- Ia para as aulas com óculos de sol para que os
seus colegas não soubessem que estava desperto e atento !
terça-feira, março 18, 2014
JÁ FUI UM HERÓI
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Que alentador, mas ao mesmo tempo inquietante, isto de saber que
ganhámos uma corrida de espermatozoides a milhões de aspirantes como nós.
Milhões percorrendo um canal vaginal cheio de perigos e substâncias assassinas.
Tantas possibilidades frustradas, tantos adversários ferozes, a maioria, (como a maioria!), todos menos um, todos menos eu, convertidos em nada, em material pegajoso destroçado.
Nos momentos baixos sentimos curiosidade em conhecer o papel que teriam tido na vida o resto dos meus irmãozitos espermatozóides.
Porque esta é a questão:
- Estamos a esperar vez para nascer e qualquer esperma nos serve?
Bem entendido que por ter sido eu a montar um anterior ou posterior, tivesse podido nascer no Bangladesh, Connecticut ou Burkina Faso.
Milhões percorrendo um canal vaginal cheio de perigos e substâncias assassinas.
Tantas possibilidades frustradas, tantos adversários ferozes, a maioria, (como a maioria!), todos menos um, todos menos eu, convertidos em nada, em material pegajoso destroçado.
Nos momentos baixos sentimos curiosidade em conhecer o papel que teriam tido na vida o resto dos meus irmãozitos espermatozóides.
Porque esta é a questão:
- Estamos a esperar vez para nascer e qualquer esperma nos serve?
Bem entendido que por ter sido eu a montar um anterior ou posterior, tivesse podido nascer no Bangladesh, Connecticut ou Burkina Faso.
ESPERMATOZÓIDES
– Ou somos
concretamente esse esperma com toda a sua informação genética a misturar-se
caprichosamente com o extraordinário óvulo da ‘mamã’…?
Não é o mesmo; qual seria a informação que levaram os meus irmãozitos fracassados?
Olha se são irmãos de verdade, que há quem os tenha, ou inclusivamente um gémeo, o muito que chegam a diferenciar-se de mim a todos os níveis.
Ocorre-me agora que o esperma vitorioso seja o que mais corre por ir mais leve que os outros, de ideias para depois, de grandes preocupações, responsabilidades e projectos, ficarmos, tu e eu, inocorrentes.
À Vida, a Deus, à Natureza, à casualidade ou todos eles capricharam para que eu viesse a este mundo, eu e não o do lado, nem o detrás, esses cabeçudos lustrosos que me rodeavam por todos os lados.
É simplesmente excitante.
Não é o mesmo; qual seria a informação que levaram os meus irmãozitos fracassados?
Olha se são irmãos de verdade, que há quem os tenha, ou inclusivamente um gémeo, o muito que chegam a diferenciar-se de mim a todos os níveis.
Ocorre-me agora que o esperma vitorioso seja o que mais corre por ir mais leve que os outros, de ideias para depois, de grandes preocupações, responsabilidades e projectos, ficarmos, tu e eu, inocorrentes.
À Vida, a Deus, à Natureza, à casualidade ou todos eles capricharam para que eu viesse a este mundo, eu e não o do lado, nem o detrás, esses cabeçudos lustrosos que me rodeavam por todos os lados.
É simplesmente excitante.
Tem a sua
importância a pergunta mais acima, porque se somos o espermatozóide associado ao
óvulo e nada mais do que isso, desapareceremos quando morrermos, no entanto se
montámos, naquele momento, o espermatozoide vencedor que nos habilitava a vida,
quem diz que não possamos abandonar a nave quando batermos as botas.
Eu, em princípio, prefiro o segundo, por continuar a competir ou a participar na corrida.
A mais difícil de todas ganhamo-la tu e eu sem ser conscientes a ver esta e as seguintes como o fazemos com o afã que temos agora do controlar tudo.
Vai ser melhor deixar-me levar como no dia da fecundação.
Avante a todo o vapor sem olhar para trás.
Eu, em princípio, prefiro o segundo, por continuar a competir ou a participar na corrida.
A mais difícil de todas ganhamo-la tu e eu sem ser conscientes a ver esta e as seguintes como o fazemos com o afã que temos agora do controlar tudo.
Vai ser melhor deixar-me levar como no dia da fecundação.
Avante a todo o vapor sem olhar para trás.
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segunda-feira, março 17, 2014
PENOSAMENTE
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Todos os dias arrastava um imenso saco de lixo.
Vinha de parte nenhuma e ia a nenhuma parte.
E todos o olhavam enquanto exibiam o cão, tomavam um café ou uma cerveja ou coçavam os tomates.
Ele, no entanto, nunca lhes devolveu o olhar.
Os seus olhos fincavam-se no solo e os seus passos, tal como os seus braços, só se empenhavam em avançar penosamente com tudo o que escondia aquele saco.
