O VIDEIRINHO

quinta-feira, janeiro 02, 2014

DECLARAÇÃO

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Sabes que nunca serás uma estrela do rock e as drogas são caras. 

O salário na loja apenas te permite um par de gramas por mês, o suficiente para te contagiar à grande festa do primeiro sábado, já sabes, dares tudo e sentires-te como deus por uma noite. 

A Susana não gosta que te drogues, ela é mais tranquila e diz que já viu demasiadas coisas, gente perder a cabeça por essa merda e bla, bla, bla. 

Tu gostas muito da Susana, darias uma mão por ela, mas um par de gramitas ao mês não causam dano a ninguém. 

Nunca estiveste perto do Lance Amstrong ou do Contador e a Susy já sabe que quando casarem e tenhais filhos (ainda não, há que esperar por aforrar dinheiro) o deixarás. 

Prometeste-o depois daquela movida do último sábado e tu és um tipo de palavra. 

 

Entretanto, que porra... és jovem e esta vida ás vezes pode ser muito puta. 

Não há futuro, madrugas como um sacana e suas a estopinhas para uma merda que ganhas. 

Mereces divertir-te e desligar de tudo ainda que a Susy não o entenda. 

É o que têm as drogas: dão-te um speed que até te borras todo, mas de repente tudo com que te importas é uma porra. 

Depois ficas dois dias feito em merda e lixado por gastares metade do salário numa noite, mas nada nem ninguém é perfeito. 

E é meio-dia... sacana do sol. 

Sobrou-te o “pastel” à justa para o táxi de volta e um último charro para quando despertares. 

No táxi olhas-me através do espelho retrovisor enquanto pensas, "que puta de vida também é a do taxista", (um tipo entradote e a trabalhar no primeiro dia do ano e a esta hora...). 

 

Cruzando a Ponte do Infante, saco um Kleenex do porta-luvas e estendo-lho. 

- Está a sangrar do nariz, disse-lhe. 

- Vá. Eu. Já sabe... diz-me segurando o lenço. 

Limpas o sangue e ficas a olhá-lo como se não fosse teu. 

Depois olhas para mim, suspiras e sacas do telemóvel. 

Teclas uns algarismos, aproxima-lo do ouvido e esperas que atendam. 

- Susy. Já sei que não são horas, que não é o local nem o momento, mas escuta: quero casar-me contigo. Tão rapidamente quanto possível.Agora mesmo. E para toda a puta da vida.
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terça-feira, dezembro 31, 2013

- Sou um pouco exagerado, outro tanto apaixonado, um poucochinho discutidor, um quase nada teimoso e absolutamente encantador !

DIREITOS HUMANOS E A BÍBLIA

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A bíblia, é o texto utilizado pela religião cristã de origem judia, que contém uma série de documentos escritos em diferentes momentos da história, cujo fim primordial é estabelecer, de forma histórica e gráfica, os moldes em que a divindade comunica com os seres humanos, única espécie capaz de captar a sua mensagem, concebido sob a forma de experiências narradas de forma exagerada. 

Este texto “sagrado”, fundamenta-se no direito natural de domínio e propriedade que os mais fortes têm sobre os débeis, para impor-lhes condutas, incluso para dispor das suas vidas.  

Todas formadas a partir de um livro que foi escrito há séculos, quando a ciência ainda se encontrava a começar a gatinhar, sem Darwin, sem o Big Bang e, supostamente, sem Stephen Hawking 

Por gentes que até pensavam que os raios caídos do céu…, os terramotos…, eram consequências da ira de Deus. 

Ou que o homem era o centro do universo.  

 

Desde os primórdios, Adão foi criado para que tivesse existência, dominasse ou reinasse sobre o resto da criação e basicamente, viver só por viver, “sem conhecer o bem e o mal”, segundo palavras próprias desse texto. 

Depois, de forma utilitária, Eva é criada, para servir de companhia a Adão, que, esse sim, era a criação principal. 

