- A escravatura evoluiu muito; dantes eram chicotadas nas costas e
palmadinhas psicológicas, hoje são chicotadas psicológicas e palmadinhas nas
costas !
quarta-feira, outubro 31, 2012
ACHAS PIADA???
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A culpa compartilhada pesa menos.
Se te dizem uma e outra vez
que viveste acima das tuas possibilidades, se to dizem em horário nobre, (prime time), a
partir de um púlpito, enquanto o público rendido aplaude e tu calas-te
acreditando, será mais fácil arrimar o ombro e pagar qualquer castigo.
E quando
digo castigo, entenda-se subida de impostos, redução salarial, corte em
pensões, redução de apoios sociais, todos os serviços minguados, apropriação
dos teus bens ou inclusivamente a perda do posto de trabalho.
Por acaso a minha
geração viveu alguma vez acima das suas possibilidades?
Há quantos anos é que
se cunhou o termo mileurista ou os contratos a termo?
Porque é que os bancos
nos concederam créditos a quarenta anos?
Alguém sabe como será a vida nos
próximos quarenta anos?
Por que é que o governo resgata o estafador em vez de
ajudar as suas vítimas?
O mais grave não é o roubo em si, mas essa massa
submissa que agacha a cabeça acreditando ser culpada, ou só vítima da herança
recebida, ainda que os de agora continuem cometendo os mesmos erros ou pior,
enfrentando umas vítimas com outras.
E Vitor Gaspar acha graça a isto.
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terça-feira, outubro 30, 2012
“TÁXILOGIA” das MAMAS
O estudo “táxial” que se segue, não teria sido possível sem a colaboração de mais de cem passageiras do meu táxi (ai se me tivessem apanhado a estudar, de soslaio, as mamas das ditas).
Cada exemplo corresponde à anotação real das mesmas em viagens no meu táxi:
- Mulher de mamas grandes, flácidas, que se ‘capricham’ firmes pelo efeito constritor de um sutiã reforçado.
Gosta das suas mamas mas somente debaixo dos efeitos protectores do sutiã.
– Mulher de mamas pequenas, estuprada lhaneza violada por um par de montículos, que mostra sabiamente as alças do sutiã.
Necessita que todos acreditemos que tem mamas.
– Mulher com mamas na aparência grandes e firmes, que desaparecem como por arte mágica, quando a sua portadora se recosta no seu assento (como se o forro ou revestimento do táxi exerça uma estranha sucção sobre elas).
São mamas para as quais a gravidade só lhes é propícia na posição vertical.
Costuma evitar a horizontalidade pelo menos quando acha que não está a ser observada.
– Mulher de mamas firmes que não necessita de sutiã e, no entanto, o leva (bem, por uma mera combinação cromática no seu conjunto, para evitar transparências, ou para dissimular a incómoda dualidade de uns mamilos que dizem estar excitados quando na realidade faz frio).
– Mulher de mamas caídas sem sutiã.
Hippy, anti-sistema, casada com um homem que crê no amor ou uma militante lésbica.
– Mulher cujo decote ultrapassa a linha das suas amígdalas (graças a um sutiã fabricado por técnicos da NASA).
Está feliz com as suas mamas, no entanto, sente-se incomodada quando alguém as olha (até eu não o entendo).
Mulher orgulhosa do seu enorme busto (argumento apoiado pelo eterno: “o meu marido gosta!”.
No inverno gasta roupa apertada e aberta que, no entanto, mostra um canalzito de acesso impossível.
– Mulher de mamas lactantes cujas copas estão dotadas de um velcro ou similar, para a sua fácil abertura.
Nunca conseguirei entender porque é que só as mamãs recentes fazem uso de tal genial tecnologia.
– Mulher que, simplesmente, lhe incomoda ter mamas (sejam grandes, ou pequenas).
Demonstra-o o seu afã por cobrir com camadas e mais camadas de roupa (ou mediante tops cingidos, sem aros) qualquer indício de curva peitoral.
– Mulher de mamas pequenas cujo tamanho será sempre impossível de intuir, graças à originalidade da sua vestimenta.
