O VIDEIRINHO

sábado, junho 22, 2013

COINCIDÊNCIAS COINCIDENTES

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Um táxi dirige-se do ponto A para o ponto B a uma velocidade de 50 Km/h. 

Por sua vez, outro táxi realiza o trajecto oposto a uma velocidade de 75 Km/h. 

A distância entre A e B é, suponhamos, sete quilómetros. 

Com estes dados, os alunos calculam em que ponto se cruzam os dois táxis. 

Mas o professor reserva-se com alguns detalhes. 

Os alunos não sabem, por exemplo, que no primeiro táxi viaja o marido da passageira do segundo táxi. 

Tão-pouco sabem que à passageira em questão acabam de se lhe romper as águas, ou que o ponto A é, precisamente o hospital onde pensa dar à luz (e o ponto B, a casa de ambos). 

 

Por um erro de coordenação o marido chegou primeiro ao hospital. 

Ao ver que a sua mulher ainda não tinha chegado e que também não atendia o telemóvel, apanhou um táxi para ir à sua procura. 

Tão-pouco sabem que, ao cruzarem-se no ponto exacto que os alunos agora calculam, o taxista disse ao marido: 

- Que casualidade. 
Naquele táxi que acaba de se cruzar connosco viajava uma fulana que conheci há uns meses e que acabou, também, por conhecer a minha casa, a minha cama, a minha fogosidade. 

São dados importantes que ninguém ensina nas escolas. 

Daí o fracasso do nosso sistema educativo.
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sexta-feira, junho 21, 2013

- Na realidade esta reforma laboral é boa.
O que se passa é que vocês a percebem como má, porque sois pobres !

TUDO TEM PREÇO

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É fácil encontrar qualquer coisa. 

Armas, um assassino profissional, um “papel” de cocaína, miúdos, documentos, restos ósseos, psiquiatras, medalhas, arte sacra. 

Selecciono a mulher adequada de entre um rosário de cem. 

Cabelo ondulado, olhos escuros, sardas, mamas nem grandes nem pequenas, simplesmente “aquela” medida, pele bronzeada e voz doce. 

Desligo o taxímetro e travo o meu táxi à sua altura. 

Deito a cabeça de fora e aproximar-se-á. 

Exponho-lhe as minhas necessidades: “francês”, “grego profundo”, submissão. 

Negoceio um preço. 

Com o que pago não só compro o seu tempo; como também anulo sua vontade. 

Invento uma cena que apazigúe os meus traumas: 

- Chamar-te-ás Eduarda e tratarás de resistir-me. 
Brigaremos primeiro durante pelo menos dez minutos, e depois deixar-te-ás levar e fingirás que gostas. 

 Ausência para o pequeno almoço

Atingirás o clímax orgasmático quando eu o atingir também e dormirás abraçada a mim, acariciando-me o cabelo. 
De manhã tomaremos o pequeno almoço em silêncio enquanto leio o jornal. 
Depois do pequeno almoço poderás partir. 
Contrato fechado? 

- Sim. 

- Agora diz-me que me queres. 

- Quero-te. 

- Diz-me: és o homem da minha vida. 

- És o homem da minha vida. 

Neste caso 500€ equivalem a duas descargas de esperma machão, três contusões que esconderás com maquilhagem e uma notável descida do meu nível de ansiedade. 

O nosso acordo comercial eximir-me-á de toda e qualquer culpa: o preço fê-lo ela. 

Ela aceitou as minhas condições. 

Nota: 
Querias capitalismo? 
Vendo-te meia dúzia de copos.
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quinta-feira, junho 20, 2013


- Só um detalhe... eu creio que quando se beija, não se pensa em nada.
Será?

ANULAR INTRODUÇÃO

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Ligo o computador, conecto-me à internet e acedo ao editor deste blog (Blogger). 

Clico na aba “Mensagem nova” e no mesmo instante abre-se um quadro de texto (sem texto, como é evidente). 

É o mesmo ritual de cada dia, ao longo destes últimos longos seis anos: começar a escrever aconteça o que acontecer, digitando palavra após palavra, formar uma ideia, dar-lhe corpo, acrescentar, remover, ir-me abaixo um instante ou elevar-me a mil, a intervalos de milésimas. 