Com base neste princípio, a mulher converte-se num sujeito passivo, sem direitos, nem de opinar, de decidir ou de possuir bens: 
Teria que existir um filho primogénito varão para poder herdar, desde a história de Adão, Abraão, Isaac, etc. 

Pois as mulheres só servem para ser possuídas pelos homens; nem sequer têm direito a escolher os seus maridos, são os homens os que escolhem as suas mulheres; de facto, isto continua vigente, já que na nossa cultura é o homem quem tem que tomar a iniciativa para o cotejo… 
(Casamento). 

 

“Aconteceu, após estes episódios que Deus experimentou Abraão, dizendo-lhe: 
— Abraão. 

Ele repondeu: 
— Estou aqui. 

E disse-lhe: 
— Leva o teu filho, o teu único filho Isaac a quem amas. 
Vai à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que eu ir-te-ei dizer…”. 

Todos escutámos esta história bíblica, onde deus ordena o sacrifício de Isaac, a seu pai Abraão… 

Era Abraão quem tinha que decidir entregar o seu filho Isaac, pois não existiam os direitos humanos então e, portanto, o filho mais novo, era propriedade do pai; tanto como o seu cavalo, a sua cabra, a sua galinha ou a sua cabana… 
(E são eles os que se opõem ao aborto – e este já tinha nascido e iam-no matar – num aborto retroactivo). 

 

Agora, possuímos suficiente grau de maturidade mental, para saber que um ser humano, com existência independente da sua mãe, adquire direitos supremos por ser de menor idade, que são independentes dos direitos dos seus próprios pais; não são propriedade deles, não podem dispor das suas vidas; nenhum humano pode provar a sua lealdade a nenhum deus, mediante o sacrifício do seu filho, pois este tem os seus próprios direitos. 

Nos tempos em que se escreveu o texto bíblico, desconheciam-se esses direitos fundamentais de todo o ser humano: tanto assim, que nem deus os conhecia; porque deus actua e pensa e dispõe em harmonia com o pensar humano, no momento em que aquele difunde os seus desígnios, pela simples razão que é o homem, quem faz aos seus deuses a sua própria imagem e semelhança; se se trata de homens selvagens, sanguinários e amantes do sangue e dos sacrifícios, deus também tem esses mesmos atributos psicológicos e manifesta-os nessa mesma medida nos textos sagrados, como a Bíblia… 

… Os direitos só são humanos, quando reconhecidos pelos humanos.
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segunda-feira, dezembro 30, 2013

- Contam as Sagradas Escrituras que o Senhor ordenou a Abraão para matar o seu filho Isaac e, no momento em que o obediente Abraão estava com a faca levantada, prestes a matar o próprio filho, chamou-o dizendo-lhe: 
- Pára Abraão, já provaste que me és leal, não sacrifiques o teu filho. 
Abraão deixou a faca de lado e, aliviado, olhou para o filho que se levantou do chão e saiu disparado a correr. 
Abraão chamou-o: 
 - Volta, meu filho, o Senhor não quer que eu te sacrifique! Ele ama-te! 
- Ama uma grandessíssima merda, responde Isaac. Ainda bem que eu sou ventríloquo !

GORD@S E FEI@S???

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Todos os pares são iguais dois a dois. 

Ele gordito, ela gordita. 

Bonito ao nível 7, bonita ao nível 7. 

Ambos hippies, ambos casuais, ou os dois intelectuais, ou os dois nos trinques, ou os dois desmazelados. 

Se por qualquer casualidade não existe tal equilíbrio físico, seja no seu grau de beleza ou numa notável diferença de idade, será porque sem dúvida ocultam informação relevante: se ela é muito bonita e ele muito feio, ele será famoso, ou destaca-se nalguma matéria, ou é reconhecido e admirado em certos círculos. 

Se existe diferença de idades, se algum levar na dianteira, vinte anos ou mais, o mais velho terá muito dinheiro (o mais novo procurará conseguir a nacionalidade do mais velho). 


