O VIDEIRINHO

sexta-feira, maio 11, 2012

O FILHO da P*TA

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Insultas um condutor – filho da p*ta!!! – porque invadiu a tua faixa de rodagem sem prévio aviso e este gesto fez-te sentir revoltado. 

Sentes-te culpado, não pela má praxis do contrário, mas pela tua inapropriada reacção (não tinhas nada que lhe ter chamado filho da ‘dita’; ou até terias... não te reconheço). 

Nos instantes seguintes, desde que perdeste de vista o insultado até que te aconteça outra circunstância que desvia e ocupa de novo toda a tua atenção, sentes-te mal, (ou não). 

Esse intervalo ocupa um total de três minutos e dezassete segundos. 

Depois desse lapso de tempo, um motoqueiro detém-se ao lado do teu táxi, levanta a viseira e pergunta-te como chegar a Leça da Palmeira pela A41. 


Dizes-lhe que te siga, que precisamente também pensavas ir nessa direcção. 

Abre o semáforo, aceleras e a mota começa a seguir-te. 

Nesse momento esqueceste o incidente com o filho da p*ta; agora toda a tua atenção centra-se em não perder de vista o motoqueiro através do espelho retrovisor. 

Começas a sentir-me bem. 

Útil. 

O que fazes é importante para alguém. 

E quantas mais ruas percorres com ele a seguir-te, melhor te sentes. 

Associas o teu bem-estar com o motoqueiro. 

De certo modo, o teu estado de ânimo, depende dele. 

Por isso ao chegar à auto-estrada, em vez de saíres onde terias que sair, continuas à frente da moto. 


Ele já conhece o caminho, assim ultrapassa-te e levanta o braço em sinal de agradecimento. 

Para o motoqueiro, já cumpriste a tua missão. 

No entanto resistes a perder o teu estado de ânimo e aceleras, adiantas-te a ele e voltas a deixá-lo nas tuas costas. 

Fazes questão de prosseguir sendo o seu guia. 

O motoqueiro volta a ultrapassar-te e imediatamente tu a ele. 

Uma espécie de um ‘pique’ entre ambos, mas o teu caminho é outro. 

Mais à frente, o motoqueiro desvia-se para meter gasolina. 

Detém-se numa área de serviço e tu plantas-te adiante, com a intenção de o esperares. 


Nisto acerca-se de ti e diz-te: 

– Pretende que lhe pague por segui-lo, taxista? 

– Não. 
Só quero que me siga, dizes-lhe. 

– Aonde? 
Diz tirando o capacete. 

Não quero voltar à Maia sozinho. 
Os monstros mordem-me. 

– Os monstros? 
Vou dizer-te o seguinte: 
Caso continues a perseguir-me, chamo a polícia… filho da p*ta!

28JUN2011
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quinta-feira, maio 10, 2012

- A próxima vez que sonhar contigo não penso despertar...

PARASITAS…

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Tinha um aspecto impecável, fato italiano à medida, gravata de seda, pele bronzeada e o branco dos olhos, mais branco do que o branco que os meus olhos viram, (recordo imediatamente a asserção de Aquilino Ribeiro: “Olho branco em cara portuguesa, ou é de filho da puta, ou erro da natureza”). 

Antes de se sentar tirou o sobretudo, dobrou-o com suma mestria e pousou-o a seu lado como se de um delicado ser vivo se tratasse. 

Fechou a porta, indicou-me o destino com demasiada amabilidade e, já em andamento, sacou do telemóvel e começou a falar: 

- Tomás. 
O que se passa com esses despedimentos? 

Disse sem alterar o mínimo tom de voz. 

– (…). 

– Não quero desculpas, Tomás. 
Trinta do andar. 
Despede trinta do andar. 
É muito fácil. 
Termina-lhes o contrato, este mês, a quarenta e sete. 
Despede trinta desses, os que mais raiva te dêem. 
Antes de Agosto. 
E ao encarregado esse … como se chama?

– (…). 

- Germano, é isso. 
Despede-o também. 
Com o novo código sair-nos-à mais barato. 
Têm que se equilibrar as contas, seja a que preço for, entendes? 

– (…). 

– Não há desculpas. 
Se não és capaz de escolhê-los tu, terei que prescindir, também, dos teus serviços. 
Trabalho Tomás! Trabalho Tomás!
Ou estás connosco ou contra nós. 

E desligou sem sequer se despedir. 

Ajeitou a gravata, olhou as unhas e por último lançou um sorriso que me deixou gelado. 

