O VIDEIRINHO

terça-feira, maio 15, 2012

A PÍLULA

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Acordei antes dela e ao abrir um olho, encontrei a sua carteira aberta no chão. 

Dentro, assomava a sua caixa de pílulas anticoncepcionais "Yas", daquelas de que me falou e me deixaram fascinado. 

Fascinou-me, por exemplo, que cada uma das 28 pílulas incluem o subtítulo do seu correspondente dia de toma (Seg., Ter., Qua. ...). 

Mas, acima de tudo, fascinou-me saber que as 7 últimas pílulas de cada ciclo menstrual careciam do princípio activo. 

Não eram mais do que placebos que só se usavam como lembrete, para não se perder a rotina diária. 

Por conseguinte, aquelas últimas 7 pílulas não serviam para mais nada do que manter a constância da passagem cíclica do tempo. 

Abri a caixa. 

A embalagem das pílulas ainda se encontrava pela metade, com os seus placebos da última fila ainda intactos. 

Pensei e pareceu-me romântico tomar um daqueles placebos por ela. 

 

Algo assim como: 
Comi um dos teus dias, amor” ou, “O dia que te falta tenho-o cá dentro de mim”. 

A verdade é que tomei uma das suas pílulas placebo. 

A pílula em questão não sabia a nada, como também não sabem os dias que nos restam viver. 

Tomei um banho, vesti-me calmamente e em silêncio para não a despertar e saí para trabalhar. 

Tirei o meu táxi da garagem e à quarta ou quinta rua, de repente, comecei a sentir uma intensa dor na zona inguinal. 

Comecei a ter náuseas e a sentir algo como uns “pontapézitos”. 

Já passaram várias horas, quase um dia inteiro e ainda os sinto. 

Nota: 
Não sei se devo praguejar com a "Yas", ou ir directamente ao médico. 

Será sugestão da minha parte, ou talvez essas pílulas provoquem nos homens um efeito inverso?

 .

segunda-feira, maio 14, 2012

- Soube hoje que é vivamente desaconselhável conduzir com o palito no canto da boca, para no caso de embate, não furar o airbag !

RAQUEL

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Dizia chamar-se Raquel. 

Entrou no meu táxi na Rotunda da Boavista e de seguida começámos a falar de temas cada vez mais sugestivos: o trânsito, o desemprego, a corrupção, o seu namorado e por último o amor. 

Raquel gostava do seu namorado, mas desde que viviam juntos confessou-me, que se aborrecia como um macaco enjaulado. 

O seu namorado não gostava de sair, era demasiado caseiro. 

Ela, no entanto, era mais de procurar sensações, de estar com pessoas e viver para além do zapping e do sofá. 

– Mais ainda desde que encerraram o Megaupload, acrescentou. 

Pouco antes de chegarmos ao seu destino disse-me que, na realidade, não tinha em vista, de imediato, nenhum plano, que faria tempo por aí, para não chegar tão cedo a casa. 

Eu sugeri que me acompanhasse no meu táxi, que passasse para o banco da frente e continuássemos com a conversa enquanto dávamos umas voltas pelas ruas do Porto. 

 

Raquel gostou do meu plano. 

Pagou-me o seu trajecto, saiu e voltou a entrar, sentando-se no banco dianteiro, a meu lado. 

Falei-lhe do INSÉTE, assim como nos projectos literários (da novela que está em estudo, rsss, rsss, rsss). 

– Agora estou a topar! 
Tu és o taxista que está sempre bem disposto, não é verdade? 

Imediatamente propus-me escrever algo sobre ela no meu blog, assim como dos meus projectos literários. 

Cinco whiskies depois, talvez vítimas do álcool, beijámo-nos. 

Depois acabámos em minha casa. 

Em princípio pensei que Raquel era a típica mulher que necessitava de uma vida à margem da sua rotina, sentir-se desejada através de outros homens. 

 

Na verdade, durante o sexo, mostrou-se do mais desinibido que já vi: teve mais orgasmos do que eu. 

Mas hoje ao despertar, já não estava. 

Tão-pouco encontrei a minha guitarra Yamaha (com a sua bolsa), nem o meu computador portátil, nem a minha carteira com cerca de seiscentos euros que guardava na mesinha de cabeceira, nem o meu telemóvel com dois cartões. 