Este mimetismo ou equilíbrio entre ambos pode inclusive chegar a calar os seus próprios gostos. 

Ontem, para não ir mais longe, um usuário do meu táxi, baixito, rechonchudo e atirando para o feioso, apontou-me uma 'garota' que passeava pela rua, deu-me uma cotovelada cúmplice e disse-me (palavras textuais): 

- Olhe que mocetona! 
É assim que gosto delas, com carnes onde se possa agarrar! 

A jovem em questão era baixita, rechonchuda e também para o feiote, exactamente igual a ele mas no feminino.

Não se poderia dizer que aquela jovem entrasse nos cânones da beleza clássica, mas a ele agradava-lhe, ou pelo menos assim mo expressou. 

 

Talvez, pensei, ao não se poder permitir mulher de maior “classe ou categoria”, os seus gostos também se tivessem visto forçados a moldar-se. 

Tal e qual os gostos daqueles homens que em jovens se casam com mulheres bonitas e esbeltas e com o passar dos anos elas engordam muito e, eles então, mudam e dizem que gostam delas roliças. 

À força modificam os gostos, diria eu. 

Enfim, para cada gosto a sua própria cor. 

Ainda que brinquemos sem querer ao daltonismo selectivo. 

Nota: 
Se te ofendeu a contundência deste arrazoado, é porque tu também és fei@.
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domingo, dezembro 29, 2013

- A cama é um bem metafísico !

31

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Pelo que pude ler nas entrelinhas da sua conversação telefónica, encontra-se numa dessas “etapas de transição”, entre o ponto final do homem da sua vida anterior e os homens suspensivos do presente. 

De unha e carne a só carne, diversão e um punhado de orgasmos sem compromisso nem aviso de recepção. 

Agora toca a pensar só em si e só em si, de momento. 

Agora toca a ler livros para adultos como entremeada entre dois livros de fadas. 

Agora toca a desintoxicar o amor morto, abrir os poros e as pernas, esfoliar a pele. 

Procurar o antítese do homem da sua vida anterior, alguém corpulento, forte como um touro, quase tudo fachada e por vezes sensível, que a trate como uma puta/dama na cama. 


Que depois da semente do rigor afogada no látex, a abrace com os olhos abertos e a acaricie nas costas com os punhos fechados. 

E que depois parta à espera da sua próxima chamada. 

O que até agora necessitava chama-se Zé, o mesmo Zé dos últimos trinta e um orgasmos, o mesmo que enfiava na sua cama cada vez com mais frequência: primeiro de mês a mês, depois semana a semana. 

Nunca houve amor, mas sim bom sexo. 

Zé acabou conhecendo o seu corpo como um mapa: sabe bem onde está Roma ou o momento de deitar abaixo o Muro de Berlim, ou dissolver a União Soviética do meio das suas coxas. 


E esses braços como rochas. 

E esse pau (pénis) opulento. 

E esse domínio da linguagem das línguas e dos tempos presentes. 

Mas nada nem ninguém dura o que cada um quer. 

Diz à sua interlocutora (outra mulher, suponho) que ontem o Zé falhou, que mostrou as suas fissuras, que foi vulnerável consigo. 

Que já não a excita como a excitava o sempre viril Zé de antes. 

A despedida ao orgasmo trinta e um. 

E escutando-a penso que o roçar continuo entre duas pedras gera chispas que por vezes conseguem acender a chama e outras vezes queimam. 


Não há duas pedras de igual consistência, nem chispas que prendam dois corpos ao mesmo tempo, nem corpo que aprenda a prender o outro corpo. 

Ela aprendeu a submergir o seu. 

A alma do Zé secou-se antes de tempo. 

Sinto-o por ele. 

Por si nunca. 

Nota: 
Brincares com o teu umbigo tem os seus riscos.
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sábado, dezembro 28, 2013

– Nem tão grosso que obstrua, nem tão comprido que aleije, mas sim tão duro que dure !

