O VIDEIRINHO

sábado, julho 06, 2013

- Sou um autor com mais de um milhão de livros não vendidos !


AS PALAVRAS MATAM???

.

Consciente do fim do engano e dos males do tabaco, decidi de forma definitiva deixar de fazê-lo, conseguindo que a minha mente se molde aos meus desejos em (quase) todos os momentos da minha rotina: já não me custa não fumar no meu táxi, nem depois das refeições, nem nos bares, nem quando entretanto leio um bom livro, nem depois de uma boa (ou até, má) queca. 

Foi só questão de entender que o tabaco não melhora quotidianamente a minha vida, as minhas relações sociais antes pelo contrário: míngua a minha saúde, a minha economia e a confiança em mim mesmo. 

Tudo o que disse funciona para tudo, excepto quando escrevo algumas patacoadas por aí. 


Aí olvido-me desta minha nova faceta (nova só agora, que na vida real tem mais de vinte anos) livre de fumos e de acender um cigarrito atrás de outro sem ser consciente do que aspiro, pese o bem que ele me inspirou a escrever o que eu aspiro. 

Quando escrevo torno-me esquizofrénico. 

O tempo não passa e já pode tremer o solo num grau 9,9 (escala de Richter) que pensarei que fui eu, com a força sísmica de minhas palavras. 

Nesse intervalo desbordo-me e não passo cartão a nada. 

Agora, não sei quantas horas depois da minha primeira letra, quando regressar ao frio solo dos vivos, observo o cinzeiro a abarrotar e interrogo-me quem terá fumado isso (incluso olho ao meu redor, assustado, como se alguém que não vi o fumou por mim). 


Então, agora, por causa desse meu nobre afã por deixar de fumar, em lugar de um, sou dois: o orgulhoso não fumador e o escriba que fuma como uma chaminé (nunca entendi esta expressão: fumar como uma chaminé). 

Sei que se deixasse de escrever também deixaria de fumar, mas antes morto que seco em palavras. 

Tomara eu encontrar uma alternativa para continuar a escrever sem fumar. 

Aceito soluções; há alguma ideia?
.

quinta-feira, julho 04, 2013

- Nem no dia da minha autópsia saberão o que levo cá dentro !

AUTOPSIAR

 .

 
A grandiloquência faz crer a mais de um que, para apelidar as coisas, não basta com uma palavra. 

Quando num acidente de automóvel morre algum dos seus ocupantes, pode ser que, dada a gravidade do embate, o morto fique encarcerado entre uma amálgama de ferros. 

Os bombeiros deverão aplicar-se a fundo para extrair a vítima. 

Uma vez o delegado de saúde dê a indicação ao levantamento do corpo sem vida do viajante, será levado para a morgue e ali os médicos legistas praticarão a autópsia do cadáver. 

Aristóteles na Grécia e Cícero em Roma elevaram a retórica à categoria de ciência. 

Nascida no tempo dos sofistas, essa teoria viveu os seus momentos de esplendor e glória nos tempos antigos. 

Hoje, a “arte de bem dizer, de dar à linguagem escrita ou falada eficácia bastante para deleitar, persuadir ou comover” também adquiriu outros significados depreciativos, a partir de, fazer um “uso impróprio e intempestivo” da retórica, segundo define o dicionário académico.
 

O exercício do jornalismo, seja oral ou escrito, acarreta boas doses de retórica: doses positivas, que convertem o jornalismo em arte e doses negativas, quando se faz um mau uso das palavras. 

A grandiloquência faz acreditar a mais do que um, que para apelidar as coisas, uma palavra não é suficiente: melhor duas… três ou quatro e adicionar adjectivos e sintagmas preposicionais aos substantivos, para dar brilho ou “armar-se aos cucos” acreditando ser melhor orador que o do nariz de grão-de-bico. 

Erro crasso, claro, quando não se tem um bom conhecimento da língua. 

Porque a retórica torna-se oca e aparecem as redundâncias como setas (cogumelos) em Outono húmido. 

A redundância que é sinónimo do pleonasmo, é o excesso de palavras para dizer a mesma coisa.


Em determinadas ocasiões, a redundância pode ser expressiva ou enfática: “Disse-mo com as suas próprias palavras”, onde as suas próprias palavras se estão a referir à mesma pessoa. 