Nota: 
Escrevo isto a partir de uma cabine telefónica. 

Já cancelei os cartões de crédito. 

Avisei a TMN e a Vodafone. 

Também denunciei a tal Raquel (se esse é, verdadeiramente, o seu verdadeiro nome - mais uma das minhas palinfrasias). 

Só quero dizer que se a merda do Megaupload continuasse activo, talvez Raquel tivesse ficado na merda da sua casa, com o filho da puta do seu namorado. 
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domingo, maio 13, 2012

- Um homem feliz é um bem comum !

LIBERDADES

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Acontece que qualquer usuário do meu táxi fica tenso se o olho insistentemente através do retrovisor. 

Retesam as suas costas, retesam os músculos da cara: as sobrancelhas, o queixo, as comissuras; inclusivamente pigarreiam ou tossicam. 

Sentem-se desconfortáveis. 

No entanto, quando não se crêem observados, quando eu me comporto como se não existissem (atento à condução ou simulando isso mesmo, ainda que me fixe neles, com dissimulação), tendem a relaxar-se, a confiar nos músculos da face e progressivamente sentirem-se livres, quase ao ponto de crerem estar sozinhos no táxi, como se o motorista faça parte do mobiliário. 

Algo similar sucede quando escrevemos pensamentos, sensações. 

Não é o mesmo escrever para si mesmo, que o fazer pressupondo que essas precisas palavras serão lidas. 

 

O texto predestinado a ser queimado ou armazenado a sete chaves, escrito só para mim mesmo, conserva uma frescura inigualável. 

Carece de escrúpulos ou preconceitos, de mentiras. 

É e será sempre um texto livre, autêntico, sem vícios: nunca foi pensado para agradar a alguém, nem para surpreender alguém, nem para ser compreendido por alguém, além de si, do desabafo. 

É um texto escrito em liberdade. 

Então, talvez a liberdade, já seja liberdade de movimentos ou liberdade de pensamento, se encontre precisamente nisso: na falta de olhares indiscretos, na mais estrita privacidade. 

Então, talvez, sejamos mais livres quanto mais longe criamos outros julgamentos. 

Precisamente por isso, talvez, quanto mais sozinho, mais livre. 

Pensem nisto.
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sábado, maio 12, 2012

- Dissipo tanto glamour que suo purpurina !

ESTRELAS ERRANTES

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Que difícil é falar de coisas que não têm forma. 

Que difícil é falar de coisas que não vemos, nem ouvimos e que, seguramente, nunca chegaremos a tocar, nem a cheirar ou saborear e ainda assim, apercebemo-nos e sentimos de forma muito clara. 

Normalmente estão à solta no nosso interior, consciente ou inconscientemente, enquanto continuamos obcecados com o nosso ambiente imediato de coisas físicas, materiais, formais. 

As coisas informais são feitas da mistura de todos estes 'outros' de uma só vez; são feitas de aromas, de texturas… de sabores, de luzes e sombras. 

Não é difícil que um som nos evoque uma recordação, uma sensação… inclusivamente uma época da vida em que fomos outra coisa. 

Somos sempre os mesmos, mas somos outra coisa. 

Outra coisa a cada momento. 


De facto, nisso consistem as recordações. 

Conservamos um conjunto delas que são os restos do passado, são a mostra de que somos seres temporários. 

Somos o resultado daquelas coisas que vamos vivendo e que vão deixando a sua marca em nós e por sua vez, as recordações são a mostra de que estamos vivos. 

Também, a nossa impressão vai ficando nas coisas, nas coisas e nos outros. 

Ás coisas sem forma chamamos-lhe sensações, sentimentos. 

Como é difícil falar do Universo. 

Também é uma coisa sem forma. 

A minha mente é tão limitada... tenho apenas os sentidos para percebê-lo... e não o cheiro, não o toco... e tão-pouco tem forma e no entanto, ainda está lá, é infinito. 

Infinito, dizem. 

Nada mais simples, nada complexo. 

O que posso dizer dele? 

O que posso dizer de ti? 


E quanto a mim? 

Posso dizer algo de mim? 

Então, se construo as minhas sensações com luzes e cores, sombras, olores, texturas… infinitas combinações, infinitas possibilidades  nascem para uma recordação, infinitas as recordações e de sensações, de sentimentos que nos fazem… que nos fazem ser nós próprios. 