Começar a escrever implica ter tempo, apartar os problemas do quotidiano, ou melhor ainda, borrifar-me neles. 

Ás vezes escrevo sobre passageiros que na realidade são traumas disfarçados de tipos gordos com bigode, viajando num táxi imaginário. 

Chamo-lhes “montes de conversa fiada literária”, personagens inventadas que servem para aplacar a minha ira. 

Por vezes escrevo com tanta raiva que, inclusivamente, até saltam as teclas do computador. 

 

Recordo uma ocasião que em pleno orgasmo criativo saltou pelos ares a tecla “Z” e em vez de voltar a encaixá-la no teclado (estava on fire), meti-a na boca. 

E imediatamente, sem querer, engoli-a. 

Passei vários dias sem pegar olho, sentindo cólicas ou convulsões cada vez que escutava ou lia qualquer palavra que incluísse a letra “Z”. 

Foi o meu psiquiatra quem conseguiu acalmar-me: 
Esquece essa merda dessa tecla. 
A letra “Z” é surda, por amor de Deus”. 

Escrevo estas linhas a partir duma esplanada, com WiFi, de um bar em Angeiras. 

Deixei uma passageira muito perto daqui, vi a esplanada e aparquei o táxi. 

Funciono sempre assim: deixando-me levar pelo acaso. 

Sem horários. 

Sem lugares fixos. 

Sem chefes. 

Sem pressões. 

Nunca me senti obrigado a escrever. 

Além disso, não me pagam para isso. 

Sou livre. 
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sábado, junho 15, 2013

- O pudor é um corpo que só se dissolve em álcool ou em dinheiro !
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A CONDESSA DESCALÇA


Recordo o primeira vez que me apaixonei; tinha onze anos e ela trinta e cinco, eu moreno, ela morena, eu em Castelo Branco, ela em Hollywood. 

Como a cada domingo depois de regressar de casa de Baptista Mendes, amigo dos meus pais e meu padrinho, o único com televisão, onde podia viajar visualmente (só aos domingos). 

Melhor e maior mesmo, só no Cine Teatro Avenida (Castelo Branco). 

Não sei como… mas entrei e vi “A Condessa Descalça”, suponho ter sido um sábado. 

A protagonista, a “ bela bailarina espanhola, Maria Vargas, (Ava Gardner); uma esbelta actriz de lábios apetitosos, lábios que nos meus sonhos sabiam a neve, framboesas, nostalgia e mel; pernas esculturais para suporte de tão desejosa e esbelta escultura; tinha um magnetismo felino. 


Nessa noite o sono abandonou-me e no dia seguinte fê-lo o apetite, qualquer recanto tornava-se um bom lugar onde repousar a vista, o meu coraçãozito autista assim mandava. 

Creio que foi na noite seguinte quando a minha mãe, alertada pelo meu comportamento, se sentou na beira da minha cama para se inteirar do meu estado. 

Eu descrevia os sintomas com a mesma inocência que o fazia ao médico de família, “sinto aqui… como que um…” 

Foi até que num repentino movimento de mãos, me despenteou e que o seu gesto sério se transformou num sorriso. 

Zé, tonto, o que se passa contigo… é que estás apaixonado. 

Era tal o meu estado de enfermo, que unicamente reconhecia e aceitava a imensidade oceânica como barreira insuperável na nossa história de amor. 

Durante semanas o meu peito converteu-se numa lúgubre adega vazia e húmida, podia sentir nas suas paredes a condensação de cada lágrima. 

Teria mesmo dado o meu Meccano por uma só carícia sua! 


Passaram-se cinquenta anos e não a esqueci. 

Não sei se foi amor, fantasia, loucura, química, ou tudo junto, provavelmente que tudo seja a mesma coisa; mas nestes anos aprendi algo sobre este estranho fenómeno. 

Podes apaixonar-te horas ou inclusivamente anos, de aquém te ama e odeias, do que queres e não suportas, do que existe e não conheces, de um proxeneta príncipe azul, de umas costas desnudas, de uma mulher de cem homens, de um homem que não é homem, de ti ou de ninguém. 

Para ser amplamente feliz não é necessário acasalar-se, apaixonar-se ou amar, mas para deixar de sê-lo basta tão só em fazê-lo com a pessoa equivocada. 