Era um desses sorrisos de triunfador, de líder, de “eu quero, posso e mando”, de “tenho-vos todos sob controlo”. 

Sem dúvida que tinha a situação controlada: o futuro de trinta famílias, nem mais, nem menos. 


As suas vidas inteiras e a de muitos à sua inteira disposição. 

O deus do seu microcosmos. 

Tudo impecável no seu ponto de vista. 

A sua aparência física, as suas maneiras, a sua bruta moradia com piscina (este foi o nosso destino), a sua margem de lucros e a sua falta de escrúpulos. 

Um perfeito psicopata, enfim, socialmente aceite. 

E o mais grave: admirado por muitos. 

Pagou-me com uma nota de 50 € recém estreada e ao roçar um dos seus dedos senti um arrepio de frio e invadiu-me um medo indescritível. 

Estaremos todos nas mãos de psicopatas?
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quarta-feira, maio 09, 2012

- Sempre tive o sonho de entrar num táxi e gritar: 
"Siga esse carro" !

MULTAS

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O meu nível de ensimesmamento mede-se pelo número de multas de trânsito que me chegam a casa: quanto mais multas, mais vivo para dentro. 

Agora, por exemplo, encontro-me imerso em pleno processo de criação. 

Tento dar forma a uma trama com pretensões de novela, obsessão que me ocupa todas as horas do dia, o tempo de “prego a fundo” no táxi incluído. 

Na foto (multa no para-brisas) circulava no túnel de Ceuta, suponho que levando um passageiro e conversando com ele. 

Não sei o que se passa contigo, mas comigo torna-se impossível levar no meu táxi um desconhecido, imaginar a sua vida através do seu aspecto físico ou simplesmente falando com ele e avaliar as hipóteses de incluí-lo na minha tal novela (e se assim for, em que parte da trama ou, com que escusa) e com tudo isto, respeitar os limites de velocidade. 

 

Desde que comecei a alinhavar esta novela, chegaram-me, um total de sete multas, um rol de infracções graves e uma pipa de massa para contribuir para o bem-estar de alguns. 

Em cada uma delas apresentei o mesmo paleio para o recurso, escrito pelo meu próprio punho e letra, (gosto de tudo pessoalizado), alegando o que já escrevi mais acima; que nesses instantes me encontrava em pleno processo criativo e que para o meu bom futuro literário, com o fim de não truncar o desfrute aos meus futuros leitores, procedessem em consonância, para me retirar a multa. 

 
Com um 'corpo' policial destes até dá gosto ser autuado

E de passagem, deitassem uma vista de olhos ao Google, digitando “INSÉTE”. 

Não ganhei nenhum dos recursos, o que demonstra a falta de sensibilidade das autoridades (da ANST), assim como o seu nulo interesse em fomentar a cultura. 

Coisa a que já estou habituado neste reinado de R. Rio. 

Em qualquer caso, tenho pensado enviar todas estas multas ao meu editor como gastos do processo de elaboração da futura novela. 

Espero que pelo menos ninguém se atreva a dizer, quando por fim termine, edite e saia para venda, que o livro é caro.
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terça-feira, maio 08, 2012

- Sempre fui um homem sério, de hábitos moderados e sentido comum, mas sofro de terríveis enxaquecas.
Ontem, o médico disse-me que talvez tenha demasiados sonhos por sonhar !

UM FILHO…

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Entrou no meu táxi uma passageira com um miúdo de quatro ou cinco anos e de seguida, ela e eu começámos a falar, primeiro do tempo (chovia), depois da crise, e depois da crise passou-me a contar a sua própria, com todo um luxo de detalhes: já estava desempregada há três meses, que o subsídio que recebia mal dava para cobrir os gastos com a casa, que agora tinha que levar o miúdo ao terapeuta da fala. 

O miúdo, por sua parte, permanecia em silêncio atento a todos os saltos do taxímetro. 

A meio do trajecto a mãe indicou-me que era melhor ir pela VCI, porque apesar de ser mais longe, seria mais rápido. 
Assim fiz, entrei na VCI, coloquei-me na faixa da esquerda e nisto, sinto o miúdo tocar-me no ombro e diz-me: 

- Não vás tão depressa, papá. 

A mãe olhou-me surpreendida e ruborizada através do espelho e eu a ela, mas nenhum dos dois disse nada. 

E assim, em silêncio, chegámos ao seu destino. 

Procurei um local onde parar, e nisto o miúdo diz: 

- Não vens, papá? 