O Infinito, outra vez. 

O Universo. 

Universos interiores tão vastos como aqueles por onde vagueiam as estrelas. 

Universos interiores infinitos, onde há de tudo e onde, por vezes, o único que falta somos nós mesmos; onde por vezes só ressoam ecos de outros Universos. 


Universos precários; Universos que absorvem outros Universos; Universos perdidos; Universos por onde vaguemos sozinhos, acompanhados; Universos que se fundem; Universos de tormentas, de sóis, de gelo; Universos vazios; Universos perdidos; Universos repletos de estrelas; Universos por onde deambulam sensações passadas, presentes… sensações que por vezes procuramos, sensações que por vezes nos custa encontrar, sensações que por vezes tropeçamos, sem querer ou querendo… sensações que surgem procurando outras perdidas e que nos surpreenderam porque não sabíamos que estavam aí… sensações. 

Sensações que fazem Universos impregnados de vida, Universos de Universos. 


Não há nada tão imenso. 

Encontrei o meu flutuando no mar, à deriva numa garrafa, deixando-se levar.
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sexta-feira, maio 11, 2012

- Procuro perversa para cronometrar rotinas e minutar desejos !

O FILHO da P*TA

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Insultas um condutor – filho da p*ta!!! – porque invadiu a tua faixa de rodagem sem prévio aviso e este gesto fez-te sentir revoltado. 

Sentes-te culpado, não pela má praxis do contrário, mas pela tua inapropriada reacção (não tinhas nada que lhe ter chamado filho da ‘dita’; ou até terias... não te reconheço). 

Nos instantes seguintes, desde que perdeste de vista o insultado até que te aconteça outra circunstância que desvia e ocupa de novo toda a tua atenção, sentes-te mal, (ou não). 

Esse intervalo ocupa um total de três minutos e dezassete segundos. 

Depois desse lapso de tempo, um motoqueiro detém-se ao lado do teu táxi, levanta a viseira e pergunta-te como chegar a Leça da Palmeira pela A41. 


Dizes-lhe que te siga, que precisamente também pensavas ir nessa direcção. 

Abre o semáforo, aceleras e a mota começa a seguir-te. 

Nesse momento esqueceste o incidente com o filho da p*ta; agora toda a tua atenção centra-se em não perder de vista o motoqueiro através do espelho retrovisor. 

Começas a sentir-me bem. 

Útil. 

O que fazes é importante para alguém. 

E quantas mais ruas percorres com ele a seguir-te, melhor te sentes. 

Associas o teu bem-estar com o motoqueiro. 

De certo modo, o teu estado de ânimo, depende dele. 

Por isso ao chegar à auto-estrada, em vez de saíres onde terias que sair, continuas à frente da moto. 


Ele já conhece o caminho, assim ultrapassa-te e levanta o braço em sinal de agradecimento. 

Para o motoqueiro, já cumpriste a tua missão. 

No entanto resistes a perder o teu estado de ânimo e aceleras, adiantas-te a ele e voltas a deixá-lo nas tuas costas. 

Fazes questão de prosseguir sendo o seu guia. 

O motoqueiro volta a ultrapassar-te e imediatamente tu a ele. 

Uma espécie de um ‘pique’ entre ambos, mas o teu caminho é outro. 

Mais à frente, o motoqueiro desvia-se para meter gasolina. 

Detém-se numa área de serviço e tu plantas-te adiante, com a intenção de o esperares. 


Nisto acerca-se de ti e diz-te: 

– Pretende que lhe pague por segui-lo, taxista? 

– Não. 
Só quero que me siga, dizes-lhe. 

– Aonde? 
Diz tirando o capacete. 

Não quero voltar à Maia sozinho. 
Os monstros mordem-me. 

– Os monstros? 
Vou dizer-te o seguinte: 
Caso continues a perseguir-me, chamo a polícia… filho da p*ta!

28JUN2011
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quinta-feira, maio 10, 2012

- A próxima vez que sonhar contigo não penso despertar...

PARASITAS…

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Tinha um aspecto impecável, fato italiano à medida, gravata de seda, pele bronzeada e o branco dos olhos, mais branco do que o branco que os meus olhos viram, (recordo imediatamente a asserção de Aquilino Ribeiro: “Olho branco em cara portuguesa, ou é de filho da puta, ou erro da natureza”). 