Costumam fazer uso (medido e estudado) de lenços, cachecóis ou laços estrategicamente colocados de modo a que ninguém saiba o tamanho do que esconde.
- Mulher de mamas traçadas pelo compasso de Deus (clicando em cada ponta do mamilo para articular o seu contorno).
A portadora será sempre menos feliz do que a expressão dos meus olhos.
– Mulheres de mamas operadas (tamanho alterado).
Por motivos óbvios, a portadora será desqualificada de qualquer categoria:
FEZ MERDA!
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segunda-feira, outubro 29, 2012
DESESTIMAÇÃO
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Valentim, nome fictício, trabalha, por baixa remuneração, para um conhecido escritor de best-sellers (cuja identidade não posso revelar e não é por falta de vontade: ficaria deleitado desmascarar este cretino).
Segundo Valentim, o famoso romancista só publicou duas obras escritas pelo seu próprio punho e letra, a primeira das quais teve pouca ou nenhuma repercussão. Foi na segunda quando se deu uma explosão inesperada: assinou com uma grande editora e, para surpresa de todos, editora incluída, começou a vender milhares de exemplares, até se converter num escritor de best-sellers de fama internacional.
Em apenas meia dúzia de meses não só alcançou a categoria de escritor de culto; também ganhou mais dinheiro do que aquele que alguma vez pode ter chegado a imaginar.
O problema chegou-lhe depois, quando a editora e o público começaram a instá-lo para que escrevesse um terceiro romance.
A editora propôs-lhe um prazo anexando um novo cheque com muitos zeros como adiantamento.
O escritor aceitou o dinheiro e o prazo marcado e enclausurou-se, confiando plenamente no poder das suas musas inspiradoras.
Mas as musas voltaram-lhe as costas.
Talvez que, vítima de tão altas expectativas, com medo de não estar à altura do seu último grande sucesso, ficou “em branco”, completamente bloqueado.
Mas em vez de se render, em vez de devolver o cheque e desaparecer de cena por uns tempos, o famoso escritor contactou, através dos esgotos deste mundo cão com Valentim, “escravo” de profissão.
Valentim aceitou o trabalho por uma ridicularia e depois de estudar o estilo e o enredo dos seus romances anteriores, não só conseguiu cumprir o prazo, como também com as expectativas: o terceiro romance, escrito integralmente por Valentim, com assinatura do famoso romancista, foi outro retumbante êxito nas vendas.
Ninguém, nem sequer a editora, nem a crítica especializada, deu conta da fraude.
E depois deste terceiro, veio um quarto, também escrito na sombra de Valentim.
Nos últimos tempos, o falso escritor concedeu centenas de entrevistas e tem ido a dezenas de actos, por uns romances que jamais chegou a escrever, fazendo-se passar por alguém que já não é.
E Valentim, pela sua parte, não se importa absolutamente nada.
Continua a escrever para ele e continuará a fazê-lo.
Sempre na sombra.
Valentim é um cliente habitual do meu táxi.
Foram dezenas de trajectos e muita confiança conhecer os mistérios desta história.
A história de um ego de papelão, modéstia à parte.
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domingo, outubro 28, 2012
VINCENT VAN GOGH
VINCENT – Don McLean
Qualquer um que contemple os quadros de Van Gogh nos últimos anos da sua vida em Auvers, pode ver neles a premonição da morte.
Quando era mais novo, fiquei impressionado pela violenta cor roxa com que pintou o céu sobre o telhado da igreja de Auvers, cujos vitrais vemos num primeiro plano da tela.
Há um caminho que se bifurca e uma camponesa que passa furtivamente.
Mas a igreja parece fria, escura, vazia, à espera das almas que vão receber a última bênção enquanto se filtra a derradeira luz do dia por essas grandes janelas góticas.
Intuo que Van Gogh pintava a morte nessa retorcida igreja que faz um esforço para se levantar do solo e cuja sombria silhueta lhe infundia um insuperável pavor.