Demasiados casais estão com quem podem e não com quem querem. 

A dependência nutre a cobardia e, nestes casos, o conformismo mata a ilusão dando aso a uma espécie de simbiose parasitária em forma de par ou casal, casamento, namoro ou noivado. 

As pessoas não amam, emparelham-se. 

Não acredito nos casais, mas sim no casal, não creio na fidelidade, mas sim na lealdade, não creio no amor, mas sim na sua probabilidade. 

E um dia a probabilidade cumpre-se e encontras-te com o coração de treze anos chapinhando num oceano para dois, com a utopia por desempacotar e compartir o teu primeiro Meccano. 

Nesta matéria… não vale a pena substitutos. 
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quarta-feira, junho 12, 2013

- Para que lado fica a vida?
  Segue em frente até ao fim !

SONOS E SONHOS

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Para mim, um dos melhores momentos do dia é quando ele finaliza... uma vez na cama, os breves segundos que antecedem o sono são extraordinários, o corpo ignora a gravidade, as pálpebras sabendo da sua inutilidade, caem rendidas, sem resistência. 

Esses segundos não têm medida de tempo, podes sentir como tudo o que te rodeia passa a fazer parte de um cenário sem importância, a escuridão apaga-se e o raciocínio desvanece-se dando passo à criatividade. 

É nesse instante que o cérebro aproveita a noite para actuar sem ser observado e desfrutar sem ser julgado, provavelmente esses instantes representam a verdadeira liberdade do ser humano. 

Eu tenho sonhos maus e sonhos bons, cheguei a sonhar que um desalmado que me apunhalava, sentindo mesmo o frio metal entre as minhas “tripas” e asseguro que isso dói. 

 
"O sono da razão produz monstros" - Francisco de Goya

Mas à poucos sonhos atrás, recebia outra visita com melhores intenções, umas mãos femininas moldavam suavemente o meu pescoço e com delicadeza faziam-me entrega de um delicioso beijo com sabor a lágrima, menta e açúcar, um beijo desses que não se esquecem, parecendo que esse beijo se tivesse preparado minuciosamente antes da sua entrega, entrega que curiosamente provinha de uns lábios inacessíveis, para mim, durante o dia... quando acordas, o teu peito inunda-se com uma estranha sensação de ressaca sentimental e emocional. 

 
"Sono sem sonhos" de Abigail Vasthi Schlemm

Através dos sonhos podes fazer tudo, inclusivamente o mais íntimo com a pessoa mais inverosímil que possas imaginar; podes visitar e abraçar os ausentes, caminhar nu no lombo de um elefante azul, podes ser um anti-herói, chorares até encharcares a almofada, fazer amor sem sexo, teres muito sexo sem amor, conhecer outro tipo de desconhecidos, estrangular o teu chefe, viajar sem pesadas malas, sentar-te na tua velha carteira de escola, mergulhares entre nuvens e whisky, ou ser lapidado por trinta e sete notários sem gravata...; reconhecerão que durante o dia as nossas possibilidades se reduzem consideravelmente em rígidos emaranhados e complexas barreiras. 


Creio sinceramente que os sonhos são uma ferramenta natural para não enlouquecermos quando estamos despertos, digamos que são um refúgio natural nocturno do pântano do nosso social diário. 

Os sonhos são tão 'flipantes' que nunca me interessei interpretá-los, compreendê-los ou desencriptá-los, creio que este esforço é preferível aplicá-lo no que ocorre durante o dia ao meu redor. 

A privação do sono é um dos mais efectivos métodos de tortura e a proibição e esterilização dos sonhos o mais cruel dos pesadelos. 

Faz agora cinco anos que “ensinei a voar”, o meu despertador.
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terça-feira, junho 11, 2013

segunda-feira, junho 10, 2013

- O Homem, é um Homem para o Homem !

RELAXE

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Passei a tarde a empilhar capítulos de “The Wire” (3 horas), a limpar com uma escova, as juntas dos azulejos da cozinha (45 minutos) e a furar e arquivar recibos da luz e a consertar uma carcaça de um lustre de Ikea (1 hora e 20 minutos), mas nada disto conseguiu aplacar a minha ansiedade por ter dado trela a Marta, uma dessas amigas "Grande Reserva" com direito a orgasmo. 

