O VIDEIRINHO

domingo, setembro 30, 2012

- NÃO TE ESQUEÇAS DISTO: 
A acção de um político pode tornar a tua vida num pesadelo. Melhorá-la?  Duvido!

MAIS SÁBIO

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Somar quilómetros nem sempre significa avançar. 

Podem ser voltas ao redor de um mesmo nada ou passos de cego ou um constante ir e vir de qualquer lugar a nenhuma parte. 

Por isso, cada vez que tenho de trocar os pneus do meu táxi por outros novos, interrogo-me se essas fibras de borracha queimada e abandonada no asfalto também queimaram o meu tempo sem deixar cinzas ou melhor, criaram outro homem mais velho e mais sábio. 

Mas sei, como tu também sabes, que a resposta não está nos pneus, mas sim na carroçaria do táxi.

 
Quantas batidas recebidas ou que eu provoquei neste tempo? 

Quantos arranhões? 

Quantos faróis partidos? 

Tudo isto recorda-me “Crash”, o impactante filme de David Cronenberg, quando depois de um acidente entre dois carros, uma voz off diz:
É a sensação de contacto. 
Em qualquer cidade que caminhes, compreendes? 
Passas rentinho da gente e esta tropeça contigo. 
Em Los Angelos ninguém te toca. 
Estamos sempre atrás deste metal e vidro e ansiamos tanto esse contacto que chocamos contra outros só para poder sentir algo”.



Deste modo, cada vez que a companhia de seguros do meu táxi me aumenta o prémio do seguro (por exceder o limite de acidentes), sinto-me mais sábio. 

Mais pobre, mas mais sábio. 

Mais imbecil, mas mais sábio.

01MAI2011
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sábado, setembro 29, 2012

- Os meus vizinhos só ouvem boa música. Querendo ou não !

LIVRO DA VIDA

 .

 
D. Quixote do artista plástico brasileiro Rogério Dias 
Ninguém está a salvo. 

Uma simples chispa poderia incendiar o táxi da vida. 

Ninguém sabe onde se encontra a sua própria linha vermelha, a mesma que separa o sensato do louco. 

Nem Cervantes chegou a conhecer em que página exacta Alonso Quijano se descartou do nome, crismando-se em "D. Quixote de la Mancha" e “passou-se dos carretos de maneira que veio a perder o juízo”. 

Não existe uma dose concreta de ficção, nem manual que te ajude a desatascar colapsos nesse funil que é a realidade, nem amor que te amarre com grilhões ao solo, nem psico-fármaco exacto para prevenir o teu. 


Mas não temas. 

Também tem o seu ponto alto investir contra semáforos acreditando que são dragões para salvar uma princesa disfarçada de Polícia Municipal. 

– O que é real? 
Se o meu vermelho é o teu amarelo, quem é o daltónico? 
Por acaso o condutor kamikase pensa que o resto conduz no sentido correcto? 
Por acaso tu e eu beijamos o mesmo, quando nos beijamos? 


Quem me assegura que tu, leitor@, não estás com uma grandessíssima borracheira quando discordas das minhas palavras? 

Onde está o teu livro da vida por pontos? 

Onde me terei esquecido do meu? 

Nota: 
Quando D. Quixote voltou a recuperar os pirolitos todos, e se converteu de novo em Alonso Quijano, morreu. 

Morreram os dois, quero dizer.
02NOV2011
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sexta-feira, setembro 28, 2012

- Se minha moto fizesse sexo, eu seria o homem mais feliz do mundo !

TODOS LOUCOS

 .

 

Com todas essas câmaras vigiando as ruas, estradas…, querem-nos fazer crer que controlam o tráfico, mas não será assim exactamente. 

Eu mesmo já fiz a prova disso. 

Aproveitando um semáforo, acedi a partir do meu smartphone, a uma dessas Webs que emitem o tráfego em tempo real, cliquei no ponto do mapa onde me encontrava e, com efeito, apareceu a imagem da via e os veículos que me rodeavam. 

Mas nem rasto do meu táxi. 

No local onde deveria aparecer o meu táxi, aparecia um vazio, como se não existisse para a câmara, mas sim para o resto dos veículos. 