Nos últimos meses da sua vida, o génio ruivo, meio louco, pintava a morte nos campos de trigo, nos caminhos, nas colinas dessa paisagem provençal onde, ao cair da noite, aparecem todos os fantasmas que conturbam o espírito.
IGREJA DE AUVERS
Van Gogh não seguia nenhuma escola, era um autodidacta, tinha criado um estilo de pintar que estava ligado à forma como ele via as coisas.
As suas telas não estão contaminadas pelo academicismo nem pelo afã de comprazer a crítica.
Os últimos quadros parecem um grito de desesperação contra um mundo que não oferece já nenhuma esperança mas cuja beleza fascina a alma do artista.
Van Gogh manteve sempre uma atitude de rebeldia face a uma sociedade que não o entendia e pela qual se sentiu depreciado.
Finalizada uma altercação com Gouguin, o pintor holandês cortou o lóbulo da orelha direita e entregou-a a uma prostituta depois de se emborrachar.
O episódio ilustra o caracter deste homem, que devia sentir uma raiva incontida face à incompreensão de que era vítima.
As suas telas não estão contaminadas pelo academicismo nem pelo afã de comprazer a crítica.
Os últimos quadros parecem um grito de desesperação contra um mundo que não oferece já nenhuma esperança mas cuja beleza fascina a alma do artista.
Van Gogh manteve sempre uma atitude de rebeldia face a uma sociedade que não o entendia e pela qual se sentiu depreciado.
Finalizada uma altercação com Gouguin, o pintor holandês cortou o lóbulo da orelha direita e entregou-a a uma prostituta depois de se emborrachar.
O episódio ilustra o caracter deste homem, que devia sentir uma raiva incontida face à incompreensão de que era vítima.
Noite estrelada sobre o Rio Ródano
(O azul nocturno é de uma intensidade incrível - o famoso "azul Van Gogh")
Essa raiva, essa paixão, essa violência interior ficou nas suas telas que, ao mesmo tempo que nos intimidam, transmitem uma sensação de pureza de quem punha a arte acima de qualquer consideração.
Como os grandes criadores.
Vão Gogh extraiu os materiais da sua obra de uma vida azarada e solitária.
Isso fica reflectido numa pintura que nos submerge com o seu poder hipnótico nos seus estados de ânimo.
O artista ilumina a realidade com uma luz violenta que fere.
No interior escuro da igreja de Auvers flutua a presença da morte com um olor a flores secas que nos mareia.
Na penumbra, talvez em atitude orante, espera-nos uma misteriosa dama coberta de véus negros.
Esse quadro perturba-me, faz-me sentir pavor mas também me atrai de forma excitante, talvez porque a loucura de Vão Gogh é contagiosa para quem fica aprisionado pela sua obra.
Como os grandes criadores.
Vão Gogh extraiu os materiais da sua obra de uma vida azarada e solitária.
Isso fica reflectido numa pintura que nos submerge com o seu poder hipnótico nos seus estados de ânimo.
O artista ilumina a realidade com uma luz violenta que fere.
No interior escuro da igreja de Auvers flutua a presença da morte com um olor a flores secas que nos mareia.
Na penumbra, talvez em atitude orante, espera-nos uma misteriosa dama coberta de véus negros.
Esse quadro perturba-me, faz-me sentir pavor mas também me atrai de forma excitante, talvez porque a loucura de Vão Gogh é contagiosa para quem fica aprisionado pela sua obra.
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sábado, outubro 27, 2012
BOLHAS...
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![]() |
| TIRADA DAQUI |
Duas bolhas ‘pinando’ suavemente.
O homem bolha, enquanto penetra com o seu fálico pistão a mulher bolha, considera que talvez, pela sua parte a esteja a inflar.
Teme que a mulher bolha inche demasiado e expluda entre os seus braços.
Por isso morde os seus bicos (acreditando que são as tampas das suas válvulas de escape) com a urgência de tentar aliviar a pressão nela e a salvar.
As suas mamas sabem a plástico doce.
A mulher bolha, pelo seu lado, desfruta ao sentir um corpo estranho dentro do seu corpo estranho.