Saímos do táxi e entrámos os três juntos, de mão dada, para a consulta de terapia da fala. 

E aqui estamos. 

A mãe e eu, na sala de espera. 

Dissimulando. 

Felizes. 

(Já viram a responsabilidade que supõe ter um filho assim de repente?). 

... No outro dia de manhã quando saí de casa deles, a mãe e o "meu" filho ainda dormiam.
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segunda-feira, maio 07, 2012

- A maturidade permite-me olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura ! (Lya Luft, escritora, professora e tradutora brasileira)

domingo, maio 06, 2012

- O teu biquíni faz-me crescer água na boca; assim descubro a diferença entre a água doce e a salgada ! (josé torres)

Latitude: (37° 41' 5.79'' N)
Longitude: (0° 44' 7.89'' W)


Sim, sem dúvida é aqui… cheguei.

É aqui onde se encontram as águas da recordação e as do esquecimento, onde se encontra a pista perdida... e de novo desaparecem as pistas. 
 
É aqui, reconheço-o, e o meu espírito dança ao ritmo das ondas e dos tambores como se nunca tivesse partido. 
 
Estou em cada grão de areia e a gaivota encerra o presente da vida. 
 
Sim, é aqui. 
 
O suor outra vez, a pérola do constrangimento que decora o meu rosto, a barba e o bigode transpirados e caminhar descalço. 
 
Passe deslumbrante de estrabismo, o gesto automático de espantar uma gaivota: as essências da praia revisitada que me transtorna.


 

E também a delícia, o deleite, o suave balancear, o esmorecer, (desvanecer), as pálpebras deleitosamente caídas, a voluptuosa cadência, o ritmo profundo e o palpitar, o sorriso. 

Todos estão aqui para receber-me… para abraçar-me. 

Desnudam-me e vestem-me com algas, com ramos de palmeiras e colares feitos de sementes e conchas. 

Rapidamente me emborracham e riem ás gargalhadas com o meu mareio feliz e torpe de recém-chegado. 

Deixo-me levar e conto as horas, e sonho, e sei que não é miragem, e sei que sempre estará ali aquela areia, e aquela água de ondas coleantes, uma e outra vez, ainda que volte a ausentar-me… amanhã ou depois, ou depois…
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sábado, maio 05, 2012

- Nem todos os tesouros são de ouro e prata... meus amigos!

RAPINEIROS DE PUNHOS RENDADOS






Eu, José Torres, juro por todos os diabos que jamais, nos meus longos anos de pirataria, conheci melhor tripulação do que esta com que navego agora no “Brilhante”. 

Um punhado de valentes ás ordens do capitão , sulcando os mares sem respeitar bandeira, lei ou coroa e assaltando sem temor todo o barco que se cruze no nosso caminho. 

Ninguém, como o nosso capitão, para infundir valor à marinhagem, ninguém como ele quando é necessário contornar baixios ou contornar temporais. 

Não lhe treme o pulso ao ordenar uma abordagem, como tão-pouco ao elevar o seu cálice, celebrando uma boa pilhagem. 

Mas ai dos amotinados, pois a sua disciplina é rigorosa e não esqueceremos a expressão de Sony, "o grego", quando foi desembarcado num isolado ilhéu sem mais nada do que umas bolachas, uma cana de pesca e uma arma carregada. 


E é que, como repete sempre Jack, "o torto", o código de honra dos cavaleiros da fortuna é lei nos sete mares. 

E Sony, "o grego", falou demais, murmurou durante umas guardas acerca de um tesouro escondido e um mapa tatuado na barriga do capitão. 

Pagou caro a sua codícia e foi um castigo bem merecido. 

Somos espíritos livres, sim e orgulhosos. 

Todos sabemos que os nossos “coiros” não valem um “tusto” se cairmos nas mãos de algum barco inimigo. 

E ainda assim não tememos, pois descendemos da ralé de Flint e de Drake, da raça de Morgan e Barba-Negra, dessa indomável estirpe lendária, que alimenta os sonhos dos jovens e acende o ânimo das belas senhoritas em terra firme. 


E de nós, do “Brilhante”, também se contarão amanhã façanhas e aventuras? 

Pois ainda que a nossa pele seja negra, não é de vela a nossa nave e em lugar de sabres a arcabuzes, disparamos armas automáticas, sustém os nossos dias o mesmo impulso de antanho, no mesmo fogo que jurámos na ilha do diabo, e o mesmo temor instila a nossa proa quando aparece num qualquer confim dos mares de Somália. 
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sexta-feira, maio 04, 2012

- A saúde é um bem que se não sente !

