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Insultas um condutor – filho da p*ta!!! – porque invadiu a tua faixa de rodagem sem prévio aviso e este gesto fez-te sentir revoltado.
Sentes-te culpado, não pela má praxis do contrário, mas pela tua inapropriada reacção (não tinhas nada que lhe ter chamado filho da ‘dita’; ou até terias... não te reconheço).
Nos instantes seguintes, desde que perdeste de vista o insultado até que te aconteça outra circunstância que desvia e ocupa de novo toda a tua atenção, sentes-te mal, (ou não).
Esse intervalo ocupa um total de três minutos e dezassete segundos.
Depois desse lapso de tempo, um motoqueiro detém-se ao lado do teu táxi, levanta a viseira e pergunta-te como chegar a Leça da Palmeira pela A41.
Dizes-lhe que te siga, que precisamente também pensavas ir nessa direcção.
Abre o semáforo, aceleras e a mota começa a seguir-te.
Nesse momento esqueceste o incidente com o filho da p*ta; agora toda a tua atenção centra-se em não perder de vista o motoqueiro através do espelho retrovisor.
Começas a sentir-me bem.
Útil.
O que fazes é importante para alguém.
E quantas mais ruas percorres com ele a seguir-te, melhor te sentes.
Associas o teu bem-estar com o motoqueiro.
De certo modo, o teu estado de ânimo, depende dele.
Por isso ao chegar à auto-estrada, em vez de saíres onde terias que sair, continuas à frente da moto.
Ele já conhece o caminho, assim ultrapassa-te e levanta o braço em sinal de agradecimento.
Para o motoqueiro, já cumpriste a tua missão.
No entanto resistes a perder o teu estado de ânimo e aceleras, adiantas-te a ele e voltas a deixá-lo nas tuas costas.
Fazes questão de prosseguir sendo o seu guia.
O motoqueiro volta a ultrapassar-te e imediatamente tu a ele.
Uma espécie de um ‘pique’ entre ambos, mas o teu caminho é outro.
Mais à frente, o motoqueiro desvia-se para meter gasolina.
Detém-se numa área de serviço e tu plantas-te adiante, com a intenção de o esperares.
Nisto acerca-se de ti e diz-te:
– Pretende que lhe pague por segui-lo, taxista?
– Não.
Só quero que me siga, dizes-lhe.
– Aonde?
Diz tirando o capacete.
– Não quero voltar à Maia sozinho.
Os monstros mordem-me.
– Os monstros?
Vou dizer-te o seguinte:
Caso continues a perseguir-me, chamo a polícia… filho da p*ta!
28JUN2011
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