O VIDEIRINHO

quinta-feira, junho 06, 2013

- Conhecemo-nos no balcão de reclamações de Ikea. 
Aos dois faltava-nos um parafuso. 
O resto é histeria !

TATUAGENS VIVAS

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Desde que fiz a tatuagem de um táxi no meu peito, conduzo, como que por dentro de mim mesmo. 

Quando sinto ansiedade acaricio-me no táxi e relaxo-me. 

Quando dormes com a tua cabeça apoiada no táxi do meu peito, sonhas sempre que viajas nesse mesmo táxi tatuado e eu conduzo-o sulcando ancas, ventres e umbigos que são rotundas, ou paramos para abastecer na estação de serviço da tua boca. 

Suponho que a tatuagem acede a ti através do ouvido e essa mesma tinta atravessa o tímpano, encharca o teu subconsciente e acaba a escrever o guião dos teus sonhos. 


Noutro dia senti uma forte dor por altura do capot da tatuagem. 

Fui ao médico, pediu-me para respirar profundamente e tossir e ao escutar a minha tosse, deixou tudo claro: 

- Faltam-te os pistões. 

O tabaco, suponho. 

O certo é que me mandou operar de urgência e aqui estou, na sala de operações. 

Acabam de me anestesiar e agora um cirurgião está a acercar-se de mim com um bisturi na mão. 

Parece que pretende cortar o táxi em dois. 

Mas não estou preocupado. 

Este post também é um sonho. 
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quarta-feira, junho 05, 2013

- Alegrias, tristezas, alegrias... 
Isto é amor. 
Quem não acreditar, olhe-se nuns olhos, que se veja nuns olhos de mulher !

MEMÓRIAS

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Levo-te comigo, amor, no olhar, nas pupilas vermelhas congeladas nesta foto absurda e encarquilhada. 

Levo-te comigo nas feridas que as tuas unhas desenharam nas minhas costas, no doce vaivém de fêmea entregue e submissa. 

Levo-te comigo, amor, num fio de cabelo que escapou de entre as tuas pernas e se esconde na minha boca e não se vai, e eu também não quero que o faça. 


Levo-te comigo numa fugaz grinalda de hematomas, feita com ondulações pélvicas de amor impaciente, no aroma da tua flor violeta que abri e que, dissimuladamente, cheiro das minhas mãos molhadas. 

Levo-te comigo no sangue e parto já, antes que a alva faça a sua entrada, no sangue que bebi de teu pescoço em borbotões e que também levo, deixando-te adormecida e bela, para sempre máscara e amor.
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terça-feira, junho 04, 2013

- Acidente é quando alguém se fere ao manusear com ácido?

A CEGA

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Rua do Bonfim, passeio defronte da Delegação do Porto da ACAPO. 

Uma mulher invisual espera na beira do passeio com um cartaz entre as mãos com a palavra “Táxi”. 

Paro junto a ela e estico-me para abrir-lhe a porta por dentro. 

- Entre! 

A mulher tacteia o fecho da porta e entra, com a sua bengala, sentando-se. 

- Leve-me ao mesmo sítio de ontem. 

- Perdão? 
Creio que se confundiu com o taxista. 
Eu ontem não... 

- Sou cega, sim.
Mas você não é surdo, não é verdade? 
Disse-lhe para me levar ao mesmo local de ontem. 
Insistiu. 

- Confuso, inicio a marcha enquanto trato de enquadrar o seu rosto no espelho retrovisor. 

Os seus olhos são brancos, nublados, mas há algo neles que nos aprisiona: parecem falar ainda que não olhem. 

É difícil de explicar, mas dizem coisas, hipnotizam, emitem mensagens que não sei como, nem porquê, consigo decifrar. 


Agora parecem indicar-me que vire à direita em António Carneiro. 

E assim faço. 

A mulher apercebe-se da manobra e sorri. 

Uns metros mais tarde, movido pela expressão cega dos seus olhos, viro à esquerda na Rua do Heroísmo. 

Rotunda do Freixo, Rua da Senhora da Hora... e depois Rua do Bacelo. 

