua comparência pelo Facebook. 

Jesse queria entrar nos seus 16 anos com amigos e não lhe ocorreu outra ideia que anunciar abertamente através da citada rede social, segundo o tabloide “Sydney Daily Telegraph”

A estudante publicou no seu mural que “não tinha tempo para convidar (pessoalmente) cada um” e por isso pediu-lhes que passassem a palavra a outras pessoas. 

“É uma festa aberta, com a condição de haver um certo controlo”, rezava o convite da jovem. 

No dia imediato ao de colocar o anúncio, a estudante do bairro de Chatswood, deparou-se com a surpresa de que mais de 20.000 pessoas já tinham confirmado a sua presença  e uns dias depois o número tinha-se multiplicado por dez, até ás 200.000 pessoas, porque continuavam a responder ainda que ela tenha anulado o convite. 


Segundo o diário australiano, o convite foi “sequestrado” por membros do grupo, denominado “Anonymous” que o propagou como um vírus para todo o mundo. 

No final a jovem pode celebrar o dia de anos com os seus amigos, numa festa privada, em casa e com agentes da polícia no exterior, para evitar incidentes. 

15MAR2011 
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quarta-feira, março 07, 2012

- Nem todos os olhos fechados dormem, nem todos os olhos abertos vêem !

O NADA

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Autor: ROBERT RYMAN
Foi Robert Ryman, (pintor americano, Tennessee, 1930), que desenvolveu a sua pintura de estilo minimalista no final dos anos 50 e com o tempo deu uma volta a obras monocromáticas que mais tarde se converteram em obras exclusivamente brancas, fazendo com que a textura da tela passasse a ser uma característica destacada do quadro. Sistematizou o processo da pintura até ao extremo para demonstrar que a simples tarefa de cobrir uma tela com pinceladas repetidas poderia ser em si mesmo o tema da obra. A pintura sem título que se exibe aqui, mostra principalmente as múltiplas possibilidades que existem mesmo quando um artista se limita a pintar quadros brancos em habitações brancas.
E eu que pensava ser inteligente, sem demérito dos meus leitores, afinal, além de não ver para além do nada, também nada “pesco” de pintura. 
Há “gandas” pintores do nada!!! (as redundâncias são propositadas).





O guia do museu pára diante do quadro e o grupo coloca-se em semicírculo para poder apreciar uma tela totalmente vazia, carente de cores e formas, uma tela desnuda. 

Enquanto todos se entreolham de soslaio tratando de entender o que parece ser uma falácia, o guia esforça-se por encontrar a arte da pintura: 

- “Nesta obra podemos ver como o artista expressa “o nada” desenvolvido no seu trabalho. 

Na pintura, desconhecida antes de começar, vazia como um corpo sem alma, simplesmente vemos uma tela. 

A inexistência do trabalho exposto está proposta pelo pintor de maneira a reflectir sobre a presença real do mesmo. 

Uma peça excepcional, isenta de pinceladas, representa tanto o começo como o fim, questionando a relação do espectador com respeito ao tempo presente, deixando que a tonalidade da tela seja o ponto zero, ao mesmo tempo que o final e definitivo”, explica entusiasmado.

22MAR2011
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terça-feira, março 06, 2012

- Onde está a fina linha que separa uma segunda oportunidade de um "já é tarde" ?

AS ILUDÊNCIAS APARUDEM


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Sempre tratei de não julgar as pessoas pela sua aparência. 

Graças à minha quase experiência de 1º. Ministro, (sim, qualquer badameco pode sê-lo), aprendi que por vezes é necessário desconfiar de uma pessoa prolixamente vestida (bem vestido e bem falante mas vigarista!) e confiar numa outra com a camisa fora das calças. 

O pessoal, para o bem ou para o mal, não costuma ser o que aparenta (vale mais ser do que parecer, do que parecer e não ser) e portanto há que ter os olhos bem abertos (um olho no burro e outro no cigano). 

Ainda assim, nunca me tinha visto ante um dilema tão completo. 

Um zombie apresentou-se no meu local de trabalho a semana passada. 


O seu curriculum era inatacável. 

Tinha uma grande experiência como encarregado de compras e se não fosse a roupa manchada com sangue e a sua monstruosa forma de caminhar, o seu perfil assentava como uma luva. 

Decidi deixar de lado a aparência e dei-lhe uma oportunidade. 

Nunca tomei uma decisão tão acertada. 

O tipo, digamos que, não é muito rápido, mas é um guru, não há como ver como negoceia bem.

20MAR2011
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segunda-feira, março 05, 2012

- Ainda que me abraces fortemente haverá sempre entre ti e mim um abismo de peles frias e células mortas !

VIDA SIMPLES

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Caminho com Irene desde o trabalho dela até à sua casa. 

Desta vez deixei o meu táxi num parque perto da sua loja. 
Cruzámos diversas ruas, caminhando descontraidamente. 

Irene dá passadas longas, relaxadas, prolongando cada passada como a câmara lenta, sempre com as mãos nos bolsos do casaco. 

E ainda que caminhe olhando o chão, nunca chega a chocar com ninguém: são os outros quem a esquivam, alguns no último momento. 