Antes de se sentar tirou o sobretudo, dobrou-o com suma mestria e pousou-o a seu lado como se de um delicado ser vivo se tratasse. 

Fechou a porta, indicou-me o destino com demasiada amabilidade e, já em andamento, sacou do telemóvel e começou a falar: 

- Tomás. 
O que se passa com esses despedimentos? 

Disse sem alterar o mínimo tom de voz. 

– (…). 

– Não quero desculpas, Tomás. 
Trinta do andar. 
Despede trinta do andar. 
É muito fácil. 
Termina-lhes o contrato, este mês, a quarenta e sete. 
Despede trinta desses, os que mais raiva te dêem. 
Antes de Agosto. 
E ao encarregado esse … como se chama?

– (…). 

- Germano, é isso. 
Despede-o também. 
Com o novo código sair-nos-à mais barato. 
Têm que se equilibrar as contas, seja a que preço for, entendes? 

– (…). 

– Não há desculpas. 
Se não és capaz de escolhê-los tu, terei que prescindir, também, dos teus serviços. 
Trabalho Tomás! Trabalho Tomás!
Ou estás connosco ou contra nós. 

E desligou sem sequer se despedir. 

Ajeitou a gravata, olhou as unhas e por último lançou um sorriso que me deixou gelado. 

Era um desses sorrisos de triunfador, de líder, de “eu quero, posso e mando”, de “tenho-vos todos sob controlo”. 

Sem dúvida que tinha a situação controlada: o futuro de trinta famílias, nem mais, nem menos. 


As suas vidas inteiras e a de muitos à sua inteira disposição. 

O deus do seu microcosmos. 

Tudo impecável no seu ponto de vista. 

A sua aparência física, as suas maneiras, a sua bruta moradia com piscina (este foi o nosso destino), a sua margem de lucros e a sua falta de escrúpulos. 

Um perfeito psicopata, enfim, socialmente aceite. 

E o mais grave: admirado por muitos. 

Pagou-me com uma nota de 50 € recém estreada e ao roçar um dos seus dedos senti um arrepio de frio e invadiu-me um medo indescritível. 

Estaremos todos nas mãos de psicopatas?
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quarta-feira, maio 09, 2012

- Sempre tive o sonho de entrar num táxi e gritar: 
"Siga esse carro" !

MULTAS

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O meu nível de ensimesmamento mede-se pelo número de multas de trânsito que me chegam a casa: quanto mais multas, mais vivo para dentro. 

Agora, por exemplo, encontro-me imerso em pleno processo de criação. 

Tento dar forma a uma trama com pretensões de novela, obsessão que me ocupa todas as horas do dia, o tempo de “prego a fundo” no táxi incluído. 

Na foto (multa no para-brisas) circulava no túnel de Ceuta, suponho que levando um passageiro e conversando com ele. 

Não sei o que se passa contigo, mas comigo torna-se impossível levar no meu táxi um desconhecido, imaginar a sua vida através do seu aspecto físico ou simplesmente falando com ele e avaliar as hipóteses de incluí-lo na minha tal novela (e se assim for, em que parte da trama ou, com que escusa) e com tudo isto, respeitar os limites de velocidade. 

 

Desde que comecei a alinhavar esta novela, chegaram-me, um total de sete multas, um rol de infracções graves e uma pipa de massa para contribuir para o bem-estar de alguns. 

Em cada uma delas apresentei o mesmo paleio para o recurso, escrito pelo meu próprio punho e letra, (gosto de tudo pessoalizado), alegando o que já escrevi mais acima; que nesses instantes me encontrava em pleno processo criativo e que para o meu bom futuro literário, com o fim de não truncar o desfrute aos meus futuros leitores, procedessem em consonância, para me retirar a multa. 

 
Com um 'corpo' policial destes até dá gosto ser autuado

E de passagem, deitassem uma vista de olhos ao Google, digitando “INSÉTE”. 

Não ganhei nenhum dos recursos, o que demonstra a falta de sensibilidade das autoridades (da ANST), assim como o seu nulo interesse em fomentar a cultura. 

Coisa a que já estou habituado neste reinado de R. Rio. 

Em qualquer caso, tenho pensado enviar todas estas multas ao meu editor como gastos do processo de elaboração da futura novela. 