Estas redundâncias são a parte boa da retórica, a que – como o miúdo que grita que o rei vai nu – consegue que ao pretenso bom orador se lhe descubra a careca. 

No primeiro parágrafo, há uma mudança do significado de falecido: antes era o que morria de velho ou desfalecido por uma doença, agora até o é o morto em acidentes, que não desfaleceu nem no momento de morrer. 

E logo aparecem as redundâncias imperdoáveis: quando os bombeiros “sacam” um corpo, costuma estar sem vida, porque se está vivo, já não falaríamos de um corpo. 

E ao que lhe fazem a autópsia, sorte que é um cadáver, porque se não o fosse, quiçá sairia correndo ao ver o bisturi. 
.

sábado, junho 29, 2013

- ACREDITEMOS NO PODER DA ORAÇÃO : OREMOS PELA MORTE DOS NOSSOS GOVERNANTES !

DEVANEANDO

.

Estou a escrever do meu táxi, numa pausa, já só me resta 21% da bateria do meu computador portátil e acabo de dar-me conta que me esqueci do carregador em casa. 

Se me tenho apercebido antes, não teria empregue aqueles 79% de bateria na busca do nome daquela actriz porno, ou deusa protestante, que me enfeitiçou ontem à noite (voltei a esse site e o seu vídeo já tinha desaparecido) e depois sonhei com ela, um sonho divino: eu era o conservador da conservatória do registo de propriedades e ela entrou no meu “estaminé” e pediu-me, por favor, se podia requalificar o seu umbigo (de zona edificável para parques e jardins) e assinei um papel com a requalificação; então começou a crescer, do seu umbigo, uma planta carnívora vestida, com o caule, com batina e colarinho clerical. 


A planta abriu as suas fauces e no seu interior encontrei dois anéis. 

Então, a actriz porno ou deusa e eu casámo-nos, ali mesmo, com a planta carnívora do seu umbigo oficiando a união. 

Na noite de núpcias, disse-me que levava uma vida inteira a esperar por este momento, ela era virgem. 

E eu estava chateado, é claro. 

– Puxa! 
Porra! 
Acabo de ver-te numa Web porno, na secção “Interracial big cock”! 

– E o que fazias tu amor, vendo pornografia? 

– Não mudes de tema! 

– Isto é só um sonho, lembras-te? 
Aqui e agora sou virgem. 

– Posso corroborar. 
És virgem, disse a planta carnívora.

Nisto despertei.  



Instantes antes de me reconciliar com ela. 
Instantes antes de comprovar se mentia. 
Por isso acabo de empregar os 79% da bateria em procurá-la de entre dezenas de vídeos porno (árduo trabalhão). 
Necessitava do seu nome; mais dados que me aproximassem dela. 
Agora penso que já sei. 
Parece-me que se chama Barbie Bridges, aliás, Melissa Scott e, ainda que aquele negro falasse em inglês e ela uma linguagem inteligível (difícil entendê-la com a boca tão cheia), admirou-me comprovar que é de nacionalidade americana. 
De Los Angeles, Califórnia para ser mais exacto. 
E do ponto de vista onírico, minha esposa. 
Como estava a dizer, já só tenho 9% de bateria, estou no meu táxi e não creio que volte a casa mais cedo do que as 3 (necessito de um bar para pensar na minha nova vida com a Melissa) e de publicar os meus posts à meia-noite e já é meia-noite (6%). 
Não gosto de escrever com tantas pressas, sob pressão, do ícone, da merda da bateria (2%), mas entendam-me, estou loucamente apaixonado.
03MAI2011
.

sexta-feira, junho 28, 2013

- Só espero que estes "gajos mandantes" não me proibam beber acima das minhas possibilidades !

PREMEDITADO

.

Era tão bela como ausente das ruas, dos carros e, sobretudo, de mim. 

Imediatamente a ter-me indicado o destino não muito longínquo, pegou no seu iPhone entre os dedos e colocou-o sobre as pernas e assim o manteve, teclando e sorrindo o que lia, colada sempre ao visor de cristais líquidos, sem levantar a vista por nada e muito menos por mim. 

Precisamente por isso, pelo meu ataque de solidão em conflito com a sua beleza, não me ocorreu outra coisa que chamar a sua atenção mediante um método talvez algo bruto (por acaso o amor à primeira vista não o será?) ainda que resulte sempre: pisar bruscamente no travão com a desculpa, que eu sei, de algum gato imaginário que se cruzou de repente ou uma pomba ou um buraco… qualquer coisa mais ou menos plausível. 