Chamou-me para ficar (pisca... piscadela de olhos rapida) e respondi-lhe que não podia, tinha que levar o esquilo ao veterinário. 

– Não sabia que tinhas um esquilo. 

Eu tão-pouco, pensei. 

De qualquer maneira fiquei de lhe telefonar mais tarde e fi-lo. 

Várias horas depois de pendurar o lustre do IKEA consertado, voltei a telefonar-lhe, entre soluços, para lhe dizer que o meu esquilo tinha morrido e que estava a pensar em demandar o veterinário por negligência e que ela, como advogada, talvez me pudesse representar no processo a mover. 

 

Disse-me que nunca se tinha deparado com um caso assim, que verificaria no Código e que, de qualquer maneira, poderíamos encontrarmo-nos combinar para aprofundar os detalhes. 

"Aprofundar", voltou a soar-me a sexo e eu continuava sem sentir-me preparado, mas talvez com a desculpa do meu recente luto, poderia evitar esta parte e encontrarmo-nos só como amigos, sem a intimidade habitual. 

Assim, acedi. 

Fiquei de recolhê-la com o táxi e levá-la a jantar à Cunha. 


Marta levava um vestido preto, cingido, meias pretas e cabelo com franja à Uma Thurman em Pulp Fiction. 

Estava incrível. 

Ao entrar para o táxi deu-me um beijo no canto da boca. 

– Sinto muito o que aconteceu ao teu esquilo. 

 

Com isto desatei a chorar e abracei-me a ela. 

Nunca antes tinha chorado pela perda de um bicho imaginário, mas aquilo resultou numa autêntica libertação para mim, muito melhor que vinte horas de terapia, melhor inclusive que uma caixa de Xanax. 

Durante o jantar, Marta escutou os meus lamentos e prometeu ajudar-me jurídica e emocionalmente. 

Depois tomámos uns copos e despedimo-nos com um casto beijo nos lábios. 

Foi a primeira vez em muitos anos que o encontro não acabou em sexo e, nessa noite, dormi como um esquilo. Um esquilo vivo, entenda-se. 
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domingo, junho 09, 2013

- Quando a palavra fracassa, nada mais resta !

BEIJO CEGO

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A uns cinquenta metros do meu táxi vi um homem parado no passeio com óculos de sol, uma bengala e um cartaz de “TÁXI” entre as suas mãos. 

O meu era o único táxi livre na rua, assim avancei vagarosamente até ele (o tráfico era intenso e a rua estreita, de sentido único) com a intenção de deter-me à sua altura, ajudá-lo a entrar e depois levá-lo onde desejasse. 

Mas antes de consegui-lo sucedeu algo inesperado. 

O carro anterior ao que me precedia, um VW Golf vermelho, deteve-se à altura do cego, abriu por dentro a porta do "lugar do morto" e depois de trocar umas palavras com ele, este dobrou a sua bengala e entrou no carro. 

Buzinei desalmadamente. 

Sem qualquer dúvida que aquele condutor se fez passar por taxista com a intenção de estafar o pobre cego. 

Como a rua era estreita e apenas se interpunha outro carro, não tive outro remédio que esperar que o falso táxi se detivesse no semáforo seguinte para me acercar e censurá-lo pela sua falta de escrúpulos.


Mas o trânsito estava fluido e o Golf continuou rua fora até ao cruzamento com a Rua do Bonfim e prosseguiu em frente para a Avenida Fernão de Magalhães. 

Aí aproveitei e tentei ultrapassar outros carros para alcançá-lo. 

Por sorte, um deles era um carro da Polícia. 

Buzinei para chamar a sua atenção. 

Enquanto avançávamos, o carro patrulha baixou o seu vidro e eu o meu. 

Gritei para o agente da polícia: 

- Detenham aquele Golf vermelho. 

Sem mais nada foram atrás do Golf e eu também. 

Foi abordado quando já se detinha no semáforo: o carro patrulha parou à sua esquerda e eu à sua direita. 

 Mas pouco depois de me deter e me dirigir para ele, fiquei pálido. 


Encontrei o cego virado para o condutor do Golf (um tipo loiro e bem parecido). 

Estava a beijá-lo na boca. 

Um dos polícias saiu do carro e aproximou-se de mim: 

- Quer que detenhamos esses homens por se beijarem? 