Espero que pelo menos ninguém se atreva a dizer, quando por fim termine, edite e saia para venda, que o livro é caro.
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terça-feira, maio 08, 2012

- Sempre fui um homem sério, de hábitos moderados e sentido comum, mas sofro de terríveis enxaquecas.
Ontem, o médico disse-me que talvez tenha demasiados sonhos por sonhar !

UM FILHO…

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Entrou no meu táxi uma passageira com um miúdo de quatro ou cinco anos e de seguida, ela e eu começámos a falar, primeiro do tempo (chovia), depois da crise, e depois da crise passou-me a contar a sua própria, com todo um luxo de detalhes: já estava desempregada há três meses, que o subsídio que recebia mal dava para cobrir os gastos com a casa, que agora tinha que levar o miúdo ao terapeuta da fala. 

O miúdo, por sua parte, permanecia em silêncio atento a todos os saltos do taxímetro. 

A meio do trajecto a mãe indicou-me que era melhor ir pela VCI, porque apesar de ser mais longe, seria mais rápido. 
Assim fiz, entrei na VCI, coloquei-me na faixa da esquerda e nisto, sinto o miúdo tocar-me no ombro e diz-me: 

- Não vás tão depressa, papá. 

A mãe olhou-me surpreendida e ruborizada através do espelho e eu a ela, mas nenhum dos dois disse nada. 

E assim, em silêncio, chegámos ao seu destino. 

Procurei um local onde parar, e nisto o miúdo diz: 

- Não vens, papá? 

Saímos do táxi e entrámos os três juntos, de mão dada, para a consulta de terapia da fala. 

E aqui estamos. 

A mãe e eu, na sala de espera. 

Dissimulando. 

Felizes. 

(Já viram a responsabilidade que supõe ter um filho assim de repente?). 

... No outro dia de manhã quando saí de casa deles, a mãe e o "meu" filho ainda dormiam.
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segunda-feira, maio 07, 2012

- A maturidade permite-me olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura ! (Lya Luft, escritora, professora e tradutora brasileira)

domingo, maio 06, 2012

- O teu biquíni faz-me crescer água na boca; assim descubro a diferença entre a água doce e a salgada ! (josé torres)

Latitude: (37° 41' 5.79'' N)
Longitude: (0° 44' 7.89'' W)


Sim, sem dúvida é aqui… cheguei.

É aqui onde se encontram as águas da recordação e as do esquecimento, onde se encontra a pista perdida... e de novo desaparecem as pistas. 
 
É aqui, reconheço-o, e o meu espírito dança ao ritmo das ondas e dos tambores como se nunca tivesse partido. 
 
Estou em cada grão de areia e a gaivota encerra o presente da vida. 
 
Sim, é aqui. 
 
O suor outra vez, a pérola do constrangimento que decora o meu rosto, a barba e o bigode transpirados e caminhar descalço. 
 
Passe deslumbrante de estrabismo, o gesto automático de espantar uma gaivota: as essências da praia revisitada que me transtorna.


 

E também a delícia, o deleite, o suave balancear, o esmorecer, (desvanecer), as pálpebras deleitosamente caídas, a voluptuosa cadência, o ritmo profundo e o palpitar, o sorriso. 

Todos estão aqui para receber-me… para abraçar-me. 

Desnudam-me e vestem-me com algas, com ramos de palmeiras e colares feitos de sementes e conchas. 

Rapidamente me emborracham e riem ás gargalhadas com o meu mareio feliz e torpe de recém-chegado. 

Deixo-me levar e conto as horas, e sonho, e sei que não é miragem, e sei que sempre estará ali aquela areia, e aquela água de ondas coleantes, uma e outra vez, ainda que volte a ausentar-me… amanhã ou depois, ou depois…
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sábado, maio 05, 2012

- Nem todos os tesouros são de ouro e prata... meus amigos!

RAPINEIROS DE PUNHOS RENDADOS






Eu, José Torres, juro por todos os diabos que jamais, nos meus longos anos de pirataria, conheci melhor tripulação do que esta com que navego agora no “Brilhante”. 

Um punhado de valentes ás ordens do capitão , sulcando os mares sem respeitar bandeira, lei ou coroa e assaltando sem temor todo o barco que se cruze no nosso caminho. 