Surpreendido, saí do táxi e comecei a mover os braços para a câmara, EH! ESTOU AQUI!, mas mesmo assim, tão-pouco, cheguei a ver-me na imagem do meu smartphone. 


Era um fantasma ante os olhos da PSP. 

O semáforo abriu e os demais veículos começaram a buzinar-me. 

Depois iniciaram a marcha e deixaram-me sozinho. 

Dias depois, no entanto, chegou-me a casa uma multa desse mesmo ponto e a essa mesma hora por “obstrução da via e abandono do veículo sem o correspondente colete reflector”. 

Contei os factos ao meu psiquiatra e em lugar de animar-me a apresentar um recurso contra a PSP, aumentou-me a medicação. Enfim. 

Todos loucos. 
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quinta-feira, setembro 27, 2012

- O olor é a última coisa que desaparece dos nossos sentidos quando algo termina !

DANÇAS DUM LOBO

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Apenas me fixei nela quando entrou no meu táxi. 

Estava imerso noutras coisas, inventando amendoins descascados para os macaquinhos do meu sotão. 

Acabei de ouvir o que me disse: 
“Boas tardes. Para a estação de Campanhã, por favor”.

Por inércia accionei o taxímetro e iniciei a marcha. 

Os macaquinhos continuavam a macaquear-me o sótão, assim, decidi matá-los a bombardas deitando a mão ao meu próprio kit de sobrevivência: uma bolsa com diversos CD de música, {CD e não CDs – as siglas e acrónimos não possuem plural}. 

Aproveitando o semáforo saquei um CD ao acaso e introduzi-o no sexo, digo na racha, do equipamento. 

Imediatamente começaram a soar, num volume de som que eu não esperava, os primeiros acordes de “Are you gonna be me girl”. 

Nisto, a minha passageira começou a percutir com o pé, o chão do táxi, seguindo o ritmo da música. 

- Gosto muito deste tema. 
Pode aumentar um pouco o som?, disse-me. 

- Mais? 

- Sim, por favor. 

 

Aumentei o volume a um nível obsceno e então a jovem começou a mover a cabeça e os ombros. 

Contagiado pela sua necessidade de acompanhar o ritmo, comecei também eu a percutir com as mãos sobre o volante. 

E depois a mover o pescoço e de seguida o tronco. 

E a cantar com ela. 

- Uau! 
Tenho ganas de sair para a rua a dançar, gritou-me. 

Num arranque de “INSÉTEísmo”, travei o táxi em plena rua de Pinto Bessa e abri a porta. 

- Saia comigo. 
Dancemos, disse-lhe. 

A jovem sorriu-me e sem pensar sequer, abriu a porta e saiu para a rua. 

Ambos começámos a dançar á volta do táxi até ficarmos diante da frente do mesmo, aproveitando a luz dos faróis como os “rockstars” no clamor da noite. 

Olhava-me e eu a ela, ambos sorrindo, movendo-nos mas agora sem tirarmos o olhos um do outro, como íris unidas com grilhões. 


Tão-pouco nos importavam os curiosos que pouco a pouco se iam acercando. 

Não existiam. 

Foi lindo. 

Profundamente belo. 

Então eu soube-o. 

Acabou a canção e imediatamente começou a soar “Please, please, let me get what I want”, dos Smiths, um tema muito mais lento e rigoroso, que ela, para meu espanto, também conhecia. 

Então ela começou a cantar acercando-se de mim e eu dela. 

E quis abraçá-la, quiçá beijá-la, mas nisto apareceu um carro da polícia, que como sempre sucede, interrompeu a magia. 

Nota: 
Quinze desculpas depois reiniciámos a marcha até chegar a Campanhã. 

Ela tinha que partir, senão perdia o Alfa Pendular. 

Tão-pouco me deu o seu número de telefone. 

Nem soube o seu nome. 

Para efeitos práticos o seu Alfa Pendular levou os meus macaquinhos do sótão, sim. 

Mas a borboletas são piores.
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quarta-feira, setembro 26, 2012

- Cientistas estrangeiros afirmam que o homem é capaz de fazer amor até os oitenta anos, o que é que achas disto? 
- Acho que infelizmente, o infeliz  mente...