ESTRÉNUO

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É uma verdadeira doença ter fama de valente. 

Solitário, com a única companhia do meu corcel branco, armado com a minha espada e protegido pelo meu escudo e armadura, vagueio pelos reinos procurando aventuras e desafios. 

E quando não os encontro, os desafios sabem como encontrar-me. 

O meu nome viaja pelos ouvidos e bocas dos homens, mulheres, anciãos e crianças que relatam as minhas façanhas; muitas vezes, não o posso negar, costumam empolar e exagerar. 

 
 
Lamentavelmente a minha estrutura física costuma decepcionar os incrédulos e por isso é que frequentemente me vejo na necessidade de demonstrar as minhas habilidades e valentia. 

Todos acreditam que sou um mito e as suas estúpidas mentes não podem imaginar-me a caçar dragões ou a combater exércitos. 

Portanto, são muitos os que me desafiam para a morte e me obrigam a manter a minha fama, já que no dia que a perca, será o triste dia da minha morte.
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quinta-feira, maio 03, 2012

- Qual será a influência da menstruação das baleias na coloração do Mar Vermelho ?

POSTURAS


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Limpadora outonal de casas, esta proverbial empregada doméstica, sem se depilar, abraça-me segurando a foto do seu marido perdido no mar há quarenta anos e um "papelote" dela. 

Em sua casa aprendi a desenvolver essa nova ética que flui para substituir a raiz chamuscada nas ruínas do rio. 

Inclusivamente refugiei-me ali absolutamente "pedrado" ou 'chapado' ou simplesmente chateado do trabalho e de todos, quando não tinha onde cair morto. 

Ela sempre me acolheu como um filho, com as pernas abertas e a carteira escondida num local que eu sabia. 

Terezinha era de hábitos moderados, racionalmente operária até ao tutano, orgulhosamente associada por amor e destino ao bando que perdeu a grande guerra. 

 

Olhava de frente a vida, sem hematomas na alma e vivia sem dissonâncias elitistas em tudo, excepto ao fazer amor comigo. 

Gostava de dispor com ordinária mas vigorosa imaginação, de decoradas  fantasias e propor situações excêntricas para o acto. 

Exigia que me duchasse sempre e vestia-se com peças de lingerie inverosímeis, subtraídas nas casas de linhagem que tinha limpo durante anos. 

Eu fazia-o com cuidado e carinho, às vezes derramando lágrimas no seu ombro, estremecido de gemidos em cima e dentro dela, que me abraçava enquanto lhe gotejava água e sémen. 

Depois, oferecia-me sempre, pelo menos duas "doses" mais das que lhe comprava para revender. 

 
Desenho de Carl Barks
 

Ave Maria, santa Terezinha, breve nos encontraremos no inferno. 

Terezinha falava muito, tivesse ou não gente à frente. 

Parlapateava com sentido sobre a guerra, assomava nos seus comentários o rancor vingativo à classe menosprezada pela história. 

Insultava em crescendo os ricos, generalizava como só os analfabetos podem fazer se são da facção derrotada. 

Desprezava anedotas jocosas e algo soezes para com a raça que subjugou a sua, mas que nunca pôde com o seu espírito. 

Roubava nas casas que limpava. 

Furtar era, na sua opinião, a justiça poética que mereciam os fascistas. 

A sua casa era um museu desses sequestros, uma galeria de recomposições históricas do proletariado, uma grinalda de reféns decorativos. 


 

Encantava-me ver como se duchava, lentamente, meticulosa. 

Deleitava-se com o prazer da higiene; quiçá careceu dela durante a sua infância no bairro dos pescadores. 

Eu sentava-me na bacia de retrete e ela permitia-me observar, em silêncio, como se ensaboava através dos vapores da água quente. 

O seu corpo rosado tinha um surpreendente brilho suave, excitante, uma solidez de formas insólita para a sua idade. 

Por vezes masturbava-me vendo as suas rotinas de limpeza e penso que ela, apesar de parecer ignorar-me, comprazia-se com isso. 

Desfiava, nessas ocasiões, todo um reportório de novas posturas, dignas de postais eróticos do século XIX, como as que coleccionava o meu avô “Jetas”.
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quarta-feira, maio 02, 2012

- Por que gosto de fazer praia e não, de fazer o almoço?
É porque a posso fazer deitado !

