.
Mala imensa Louis Vuitton, zona nobre.
Mulher Armani em pé na borda do passeio.
Detenho-me a seu lado, saio do táxi para encarregar-me da mala e ela mantém-se quieta, esperando que eu também lhe abra a porta, como se fosse costume; assim faço-o, não mais do que para seguir o seu jogo de classes.
Abro-lhe a porta, baixo a cabeça e com uma certa ironia acrescento:
- Mademoiselle…
Senta-se com extrema elegância, fecho a porta e volto para o volante.
Com voz CHANEL (Nº. 5) indica-me o seu destino, o luxuoso, Tiara Park Atlantic Porto, na Av. Da Boavista.
Durante o trajecto recebe uma chamada.
Tira o telemóvel da sua carteira Yves Saint Laurent.
Para atender, tira uma luva:
- Teresa… vim-me embora.
Não aguentava mais.
– (…).
– Vou a caminho do hotel (…).
Falei com o gerente, que é muito amigo da família.
Disse-lhe que… me estavam a reformular a casa.
– (…)
– Sim, tem uma suite disponível para mim.
Não sei quanto tempo ficarei.
Necessito pensar, ordenar a minha vida.
Foi um golpe muito, muito duro… Rafael ainda não sabe que parti. Quando chegar esta noite do Dubai, perguntará sobre minha ausência ao pessoal, suponho.
Já te contarei com mais calma.
– (…)
– Estou a chegar.
Ligo-te daqui a uns minutos da suite.
– (…).
– Sim, sim, fantástico.
Vem e jantamos.
Mas sobretudo peço-te descrição.
Ainda não quero que alguém saiba o que se passou e muito menos que me hospedo aqui. J
Já verei como vou gerir esta crise.
– (…).
– Ás sete no restaurante do hotel, sim.
Adeus.
Chegamos ao hotel e a mulher despachada estende-me uma nota de 20€.
– Fique com o troco, diz-me talvez para comprar o meu silêncio (o taxímetro apenas marca 7,30€).
Acerca-se um funcionário perfeitamente uniformizado (que chama a mulher pelo seu nome), pega estoicamente a sua pesada mala e desaparecem os dois pela impressionante entrada do hotel.
Retomo a marcha e então interrogo-me de que servirá tanto luxo se ao cair da noite ela dormirá numa imensa cama de seda, mas sozinha e destroçada por dentro.
Fechará os olhos e a sua tristeza será igual e intensa que qualquer outra tristeza milionária.
Todos somos iguais ao fechar os olhos; de nada lhe serviria passar a banda do VISA platina, por entre as pálpebras e pensar e sonhar ‘à la carte’ em pay per view.
Isso não é possível.
Será pois a mesma escuridão ao apagar as luzes, o mesmo cérebro segregando lembranças enfrentadas, tormentos igualmente nítidos, idêntico pranto salgado sobre uma almofada de plumas de pato que isola do frio mas não das sombras.
Para que serve, então, tanto dinheiro se a dor não se deixa subornar?
.