Acaba por ser estranho ver como caminha pelo mundo como se nada existisse e entretanto confia em que o mundo jamais chocará com ela. 

Tento falar, manter uma conversação, mas Irene mostra-se hermética, esquiva cada pergunta com um:”Não sei. 

 

Nunca mo haviam apresentado”, ou devolvendo-me o golpe: “E tu?. 

À medida que avançamos avenida abaixo, noto que as suas respostas são cada vez mais curtas, como se os passos tenham engolido as suas palavras até torná-las raquíticas. 

De facto, enquanto avançávamos, pronunciou o que foi a sua última frase do dia e depois o silêncio: 

- Deixei a minha terra e vim para o Porto porque sim. 

Penso no porquê dessa frase. 

Ninguém sai da sua terra natal “porque sim”, muito menos para levar uma vida insípida, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem amigos nem vontade de fazê-los, nem projectos, nem sonhos. 

 

Sei que deve ter sucedido algo, um detonador que levou Irene a zarpar da terra natal (para instalar-se numa cidade com o Porto, onde é mais fácil passar despercebida). 

E talvez nesse motivo se encontre a chave deste seu hermetismo. 

O que poderá ter acontecido a Irene? 

Como conseguirei sabê-lo?
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domingo, março 04, 2012

- Os náufragos em terra firme nadam bar adentro !

IRENE

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IRENE não é alta, não tem um corpanzil, nem estilo para se vestir, nem um rosto excessivamente belo. 

Tão-pouco domina a arte da conversação, não atrapalha e o que sei da sua vida é que é qualquer coisa pouco interessante. 

Trabalha como empregada de uma sapataria na Rua de Cedofeita e dorme num andar compartido com dois estudantes. 

Não se interessa muito pela música, nem pelo cinema, nem com a cozinha, nem com os livros. 

Tão-pouco notei nela projectos ou sonhos para além de tentar manter o seu posto de trabalho e passar pela vida em bicos de pés. 

Há cerca de dois anos saiu da sua terra natal, deixou a sua família e os seus amigos, para se instalar sozinha no Porto (ainda desconheço o motivo, se é que há algum). 

A partir de então, leva uma vida do mais discreto possível, da sapataria para casa e pouco mais, apenas algum café com a companheira de trabalho, tudo muito superficial, nenhuma amiga digna de menção. 


Quase todas as tardes, quando sai do trabalho, vai caminhando para casa não mais do que para fazer tempo e para preencher as horas. 

Se desta vez apanhou o meu táxi foi porque tinha comprado um televisor e a embalagem era difícil de transportar à mão. 

Meti-a na mala do carro e partimos: primeiro, supostamente como é lógico, em silêncio. 

Depois deu-me para fazer um comentário e surgiu uma conversa com dificuldades, entrecortada apenas com um punhado de frases, o típico diálogo de elevador. 

Mas aí dei conta de algo: Irene não tinha nada que oferecer-me, nada pelo que eu pudesse perder a cabeça. 

E isso foi, precisamente, o que me atraiu nela. 

Naquela conversa veio a lume onde trabalha e foi precisamente ali que me plantei na tarde seguinte, com a desculpa de andar à procura de uns sapatos tamanho 45. 


Ela atendeu-me com todo a profissionalismo e eu, como moeda de troca, ofereci-me para a transportar outra vez no meu táxi, mas desta vez com o taxímetro desligado. 

Irene a principio mostrou-se reticente, talvez não tivesse entendido que interesse eu podia ter nela, mas mesmo assim esperei que fechasse a loja, insisti de novo e acabou por aceitar. 

Naquele segundo trajecto contou-me o que já descrevi dela, sempre muito serena, reservada, como que com medo a fornecer-me informação a mais. 

Inclusivamente dizia-me volta e meia que a sua vida carecia de interesse: não sabia nem queria vender-se. 

Talvez Irene tenha aparecido no momento preciso. 

Não tem nada para me oferecer e essa simples sensação apresa-me. 

De certo modo, necessito de Irene para não pensar em nada. 

Aprender com a sua falta de substância. 

Deixar-me ser seduzido pelo vazio.
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sábado, março 03, 2012

- Oiço um barulho estranho na mala do meu táxi. 
Abro-a e… é a minha avó completamente borracha !

LUNÁTICO

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Outro habitante na Lua! 
Onde vives tu quando te evades, na parte oculta ou na parte luminosa? 
Eu habito na parte luminosa, com grandiosas vistas para a Terra. 
A outra parte não está tão mal assim, é bastante mais fria e tem vistas para Marte. 
A maior parte do tempo passo-o na Terra, ainda tenho que atender muita gente e muitos assuntos, mas aproveito qualquer descuido para voar até à minha base lunar, não posso evitá-lo. 
Se durante um desses voos, tentam entrar em contacto comigo, tenho ampla experiência em ligar-me com a conversação 'em espera', para isso sou e sempre fui um lunático toda a vida


… sempre com a mesma história. 
Não aguento mais. 
Estás a escutar-me?



Estás a ouvir-me? 
Sim ou não? 