E se melhor o pensei, mais depressa o executei, mas não calculei ou calculei mal a potência da travagem. 

Não esperava que ela, ou melhor, a cabeça dela acabasse enfaixando-se contra as costas do banco dianteiro, saltando ao mesmo tempo o iPhone pelo ar. 

Face á violência do impacto soltei o pedal do travão e nesse momento ela recuperou a sua posição inicial. 

Agora tinha o lábio inferior ensanguentado e os dentes da frente também. 

Deitou uma mão à boca, viu o sangue e exclamou: 
- O que se passou? 

– Merda! Foi um gato que se cruzou num repente. 
Está bem? 

Disse parando o táxi encostado ao passeio. 

– Sorte a minha! 
Estou… a sangrar? 

– Temo que sim. 
Deixe-me ver. 

Acerquei os braços por entre os bancos da frente, coloquei dois dedos no seu queixo (acetinado; muito suave ao tacto) e puxei-a com cuidado para ver melhor a ferida. 


Era apenas um pequeníssimo corte provocado, supus, pelo impacto do gume dos seus dentes contra o mesmo lábio. 

Procurei uma embalagem de lenços de papel e estendi-lha. 

– Sinto muito, disse-lhe. 

– Tenha calma. 
A culpa foi minha. 
Deveria estar mais atenta ou, pelo menos, ter colocado o cinto de segurança. 
Já agora onde está o meu telemóvel. 

– Espere que eu procuro-o. 
Saltou pelos ares – tacteei debaixo dos bancos dianteiros e encontrei-o; estendi-lho, aproveitando para roçar os seus dedos com os meus. 

– Obrigado. 
Parece que não se avariou. 
Do mal o menos…

Espere um momento. 
Vou entrar naquele café e pedir uma pedra de gelo para colocar no lábio. 

– Não, não. 
Calma. 
Não se preocupe. 
Não parece que seja nada. 
Só um pouco de sangue, disse, lambendo o lábio com a ponta da língua; momento cardíaco. 
Não sucedeu mais nada. 


Continuámos o trajecto e ao sair, neguei cobrar a viagem, pelo incómodo. 

Saiu e foi-se… com o meu lenço de papel no lábio e eu senti-me mal e bem. 

Culpado por aquele golpe sujo que não pretendia, mas bem porque a bela jovem se lembraria de mim enquanto durasse a irritação daquele pequeno corte no seu lábio (que tocaria uma ou outra vez com a sua mesma língua), mas culpado também por sentir-me pela sua ferida (que tocaria uma ou outra vez com a sua mesma língua), mas bem… e sem dúvida culpado porque a bela jovem se recordaria de mim… … num insuportável circulo vicioso...
.

quinta-feira, junho 27, 2013

- Um lugar onde perder-te?
- A minha cama !
- Refiro-me a um lugar público.
- A minha cama !

VAMPIROS

.

Há poucos dias fui testemunha de uma conversação entre dois assessores bolsistas, ambos residentes na City de Londres, em viagem de negócios pelo Porto. 

Apanharam o táxi no aeroporto de Pedras Rubras, sem bagagem, com destino ao Restaurante Terra, na Rua do Padrão (Foz), só para “comer” com um cliente e de seguida apanharem o avião de volta. 

Durante o trajecto, como digo, falaram da estratégia a seguir com este cliente, apodado, por eles mesmos, como “pai filho da puta”. 

Para ambos, e em petit comité, todos os seus clientes compartilhavam o apelativo de “filhos da puta” em diferentes graduações de parentesco segundo o volume da massa que manejassem, bem como a sua “maior ou menor capacidade para não ter escrúpulos” (literal). 

Também se referiram a eles como “doentes” e “psicopatas das finanças”. 

Neste caso, pelos vistos, “papá filho da puta” queria que os meus dois utentes lhe “colocassem” um “pacote quente” de 12 milhões (de euros ou dólares, não o disseram) “a três meses”. 


Falaram de percentagens e ganhos que não direi (porque podeis estar-me a ler em horário infantil). 

Também chamou a minha atenção a sua capacidade para alternar o português com terminologia anglo-saxónica (tecnicismos económicos impossíveis de traduzir), como se tivessem criado uma linguagem própria só entendível por eles, convertendo assim que a modos de complexo, o que, no fim de contas, poderia resumir-se no seguinte: a Bolsa não é mais que um casino onde os pequenos jogadores por vezes ganham e os grandes nunca perdem. 