AMÁSIOS

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As malas já estavam desfeitas, as camisas e calças dependuram-se dos cabides, os sapatos formam no armário, alinhados por ordem de cores: estamos instalados no motel Ibis. 

No lavatório do quarto de banho, as nossas escovas de dentes bailam cruzadas o seu tango apaixonado de cristal, presenteando-nos essa sensação de lar tão necessária. 

O quarto é diáfano, luminoso; a alcatifa de cor clara está limpa e convida a andar descalço. 

Aqui estaremos à vontade, tenho a certeza. 

A recepcionista foi muito amável (demasiado mesmo, segundo Amélia) e apenas se surpreendeu quando rejeitámos a sua ajuda com a bagagem. 

Insistiu só o suficiente em que não era necessário pagar 15 dias adiantado e aceitou a gorjeta com um sorriso, anotando no livro a nossa reserva, “Senhor e senhora Torres”. 

Todavia, e creio que com a Amélia se passa o mesmo, nunca me acostumei a usar um novo nome em cada lugar. 


Mas os dois sabemos que é necessário, que é um dos pequenos detalhes imprescindíveis para continuar a viver esta história de amor. 

Ainda que pareça uma loucura, fugimos, escapulímo-nos juntos, abandonando para sempre as nossas vidas anteriores. 

 E ainda que seja difícil de acreditar, esta vida nómada de motel em motel, sem qualquer destino mais do que localizar fugazes cantos para o nosso idílio e semear as peças que desmontam o ocorrido, terminou apaixonando-nos. 


Felizes, dirigímo-nos para estrear a piscina. 

Amélia levava um biquini preto que comprámos numa área de serviço e o pessoal jovem, com os olhos, devoraram-na como os olhos. 


Não sou ciumento, simplesmente chateia-me contemplar nos outros o efeito que o seu corpo e a sua beleza causam em mim, mesmo assim, pedi-lhe que se mudasse e ela acedeu com uma careta 'coquete' e qualificando os sorrisos da recepcionista como algo mais que de cortesia. 

Esta mulherzita minha!!! 

Isto acontece-me sempre que a vejo, algo me trespassa o coração e esqueço o que acontece ao redor. 

Lurdes, a minha mulher, percebeu-o imediatamente nos jardins do centro durante o nosso primeiro encontro. 

Fernando, o marido de Amélia, também. 

Não se pode, como dizem, tapar o sol com uma peneira, não se pode deter um amor como o nosso. 

Fernando e Amélia trataram de opor-se, claro, tal qual os nossos filhos e netos, os médicos e enfermeiros e todos os demais ocupantes do centro de repouso. 

Foi inútil. 

 

Desde a guerra de Angola que não tinha utilizado a Walther P38 que guardava religiosamente junto duma qualquer condecoração que me deram. 

Pensei que encravaria depois de tantos anos, mas o gatilho deslizou com suavidade e os dois estampidos ficaram afogados com as almofadas, sem despertar ninguém. 

Levámos os seus corpos em macas até ás câmaras frigoríficas da cozinha e trociscámo-los com a serra eléctrica. 

Agora vamos deixando uma parte das nossas vidas em cada etapa.; na última cidade abandonámos a cabeça do pobre Fernando num contentor de lixo. 

Amélia disse-me que no mini golfe do Ibis a terra é macia e ninguém suspeitará que as pernas de Lurdes descansam debaixo do buraco 13. 
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terça-feira, maio 01, 2012


- Não me importo que as mulheres me importunem; o que não suporto é que seja sempre a mesma !

IRRADIAÇÃO e CAPTAÇÃO




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Só me fixei naquele detalhe já o trajecto ia bastante avançado. 

Neste caso, aquela passageira do meu táxi, não sei se por descuido ou deliberadamente, levava espatada no pescoço, a escassos centímetros da sua orelha esquerda, uma agulha de acupunctura. 

Pode muito bem acontecer que o seu médico acupunctor se tenha esquecido de a retirar ou, talvez a tenha deixado cravada na sua pele como parte do processo curativo. 

Por prudência não disse nada, (também que dizer nestes casos?: “Você sabe que tem uma agulha espetada no seu pescoço?"), mas não pude evitar que aquela imagem me mantivesse por longo momento pendente do espelho. 

Tenso e pensativo. 

Num semáforo peguei no telemóvel para colocar no Twitter uma anedota que me ocorreu, mas nisto vejo no ecrã um aviso com a seguinte solicitação de contacto: 

 

Verónica Lopes deseja contactar contigo via Bluetooth. ACEITAR/REJEITAR”. 