PARLAMENTO EUROPEU...
 
RECEBEM 12.000 EUROS AO MÊS!!!
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... E NÓS TRABALHANDO COMO BURROS!...

terça-feira, setembro 25, 2012

- Haverá diferenças entre uma tábua de queijos e a tábua dos 10 mandamentos ?

ILUSÔES

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Pela sexta noite consecutiva volta a encher o teatro. 

Uma banda de som, carregada de intensidade, começa a ecoar na sala. 

As luzes tornam-se mais opacas, acende-se a máquina de fumo e o caixote é colocado pela “partner” no meio do cenário. 

Num dos extremos do dispositivo vê-se uma cabeça a sobressair e no lado oposto emerge um par de sapatos. 

O mago aparece coberto por uma túnica negra, sustentando a motosserra que depois utiliza para cortar o caixote ao meio. 

A actuação é impecável. 

É tão perfeita e tão bem realizada e sente-se tão realista, que inclusivamente muita gente desmaia com a impressão. 

Os gritos de dor, o sangue, as vísceras esparramando-se no chão são detalhes tão excêntricos e autênticos, que ninguém pergunta porque é que o mago não volta a unir as duas metades. 

O público, rendido e atónito, outorga-lhe um forte aplauso.


Não há ou deve haver maior satisfação para um psicopata e exibicionista que obter um grandioso aplauso pelo trabalho que mais gosta no mundo: assassinar. 

Eu estava ali quando chegou a polícia para deter o mago, que somente alegou, que em todas as profissões se cometem falhas e que era esta a primeira vez que passava por uma situação assim. 

Como é natural, não o detiveram nem uma hora. 

O juiz disse: 
Isso é verdade, em todos os ofícios há falhas. 
Muitas; muitíssimo mais graves até. 
Em todas as legislaturas é muito frequente haver falhas gravíssimas e não é por isso que os juízes encarceram esses criminosos/magos, ou magos/criminosos, ou lá como se chamam os “auto-eleitos”.

Passos Coelho continuou em frente!!!+
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segunda-feira, setembro 24, 2012

- Nunca reclames do domingo, pois sem ele já estarias na segunda !

PROFUNDAMENTE (II)

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... CONTINUAÇÃO



Desliguei o taxímetro e “ala moleiro”. 

Seriam umas onze horas e pico da noite, ainda não tinha escrito o post para o meu blog, pelo que na povoação seguinte ia procurar (este  povoado estava morto) um sítio onde pernoitar. 

Antes de alcançar as primeiras casas surpreendi-me ao ver junto à estrada uma esplanada com uma série de portas, em montículos, dispostas a esmo sobre o solo. 

Dessas portas entrava e saia gente. 

Aparquei o táxi, recolhi o portátil e entrei por uma delas. 

Depois de umas bem empinadas escadas descendentes acedi a uma divisória com uma bruta abóbada, com um balcão e umas mesas de madeira, barris de vinho e pessoal comendo e bebendo. 



Era uma adega (ou gruta) escavada debaixo da terra ou melhor, debaixo do rochoso subsolo. 

As paredes faziam parte da rocha e cheirava muito a humidade. 

Sentei-me ao balcão e pedi, como não podia ser de outra forma, vinho da casa e alguma coisa para picar e trincar. 

Saquei do meu portátil. 

– Tem Wi-Fi? 
Perguntei ao empregado. 

– Não. 
Comida chinesa não servimos. 
Temos pão, chouriço, presunto, queijo, morcelas, tripas enfarinhadas,  coxas de frango… 

- Está bem. 

Escolhi, pão, três pratinhos diferente (três raciones), um caneco de vinho e preparei-me para escrever algo. 



Só saiu o que agora estão lendo. 

Perguntei ao empregado a que profundidade nos encontrávamos. 

Disse-me que a vinte e cinco metros abaixo de um manto de terra e pedras. 

Como aqui não há Wi-Fi, nem cobertura de internet móvel, quando acabar de escrever estas alinhavadas linhas, terei que subir à superfície para ligar-me à Internet. 