Parece inchada de prazer, flutuando, como se o homem bolha a injectasse de hélio por entre as pernas.
A fricção entre ambos os corpos começa a gerar electricidade estática.
O homem bolha acredita que é sintoma de um amor permeável.
A mulher bolha, interpreta-o como um prelúdio para o seu iminente orgasmo.
Em qualquer dos casos, ambos têm eflúvios.
Ele ejacula fragmentos das paredes da sua bolha.
Ela fica com eles interiormente sem dizer nada.
O homem bolha quando desperta na manhã seguinte, a mulher bolha não está.
Deixou algo escrito sobre a almofada:
“Necessito pensar.
Levo o teu táxi”.
O homem bolha sorri.
Por segurança, deixa sempre um espeto oculto no encosto do assento do condutor.
Quando ela se sentar explodirá a sua bolha.
Voltará sem a sua armadura e a sua alma dura, tornar-se-á branda.
O homem bolha pensa como será ela quando regressar sem a sua bolha.
Agora ao homem bolha custa-lhe respirar.
A bolha do homem desinfla-se.
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sexta-feira, outubro 26, 2012
TRAUMAS
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Cada vez estou com mais certezas.
Walt Disney é uma fábrica de
traumas.
As nossas mães deixaram de ser
imortais por culpa de Bambi.
Desde a sua estreia em 1942, a miudagem deixou de
dormir em paz.
A que sádico FdP lhe
ocorreria meter na trama uma morte tão injusta?
Serviu para alguma coisa o pai
de Bambi (na ocasião, marido da defunta) ser o mesmíssimo Príncipe da Floresta?
E que me dizem do perfil homossexual de Tambor, o coelho “amigo do veado?
Acaso
o agora congelado Walt pretendia que acabássemos todos desmiolados?
Terá sido
um obscuro lobby de psicanalistas que financiou a película?
Para não falar dos
animais que falam.
Vejo amiúde as consequências disto.
Mulheres que entram no
meu táxi com os seus cães do tamanho duma carteira ainda que sem asas (os
geneticistas darão com isso; dá-lhes tempo), falando-lhes em voz alta como se
os cachorros fossem doutores em neurociência:
- “Agora pagamos a este senhor e
vamos ao banco para ver se solucionamos o problema das acções, ‘Frosky’, lindo.
Dá a pata ao taxista.
Vá lá, dá-lhe a pata.
Dá-lhe a pata Frosky”.
E se o cão
não me dá a sua pata o dono ou a dona em questão, olham-me como se a culpa
fosse minha.
Não consultei nenhuma biblioteca a este respeito, mas algo me diz
que antes de Bambi, isto não se passava.
As pessoas não iam pelas ruas a falar
com as suas iguanas.
Tudo bem que Dom Quixote falava com “Rocinante” e o Capuchinho Encarnado, falava com o Lobo Mau, mas eram loucos e foram
chamados de loucos e ainda não existiam fármacos para tais fins.
Mas agora, já
vês, esses homens ou mulheres têm direito a voto.
Eles cresceram com o micróbio
do Bambi que agora anda solto por aí.
Enfim...
Nota:
Se Freud levantasse a
cabeça, arremessaria a Walt Disney um picador de gelo.
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terça-feira, outubro 16, 2012
PORTA-MOEDAS
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- Só um segundo, vou ali à farmácia e regresso já.
Deixo aqui as minhas coisas.
A passageira saiu do táxi só com o seu porta-moedas e marchou a correr à farmácia.
Instantes depois, desde as tripas da sua bolsa, começou a soar um telemóvel.
Em qualquer outra circunstância tê-lo-ia deixado estar, mas já eram nove da noite e ainda estava a seco de paparrotices para o meu blog.
Corroído pela ausência de musas meti a mão na sua bolsa, saquei o telemóvel e pressionei a tecla de atender.
Não disse nada.
Adiantou-se a voz de um homem:
- Não venhas a minha casa, Carla.
Pensei melhor e decidi voltar a tentar com a minha mulher.
Acabo de falar com ela ao telefone e vem a caminho.