Por curiosidade aceitei (e porque no fundo me sinto só e gosto de desafios).

Nesse instante apareceu-me uma mensagem da tal Verónica Lopes: 
Baixe um pouco a temperatura, por Deus! Estou a assar...” 

Olhei a passageira. 

Estava no seu mundo, observando alheada a rua. 

Baixei um par de graus a temperatura e nisto a passageira sorriu, ainda que sem sequer olhar para mim, nem disse nada. 

Depois chegou-me outra mensagem: 
Gosto muito dessa canção. 
Pena é que o volume esteja tão baixo”. 

No rádio soava “Love will tear us apart” de Joy Division. 

Aumentei o volume e então ela olhou-me surpreendida, arqueou as sobrancelhas e voltou a sorrir-me 


Aí soube que através daquela antena, digo, agulha cravada no seu pescoço podia aceder com o meu telemóvel aos seus pensamentos sem que ela o soubesse. 

Mas ainda desconhecia se aquele invento era reciproco. 

Poderia meter-me na sua cabeça? 

Para comprová-lo pensei em enviar uma mensagem a Verónica Lopes através do telefone. 

Escrevi: 
Fecha os olhos”. 

E ela fechou os olhos. 

Uau!, pensei. 

Humedece os lábios, languidamente, com a língua”, voltei a escrever. 

E ela assim o fez. 

Aproxima-te do taxista e beija-o na boca”. 

Verónica colou-se entre os assentos dianteiros e com os olhos cerrados juntou os seus lábios com os meus. 

Enquanto me beijava intentei teclar o meu próximo desejo, mas ao mover-me desprendeu-se a agulha do seu pescoço. 

 
 
Nisto abriu de súbito os olhos e, ao ver-se tão pertinho de mim, afastou-se como um raio e deu-me uma sonora bofetada. 

Então saiu do táxi batendo a porta. 

Pelo menos tenho a sua agulha em meu poder. 

Cravei-a na mesma zona do pescoço que ela e tentei pôr-me em contacto comigo mesmo via Bluetooth para interagir comigo mesmo e obrigar-me a levar melhor vida através do telemóvel, mas não funciona. 

Agora estou num bar. 

Confuso e borracho como todas as noites.
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segunda-feira, abril 30, 2012

- É mais fácil enganar um povo do que um homem !

FELICIDADE

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Hoje ao retomar ao mundo da escrevinhice, vou propor umas dúvidas existenciais. 

Realmente acreditais que o mais importante nesta vida é ser feliz?   

Acima de tudo e de todos? 

Temos que renunciar a certas coisas para conseguir a felicidade ou acaso a felicidade consiste, precisamente, em não ter que renunciar a nada? 

Mas que raio é a felicidade? 

O que eu penso que penso : 

"A felicidade é precisamente não fazer estas perguntas. 
É como o amor, se tens que te interrogar se queres a alguém ou não, é porque não a queres. 
A felicidade é igual. 
De todos os modos não existe, a base do género humano é o inconformismo, assim que ninguém será mais que pontualmente feliz. 
O que já não é pouco. 
Também, penso, que o mais importante não é ser feliz, não acredito que ninguém se possa sentir feliz durante muito tempo, porque a felicidade é frágil por natureza.
Penso que é assim porque não depende só de nós, escapa-se-nos das mãos…  
O mais importante é sentirmo-nos completos, perfeitos, orgulhosos de nós mesmos, tranquilos. 
Basicamente porque temo-nos que aguentar durante muito tempo… 
Quiçá isto seja, para alguém, um tipo de felicidade"

 
 
Em todo caso, é um tema muito particular… como tudo o que diz respeito aos sentimentos. 

A felicidade é o não desejares nada mais, a ninguém, é a paz que se sente quando não queres que nada mude. 

Epicteto dizia:
 “A felicidade não consiste em adquirir nem em gozar, mas sim em nada desejar, consiste em ser livre”.

 Mas se não fizermos caso de Freud, que sabia muito de psicologia mas depois era um triste e dizia que: 
“Existem duas maneiras de ser feliz nesta vida, uma é fazer-se de idiota e a outra sê-lo”.
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domingo, abril 29, 2012

- Sou eu que crio o meu amanhecer e o meu ocaso ! (josé torres)

FERRETE

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 A “garina”* estendeu-me um pedaço de papel quadriculado com um endereço escrito a esferográfica azul. 

Por baixo da rua e número do ‘cliente’ que ia “visitar”, fixei-me na seguinte anotação:  60-30m+2T. 