NOTA: 
Este post foi escrito, fruto da mais literária casualidade, não só a 290 km da minha casa, como também 25 metros abaixo da terra. 

Para que depois alguns não digam, ou insinuem que o que escrevo, não é profundamente profundo.
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domingo, setembro 23, 2012

- Há 50% de probabilidades de que Deus exista. 
Só tens que lançar uma moeda ao ar e rezar para que saia cara !

PROFUNDAMENTE (I)

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Perdido pelas ruas numa ida e vinda para conquistar o pão nosso, melhor, o meu pão do dia-a-dia, encontrei um indivíduo com uma mala de mão que me perguntou quanto custaria a viagem, agora mesmo, a uma povoação perto de Benavente, em Zamora, Espanha. 

Sério como sou, (nem sequer duvidem!!!) , consultei a minha máquina de que não percebo nada, o GPS, vi a distância em quilómetros, (cerca de 330 km) e calculei, por baixo, segundo as tarifas nacionais e internacionais, acrescidas as portagens, da verba a pagar pelo meu cliente. 

- 400 euros (para não o assustar), senhor. 

– Concordo. 
Então não se importa de me levar? 

Perguntou-me apressado. 

Eram perto das oito horas. 


 
Pensei na minha vida: 
Não tenho que madrugar (aliás nunca madrugo), nem levar a miudagem ao colégio, (não tenho filhos nem netos), nem obedecer a um chefe, (não tenho chefe), nem avisar a minha mulher ou a minha mãe, vivo só, ninguém me liga, nem espera). 

Disse-lhe que sim. 

E mais, desde a minha última viagem sem destino, só improvisação, ando com uma mala, com uma muda de roupa, uma calção de banho, escova e pasta dentífrica, para uma casualidade casual, como casualmente aconteceu agora. 

Já em andamento o meu passageiro contou-me que a sua irmã adoeceu e que não tinha conseguido um meio de transporte mais rápido, a esta hora, do que o táxi. 

Logo adormeceu durante os longos quilómetros. 




Pouco antes de chegar a Benavente (frio como um raio e chuva diluviana), dei-lhe uns toques nas pernas e o homem despertou. 

Já refeito indicou-me como chegar à pequena povoação a uns escassos dez quilómetros dali, numa estrada cheia de buracos e remendos. 

Ao chegar à porta da casa da irmã, pagou-me o acordado, deu-me vinte euros de gorjeta, e inclusivamente disse-me que podia pernoitar, havia várias camas vagas. 

– Agradeço a sua oferta, mas esperam-me, menti-lhe. 

CONTINUA...

sábado, setembro 22, 2012

- Em Sodoma e Gomorra inventaram as relações públicas !

"DESINFELICIDADE”

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Mala imensa Louis Vuitton, zona nobre. 

Mulher Armani em pé na borda do passeio. 

Detenho-me a seu lado, saio do táxi para encarregar-me  da mala e ela mantém-se quieta, esperando que eu também lhe abra a porta, como se fosse costume;  assim faço-o, não mais do que para seguir o seu jogo de classes. 

Abro-lhe a porta, baixo a cabeça e com uma certa ironia acrescento: 

- Mademoiselle… 

Senta-se com extrema elegância, fecho a porta e volto para o volante. 

Com voz CHANEL (Nº. 5) indica-me o seu destino, o luxuoso, Tiara Park Atlantic Porto, na Av. Da Boavista. 

Durante o trajecto recebe uma chamada. 

Tira o telemóvel da sua carteira Yves Saint Laurent. 

Para atender, tira uma luva: 

- Teresa… vim-me embora. 
Não aguentava mais. 

– (…). 

– Vou a caminho do hotel (…). 
Falei com o gerente, que é muito amigo da família. 
Disse-lhe que… me estavam a reformular a casa. 


 – (…) 

– Sim, tem uma suite disponível para mim. 
Não sei quanto tempo ficarei. 
Necessito pensar, ordenar a minha vida. 
Foi um golpe muito, muito duro… Rafael ainda não sabe que parti. Quando chegar esta noite do Dubai, perguntará sobre minha ausência ao pessoal, suponho. 
Já te contarei com mais calma. 

– (…) 

– Estou a chegar. 
Ligo-te daqui a uns minutos da suite. 