- Não... Desculpe. 

- Você é xenófobo? 

O polícia mandou-me à merda enquanto deixou que o condutor do Golf prosseguisse a sua marcha. 

Nota: 
Estou confuso. 

Talvez o tipo do Golf já o conhecesse, ou já tivessem sido um par, ou até tivesse acontecido uma coincidência por sorte. 

Ou talvez, por culpa de um farsante, fiquei sem saber a que sabe um beijo de um cego.
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sábado, junho 08, 2013

- Quando se está em frente a um precipício, não é tão mau ir de costas !

HERANÇA DE SILICONE (PARTE II)

… CONTINUAÇÂO 

A verdade é que o tipo era um charlatão. 

Tinha uma lábia incrível. 

Bom, como estava a dizer, a minha amiga voltou do quarto de banho, apresentou-se e, blá, blá, blá, convidou-nos para outra rodada e, no final, acabámos trocando números de telefone. 

O tipo encantador, telefona-me no dia seguinte e insiste para jantar com ele, nesse mesmo dia, num restaurante maravilhoso. 

Então pensei, por que não? 

Concordei e… comemos, rimos, vinho, copos e depois, convida-me para a sua casa; no final passou-se o que tinha de se passar. 

Levou-me para ao quarto, começámos… já sabes, com os amassos… tirou-me o vestido, o sutiã e justamente quando me chupava as mamas, desculpa, mas foi mesmo assim, começa a invadir-me uma paranoia do “catano”. 


Já te disse que era mais velho do que eu, mas assim tão perto, deu-me para imaginar que poderia ser meu pai. 

Não sei… tinha parecenças, inclusivamente tinha uma cicatriz atrás do pescoço parecidíssima e, apreciando bem, teria mais ou menos a mesma idade que o meu pai quando morreu. 

Mas com tudo isto, “deixei-me ir”. 

E dá-me muita vergonha dizer-te isto, mas em pleno pelejar juro-te que nunca antes me tinham dado semelhante queca. 


Imagina um tipo igualzinho ao meu pai “comendo-me”, perdão, succionando os mamilos, e eu entretanto a imaginar que está a tentar sugar-me, tal qual, como um bebé, não o leite materno, mas sim o silicone que precisamente ostento graças à morte do meu pai. 

E agora, não sei se parecerá bem voltar-me a encontrar com ele, o que achas tu? 

– Eu? 

Creio sinceramente que necessito de apanhar ar e de umas férias. 
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sexta-feira, junho 07, 2013

- Há os que esperam tocar o fundo, para se porem a cavar !

HERANÇA DE SILICONE (PARTE I)

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- O meu pai morreu o ano passado e com o dinheiro da herança fiz uma operação ás mamas. 

Não sei porque te conto isto; vou um pouco borracha, mas pareces-me um tipo simpático e além do mais, na tua idade já terás escutado de tudo no táxi. 

Como estava a dizer, o meu pai morreu em Julho, tratámos de toda a papelada burocrática até Setembro e em Outubro ganhei um par de mamas novas. 

Gastei integralmente os 4250€. 

Além do mais, quando fui para a clínica, disse ao cirurgião que queria colocar as mamas até ao valor de 4250€; não sabendo para que tamanho tal quantia daria. 

 


Não fazia a mínima ideia do custo da operação, mas dava-me remorsos de consciência ter esse dinheiro por aí, apodrecendo no banco: aquele dinheiro cheirava a morto; sabes o que eu quero dizer. 

No final puseram-me um par de implantes de silicone e a verdade é que fiquei com umas mamas fabulosas. 

Estás a ver? 
(e de supetão, desabotoou a blusa mostrando dois magnéticos, (para o homem), proeminentes implantes à medida do cliente, neste caso, da cliente). 

Estou contente com o resultado, afianço-te, mas agora que já temos mais confiança, confesso-te que acaba de se passar algo muito, muito opressivo. 


Não sei… necessitava contá-lo a alguém pá, vieste mesmo a propósito. 

Posso tratar-te por tu, não é verdade ? 

– Sim, disse-lho através do espelho retrovisor do táxi. 