LA ULTIMA NOCHE (Parte II)

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… CONTINUAÇÃO



Nestes casos, nada melhor que luzir, debaixo dos vossos melhores “cenários” galantes; o que me dizem a estes slips ou tangas da Smugglingduds, com um bolsito incorporado para guardar um preservativo.

Sim, já sabeis que os experts em ‘pilas’ insistem em alertar sobre a necessidade de armazenar os preservativos num local fresco e seco (como se não fosse para ser usado num local húmido e a ferver).

Talvez só umas horas não tenham importância.

Humor à parte, não será de mais recordar que a ingestão de álcool e outras substâncias estupefacientes, tão típica destas noites de folia, provoca estados de amnésia, irresponsabilidade transitória e pode evitar receber “de pé” o novo ano, bem como "ele cair" na hora de cair na cama, (esta queda é propositada).




Também há quem espere passar uma noite de fim d’ano erótica sem necessidade de se jogar ao monte nem perder os sentidos.

Converter uma insípida noite de família (casal), (vendo TV e comentando o mau que são os espectáculos que as TVs nos oferecem, ou as apetecíveis curvas da Catarina Furtado), ou ainda nostalgizando os velhos tempos de algum festival de luxúria e libertinagem, também é possível.

Isso sim, sem milagres.

Vê bem que, se a coisa não está muito bem entre vocês e a perspectiva de estarem ambos uma noite a sós será intuitivamente terrível … sempre se pode ir a casa de alguém.

Aliás se, todavia, ainda sentes uns certos formigueiros ou comichões, há muitas maneiras de te coçares e passar o tempo.




E sem necessidade de deixares a vida nem a bolsa nela.

Então aí vai um par de propostas.

Em primeiro lugar este magnífico jogo de cotoveleiras acolchoadas, ideais para sessões de sexo… prolongadas.

Uns lubrificantes de sabores também podem ser uma grande ajuda na hora de experimentar novas sensações ou quando os sinos tocam… cá dentro.

E já que estamos na última noite do ano há que levar qualquer coisa vestida de cor vermelha se queremos ter um ano carregado de paixão, (pelo menos é o que dizem os entendidos em superstições e outros mentirosos sobre o tema) e nada melhor que agenciar um body.

Tanto para ela como para ele.

Ainda que o bigode assome pela parte de cima da tanga.

Mas uma noite é uma noite, que carago!

27OUT2010


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sexta-feira, dezembro 27, 2013

- Hoje ao limpar o filtro da máquina de lavar roupa encontrei três moedas de 5 cêntimos, uma de 20 cêntimos e duas de 1 euro.
Será que posso ser acusado de lavagem de dinheiro ?

LA ULTIMA NOCHE (Parte I)

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Tirada daqui


Começa a cheirar a Natal; quem fala em Natal, fala em festas de arromba tudo..., de fim de ano...; as caixas registadoras das grandes superfícies já encetaram o ataque para se afiambrarem ao “aforrado” das nossas moedas e notas.

Mas …

No último ano só recebi sms de boas festas.

O que faz com que sejam todos uns descrentes (eu também).

Normalmente os meus dão pouco lucro à minha operadora, ainda que reconheça que deveria enviar alguns mais.

Espero sempre por um que diga:
A TMN deseja-te um Feliz Natal e oferece-te uma noite de sexo.
Envia um sms com a palavra sexo ao número 069, coloca o telemóvel na função vi
bração e mete-o pelo c* acima; nós iremos chamando” .

Para al
guns, este tipo de alegrias por vibração, seria um espanto de uma oferta e asseguro que teria muita aceitação, nem duvidem.



Tirada daqui

Ainda que as mensagens continuem na mesma linha argumental, também há algumas mais românticas e mais próprias para estas íntimas festividades.

Se nesta quadra vires um tipo vestido de vermelho a descer pela tua chaminé e, se te meter nu
m saco, não te assustes; este ano pedi que o meu presente fosses tu”.