– (…). 

– Sim, sim, fantástico. 
Vem e jantamos. 
Mas sobretudo peço-te descrição. 
Ainda não quero que alguém saiba o que se passou e muito menos que me hospedo aqui. J
Já verei como vou gerir esta crise. 

– (…). 

– Ás sete no restaurante do hotel, sim. 
Adeus. 

Chegamos ao hotel e a mulher despachada estende-me uma nota de 20€. 

– Fique com o troco, diz-me talvez para comprar o meu silêncio (o taxímetro apenas marca 7,30€). 

Acerca-se um funcionário perfeitamente uniformizado (que chama a mulher pelo seu nome), pega estoicamente a sua pesada mala e desaparecem os dois pela impressionante entrada do hotel.


Retomo a marcha e então interrogo-me de que servirá tanto luxo se ao cair da noite ela dormirá numa imensa cama de seda, mas sozinha e destroçada por dentro. 

Fechará os olhos e a sua tristeza será igual e intensa que qualquer outra tristeza milionária. 

Todos somos iguais ao fechar os olhos; de nada lhe serviria passar a banda do VISA platina, por entre as pálpebras e pensar e sonhar ‘à la carte’ em pay per view. 

Isso não é possível.

Será pois a mesma escuridão ao apagar as luzes, o mesmo cérebro segregando lembranças enfrentadas, tormentos igualmente nítidos, idêntico pranto salgado sobre uma almofada de plumas de pato que isola do frio mas não das sombras. 

Para que serve, então, tanto dinheiro se a dor não se deixa subornar?
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sexta-feira, setembro 21, 2012

- A fim de formar um membro imaculado de um rebanho de ovelhas é preciso, acima de tudo, ser uma ovelha. 
Eu sou um ornitorrinco !

AQUI HÁ GATO



Procurando o impossível, agarrar o gato por três patas, este sacou das garras e arranhou-me. 

Foram três arranhadelas na palma da minha mão. 

Três valentes arranhões paralelos a três das minhas quiromânticas linhas: o coração, a vida e o destino. 

Sem dar muita importância, mesmo à dor, saquei o meu táxi e fui… 

Duas ou dez ruas depois, fez-me sinal uma mulher a quem faltava um braço, o direito. 

Entrou e indicou-me o caminho, curve na próxima à esquerda e na seguinte à esquerda e na seguinte à esquerda e na seguinte à esquerda. 

Depois de dar a volta à “laranja”, pediu-me para a deixar no mesmo sítio onde a tinha recolhido. 

– Quanto lhe devo, perguntou-me. 

– Nada, disse-lhe. 

E foi-se, coxeando.



Continuei a marcha e outras quinze ruas depois, detive-me ante um homem que não queria nenhum táxi, mas acabei por convencê-lo. 

– Estou a dar o meu passeio diário, disse-me. 

– Se o levar de táxi, acabará antes. 

– Tenho o colesterol alto e o médico recomendou-me passear. 

– Se entrar no meu táxi, convidá-lo-ei para um Danacol. 

O homem anuiu. 

Entrou no táxi e disse-me:

- Já agora, leve-me a jogar bowling. 

Acabámos num local com bowling. 

Na quinta partida, o homem vai lançar, escorregou-lhe a bola e machucou-se num pé. 

Não conseguia andar. 

Levei-o ao hospital. 

Como levei uma vida descontando para a ADSE, praticamente sem lhe dar uso, decidi amortizá-la e sofrer uma arritmia cardíaca ali mesmo, na sala de espera. 


As análises que me fizeram determinaram uma obstrução num “condensador” do fluxo do coração. 

Urgia um transplante. 

Como não apareceram dadores humanos, optaram por me implantar o coração de um gato. 

Vi o gato na sala de operações, prostrado numa maca contigua à minha. 

Tinha uma roda de táxi tatuada no lombo e tinha três patas. 

(Agora estou aconchegado à tua barriga, os dois vendo um filme de Scorsese. 

Acaricias-me a queixada com os teus dedos. 

Mio de prazer. 

Sinto-me excêntrico e feliz como uma pedra, metade sol, metade lua).
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