– Bom, pois outro dia, há um par de dias ou três, fui a um bar com uma amiga, um “afterwork”, desses de whiskys, cervejas ou gins tónicos, sabes como é e nisto, dou conta de que na outra extremidade do balcão está um homem bonito (ainda que um pouco velho para o meu gosto) que não parava de olhar-me, não sei se a mim, se ás minha mamas. 

A minha amiga deixou-me um momento para ir ao quarto de banho e o homem aproveitou, aproximou-se, muito educadamente apresentou-se e começámos a falar. 

CONTINUA...
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quinta-feira, junho 06, 2013

- Conhecemo-nos no balcão de reclamações de Ikea. 
Aos dois faltava-nos um parafuso. 
O resto é histeria !

TATUAGENS VIVAS

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Desde que fiz a tatuagem de um táxi no meu peito, conduzo, como que por dentro de mim mesmo. 

Quando sinto ansiedade acaricio-me no táxi e relaxo-me. 

Quando dormes com a tua cabeça apoiada no táxi do meu peito, sonhas sempre que viajas nesse mesmo táxi tatuado e eu conduzo-o sulcando ancas, ventres e umbigos que são rotundas, ou paramos para abastecer na estação de serviço da tua boca. 

Suponho que a tatuagem acede a ti através do ouvido e essa mesma tinta atravessa o tímpano, encharca o teu subconsciente e acaba a escrever o guião dos teus sonhos. 


Noutro dia senti uma forte dor por altura do capot da tatuagem. 

Fui ao médico, pediu-me para respirar profundamente e tossir e ao escutar a minha tosse, deixou tudo claro: 

- Faltam-te os pistões. 

O tabaco, suponho. 

O certo é que me mandou operar de urgência e aqui estou, na sala de operações. 

Acabam de me anestesiar e agora um cirurgião está a acercar-se de mim com um bisturi na mão. 

Parece que pretende cortar o táxi em dois. 

Mas não estou preocupado. 

Este post também é um sonho. 
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quarta-feira, junho 05, 2013

- Alegrias, tristezas, alegrias... 
Isto é amor. 
Quem não acreditar, olhe-se nuns olhos, que se veja nuns olhos de mulher !

MEMÓRIAS

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Levo-te comigo, amor, no olhar, nas pupilas vermelhas congeladas nesta foto absurda e encarquilhada. 

Levo-te comigo nas feridas que as tuas unhas desenharam nas minhas costas, no doce vaivém de fêmea entregue e submissa. 

Levo-te comigo, amor, num fio de cabelo que escapou de entre as tuas pernas e se esconde na minha boca e não se vai, e eu também não quero que o faça. 


Levo-te comigo numa fugaz grinalda de hematomas, feita com ondulações pélvicas de amor impaciente, no aroma da tua flor violeta que abri e que, dissimuladamente, cheiro das minhas mãos molhadas. 

Levo-te comigo no sangue e parto já, antes que a alva faça a sua entrada, no sangue que bebi de teu pescoço em borbotões e que também levo, deixando-te adormecida e bela, para sempre máscara e amor.
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terça-feira, junho 04, 2013

- Acidente é quando alguém se fere ao manusear com ácido?

A CEGA

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Rua do Bonfim, passeio defronte da Delegação do Porto da ACAPO. 

Uma mulher invisual espera na beira do passeio com um cartaz entre as mãos com a palavra “Táxi”. 

Paro junto a ela e estico-me para abrir-lhe a porta por dentro. 

- Entre! 

A mulher tacteia o fecho da porta e entra, com a sua bengala, sentando-se. 

- Leve-me ao mesmo sítio de ontem. 

- Perdão? 
Creio que se confundiu com o taxista. 
Eu ontem não... 

- Sou cega, sim.
Mas você não é surdo, não é verdade? 
Disse-lhe para me levar ao mesmo local de ontem. 
Insistiu. 

- Confuso, inicio a marcha enquanto trato de enquadrar o seu rosto no espelho retrovisor. 

Os seus olhos são brancos, nublados, mas há algo neles que nos aprisiona: parecem falar ainda que não olhem. 

É difícil de explicar, mas dizem coisas, hipnotizam, emitem mensagens que não sei como, nem porquê, consigo decifrar. 


Agora parecem indicar-me que vire à direita em António Carneiro. 

E assim faço. 

A mulher apercebe-se da manobra e sorri. 

