O VIDEIRINHO

sexta-feira, setembro 27, 2013

BOA-NOVA


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Tocaram à campainha e a futura mamã correu ansiosa até à entrada para abrir a porta. 

– Olá, trago uma encomenda para a sua família. 
Assina-me estes papeis por favor? Disse a cegonha. 

Zé Manel! Zé Manel! Chegou o nosso filho! 
Gritou a Marta ao seu marido e juntos, entusiasmados como nunca tinham estado, desenrolaram o tecido e abriram a caixita onde viajava o seu bebé. 

– É lindo, não é? Perguntou Marta, assim nem tanto convencida. 
Creio que tem os teus olhos, disse, duvidando, enquanto olhava para o seu marido que a todo o custo tentava encontrar uma qualquer semelhança. 


– Não é esverdeado? Perguntou Zé Manel enquanto especulava sobre um equivoco da cegonha,  mas a possível origem extraterrestre do menino pouco importou quando o pequeno, recém-chegado a casa, emitiu as suas primeiras palavras: 

  Mamã, papá, disse num perfeito português… e aos seus pais não restaram mais quaisquer dúvidas.
14ABR2011
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segunda-feira, setembro 23, 2013


- Se não pudéssemos rir das coisas que não fazem sentido, não poderíamos reagir a muitas coisas da vida !

RECEIOS

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Porque tenho cara de cu, digo, de suspeito, ainda que o não seja, mandam-me sempre parar nos controles, ou ‘contróis’, (depende da autoridade de momento) e ao acercar-se o agente de autoridade, não posso evitar olhá-lo como que pedindo perdão ainda que sem saber muito bem porquê e de quê. 

Pedem-me os documentos e, como é normal em mim, estão sempre em ordem; sopro ao balão e logicamente dá negativo. 

Mas, ainda que não tenha bebido uma gota sequer de álcool, não posso evitar soprar com medo.


Não posso evitar recordar aquela vez que roubei, sendo criança, uma embalagem de chicletes naquele quiosque em frente à escola e penso que essa mancha na minha consciência não prescreveu, que mais tarde ou mais cedo a justiça actuará contra mim. 

O alcoolímetro não repara no meu delito porque essa culpa não se espraiou pelo ar que respiro, ainda que tenha infectado o meu sangue. 

Por isso, enquanto sopro, cruzo os dedos para que o chui não me submeta depois a um controle toxicológico. 


A suceder isso, daria, sem qualquer dúvida, positivo de sopetão e acabaria por vir à baila o pacote de chicletes e então, adeus futuro. 

Talvez seja melhor entregar-me directamente à polícia, ou precipitar-me e confessar no controle seguinte. 

Assim, ao menos, podia lavar essa culpa que desde há uns anos, muitos anos, me corrói as entranhas.

E tudo por um maldito pacote de chicletes de menta.

E não é que nunca gostei de menta. 
 
NOTA: 
Ainda conservo esse filho da p*ta desse pacote de chicletes intacto, escondido num recanto recôndito, da minha casa. 

Desde então, (já lá vão mais de vinte e cinco anos), tento evitar caminhar pelo passeio e até pela rua desse quiosque, porque se me reconhecessem estava tudo f*odido, digo, lixado!
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domingo, setembro 22, 2013

- Nunca pensei, a propósito da seca, que a falta de liquidez se tornasse tão literal !

ANTÍTESES

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É desconfortável ter errado comigo mesmo, de discutir interiormente e uma parte de mim acaba a dormir na cama e a outra parte no sofá. 

Como posso permitir que o meu diabo durma sempre a sono solto enquanto a consciência passa frio e sofre dores de costas? 

Alguém já viu alguma vez um anjo com olheiras? 

Noutro dia foi a gota que fez transbordar o copo. 

Ao meu diabo deu-lhe para gracejar e começou a prender com um isqueiro, uma por uma, as terminações nervosas de meu cérebro como se fossem estopins (pavios) de petardos. 


Do mal o menos, porque ainda chegou a tempo o meu anjo e, à falta de outros recursos, dispôs-se a urinar sobre as chamas. 

E eu ali no meio, sentindo semelhante show na minha cabeça enquanto conduzia o meu táxi Boavista abaixo. 

O passageiro do meu táxi notou algo pouco usual. 

Chegou inclusivamente a perguntar-me se eu me encontrava bem, porque suava tanto e porque tinha os olhos tão vermelhos. 

Ter-lhe ia contado a do fogo interior, mas o meu psiquiatra aconselhou-me a que não falasse destas coisas. 
27FEV2012
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sábado, setembro 21, 2013



- Por muito que se esmere, um profissional que lide com calçado não passa de um sapateiro !