E a voz aguda da minha mulher devolve-me à terra. 

Estás surdo? 
Em que é que estavas a pensar, não me queres dizer? 

Insiste, agudizando ainda mais o tom de voz. 
O grito assemelha-se ao latido de um “caniche toy” e faz-me doer os tímpanos. 

– Em nada (asseguro-lhe). 

– E escutaste o que te contei? 

– Sim.

– Sim? 
Então diz-me o que te contei. 

– Que não aguentas mais.



– A quem? 

– … 

– Não vês, fazes-me sempre o mesmo. 
Não ligas puto ao que te conto. 
Não sei se estás surdo ou se andas a treinar para idiota. 

– Perdão, digo baixando o olhar. 

– Perdão uma merda. 
Eu estava a contar-te os meus problemas no trabalho e tu estavas na Lua. 

– Como soubeste? 

– Como soube o quê? 

– Como soubeste que eu estava na Lua?
18MAR2011
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sexta-feira, março 02, 2012

- Todas as lágrimas vertidas pela morte de Kim Jong-il são de urânio enriquecido.
Cuidado !

BOTA DE ELÁSTICO???

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Para alguém que viveu no passado e especulou sobre as promessas tecnológicas do futuro, é-lhe difícil aceitar o presente. 

O meu avô, com as rugas que lhe tapam a cara, franze as sobrancelhas cada vez que sai à rua e não encontra ninguém com um traje prateado, utilizando uma mochila a jacto ou conduzindo um automóvel voador. 

- É o ano de 2012?
Onde diabo está o futuro? 

Costuma queixar-se com uma mistura de exasperação e desilusão. 


Depois dá meia volta, mete-se de novo em casa e levanta a voz para que todos o escutemos: 

- Onde diabo se meteu o robot mordomo! remata. 

Sem duvida que o meu avô não desconhece as virtudes da telefonia móvel e da internet, mas tais inventos são-lhe indiferentes perante a casa de fim de semana na lua. 

O pobre velho vive decepcionado; calculo que o passado distante lhe prometeu demasiado.

 25JUL2011
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quinta-feira, março 01, 2012

- O bar, que é uma unidade de pressão, é quase uma atmosfera etérea !

UMA HISTÓRIA…

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Travo. 

Refiro-me ao táxi. 

À direita, um enorme cartaz com uma mulher de aspecto saudável (sorriso natural, sem olheiras), entusiasma-me a tornar-me banqueiro. 

Insiro na ranhura (para mim, tudo é sexo) do painel do auto-rádio um CD dos “Depeche Mode”: começa a soar “Enjoy the silence”. 

Aumento o volume até ao limite dos meus tímpanos. 

Retomo a marcha, viro à esquerda sem me interrogar porquê e travo numa passadeira para que atravessem dois homens carregados com sacos do El Corte Inglés. 

Um deles olha-me e levanta as sobrancelhas.


DEPECHE MODE - ENJOY THE SILENCE   

 

No estribilho, com a minha voz dissonante, começo a cantar: All I ever wanted/all I ever needed/is here… in my arma. 

O caminhar de uma mulher adulta dá-me a ideia para o início de uma possível história. 

Leva uma saia comprida e larga com estampado de flores. 

Saco do bloco de notas e, aproveitando outro semáforo, escrevo: 
O roçar das suas pernas ao andar geram calor. 
Esse calor poderia aproveitar-se como efeito de estufa para que as flores da sua saia cresçam. 
Em cada passo, as flores seriam mais e maiores”. 

Rasgo a folha, amarroto-a e atiro-a para o assento traseiro. 

Não gosto. 

Volta o estribilho: Words are very unnecessary / they can only do harm… 

Acendo um cigarro. 

Ao longe, uma mulher “encalhada” na borda do passeio levanta um braço. 


Aproximo-me. 

Ela continua com o braço levantado olhando para o meu táxi. 

Creio que quer algo. 

Detenho-me a seu lado e baixo a música. 

Inclina a cabeça até ao buraco da janela e diz-me: 

- Está livre? 

– Eu? Pergunto surpreso; sorriso malicioso. 

– O seu táxi, diz-me séria. 

– Qual táxi? 

– Isto é um táxi, certo? 

Olho para o taxímetro; a mulher tem razão, mantenho o ‘aviso’ de livre. 

– Sim, sim, desculpe. 
Entre. 

– Não sei se me hei-de fiar… 

- Entre, entre. 

A mulher abre a porta traseira e mal se senta ajusta o cinto de segurança. 



– Para a Rua Vasques Mesquita. 

Com o nome Rua Vasques Mesquita ocorre-me outra história. 

Pego no bloco de notas. 

– Perdoe-me, mas tenho pressa. 

Guardo o bloco. 

Iniciamos a viagem. 

A meio do caminho, depois de múltiplas nuances, dou conta de que me esqueci de accionar o taxímetro.

A mulher nem sequer repara no meu despiste. 

Parece nervosa. 

Vejo-o nos olhos. 

O seus olhos olham, mas como sem olhar. 

Aqui há outra história. 

24JUL2011
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