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Sem coragem
Timorato
Medroso
Pusilânime
Poltrão
Traiçoeiro, que procede á falsa fé
Desleal
Preverso
Desleal
Preverso
e como lhe chamava
Luís Manuel Cunha
in Jornal de Barcelos de 02 de Novembro de 2011
“filho da
puta” aldrabão
Tempo de minhocas e
de filhos de meretriz
“O dia deu em
chuvoso”, escreveu Álvaro de Campos. Num tempo soturno, melancólico,
deprimente. “Tempo de solidão e de incerteza / Tempo de medo e tempo de traição
/ Tempo de injustiça e de vileza / Tempo de negação”, diria Sophia de Mello
Breyner. Tempo de minhocas e de filhos da puta, digo eu. Entendendo-se a
expressão como uma metáfora grosseira utilizada no sentido de maldizer alguém
ou alguma coisa, acepção veiculada pelo Dicionário da Academia e assente na
jurisprudência emanada dos meritíssimos juízes desembargadores do Supremo
Tribunal da Justiça. Um reino de filhos da puta é assim uma excelente
metáfora de um país chamado Portugal. Que remunera vitaliciamente uma
“sinistra matilha” de ex-políticos, quando tudo ou quase tudo à nossa volta se
desagrega a caminho de uma miséria colectiva irreversível.
Carlos
Melancia,
ex-governador de Macau, empresário da indústria hoteleira, personificou o
primeiro julgamento por corrupção no pós 25 de Abril. Recebe, actualmente, 9500€
mensais; Dias Loureiro, um “quadrilheiro” do círculo político de Cavaco,
ex-gestor da SLN, detentora do BPN, embolsa vitaliciamente 1700€ cada mês; Joaquim
Ferreira do Amaral, membro actual da administração da Lusoponte com a qual
negociou em nome do governo de Cavaco Silva, abicha 3000 €; Armando Vara,
o amigo do sucateiro Godinho que lhe oferecia caixas de robalos e
ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos, enfarda nada mais nada menos que 2000€;
Duarte Lima, outro dos “quadrilheiros” do círculo político cavaquista,
acusado pela justiça brasileira do assassinato de uma senhora para lhe sacar
uns milhões de euros, advogado na área de gestão de fortunas, alambaza-se
mensalmente com 2200€; Zita Seabra, que transitou do PCP para o PSD com
a desfaçatez oportunista dos vira-casacas, actual presidente da Administração
da Alêtheia Editores, açambarca 3000€… E muitos, muitos outros, que os
caracteres a que este espaço me obriga, me forçam a deixar de referir.
Quero, no
entanto, relevar um deles – Ângelo Correia, o famoso ministro do tempo
da chamada “insurreição dos pregos”, actual gestor e criador de Passos Coelho
que, nesta democracia de merda, chegou a primeiro-ministro “sem saber ler nem
escrever”! Pois Ângelo Correia recebe 2200€ mensais de subvenção vitalícia! E
valerá a pena recuperar o que disse este homem ao Correio da Manhã em 14 de
Junho de 2010: “A terminologia político-sindical proclama a existência de „direitos
adquiridos‟ (…) Ora, numa democracia, „adquiridos‟ são os direitos à vida, à liberdade de pensamento,
acção, deslocação, escolha
de profissão, organização política (…) Continuarmos a
insistir em direitos adquiridos intocáveis é condenar muitos de nós a não os
termos no futuro.” Ora, perante a eventual supressão da acumulação da referida
subvenção vitalícia com vencimentos privados, o mesmo Ângelo Correia disse à
RTP em 24 de Outubro de 2011: “Os direitos que nós temos (os políticos
subvencionados) são direitos adquiridos”! Querem melhor? Pois bem. Este é o
paradigma do “filho da puta” criador. Porque, depois, há o “filho da puta”
criatura. Chama-se Passos Coelho. Ei-lo em todo o seu esplendor,
afirmando em Julho de 2010: “Nós não olhamos para as classes médias a partir
dos 1000€, dizendo: aqui estão os ricos de Portugal. Que paguem a crise”. E em
Agosto de 2010: “É nossa convicção não fazer mais nenhum aumento de imposto.
Nem directo nem encapotado. Do nosso lado, não contem para mais impostos”. Em
Março de 2011: “Já ouvi o primeiro-ministro (José Sócrates) a querer acabar com
muitas coisas e até com o 13.º mês e isso é um disparate”. Ainda em Março de
2011: “O que o país precisa para superar esta crise não é de mais austeridade”.
Em Junho de 2011: “Eu não quero ser o primeiro-ministro para dar emprego ao
PSD. Eu não quero ser o primeiro-ministro para proteger os ricos em Portugal”.
Perante isto, há que dizer que pior que um “filho da puta”, só um “filho da
puta” aldrabão. Ora, José Sócrates era um mentiroso compulsivo. Disse-o aqui
vezes sem conta. Mas fazia-o com convicção e até, reconheço, com alguma
coragem. Este sacripanta de nome Coelho, não. É manhoso, sonso, cobarde.
Refira-se apenas uma citação mais, proferida pelo mesmo “láparo”, em Dezembro
de 2010. Disse ele: “Nós não dizemos hoje uma coisa e amanhã outra (…) Nós
precisamos de valorizar mais a palavra para que, quando é proferida, possamos
acreditar nela”. Querem melhor?
“O dia deu em
chuvoso”, escreveu Álvaro de Campos. É o “tempo dos coniventes sem cadastro /
Tempo de silêncio e de mordaça / Tempo onde o sangue não tem rasto / Tempo de
ameaça”, disse Sophia. Tempo para minhocas e filhos da puta, digo eu. É o tempo
do Portugal que temos.
Nota – Dada a exposição pública do jornal
com esta crónica na última página, este título destina-se apenas a não ferir as
sensibilidades mais puras. Ou mais púdicas.
Luís Manuel Cunha
in Jornal de Barcelos