REFLEXOS


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Uma fulana que passeia, olha-se de soslaio no reflexo de uma montra. 

Um homem que caminha em sentido contrário pára de repente, alça da sua máquina fotográfica e começa a fazer fotos ao reflexo da jovem. 

Ela de repente acerca-se dele, furiosa e diz-lhe: 
- Oiça lá, por que me está a fotografar sem a minha permissão? 

Ele contesta que as fotos fê-las à montra, não a ela e que o reflexo do seu rosto foi casual. 

- Já agora, retorna ela, mas focou-se propositadamente no meu reflexo. 

- Efectivamente, retorque ele, mas ninguém é dono do reflexo que projecta. 

Ela não aceita aquela desculpa e pede-lhe que elimine aquelas fotos. 

O homem contesta que, em todo o caso, a autorização deveria ser pedida ao dono ou encarregado da loja proprietária da montra e, que portanto, também de qualquer  reflexo que se projecte nela.  

- Espere e já aclaramos a situação, acrescenta. 

O homem entra na loja. 

Ela aguarda. 

Passado um instante o homem sai e diz à fulana que o encarregado lhe deu autorização para fazer tantas fotografias quantas quisesse, já que a montra faz parte da via pública.  

 

Ela ri nervosa e solta ironicamente: 
- Vejamos, artista, mostre-me essas fotos. 

O homem procura no ecrã da máquina uma foto em concreto e mostra-lha. 

Ela fica estupefacta. 

Ele diz: 
- Aqui consegui sobrepor o reflexo do seu rosto com o rosto do manequim da montra. 
Procurei dar vida ao manequim, ou tirá-la a si. 
A questão é, quem ganha a quem? 
O seu rosto vivo e formoso sobre um corpo inerte, ou talvez o manequim lhe subtraia vida? 
Inclino-me pelo primeiro. 
O seu enquadramento perfeito parece conseguir que o manequim deseja quebrar a montra e fundir-se no seu corpo como uma luva. 

Nota: 
Eu estava a escassos metros deles numa paragem de autocarro. 
Fui testemunha de tudo e escutei tudo. 
Também quando os dois zarparam juntos, ele com um braço sobre os ombros dela, para tomar um café.
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quinta-feira, setembro 19, 2013

CARTOGRAFIA DO TEU CORPO (Parte II)

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... CONTINUAÇÃO




Nascem dedos na língua, olhos no nariz, orelhas nas unhas, papilas no ouvido e a expedição esparrama-se, com as suas provisões em alerta, o corpo todo feito sentido envolvente, uma só caravana de múltiplos  passageiros integrados sem aliança num itinerário que os acorda em cada espaço que adivinham, intuem, descobrem, traçam, propõem. 

Com determinação de cartógrafo anoto cada curva, cada ângulo, na memória para entre o sussurro distante dos olores e o sereno impulso da recordação, agitar amanhã os ecos do estranho e o deleite de uma possível nova viagem. 

A sul dos teus peitos, a norte dos teus joelhos, a este dos teus braços e sobre o horizonte dos teus bulícios, entregar-te o mar amplo desta viagem infinita e, como eu, fecha os olhos para que só o tacto veja, decifrando cada matiz na fotografia ardente que vamos revelando na polpa dos dedos, no ritmo crescente dos latejos, na certeza, inevitável de que a luz é uma convicção interna, pessoal, intransmissível, que agita a respiração a partir do interior, como um fogo, nos longos, quase eternos instantes em que, como um chicote aplicado desde as têmporas até aos calcanhares, o barco atraca no porto e as tempestades juntam-se neste gemido simultâneo de humores e caricias. 



Cansados, rendidos, integrados, os refúgios dormem uns sobre os outros, enquanto que lentamente, os dedos voltam à vida sobre os caminhos explorados, como que tratando de encontrar a rota de regresso à terra áspera em que voltarão a ser simplesmente dedos e os lábios lábios e, só cabelo o cabelo e a respiração apenas uma respiração. 


Ainda que só a promessa do território conhecido, a esperança sozinha de um novo percurso, retorna ao seu campo quotidiano com a força de uma nova viagem possível, aquele em que, entregues à geografia dos corpos, voltarão a ver os dedos e a ouvir os lábios e a ondular o cabelo e a tocar a respiração quando o norte se veste de mamilo, os vales se humedecem e a noite se ilumina em texturas só decifráveis pelo pausado reconhecimento das tuas formas.
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