Oh!

Desculpa, mas esta chuva e o Natal põem-me atarantado.

A noite de Natal e a do fim do ano estão ao voltar da esquina e um ou outro já está a fazer planos para as festividades.

Depende dos gostos.

Sei de alguns que em anteriores ocasiões, passaram o momento, vendo um filme (pelo menos, quando eu estava a sofrer os últimos estertores da idade do peru, não desarmavam), jogando o trivial pursuit ou comendo uma lasca do fiel amigo, ou mesmo um cubo de frango mascarado (esses que tanto êxito têm entre os sabores e saberes do nada e não só…).




Há opções maioritárias provavelmente mais gratificantes e menos atormentadas, mas já se sabe que há algumas pessoas que não gostam de “levar até ao fim” a diversão obrigatória e quase por decreto que implica a noite de fim d’ano.

O peru está gordo e anafado, o bacalhau pescado e salgado pronto a retornar á agua, para acalmar as picardias de família e já pensamos no fim do ano; uma noite de grande diversão ou uma grande diversão numa noite, com um ambiente “petit-comité” ou um marco de uma macro-festa de “apalpa cu” (tipo bairro de lata).

Mais a mais alguns de vocês têm a secreta esperança de começar o 2014 de uma maneira sexualmente activa e gratificante, para o escrever delicadamente, senão …


CONTINUA …

27OUT2010

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terça-feira, novembro 26, 2013

- Sacanas dos pobres, gente ingrata e de má vontade... !!!

CHAMEM-ME PUTA!!!


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O “CORTE NAS MORDOMIAS E SUBVENÇÕES DOS POLÍTICOS DEIXA DE TER EM CONTA PATRIMÓNIO MOBILIÁRIO”, FOI MAIS UM GOLPE PALACIANO, POIS AS HORDAS SALAFRÁRIAS DE BISBÓRRIAS, SAFARDANAS, TROCA-TINTAS, BORRA-BOTAS, CHULOS, BILTRES VÃO PROSSEGUIR E CONTINUAR A MAMAR NAS TETAS DOS QUE PRODUZEM E SÃO SISTEMATICAMENTE ESPOLIADOS COM O EPÍTETO DE CONTRIBUINTES.



E MORAM TODOS NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA… E EM IMEDIAÇÕES CORRELATIVAS.


MAIS VALIA CHAMAREM-NOS PUTAS, JÁ QUE PASSAMOS A VIDA A SUSTENTAR OS CHULOS.

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terça-feira, outubro 22, 2013


- Vive de tal maneira que possas olhar fixamente os olhos de qualquer um e mandá-lo à merda !

VACUIDADE


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Toda a palavra mal dita deveria ser silêncio, tal e qual como o ruído. 

Entre dois que não se falam, há um espesso silêncio de que ambos são donos, ou algum ou nenhum deles. 

O nada é parecido mas não é silêncio. 

O silêncio é o substituto da acção e, a palavra, substituta forçada e confusa em todos aqueles momentos que temos de ir lá acudir na falta de melhores argumentos. 

Ir-se-ão os amantes, os irmãos, os colegas, os amigos… e permanecerá o silêncio ali abandonado, preenchendo o espaço de tudo o que poderia ou deveria ser dito e ninguém se apreçou para se pronunciar. 

 

De que enches tu o teu silêncio, de que permitirás que se encha ou se impregne; de indiferença, de fastio, censura, renúncia ou desconcerto, de esperança, de ilusão…, de esquecimento…? 

O silêncio mais amável é aquele que se anuncia, que de alguma maneira se solicita àquele ou aqueles que permanecem atentos a ti e ás tuas palavras. 

O prelúdio de um discurso arrebatado, ocupa-te o teu tempo. 

Se me voltas as costas levas o silêncio, não o quero aqui comigo. 

Quem outorga e quem cala? 