Sempre atento às indicações do seu ténue olhar adentramo-nos num caminho de pedras e algumas árvores. 

Ao fundo do caminho distingo um casarão de três pisos com várias janelas iluminadas. 

- Pare o táxi junta da porta. 
Dona Cláudia deve estar furiosa, diz-me a cega. 

Efectivamente, uma mulher de idade indefinida, ar rude e casaco grosso, espera-nos apoiada no corrimão. 

 

Mal paro o táxi abre a minha porta e visivelmente chateada, diz-me: 

- Chega dez minutos atrasado, José Torres. 
Esta noite não haverá sobremesa, nem televisão. 
Depois de jantar vai directo para a cama. 

- Disse-lho, insiste a cega. 

Saio do táxi. 

Junto à porta de acesso, um pequeno letreiro iluminada dá-me as boas-vindas. 

Debaixo, com letras pequenas, o nome do hospício. 

Relato escrito a três mãos. 
Ou melhor, com as minhas mãos e a sabedoria do teclado.
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segunda-feira, junho 03, 2013

- É bom ter esperança, mas é muito mau depender dela !

AO DEUS DARÁ

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Entrou no meu táxi um tipo estranho, sandálias e meias aos quadrados, abriu um enorme mapa diante de mim, assinalou no mapa a rua e disse-me: 
“Go here, please!”. 

O mapa era de Frankfurt, Alemanha. 

Tratei de explicar-lhe o erro, mas parecia não entender-me, ou melhor, não quis entender-me. 

Depois fez um gesto de seguir adiante, “Straight, Straigt!”, iniciei a marcha e na terceira ou quarta rua, mandou-me virar à esquerda, “Left!” e cinco ou seis ruas depois, à direita, “Right!”. 

O caso é que aquele ‘indígena’ não tinha a mínima noção onde estava, nem onde ir e no entanto os seus olhos destilavam essa felicidade absoluta de quem norteia a seu desejo a sua própria vida. 

A dado momento disse-me, “Stop!”, sacou de uma nota de cem euros, não sei de que país (não verifiquei o número de série) e saiu andando calmamente. 

Dirigiu-se para a montra de uma mercearia onde se deteve e acariciou o vidro da montra. 

 

Para ser sincero, aquele homem fez-me uma certa inveja. 

Era tentador viver perdido, de modo que vou tentar daqui por diante comportar-me do mesmo modo. 

Num semáforo buzinou-me um carro, baixei o vidro e ele perguntou-me: 
– Desculpe, a Praça da Flores? 

– Sinto muito, mas não sou daqui, disse-lhe. 

O tipo baixou a vista para o logotipo de meu táxi e depois voltou a olhar-me estranhado. 

Lancei-lhe o meu melhor sorriso, e pela primeira vez em muito tempo senti-me perdido e livre como um TomTom pirata. 

Abriu o semáforo e poucos metros depois mandou-me parar uma mulher. 

Entrou no meu táxi e disse-me: 
– Boas tardes, leva-me à Rua do Rosário? 

– Bom dia, será tão amável que me indique o caminho? 
Estou perdido, disse-lhe fingindo nervosismo. 

– É novo? 
Assenti com a cabeça. 

Certamente que ela referia-se a “novo no táxi”, mas quis interpretá-lo como “novo nesta vida”. 

Sabia melhor. 

Novo na vida. 

Oxalá. 

Em qualquer caso, indicou-me amavelmente o caminho a seguir. 

– Faça essa rotunda completamente e depois a primeira á direita, disse-me. 

Ao chegar ao seu destino a mulher estendeu-me uma nota de dez euros e, com voz de circunstância, disse-me: 
- Fique com o troco. 

O taxímetro marcava 7,80. 

Deu-me 2,20 de gorjeta com pena de mim. 

Sentiu pena, a sério, como se me cresse órfão. 

E depois voltei a fazer-me de novo com o cliente seguinte e com este passou-se o mesmo e deu-me outros 1,70 de gorjeta. 

E o próximo, também. 