Ninguém, como o nosso capitão, para infundir valor à marinhagem, ninguém como ele quando é necessário contornar baixios ou contornar temporais. 

Não lhe treme o pulso ao ordenar uma abordagem, como tão-pouco ao elevar o seu cálice, celebrando uma boa pilhagem. 

Mas ai dos amotinados, pois a sua disciplina é rigorosa e não esqueceremos a expressão de Sony, "o grego", quando foi desembarcado num isolado ilhéu sem mais nada do que umas bolachas, uma cana de pesca e uma arma carregada. 


E é que, como repete sempre Jack, "o torto", o código de honra dos cavaleiros da fortuna é lei nos sete mares. 

E Sony, "o grego", falou demais, murmurou durante umas guardas acerca de um tesouro escondido e um mapa tatuado na barriga do capitão. 

Pagou caro a sua codícia e foi um castigo bem merecido. 

Somos espíritos livres, sim e orgulhosos. 

Todos sabemos que os nossos “coiros” não valem um “tusto” se cairmos nas mãos de algum barco inimigo. 

E ainda assim não tememos, pois descendemos da ralé de Flint e de Drake, da raça de Morgan e Barba-Negra, dessa indomável estirpe lendária, que alimenta os sonhos dos jovens e acende o ânimo das belas senhoritas em terra firme. 


E de nós, do “Brilhante”, também se contarão amanhã façanhas e aventuras? 

Pois ainda que a nossa pele seja negra, não é de vela a nossa nave e em lugar de sabres a arcabuzes, disparamos armas automáticas, sustém os nossos dias o mesmo impulso de antanho, no mesmo fogo que jurámos na ilha do diabo, e o mesmo temor instila a nossa proa quando aparece num qualquer confim dos mares de Somália. 
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sexta-feira, maio 04, 2012

- A saúde é um bem que se não sente !

ESTRÉNUO

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É uma verdadeira doença ter fama de valente. 

Solitário, com a única companhia do meu corcel branco, armado com a minha espada e protegido pelo meu escudo e armadura, vagueio pelos reinos procurando aventuras e desafios. 

E quando não os encontro, os desafios sabem como encontrar-me. 

O meu nome viaja pelos ouvidos e bocas dos homens, mulheres, anciãos e crianças que relatam as minhas façanhas; muitas vezes, não o posso negar, costumam empolar e exagerar. 

 
 
Lamentavelmente a minha estrutura física costuma decepcionar os incrédulos e por isso é que frequentemente me vejo na necessidade de demonstrar as minhas habilidades e valentia. 

Todos acreditam que sou um mito e as suas estúpidas mentes não podem imaginar-me a caçar dragões ou a combater exércitos. 

Portanto, são muitos os que me desafiam para a morte e me obrigam a manter a minha fama, já que no dia que a perca, será o triste dia da minha morte.
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quinta-feira, maio 03, 2012

- Qual será a influência da menstruação das baleias na coloração do Mar Vermelho ?

POSTURAS


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Limpadora outonal de casas, esta proverbial empregada doméstica, sem se depilar, abraça-me segurando a foto do seu marido perdido no mar há quarenta anos e um "papelote" dela. 

Em sua casa aprendi a desenvolver essa nova ética que flui para substituir a raiz chamuscada nas ruínas do rio. 

Inclusivamente refugiei-me ali absolutamente "pedrado" ou 'chapado' ou simplesmente chateado do trabalho e de todos, quando não tinha onde cair morto. 

Ela sempre me acolheu como um filho, com as pernas abertas e a carteira escondida num local que eu sabia. 

Terezinha era de hábitos moderados, racionalmente operária até ao tutano, orgulhosamente associada por amor e destino ao bando que perdeu a grande guerra. 

 

Olhava de frente a vida, sem hematomas na alma e vivia sem dissonâncias elitistas em tudo, excepto ao fazer amor comigo. 

Gostava de dispor com ordinária mas vigorosa imaginação, de decoradas  fantasias e propor situações excêntricas para o acto. 

Exigia que me duchasse sempre e vestia-se com peças de lingerie inverosímeis, subtraídas nas casas de linhagem que tinha limpo durante anos. 

Eu fazia-o com cuidado e carinho, às vezes derramando lágrimas no seu ombro, estremecido de gemidos em cima e dentro dela, que me abraçava enquanto lhe gotejava água e sémen. 