Que parte me darás a mim do teu silêncio que chega a parecer-se tanto àquele a quem não sabe quem és, nem de que cor é a tua voz porque nunca te escutou? 

Ou é apenas para mim?, 

Que detalhe, meu amigo. 

Pior é o silêncio no que se apetrecha o que não quer escutar diga-se o que se diga e ocorra o que ocorra. 

Fala-me ou escuta-me, saiamos deste silêncio.   

Salvo se te interessam mais as suas palavras do que as minhas.
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segunda-feira, outubro 14, 2013

DUPLO


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Jacinto não disse nada a ninguém que tinha ficado sem trabalho. 

Nem sequer à sua mulher, nem ao seu filho Tomás. 

Está bem que não teve qualquer culpa de que a empresa decidisse prescindir de todo o departamento, mas não podia evitar sentir-se de certo modo culpado, fracassado e tinha vergonha em reconhecê-lo. 

Por isso, depois do despedimento consumado, Jacinto continuou a sair de casa á mesma hora, com o seu fato e gravata, ainda que no lugar de ir para o trabalho, saía a procurá-lo em segredo, enviava currículos, ia a entrevistas. 

Jacinto passou semanas desesperado para conseguir continuar a ocultar a sua situação enquanto aguardava um contacto de uma qualquer empresa ou um telefonema. 

Mas um dia tocou-lhe ir a uma reunião de pais de alunos no colégio do seu filho Tomás e, conversando com eles, escutou uma das mães anunciar o aniversário de seu filho e também que andava à procura de um palhaço para animar a festa, e se por acaso alguém conhecia algum. 

Sem pensar sequer, Jacinto apaziguou a ânsia, saltou como uma mola e disse que sim, que conhecia um palhaço e além disso até lhe deu um número de telefone, o mesmo número de telemóvel que ele usava em segredo para procurar trabalho.


 

O próprio Jacinto far-se-ia passar por um palhaço procurando, isso sim, que ninguém o reconhecesse. 

Na manhã seguinte, a mulher telefonou-lhe e acordaram um preço; Jacinto comprou um disfarce, uma peruca, um nariz de palhaço, pinturas e balões coloridos. 

Nunca tinha exercido de clown, mas a necessidade levou-o a actuar tão bem, teve tanto êxito naquela primeira festa de anos que, imediatamente se espalhou a fama e Jacinto acabou a actuar cada vez em mais festas, sempre oculto atrás do seu disfarce, modificando a voz e sem que ninguém, nem sequer a sua mulher e o seu filho chegassem a suspeitar. 

O que não esperava é que a sua própria mulher acabasse por decidir também contratar aquele palhaço de que tanto tinha ouvido falar para a festa de anos do seu filho Tomás. 

Como negar um palhaço ao nosso filho, acrescentou. 

Assim, na tarde do dia de anos do seu próprio filho, Jacinto saiu de casa como sempre, com o seu traje de fato e gravata, mas desta vez apanhou o meu táxi e pediu-me algo insólito: que desse umas voltas durante dez minutos para depois deixá-lo no mesmo portal.



Queria um lugar para trocar a roupa e pintar-se de palhaço sem que ninguém o visse e no seu portal toda a gente o conhecia e mal tinha tempo, por isso pensou usar um táxi, tal e qual como o Superman usava cabinas telefónicas. 

Durante o trajecto, à medida que tirava o disfarce da maleta e se despia, foi-me contando a sua história. 

Depois, pintando a cara de palhaço enquanto eu lhe segurava um pequeno espelho, confessou-me o medo que tinha do seu próprio filho acabasse por reconhecê-lo. 

Imaginei aquele cenário. 

O pai alegrando a festa de anos do seu próprio filho e entretanto a criança dizer: 
- “Tudo é perfeito. 
Mas é pena que o papá tivesse que ir trabalhar e perder isto”. 

E Jacinto, claro, aguentando as lágrimas para não deitar a perder a maquilhagem.
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