Segundo a minha experiência taxista no transporte de “garinas”, 60 será o preço estipulado para meia hora (30m). 
Os táxis de ida e volta também são a cargo do cliente (+2T). 

De facto, ao sair do táxi e como tantas outras vezes, a p*ta pediu-me um recibo que depois entregaria ao “cliente” como justificação do pagamento. 

Aparte a frieza que representa procurar prazer noutro corpo desalmado como quem compra um quilo de carne picada, nesta ocasião deu-me para pensar nos motivos do preço: porque é que “saltar p'ra cima” desta “artista”, ou ela deixar-se “montar” pelo cliente, custava 60€ e não 50, ou 250, ou até 25.000? 

Que listas ou escalas determinam as tarifas de aluguer de corpos? 

 


Aí está o atroz: é o mercado. 

A beleza relativa mede-se em euros: o número ou grandeza do sutiã, o peso, as medidas (o traseiro, cintura, peito, altura), as características, a cor do cabelo, a cor da pele… a nacionalidade. 

É importante a nacionalidade: as mais caras em Portugal são sempre portuguesas, também cotadas em alta estão as japonesas (não confundir com chinesas ou asiáticas), as belezas nórdicas depreciaram-se à medida que aumentou a oferta de russas e ucranianas e desceu o seu prestígio (para saber bem até que ponto nós, os portugueses somos racistas não é necessário mais do que saber o preço médio das putas, em função do seu país de origem). 

Numa bitola, digamos, média baixa, teremos as espanholas, brasileiras, africanas e latino-americanas. 

Aparte, padroniza-se a beleza até atingir um grau de objectividade consentida que assusta, somada a uma macabra lei da oferta e da procura. 



Estamos a falar de seres humanos negociando com a profissão mais antiga do mundo. 

Estamos a falar da casualidade de ter nascido num meio ou outro (elas), com umas ou outras características físicas também fruto da casualidade (elas), cujo conjunto determinará quanto será capaz de pagar o homem, qualquer homem com dinheiro, quer ele seja bonito, feio, asiático, obeso ou maníaco depressivo (o dele não importa). 

Ela, essa “garina”* em questão, do meu táxi, tinha consciência de que não podia cobrar mais de 60€ dada a concorrência, ou a crise, ou o seu grau de beleza padronizada numa escala do zero ao dez. 

Tirada daqui 
O seu trabalho consistia em atrair clientes através de um anúncio no JN, aceder aos encontros, abrir as pernas e engolir (no duplo maldito sentido da palavra). 

Desconheço, como é lógico, os motivos que a levaram a ser p*ta, se forçada (a maioria, desgraçadamente, exerce contra a sua vontade) ou por decisão própria. 

De qualquer maneira há algo nesta sociedade que não funciona. 

Nunca funcionou. 

E continuará sem funcionar. 

*”Escrevo "garina”, para não começar, logo de entrada, com ‘puta, que é afinal o vernáculo.
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sábado, abril 28, 2012

- Há um clube de viúvos excepcional. Inscreves-te, ainda casado, por só 500 € e eles tratam de tudo o resto !

DOS DELES...


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E aí, quando tratava de cruzar a Av. dos Aliados para o túnel de Ceuta, vindo de Magalhães Lemos, ao volante do meu táxi, é que me dei conta. 

Não só me deram “cabo da mona”: também se me esgazearam os olhos. 

Viste aquele “xico esperto” que se plantou diante do teu táxi e te obrigou a travar? 

Se não buzinas não passas”, gritou-te eufórico ao mesmo tempo que ondulava a bandeira da sua equipa de futebol. 

Este tipo e outros centos deles que, em conjunto, faziam alas na avenida, creditavam-se triunfadores, orgulhosos, felizes: como possuidores da verdade absoluta. 

E eram jovens, como tu. 

Ali vitoriando, olé!, olé!, encontrava-se o futuro de um país que, inexoravelmente, está a ir para a merda. 

A nossa geração perdida louvaminhando o triunfo de uma equipa composta por multimilionários sem estudos, os heróis do nosso particular circo romano. 

 

Agora pensaste, as empresas ou “os outros” manipulam os nossos sentimentos, por ordem alfabética: “Benfiquista, Portista ou Sportinguista (escolhe a teu gosto, a tua ‘religião’)”, até à medula, orgulhoso dos feitos e conquistas de Mourinho, do Ronaldo, da dupla campeã do mundo, Beatbombers (DJ Ride e Stereossauro).