Uns metros mais tarde, movido pela expressão cega dos seus olhos, viro à esquerda na Rua do Heroísmo. 

Rotunda do Freixo, Rua da Senhora da Hora... e depois Rua do Bacelo. 

Sempre atento às indicações do seu ténue olhar adentramo-nos num caminho de pedras e algumas árvores. 

Ao fundo do caminho distingo um casarão de três pisos com várias janelas iluminadas. 

- Pare o táxi junta da porta. 
Dona Cláudia deve estar furiosa, diz-me a cega. 

Efectivamente, uma mulher de idade indefinida, ar rude e casaco grosso, espera-nos apoiada no corrimão. 

 

Mal paro o táxi abre a minha porta e visivelmente chateada, diz-me: 

- Chega dez minutos atrasado, José Torres. 
Esta noite não haverá sobremesa, nem televisão. 
Depois de jantar vai directo para a cama. 

- Disse-lho, insiste a cega. 

Saio do táxi. 

Junto à porta de acesso, um pequeno letreiro iluminada dá-me as boas-vindas. 

Debaixo, com letras pequenas, o nome do hospício. 

Relato escrito a três mãos. 
Ou melhor, com as minhas mãos e a sabedoria do teclado.
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segunda-feira, junho 03, 2013

- É bom ter esperança, mas é muito mau depender dela !

AO DEUS DARÁ

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Entrou no meu táxi um tipo estranho, sandálias e meias aos quadrados, abriu um enorme mapa diante de mim, assinalou no mapa a rua e disse-me: 
“Go here, please!”. 

O mapa era de Frankfurt, Alemanha. 

Tratei de explicar-lhe o erro, mas parecia não entender-me, ou melhor, não quis entender-me. 

Depois fez um gesto de seguir adiante, “Straight, Straigt!”, iniciei a marcha e na terceira ou quarta rua, mandou-me virar à esquerda, “Left!” e cinco ou seis ruas depois, à direita, “Right!”. 

O caso é que aquele ‘indígena’ não tinha a mínima noção onde estava, nem onde ir e no entanto os seus olhos destilavam essa felicidade absoluta de quem norteia a seu desejo a sua própria vida. 

A dado momento disse-me, “Stop!”, sacou de uma nota de cem euros, não sei de que país (não verifiquei o número de série) e saiu andando calmamente. 

Dirigiu-se para a montra de uma mercearia onde se deteve e acariciou o vidro da montra. 

 

Para ser sincero, aquele homem fez-me uma certa inveja. 

Era tentador viver perdido, de modo que vou tentar daqui por diante comportar-me do mesmo modo. 

Num semáforo buzinou-me um carro, baixei o vidro e ele perguntou-me: 
– Desculpe, a Praça da Flores? 

– Sinto muito, mas não sou daqui, disse-lhe. 

O tipo baixou a vista para o logotipo de meu táxi e depois voltou a olhar-me estranhado. 

Lancei-lhe o meu melhor sorriso, e pela primeira vez em muito tempo senti-me perdido e livre como um TomTom pirata. 

Abriu o semáforo e poucos metros depois mandou-me parar uma mulher. 

Entrou no meu táxi e disse-me: 
– Boas tardes, leva-me à Rua do Rosário? 

– Bom dia, será tão amável que me indique o caminho? 
Estou perdido, disse-lhe fingindo nervosismo. 

– É novo? 
Assenti com a cabeça. 

Certamente que ela referia-se a “novo no táxi”, mas quis interpretá-lo como “novo nesta vida”. 

Sabia melhor. 

Novo na vida. 

Oxalá. 

Em qualquer caso, indicou-me amavelmente o caminho a seguir. 

– Faça essa rotunda completamente e depois a primeira á direita, disse-me. 

Ao chegar ao seu destino a mulher estendeu-me uma nota de dez euros e, com voz de circunstância, disse-me: 
- Fique com o troco. 

O taxímetro marcava 7,80. 

Deu-me 2,20 de gorjeta com pena de mim. 

Sentiu pena, a sério, como se me cresse órfão. 

E depois voltei a fazer-me de novo com o cliente seguinte e com este passou-se o mesmo e deu-me outros 1,70 de gorjeta. 

E o próximo, também. 