Curioso, não é verdade? 
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domingo, junho 02, 2013

- Bebo o dever de beber o que devo !

TURISMO ACIDENTAL

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No aeroporto, entrou no meu táxi um calmeirão que só podia ser alemão e, indicou-me o seu destino que se encontrava escrito no ecrã do seu telemóvel. 

Estendeu-me o telemóvel e indicando o ecrã, disse-me num inglês quase perfeito. 

– Here, please. 

A mensagem de texto dizia: 
“Rua da Saudade, 970”. 

Pensei que se tratasse de uma brincadeira. 

Esta rua não tem um comprimento tão grande que possa atingir tal numeração. 

Tentei transmitir-lhe o erro (no meu imperfeito inglês) e nisto o alemão desata a chorar. 

A custo, confessou-me que tinha conhecido uma mulher pela Internet, acabou por se apaixonar e decidiu vir visitá-la. 


Ela tinha-lhe dado esta direcção e também lhe tinha dito que podia ficar em sua casa, todo o tempo que quisesse. 

Propus-lhe telefonar para o número do qual tinha sido enviada a mensagem com aquela direcção. 

Acedeu e pediu-me para ser eu a telefonar. 

Assim fiz. 

Marquei o número e não demorou muito que uma voz feminina, mais ou menos jovem, atendesse. 

Contei-lhe a situação e ela disse-me: 

Que estupendo, é já o quinto alemão que morde o anzol. 

E acrescentou: 

- É a minha vingança pessoal pelas políticas da Merkel. 
E para além de tudo o mais, ajudo a reanimar o turismo. 

E desligou. 

NOTA: 
No final, levei-o a um hotel. 

Sempre gastou algum…
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sábado, junho 01, 2013

- Não é feliz o que faz o que quer, mas sim o que quer que lhe façam !

DELÍCIAS IMAGINÁRIAS

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É uma porra duma loucura viver imerso na literatura e conduzir o táxi pensando em dar forma a uma cena e de repente alguém te mande parar; travas ao seu lado, entra e indica-te um destino e tu, no entanto, continuas com a tua obstinação, imaginando a descrição de tal e qual personagem a milhentos quilómetros de tudo.

Nisto, o utente nas tuas costas tenta entabular conversa, ou fala-te da sua vida e, sem querer, mistura-se na tua cabeça, a realidade daquele homem com a tua ficção literária e filtra-se o que diz com a tua história e surge-te uma nova história, ou a mesma história mas mais complexa (ao ponto de te meteres bem mais em ti mesmo, quase até roçares o avesso da alma) e te despistes em pensamentos e esqueças o destino daquele homem ou mudes o trajecto e o homem te diga estranhado:

 
  - Por que anda ás voltas, se para minha casa é sempre em linha recta? 

E tu desculpas-te, pedes-lhe perdão:

- É que a minha noiva vive nesta rua e deixei-me levar pelo hábito:

Ainda que o que lhe dizes seja uma enorme patranha. 

Não tens noiva e por este caminho não tê-la-ás nunca, mas também aproveitas o giro para dar um novo rumo literário ao assunto; volta-se-te a pirar a cabeçorra outra vez e metes-te pela rua que não era e o passageiro volta a bramar: 

- Mas que está a fazer? 
Está a brincar comigo? 
Quer que o denuncie à polícia? 

É esta palavra, polícia, que te leva a considerar a possibilidade de mudar de profissão do protagonista da tua história. 

E se em vez de oficial de diligências fosse polícia? 

 

Encaixaria melhor. 

Então notas que o passageiro bate-te no ombro. 

– Páre aqui, quero sair! 

Páras e o passageiro sai a correr sem pagar-te a corrida, mas em vez de te preocupares por teres perdido, dez? doze euros? alegras-te porque agora o táxi está livre e por fim poderás parar em qualquer bar, beberás e pegando em caneta e bloco de notas, derramarás todas essas ideias frescas e quando acabares o que pensas escrever, sentir-te-ás como Deus ao sétimo dia, sem dez ou doze euros (mais o que gastares em “combustível”, cerveja ou outras bebidas), mas feliz por teres encontrado o teu objectivo na vida, escrever:

Só vales isso, sabe-lo bem, porque absolutamente tudo o mais no fundo, importa-te um car**ho!!! 
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sexta-feira, maio 31, 2013

- A DEMOCRACIA NÃO É MAIS DO QUE UM CONFRONTO DE INTERESSES POLÍTICOS !