Ligo-te para te advertir.
O nosso relacionamento não faz sentido, entende isto.
Na realidade nunca o fez.
Aí desliguei.
Sobressaltado, voltei a colocar o telemóvel na bolsa dela.
Nesse instante entrou a Carla com uma saca da farmácia.
Não cheguei a distinguir o que continha.
- Agora leve-me a Damião de Góis esquina com S. Brás, disse-me.
Reiniciei a marcha e circulámos em silêncio.
O seu rosto parecia jovial.
Um montão de semáforos depois, ao chegar ao destino, Carla pagou-me a corrida e saiu do táxi com um molho de chaves na mão.
Supus que seriam as chaves de casa dele o que acrescentou verdadeiro suspense ao assunto.
Também me fixei no porta-chaves: era meio coração de metal com um “M” gravado.
Entrou no átrio e eu mantive-me parado no mesmo sítio.
Algo me dizia que apenas tardaria um momento em descer e procurar outro táxi.
Mas ao fim de cinco minutos, no lugar dela, saiu outra mulher.
E ao ver o meu táxi, fez-me sinal e entrou batendo com a porta com toda a força.
Tinha os olhos vítreos, chorosos e o rímel esborratado.
- Para o Bessa Hotel, por favor.
Nisto meteu um porta-chaves, com chaves, na sua bolsa.
O seu porta-chaves também era um mesmo meio coração de metal, mas com outra letra gravada.
Neste caso a letra “C”.
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segunda-feira, outubro 15, 2012
BRASIDO FINITO
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Para encerrar de uma assentada todos os meus traumas, renunciei ao passado queimando-o.
Melhor dito: afoguei-o primeiro, deixei que secasse e depois queimei-o.
Meia garrafa de whisky, um isqueiro e sete álbuns de fotografias.
Depois enterrei as cinzas, não me recordo onde.
No típico bosque onde vão os criminosos e rebeldes para ocultar os seus cadáveres, suponho.
Desde então, para evitar novos traumas, esqueço-me de mim a cada dia.
Desperto com cara de assombrado ou espantado, tomo um duche frio para ‘sentir-me’, saco do meu táxi usando identidades que invento e ao cair da noite, emborracho-me.
Bebo até esquecer o meu nome.
Nada liberta mais do que perder a identidade.
Nada reconcilia mais que chegar a casa sendo um perfeito ‘Zé ninguém’ ou “Dom nada” e dormir com pijama de fraque abraçado ao mesmo chapéu de coco que roubaste aquela vez no casino.
Já sei que a minha ausência de traumas derivará em cirrose.
Nunca disse que este plano fosse perfeito.
Mas por mais que os vermes se disfarcem de cinzas, por mais que beba como se não houvesse um amanhã, consigo a cada dia esquecer o meu nome mas não o teu.
Estás sempre presente por aí, tatuada nalguma parte que não encontro, como um tumor fantasma, tão maligno como a minha potencial cirrose.
Recordo-te em cada foto que enterrei, na sombra que projectam os semáforos (o âmbar que pisca são os teus seios palpitando) e no fundo de todos os copos de whisky de todos os bares do mundo.
E regresso à rua cada vez mais aturdido, cada vez com mais medo de encontrar-te.
Se fui ninguém contigo, agora sou nada sem ti.
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quarta-feira, outubro 10, 2012
MINHA MÃE
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Tinha-lhe levado maçãs pela manhã, porque gostava muito e há uns dias que não comia.
Minha mãe, uma mulher bela e alegre, que tinha gosto em falar e rir-se.
Tinha
uns olhos castanhos e um sorriso de que eu gostava muito.
Porque era como ver o
sol.
Acho que não foi de todo feliz como merecia; pelo menos não sentiu o que teria
sentido hoje, olhando para os seus filhos e netos: o afecto que por ela tivemos, ainda que nem sempre lho
fizéssemos chegar.
Os últimos tempos da sua enfermidade, consciente ou
inconscientemente fomos despedindo-nos um pouco cada dia, com amor e também com
muita dor, que nem percebíamos, mas que meu pai nos transmitia, mesmo sem
querer.