Aí está o problema: os grandes nunca perdem. 

Nem mesmo quando criaram a actual crise mundial. 

Desta vez deram-lhe tão forte à roleta que a bolita saltou e o croupier assalariado perdeu um olho. 


E esse olho perdido (por culpa, suponho, de um rápido efeito da coca do que lançou a bola) gangrenou em recortes sociais, mais desemprego, incumprimento nas moradias e andares, nos veículos e demais penúrias, para o resto dos mortais que limpamos as suas mesas de jogo e continuamos a limpar e continuaremos limpando até que se nos inchem de todo os tomates. 

Agora os nossos governos também são croupiers que trabalham para os grandes. 

Esta nova e falsa democracia consiste em votar nuns tipos que farão o que dizem esses grandes “jogadeiros”. 

E eu não votei no jogadeiro. 

E os meus tomates estão roxos. 

Roxos de raiva. 

Por isso também apoiarei uma qualquer manifestação pelo manto de miséria que se abateu pelo meu país. 

Espero que quando chegar a hora, também tu estejas presente, ainda que seja só para defenderes sem coágulos, esse sangue que te corre nas veias.

12SET2009
.

terça-feira, junho 25, 2013

- Como é que doentes mentais, violadores, políticos, pedófilos e outros criminosos podem tratar-se dos desequilíbrios mentais de que sofrem, se o tratamento para taras perdidas é o depósito num vidrão ?

TELENOVELA

 .
 
A minha mamã deitou-me sobre uma manta que estava esticada sobre a mesa da sala de jantar. 

Ela utiliza sempre aquela mesma manta repleta de patos amarelos, com a desculpa de que a mim só me atrai aquela mesmíssima.

Na realidade, se tem patos, ursos ou cães, para mim é absolutamente indiferente. 

Atrás das minhas costas estava a televisão emitindo uma dessas telenovelas que hipnotizam a minha mamã e a deixam perplexa durante horas, diante do ecrã. 

Eu estava nu e o vento de um ventilador fazia-me um bocado de frio. 


Tive que começar a espernear e a queixar-me um pouco para que me prestasse atenção, mas ela continuava com o olhar fixo no ecrã. 

De repente, veio-me a sensação de urinar, há medida e no momento exacto. 

O líquido emergiu descontrolado, salpicando por completo o rosto da minha mamã. 

Ainda que lhe tenha interrompido a telenovela, nenhum de nós conseguiu aguentar as gargalhadas.
 .

segunda-feira, junho 24, 2013

- A estupidez não pode ser curada com o dinheiro, ou através da educação, ou pela legislação; não é um pecado, a vítima não pode deixar de ser estúpida !

NATÁLIA

.

Estou a "cozer" estas linhas num bar, na única mesa que estava livre, justamente debaixo dum enorme televisor. 

Estão a jogar futebol e assim, os “devotos”, uns 20, olham como se fosse para mim, mas mais para cima. 

Sinto-me observado ainda que ninguém me ligue puto. 

Como Strike (banda do pop punk brasileiro)

 É difícil escrever enquanto todo o mudo parece que te olha e berra:
Oaaaa… Uiiii…. Boaaa… ao mesmo tempo que digito, como se escutasse as minhas frases em tempo real. 

Isto gera-me uma pressão bastante estúpida, mas vai funcionando. 

Obriga-me a escrever mais concentrado. 

Goolo!, gritam todos. 

Dois homens abraçam-se. 

Atrás, uma garota olha-me. 

Veste uma t-shirt de "Os Belenenses" com o seu nome gravado: NATÁLIA. 

O seu parceiro é o tipo que acaba de abraçar o outro. 

Ela apenas sorriu com o golo da sua equipa. 

Suponho que se converteu ao futebol para compartilhar a clubite dele. 

Tão absurdo é o amor. 

Tão absurdo é o futebol. 



Olho para Natália e escrevo. 

Volto a olhar e volto a escrever. 

Nada atrai mais uma mulher que a sua própria curiosidade. 

Ela sabe que estou a escrever sobre ela, mas não sabe o quê. 

Sabe que me inspira, mas não em que direcção. 

De facto, para ela agora o futebol não existe. 

Olha-me e franze as sobrancelhas, confusa. 