TRISTEZA

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Parte da Alegoria do Triunfo de Vénus (1540-1545), de Agnolo Bronzino 

Não me dói nada.

Não me dói a cabeça, não me doem as gengivas, não me doem os olhos, nem as costas, nem as cutículas, nem as articulações dos joelhos, nem o estômago, nem tremo, nem tusso.

Não tenho ansiedade, nem frio, nem sonho, nem fome, nem sede. 

Hoje pus-me em dia com a correspondência pendente, paguei aquela factura, levei o meu táxi a lavar e até passei a ferro as calcinhas que te roubei. 

Vi aquele último capítulo de “The Wire” e li, de uma penada, o livro de Salman Rushidie, “Joseph Anton – Uma Memória”. 

E ontem tive sexo com uma amiga. 

Tudo correu ás mil maravilhas (bebemos quase duas garrafas de vinho ao jantar, rimos muito e empatámos em orgasmos) e foi-se embora no momento preciso.   

Ao deitar-me tudo à minha volta estava muito calmo. 

Límpido. 

Reluzente. 

 

The Morning After, Fernando Botero

Nem um só pêlo dela ou um cabelo na almofada que pudesse colar-se nos meus sonhos. 

Esta tarde telefonaram-me para um “projecto” gastronómico e respondi, sim. 

Telefona-me um cliente do meu táxi. 

Amanhã levá-lo-ei a Lisboa, esperarei um par de horas, almoçarei por lá, darei um passeio e regressaremos justamente a tempo para o meu póquer das sextas-feiras na tasca do Xico. 

Disse-lhe que 200€… e pareceu-lhe bem. 

Esta tarde vi três vezes o filme, “O Despertar da Mente”. 

Provei um novo Whisky que um passageiro habitual me ofereceu. 

Reservei um bilhete para as Maldivas. 

Senti a chuva a percutir na janela. 

E Bowie a soar no iPad. 

E revi todos os ingredientes para o “projecto”. 

Encontro-me num grande momento criativo. 

Mas. 

Por que estou tão triste?
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quinta-feira, maio 30, 2013


- Talvez eu seja exactamente quem gostaria de ser, mas passaria a admirar quem sou...


ILUSÓRIO AMOR

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Penso muito nisto: as mais belas canções da história da música moderna têm como base quatro ou inclusivamente três simples acordes repetidos em espiral. 

Convido-vos a que desnudem tudo dos Beatles, desnudem qualquer tema de Bob Dylan e verão que a sua estrutura é só isso: quatro acordes básicos combinados de uma maneira ou de outra.  

“Let it be”: quatro acordes; “Knockin on heaven’s door”: quatro acordes; “Enjoy the silence”: quatro acordes.  

Isto não vai com música, amor. 

Só é um exemplo que demonstra o muito que complicamos a beleza que esconde o nosso. 

Oxalá que se desnude e me permita desfrutar do seu corpo básico, sem o arpejo da sua saia, sem o refrão do seu sutiã. 

Sem a base maquilhado do seu rosto, sem os coros das suas dúvidas, sem esses golpes de bombo e pratos, que são os seus batimentos e as minhas palmas. 




Deixe-me só tocar os seus quatro acordes e eu “colocarei” a voz, assim tão simples. 

Penso nisto enquanto conduzo o táxi ocupado por si. 

Precisamente começou a soar pela rádio outro desses temas ‘fazedor’ de vontades: New Year’s Day dos U2. 

Este é mais fácil: só tem três acordes. 

Na verdade inventei o nosso, não há nada nosso ou pelo menos nunca houve. 

A nossa história começou há apenas cinco minutos. 