Não sei em que momento ela pressentiu que se ia, quando me olhava daquela
sua maneira tão peculiar, que a mim me chegava à alma e ma partia…
Dizem, que
quando alguém vai morrer, escolhe o momento e as pessoas com as que quer
fazê-lo.
Minha mãe, fê-lo.
Les Paul and Mary Ford - Vaya con Dios
Tinha-lhe trazido maçãs pela manhã e apenas
mordiscou uma.
Não seriam as melhores maçãs, mas eram as que a minha pequenez
me autorizava alcançar e colher (no chão).
Então pressentiu a sua partida.
Meu pai a seu
lado chamou-me e pediu que me aproximasse.
Quando cheguei, já tinha perguntado
mil vezes por mim.
Enquanto meu pai chorava partiu com a sua mão na minha.
Fiquei com minha mãe naquele quarto até me afastarem, levarem-me e vê-la pela
última vez.
Não a pude ajudar por não saber; não chorei porque não sabia o chorar daquele momento; não tive medo da morte porque ignorava o que era.
Mas
alentei-a a voar sem medo, foi como um convite para saltar para o outro lado da
vida, com todas as palavras que não conhecia… e não balbuciei.
Foi um dia como
hoje, com manhã, tarde e noite.
Era dia alto, sábado 10 de Janeiro de 1953…
Tinha 35 anos…
Hoje, 10OUT2012, faria 94 anos.
Hoje, 10OUT2012, faria 94 anos.
Pelas janelas e porta, saía, Vaya
con Dios - Les Paul and Mary Ford.
Foi a última maçã de minha mãe.
Descanse em
paz.
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sexta-feira, outubro 05, 2012
... DE UM FÔLEGO
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Ajudem-me a colocar… os “pontos e vírgulas e pontos finais” em tudo isto que dedilhei abaixo (reparem que não coloquei um ponto final ou sequer um ponto e vírgula):
Hoje, dada a ressaca da pizorga de ontem, não pensava publicar nenhuma peta, tanto mais que é feriado (em todo o país, ilhas e arredores, estes - arredores - configurando as nossas águas territoriais), mas saquei do táxi para passear e passaram-se coisas, nenhuma importante, ainda que todas elas dignas de ser escritas ou contadas não tanto para vocês, mas sim para mim, para desabafar ou talvez transformar inevitavelmente a minha parcela do mundo em palavras, em frases, a “modos que” como um documento escrito que demonstre, ainda que só seja isso, que estou vivo, que continuo vivo, que o meu táxi existe porque o escrevo e que eu também existo ante os teus olhos (não saberias de mim sem me ler) e precise ser eu para ti, necessite ser, ao fim e ao cabo, ver-me reflectido nesses teus olhos que me lêem para saber que existo, que tenho um sentido mais ou menos justificado, enfim, que tudo isto me vem à mente e que hoje, enquanto circulava ocupado pela rua de S. Roque da Lameira (com um homem de meia idade no assento traseiro de meu táxi),
me deu para me fixar no escaparate de uma loja e com isto vi-me reflectido na sua grande montra, mas não ao passageiro que viajava comigo, isto é, vi o reflexo do meu táxi e eu ao volante, mas não o reflexo do passageiro sentado do mesmo lado que eu, atrás de mim (via nitidamente a sua janela completamente vazia, sem ocupante) e este estranho acontecimento, como digo, levou-me a saltar o feriado e escrever, quiçá movido pelo medo a desaparecer eu também no reflexo dos vossos olhos, do mesmo modo que desapareceu aquele meu passageiro, no reflexo da montra da loja, um medo atroz asseguro-vos e, se disse no princípio que não me tinha sucedido nada importante, agora que penso melhor, (Puxa!), talvez aquele utente fosse um fantasma ou um vampiro e eu aqui, dando voltas ao miolo e falando de existencialismo e relativismo enfocado à literatura, (que porra de relativismo!), aquele tipo que transportei não era deste mundo e ponto final.
NOV2011
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