Curioso, não é verdade? 
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domingo, junho 02, 2013

- Bebo o dever de beber o que devo !

TURISMO ACIDENTAL

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No aeroporto, entrou no meu táxi um calmeirão que só podia ser alemão e, indicou-me o seu destino que se encontrava escrito no ecrã do seu telemóvel. 

Estendeu-me o telemóvel e indicando o ecrã, disse-me num inglês quase perfeito. 

– Here, please. 

A mensagem de texto dizia: 
“Rua da Saudade, 970”. 

Pensei que se tratasse de uma brincadeira. 

Esta rua não tem um comprimento tão grande que possa atingir tal numeração. 

Tentei transmitir-lhe o erro (no meu imperfeito inglês) e nisto o alemão desata a chorar. 

A custo, confessou-me que tinha conhecido uma mulher pela Internet, acabou por se apaixonar e decidiu vir visitá-la. 


Ela tinha-lhe dado esta direcção e também lhe tinha dito que podia ficar em sua casa, todo o tempo que quisesse. 

Propus-lhe telefonar para o número do qual tinha sido enviada a mensagem com aquela direcção. 

Acedeu e pediu-me para ser eu a telefonar. 

Assim fiz. 

Marquei o número e não demorou muito que uma voz feminina, mais ou menos jovem, atendesse. 

Contei-lhe a situação e ela disse-me: 

Que estupendo, é já o quinto alemão que morde o anzol. 

E acrescentou: 

- É a minha vingança pessoal pelas políticas da Merkel. 
E para além de tudo o mais, ajudo a reanimar o turismo. 

E desligou. 

NOTA: 
No final, levei-o a um hotel. 

Sempre gastou algum…
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sábado, junho 01, 2013

- Não é feliz o que faz o que quer, mas sim o que quer que lhe façam !

DELÍCIAS IMAGINÁRIAS

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É uma porra duma loucura viver imerso na literatura e conduzir o táxi pensando em dar forma a uma cena e de repente alguém te mande parar; travas ao seu lado, entra e indica-te um destino e tu, no entanto, continuas com a tua obstinação, imaginando a descrição de tal e qual personagem a milhentos quilómetros de tudo.

Nisto, o utente nas tuas costas tenta entabular conversa, ou fala-te da sua vida e, sem querer, mistura-se na tua cabeça, a realidade daquele homem com a tua ficção literária e filtra-se o que diz com a tua história e surge-te uma nova história, ou a mesma história mas mais complexa (ao ponto de te meteres bem mais em ti mesmo, quase até roçares o avesso da alma) e te despistes em pensamentos e esqueças o destino daquele homem ou mudes o trajecto e o homem te diga estranhado:

 
  - Por que anda ás voltas, se para minha casa é sempre em linha recta? 

E tu desculpas-te, pedes-lhe perdão:

- É que a minha noiva vive nesta rua e deixei-me levar pelo hábito:

Ainda que o que lhe dizes seja uma enorme patranha. 

Não tens noiva e por este caminho não tê-la-ás nunca, mas também aproveitas o giro para dar um novo rumo literário ao assunto; volta-se-te a pirar a cabeçorra outra vez e metes-te pela rua que não era e o passageiro volta a bramar: 

- Mas que está a fazer? 
Está a brincar comigo? 
Quer que o denuncie à polícia? 

É esta palavra, polícia, que te leva a considerar a possibilidade de mudar de profissão do protagonista da tua história. 

E se em vez de oficial de diligências fosse polícia? 

 

Encaixaria melhor. 

Então notas que o passageiro bate-te no ombro. 

– Páre aqui, quero sair! 

Páras e o passageiro sai a correr sem pagar-te a corrida, mas em vez de te preocupares por teres perdido, dez? doze euros? alegras-te porque agora o táxi está livre e por fim poderás parar em qualquer bar, beberás e pegando em caneta e bloco de notas, derramarás todas essas ideias frescas e quando acabares o que pensas escrever, sentir-te-ás como Deus ao sétimo dia, sem dez ou doze euros (mais o que gastares em “combustível”, cerveja ou outras bebidas), mas feliz por teres encontrado o teu objectivo na vida, escrever:

Só vales isso, sabe-lo bem, porque absolutamente tudo o mais no fundo, importa-te um car**ho!!! 
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