O seu parceiro continua com o braço sobre o ombro do outro tipo. 

Para ele só existe o televisor. 

A equipa da sua vida. 

Cada vez que se move e me tapa a visão da sua parceira, ela move-se e procura-me com o olhar. 

Voltamos a manter o contacto e sorrio. 

Atenta ao meu sorriso, ela olha o seu parceiro e abraça-o, mas ele afasta-a e continua a comentar as jogadas com o seu amigo. 

O futebol é coisa de homens. 

Pelo menos para ele. 

Ela levantou-se e foi ao WC. 

Agora volta, (3 minutos). 

Com efeito, esperei que saísse do WC e "fiz-me" de conta a um encontro casual. 

 Tirada DAQUI

Previamente escrevi num guardanapo uma nota para ela: 
"A mim tão-pouco me interessa o futebol. Mantenho o segredo”. 

Consegui dar-lha, com os meus olhos a escassos dez centímetros dos seus. 

Entrei no WC dos cavalheiros, deixando a porta entreaberta e aí pude ver que ela voltou a entrar no seu quarto de banho para lê-la. 

É importante entender a sua reacção. 

Procurou a intimidade para ler a minha nota escrita. 

Não a recusou, nem a atirou ao solo. 

Escondeu-se para ler a minha nota. 

Dadas as circunstâncias, o mais lógico teria sido esperar que ela saísse do WC, para conhecer a sua reacção, ou para dar o passo seguinte, mas inquieta mais pelo imprevisível; assim saí e voltei para a minha mesa. 

Ela ainda tardou um par de minutos antes de voltar. 

Pensou durante três ou quatro longos minutos na nota e na situação que eu tinha provocado. 

Ao voltar a juntar-se ao seu parceiro voltou a mirar-me. 

Continua a olhar-me. 



Agora sem qualquer pudor. 

Olha-me fixamente e eu a ela. 

Quis interpretar um sinal de socorro nos seus olhos; talvez seja. 

Acaba o jogo. 

Aproximo-me do balcão para pedir a conta. 

Nisto cruzo-me com o seu parceiro e pergunto-lhe: 

- Como ficou o jogo? 

– Ganhámos. 

– Duvido, disse-lhe. 

Ela não está. 

Perdi o seu rasto. 

Pago, volto para a mesa e desligo o computador. 

Irei para casa. 

Ao abandonar o bar e entrar no meu táxi (estacionado mesmo á porta), encontrei o mesmo guardanapo, que tinha escrito para Natália, no limpa-párabrisas. 

Abaixo da minha nota havia um número de telefone, escrito a esferográfica e uma indicação:

“Lig-me mnhã das 8 pás 8,30 da maã. Eu t/cntari”. 

Rasguei o guardanapo. 

Não gosto de madrugar. 

Nem de abreviaturas…
.

sábado, junho 22, 2013

- Pelo novo Código do Trabalho, será causa de despedimento com justa causa:
1 - Negar-se a praticar felação ?
2 - Gravidezes sem justificação da Conferência Episcopal ?

COINCIDÊNCIAS COINCIDENTES

.

Um táxi dirige-se do ponto A para o ponto B a uma velocidade de 50 Km/h. 

Por sua vez, outro táxi realiza o trajecto oposto a uma velocidade de 75 Km/h. 

A distância entre A e B é, suponhamos, sete quilómetros. 

Com estes dados, os alunos calculam em que ponto se cruzam os dois táxis. 

Mas o professor reserva-se com alguns detalhes. 

Os alunos não sabem, por exemplo, que no primeiro táxi viaja o marido da passageira do segundo táxi. 

Tão-pouco sabem que à passageira em questão acabam de se lhe romper as águas, ou que o ponto A é, precisamente o hospital onde pensa dar à luz (e o ponto B, a casa de ambos). 

 

Por um erro de coordenação o marido chegou primeiro ao hospital. 

Ao ver que a sua mulher ainda não tinha chegado e que também não atendia o telemóvel, apanhou um táxi para ir à sua procura. 

Tão-pouco sabem que, ao cruzarem-se no ponto exacto que os alunos agora calculam, o taxista disse ao marido: 

- Que casualidade. 
Naquele táxi que acaba de se cruzar connosco viajava uma fulana que conheci há uns meses e que acabou, também, por conhecer a minha casa, a minha cama, a minha fogosidade. 