Depois, oferecia-me sempre, pelo menos duas "doses" mais das que lhe comprava para revender. 

 
Desenho de Carl Barks
 

Ave Maria, santa Terezinha, breve nos encontraremos no inferno. 

Terezinha falava muito, tivesse ou não gente à frente. 

Parlapateava com sentido sobre a guerra, assomava nos seus comentários o rancor vingativo à classe menosprezada pela história. 

Insultava em crescendo os ricos, generalizava como só os analfabetos podem fazer se são da facção derrotada. 

Desprezava anedotas jocosas e algo soezes para com a raça que subjugou a sua, mas que nunca pôde com o seu espírito. 

Roubava nas casas que limpava. 

Furtar era, na sua opinião, a justiça poética que mereciam os fascistas. 

A sua casa era um museu desses sequestros, uma galeria de recomposições históricas do proletariado, uma grinalda de reféns decorativos. 


 

Encantava-me ver como se duchava, lentamente, meticulosa. 

Deleitava-se com o prazer da higiene; quiçá careceu dela durante a sua infância no bairro dos pescadores. 

Eu sentava-me na bacia de retrete e ela permitia-me observar, em silêncio, como se ensaboava através dos vapores da água quente. 

O seu corpo rosado tinha um surpreendente brilho suave, excitante, uma solidez de formas insólita para a sua idade. 

Por vezes masturbava-me vendo as suas rotinas de limpeza e penso que ela, apesar de parecer ignorar-me, comprazia-se com isso. 

Desfiava, nessas ocasiões, todo um reportório de novas posturas, dignas de postais eróticos do século XIX, como as que coleccionava o meu avô “Jetas”.
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quarta-feira, maio 02, 2012

- Por que gosto de fazer praia e não, de fazer o almoço?
É porque a posso fazer deitado !

AMÁSIOS

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As malas já estavam desfeitas, as camisas e calças dependuram-se dos cabides, os sapatos formam no armário, alinhados por ordem de cores: estamos instalados no motel Ibis. 

No lavatório do quarto de banho, as nossas escovas de dentes bailam cruzadas o seu tango apaixonado de cristal, presenteando-nos essa sensação de lar tão necessária. 

O quarto é diáfano, luminoso; a alcatifa de cor clara está limpa e convida a andar descalço. 

Aqui estaremos à vontade, tenho a certeza. 

A recepcionista foi muito amável (demasiado mesmo, segundo Amélia) e apenas se surpreendeu quando rejeitámos a sua ajuda com a bagagem. 

Insistiu só o suficiente em que não era necessário pagar 15 dias adiantado e aceitou a gorjeta com um sorriso, anotando no livro a nossa reserva, “Senhor e senhora Torres”. 

Todavia, e creio que com a Amélia se passa o mesmo, nunca me acostumei a usar um novo nome em cada lugar. 


Mas os dois sabemos que é necessário, que é um dos pequenos detalhes imprescindíveis para continuar a viver esta história de amor. 

Ainda que pareça uma loucura, fugimos, escapulímo-nos juntos, abandonando para sempre as nossas vidas anteriores. 

 E ainda que seja difícil de acreditar, esta vida nómada de motel em motel, sem qualquer destino mais do que localizar fugazes cantos para o nosso idílio e semear as peças que desmontam o ocorrido, terminou apaixonando-nos. 


Felizes, dirigímo-nos para estrear a piscina. 

Amélia levava um biquini preto que comprámos numa área de serviço e o pessoal jovem, com os olhos, devoraram-na como os olhos. 


Não sou ciumento, simplesmente chateia-me contemplar nos outros o efeito que o seu corpo e a sua beleza causam em mim, mesmo assim, pedi-lhe que se mudasse e ela acedeu com uma careta 'coquete' e qualificando os sorrisos da recepcionista como algo mais que de cortesia. 

Esta mulherzita minha!!! 

Isto acontece-me sempre que a vejo, algo me trespassa o coração e esqueço o que acontece ao redor. 

Lurdes, a minha mulher, percebeu-o imediatamente nos jardins do centro durante o nosso primeiro encontro. 

Fernando, o marido de Amélia, também. 

Não se pode, como dizem, tapar o sol com uma peneira, não se pode deter um amor como o nosso. 