Ela levantou-me a mão, eu parei o meu táxi, entrou rapidamente e indicou-me o destino. 

Mas agora, ainda que não se dê conta, o acorde La menor acaricia-lhe o pescoço e infiltra-se discreto pelo seu decote. 

E depois o Do menor enquista-se nos seus lábios e actua, talvez, como anestesia, porque não os move. 

 

E logo entra em cena o Mi menor e aferra-se ás suas pálpebras e puxa-as e não pode evitar o seu peso e pouco a pouco vão-se fechando. 

E assim se mantém, imóvel e com os olhos fechados, até que entra o estribilho e nisto inclina a cabeça e recosta-se como em clave de Sol. 

Com a cabeça apoiada no vidro até ao final do trajecto. 

Chegamos ao seu destino. 

Definitivamente segue inebriada pela simplicidade de uma música que nos unirá para sempre. 

Volto-me. 

Olho-a. 

Está linda. 

Passam uns momentos mas não reage. 

Preocupo-me. 

Decido sacudir-lhe a perna. 

De súbito tem um estremecimento e abre os olhos: 

- Oops! Adormeci! 

Paga-me a “corrida” e parte. 

Nota: Pensei que era a mulher da minha vida, mas não. 
Era só surda.
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segunda-feira, maio 27, 2013


- Aqueles tubos metálicos que se vêm nas casas de alterne e similares, são os designados “varões da droga” !

PROBLEMATISMO

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Não há problemas grandes. 

Não há problemas pequenos. 

Isto aprendi-o no meu táxi. 

Entra um tipo, indica-me o destino e começa a contar-me as muitas saudades que tem do seu gato “Xano”. 

Escapuliu-se de casa e agora, supõe, que andará por aí, esganado de fome e frio, ou talvez alguém o tenha recolhido. Ou quem sabe, ande ás gatas.

De qualquer maneira, este bichano nunca terá para ninguém a importância que lhe dó o meu passageiro. 

Quem o encontrar poderá dar-lhe alguma importância, mas nunca será a mesma. 

Outra passageira disse-me que acabava de entalar um dedo na porta do táxi. 

Que lhe dói, mas a dor não lhe importa. 

O pior é que vinha da manicura e ao entalar o dedo caiu-lhe uma unha postiça. 

Precisamente a unha do dedo anelar da mão direita, justamente agora que o seu noivo está à espera dela num restaurante e ela sabe que ele tem a intenção de lhe pedir a mão. 

 

E ela sabe, também, que ele comprou um anel de noivado e quando chegar a sobremesa, pegará no anel e ela colocá-lo-á no único dedo dos dez sem unha postiça. 

Atento pois à preocupação maior da minha passageira: uma simples prótese. 

Vários passageiros depois (o negócio está fluorescente), entra um outro que me diz que o preocupam os despedimentos, o desemprego e a fome que grassa no mundo. 

Assim colocado, os seus problemas ultrapassam a sua própria vontade. 

Inclusivamente o seu próprio âmbito. 

Não poderá fazer nada para evitar a fome no mundo ou evitar o desemprego. 

Eu, tão-pouco. 

No entanto a ele afecta-o mais que a mim e seguramente que a mim me afecta mais que a ti, e a ti que ao outro. 

 
 Silhueta do abismo

E a intensidade do problema ir-se-á desvanecendo segundo o apego que cada um tenha ao seu próprio umbigo. 

De facto, a culpa compartilhada dói menos ou melhor dilui-se no tumulto. 

Talvez seja por isso que tendemos a comprar produtos que não precisamos em locais comerciais atestados de gente. 

Para compartilhar a culpa. 

E eu, pois, o que dizer-vos? 

Que me deixou a minha noiva e esquecê-la é agora o meu único problema. 

E esquecer os seus olhos, esquecer a sua voz, e alisar duma assentada a silhueta do seu corpo neste abismo que é a minha cama. 

E assim somos absurdos. 

Um preocupado com o seu gato. 

Outra com a sua unha postiça, outro pela fome no mundo e eu por ela. 

E ela agora está a dormir, suponho. 
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