Não importam as dívidas dos clubes de futebol ante um país em ruína. 

Não importa que as nossas maiores empresas por “trocadalhos do carilho” tenham deslocado a sede para a Holanda e aí paguem os impostos, chegando-se ao inédito de até as empresas públicas “fugirem”, (para dar o exemplo, calculo eu). 

Sempre ficaremos nós, os que sustentamos esta alcateia de chulos. 

Assumimos, sem tugir nem mugir, a escalada dos preços dos combustíveis enquanto a Galp distribui milhões de euros em benesses a administradores executivos. 

 

Tão-pouco parece importar as facadas na saúde e a subida das respectivas taxas,  o corte na educação, em todas as suas vertentes, o assalto aos bolsos dos contribuintes, nomeadamente os de rendimentos mais baixos, retirando-lhes as parcas regalias, mas aumentando o IVA, IRS, IRC e “familiares” destes impostos. 

A subida da luz, do gás, dos transportes… do DESEMPREGO!!!

A fuga de cérebros e da mão d’obra mais qualificada. 
 
O importante é que ganhem os nossos. 

Mas então, com jovens a gritar eufóricos “se não buzinas não passas” à volta do táxi, o teu passageiro diz-te: 

- Buzine, buzine. 

E tiveste que buzinar, e abriram-te a passagem porque pensaram que eras um dos seus, um deles. 

Mas tu não te sentiste dos seus (deles). 

Talvez até não te sintas de ninguém. 

Nunca mais.
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quarta-feira, abril 25, 2012


CANÇÃO PARA UM POVO TRISTE  - VIEIRA DA SILVA


LIBERDADE

Nasci quase em segredo amedrontada
Sou filha dum Abril e da aventura
Comigo iniciou nova alvorada
Que pôs fim à mais longa ditadura.

Fui trazida pela mão de alguns bravos
Sem sangue esta revolta foi capaz
Trocando as suas armas pelos cravos
Em sinal que este gesto era de paz.

Meu grito chamado Vila Morena
Trazia no peito fraternidade
E a promessa de liberdade plena.

Instaurei o direito à igualdade
Sou vossa, estou aqui, valeu a pena
Nasci p'ra todos vós... Sou Liberdade!...



quinta-feira, abril 12, 2012

SUCESSOS

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Sempre me foi muito complicado opinar sobre o mundo da arte. 

Por um lado creio que há muito artista impostor, que o único de arte que lhe reconheço é precisamente viver dela e, por outro, muito público talibã e néscio que espezinharia uma obra e lapidaria o autor pelo mero facto de não entendê-la. 

Nos concursos de misses não é a mais bonita do universo quem ganha o certame, é simplesmente quem é eleita pelo júri, entre as que se apresentam. 

Creio que nas diferentes disciplinas artísticas ocorre o mesmo... não é o melhor pintor quem é representado por uma importante galeria, é o mais cotado, mas não o melhor. 

Conheci péssimos artistas com mais lábia que discurso e magníficos criadores carentes de veia comercial.




O divórcio existente entre público e arte, parte muitas ocasiões do criador, a figura do artista excêntrico que levita lançando-nos a sua obra para ser interpretada enquanto se retira, voltando-nos as costas, é ridícula. 

A arte é comunicação, assim, quem pretender reduzi-la a uma expressão, onde só uns poucos privilegiados, dotados de um dom divino são eleitos para saboreá-la, estão sujeitos ao fracasso. 

Como seria uma feira internacional de arte se ocultassem o nome dos artistas e das galerias?

Quem abriria os cordões à bolsa? 

Não estou a tentar desacreditar nada, nem ninguém, pelo contrário. 

Creio cegamente em todo o tipo de corrente ou expressão artística, indo ao ponto de acreditar nas que não gosto. 

O que penso é que se devia estabelecer mais pontes entre a arte e o público. 

 

Acho que é paradoxal assistir a inaugurações onde os participantes estão mais dependentes de se deixarem ver e olhar por quem os observa, do que observar o que tinham ido ver. 

Não gosto da arte quando se converte em negócio e não gosto dos simplistas que atacam qualquer iniciativa artística “diferente”, gosto das mentes criativas que empregam a arte como dique de contenção alternativo ante outras formas superficiais de desfrutar e entender a vida. 

Gosto dos pais que levam os seus filhos a exposições e museus, gosto de todos os criadores que criam por necessidade de criar. 

Gosto dos artistas que gostam de outros criadores. 

Não gosto de contadores de histórias.
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