São dados importantes que ninguém ensina nas escolas. 

Daí o fracasso do nosso sistema educativo.
.

sexta-feira, junho 21, 2013

- Na realidade esta reforma laboral é boa.
O que se passa é que vocês a percebem como má, porque sois pobres !

TUDO TEM PREÇO

.

É fácil encontrar qualquer coisa. 

Armas, um assassino profissional, um “papel” de cocaína, miúdos, documentos, restos ósseos, psiquiatras, medalhas, arte sacra. 

Selecciono a mulher adequada de entre um rosário de cem. 

Cabelo ondulado, olhos escuros, sardas, mamas nem grandes nem pequenas, simplesmente “aquela” medida, pele bronzeada e voz doce. 

Desligo o taxímetro e travo o meu táxi à sua altura. 

Deito a cabeça de fora e aproximar-se-á. 

Exponho-lhe as minhas necessidades: “francês”, “grego profundo”, submissão. 

Negoceio um preço. 

Com o que pago não só compro o seu tempo; como também anulo sua vontade. 

Invento uma cena que apazigúe os meus traumas: 

- Chamar-te-ás Eduarda e tratarás de resistir-me. 
Brigaremos primeiro durante pelo menos dez minutos, e depois deixar-te-ás levar e fingirás que gostas. 

 Ausência para o pequeno almoço

Atingirás o clímax orgasmático quando eu o atingir também e dormirás abraçada a mim, acariciando-me o cabelo. 
De manhã tomaremos o pequeno almoço em silêncio enquanto leio o jornal. 
Depois do pequeno almoço poderás partir. 
Contrato fechado? 

- Sim. 

- Agora diz-me que me queres. 

- Quero-te. 

- Diz-me: és o homem da minha vida. 

- És o homem da minha vida. 

Neste caso 500€ equivalem a duas descargas de esperma machão, três contusões que esconderás com maquilhagem e uma notável descida do meu nível de ansiedade. 

O nosso acordo comercial eximir-me-á de toda e qualquer culpa: o preço fê-lo ela. 

Ela aceitou as minhas condições. 

Nota: 
Querias capitalismo? 
Vendo-te meia dúzia de copos.
.

quinta-feira, junho 20, 2013


- Só um detalhe... eu creio que quando se beija, não se pensa em nada.
Será?

ANULAR INTRODUÇÃO

.


Ligo o computador, conecto-me à internet e acedo ao editor deste blog (Blogger). 

Clico na aba “Mensagem nova” e no mesmo instante abre-se um quadro de texto (sem texto, como é evidente). 

É o mesmo ritual de cada dia, ao longo destes últimos longos seis anos: começar a escrever aconteça o que acontecer, digitando palavra após palavra, formar uma ideia, dar-lhe corpo, acrescentar, remover, ir-me abaixo um instante ou elevar-me a mil, a intervalos de milésimas. 

Começar a escrever implica ter tempo, apartar os problemas do quotidiano, ou melhor ainda, borrifar-me neles. 

Ás vezes escrevo sobre passageiros que na realidade são traumas disfarçados de tipos gordos com bigode, viajando num táxi imaginário. 

Chamo-lhes “montes de conversa fiada literária”, personagens inventadas que servem para aplacar a minha ira. 

Por vezes escrevo com tanta raiva que, inclusivamente, até saltam as teclas do computador. 

 

Recordo uma ocasião que em pleno orgasmo criativo saltou pelos ares a tecla “Z” e em vez de voltar a encaixá-la no teclado (estava on fire), meti-a na boca. 

E imediatamente, sem querer, engoli-a. 

Passei vários dias sem pegar olho, sentindo cólicas ou convulsões cada vez que escutava ou lia qualquer palavra que incluísse a letra “Z”. 

Foi o meu psiquiatra quem conseguiu acalmar-me: 
Esquece essa merda dessa tecla. 
A letra “Z” é surda, por amor de Deus”. 

Escrevo estas linhas a partir duma esplanada, com WiFi, de um bar em Angeiras. 

Deixei uma passageira muito perto daqui, vi a esplanada e aparquei o táxi. 

Funciono sempre assim: deixando-me levar pelo acaso. 

Sem horários. 

Sem lugares fixos. 

Sem chefes. 

Sem pressões. 

Nunca me senti obrigado a escrever. 

Além disso, não me pagam para isso. 

Sou livre. 
.