Fernando e Amélia trataram de opor-se, claro, tal qual os nossos filhos e netos, os médicos e enfermeiros e todos os demais ocupantes do centro de repouso. 

Foi inútil. 

 

Desde a guerra de Angola que não tinha utilizado a Walther P38 que guardava religiosamente junto duma qualquer condecoração que me deram. 

Pensei que encravaria depois de tantos anos, mas o gatilho deslizou com suavidade e os dois estampidos ficaram afogados com as almofadas, sem despertar ninguém. 

Levámos os seus corpos em macas até ás câmaras frigoríficas da cozinha e trociscámo-los com a serra eléctrica. 

Agora vamos deixando uma parte das nossas vidas em cada etapa.; na última cidade abandonámos a cabeça do pobre Fernando num contentor de lixo. 

Amélia disse-me que no mini golfe do Ibis a terra é macia e ninguém suspeitará que as pernas de Lurdes descansam debaixo do buraco 13. 
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terça-feira, maio 01, 2012


- Não me importo que as mulheres me importunem; o que não suporto é que seja sempre a mesma !

IRRADIAÇÃO e CAPTAÇÃO




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Só me fixei naquele detalhe já o trajecto ia bastante avançado. 

Neste caso, aquela passageira do meu táxi, não sei se por descuido ou deliberadamente, levava espatada no pescoço, a escassos centímetros da sua orelha esquerda, uma agulha de acupunctura. 

Pode muito bem acontecer que o seu médico acupunctor se tenha esquecido de a retirar ou, talvez a tenha deixado cravada na sua pele como parte do processo curativo. 

Por prudência não disse nada, (também que dizer nestes casos?: “Você sabe que tem uma agulha espetada no seu pescoço?"), mas não pude evitar que aquela imagem me mantivesse por longo momento pendente do espelho. 

Tenso e pensativo. 

Num semáforo peguei no telemóvel para colocar no Twitter uma anedota que me ocorreu, mas nisto vejo no ecrã um aviso com a seguinte solicitação de contacto: 

 

Verónica Lopes deseja contactar contigo via Bluetooth. ACEITAR/REJEITAR”. 

Por curiosidade aceitei (e porque no fundo me sinto só e gosto de desafios).

Nesse instante apareceu-me uma mensagem da tal Verónica Lopes: 
Baixe um pouco a temperatura, por Deus! Estou a assar...” 

Olhei a passageira. 

Estava no seu mundo, observando alheada a rua. 

Baixei um par de graus a temperatura e nisto a passageira sorriu, ainda que sem sequer olhar para mim, nem disse nada. 

Depois chegou-me outra mensagem: 
Gosto muito dessa canção. 
Pena é que o volume esteja tão baixo”. 

No rádio soava “Love will tear us apart” de Joy Division. 

Aumentei o volume e então ela olhou-me surpreendida, arqueou as sobrancelhas e voltou a sorrir-me 


Aí soube que através daquela antena, digo, agulha cravada no seu pescoço podia aceder com o meu telemóvel aos seus pensamentos sem que ela o soubesse. 

Mas ainda desconhecia se aquele invento era reciproco. 

Poderia meter-me na sua cabeça? 

Para comprová-lo pensei em enviar uma mensagem a Verónica Lopes através do telefone. 

Escrevi: 
Fecha os olhos”. 

E ela fechou os olhos. 

Uau!, pensei. 

Humedece os lábios, languidamente, com a língua”, voltei a escrever. 

E ela assim o fez. 

Aproxima-te do taxista e beija-o na boca”. 

Verónica colou-se entre os assentos dianteiros e com os olhos cerrados juntou os seus lábios com os meus. 

Enquanto me beijava intentei teclar o meu próximo desejo, mas ao mover-me desprendeu-se a agulha do seu pescoço. 

 
 
Nisto abriu de súbito os olhos e, ao ver-se tão pertinho de mim, afastou-se como um raio e deu-me uma sonora bofetada. 

Então saiu do táxi batendo a porta. 

Pelo menos tenho a sua agulha em meu poder. 

Cravei-a na mesma zona do pescoço que ela e tentei pôr-me em contacto comigo mesmo via Bluetooth para interagir comigo mesmo e obrigar-me a levar melhor vida através do telemóvel, mas não funciona. 

Agora estou num bar. 

Confuso e borracho como todas as noites.
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