E como nos contos com mau fim, um dia, deixou de passar por aquelas ruas.
Desde então, como se necessitassem substituir um costume, começaram todos a olhar-me, a mim, enquanto arrastava como podia uma existência sem nada de novo que dizer, que fazer, que escrever, que contar.
Vinha de parte nenhuma e ia a nenhuma parte.
E todos o olhavam enquanto exibiam o cão, tomavam um café ou uma cerveja ou coçavam os tomates.
Ele, no entanto, nunca lhes devolveu o olhar.
Os seus olhos fincavam-se no solo e os seus passos, tal como os seus braços, só se empenhavam em avançar penosamente com tudo o que escondia aquele saco.
E como nos contos com mau fim, um dia, deixou de passar por aquelas ruas.
Desde então, como se necessitassem substituir um costume, começaram todos a olhar-me, a mim, enquanto arrastava como podia uma existência sem nada de novo que dizer, que fazer, que escrever, que contar.
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domingo, março 16, 2014
DINHEIRO = FELICIDADE???
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Abre qualquer diário em qualquer página à sorte.
Lê qualquer
secção de Sociedade, ou chama-lhe Gente, ou Tendências, ou Pessoas, ou Famosos,
ou seja lá o que for, ou ainda revistas do coração.
Verás que todas,
absolutamente todas, intuem numa só mensagem: o dinheiro dá a felicidade.
Ireis
ler histórias de gatas borralheiras que se casam com armadores (navais), de
humildes matrimónios agraciados com o euromilhões, estudantes com lábia que
vendem por fortunas as suas ideias, listas Forbes, desempregados que ganham
concursos na TV, ou as origens humildes de J. K. Rowling antes de escrever o
seu primeiro Harry Potter, mulher cuja fortuna já supera a mesmíssima rainha de
Inglaterra.
Fixa-te nesta palavra: fortuna.
Aos muitos zeros chamam-lhe
fortuna.
O mau é que ao leres estas notícias não podes evitar emocionar-te: se
eles puderam eu também poderei.
Dinheiro.
Aparecem em fotos sorrindo.
Dinheiro.
Posando no (imenso a par de labrego) salão da sua casa.
Dinheiro.
Associas:
triunfo = dinheiro.
Evolução = dinheiro.
Golpe de sorte = dinheiro.
Felicidade
= dinheiro.
Jamais verás nas notícias de um agricultor alentejano a explicar o
segredo da dita.
Jamais verás os gráficos de antidepressivos em função dos
rendimentos.
Isso não vende.
Só vende o dinheiro, ou melhor ainda, a ilusão de
possuí-lo.
A esperança do triunfo, evolução, golpe de sorte, felicidade plena =
dinheiro.
Eu agora ganho o dinheiro que necessito para manter-me (não será bem
assim depois do assalto que o governo fez a pensões e salários, mas isso é
outra conversa…).
Um par de viagens, no meu táxi, por aí e uns 'biscates', são o
meu enfezado património.
Adoro o meu trabalho e sinto-o por ti, amigo Forbes,
mas não gosto de luxos.
Tão-pouco jogo regularmente na lotaria por causa do meu
medo irracional a que me saia e me converta, sem querer, como tantos outros,
num completo imbecil.
Gosto da cerveja, mas não é cara.
Gosto dos teus beijos,
esses são gratuitos.
E logicamente, fazer amor, é felicidade.
E ler tão-pouco é caro se
renunciares ás primeiras edições encadernadas em "pele de roubo".
E dar umas
risadas.
Rio-me muito.
E falar.
E escutar quem tem algo bacana para dizer.
E
escrever por cima do passado.
Não se necessitam grandes somas para nada disto.
Não quero mais.
Não necessito mais.
Que não me tentem vender mais.
Chegou o
momento de dizer que o dinheiro me aborrece, que os jornais me aborrecem, que as
revistas que revelam um único estilo de vida, um único objectivo, aborrecem-me.
Sei que o dinheiro é necessário, mas não tanto.
Nem quinze quartos de banho,
nem iates fálicos, nem bolsas Louis Vuitton para o iPad.
Saúde, cabeça, arte e
alma.
Isto é tudo.
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sábado, março 15, 2014
TU E EL@S
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Presta atenção à mulher que agora viaja no assento traseiro do meu táxi.
Escuta a camuflagem da sua voz.
Fixa-te na maçã-de-adão.
E nesse queixo.
E nesses pulsos.
Salta à vista que nasceu num corpo equivocado.
Mulher por dentro e homem por fora.
Talvez se confundisse o invólucro na distribuição.
Ou Deus fuma crack, mas o que importa o motivo?
Bendita cirurgia em qualquer caso.
Agora tenta meter-te nela.
Na sua cabeça.
Na sua alma sempre virgem de cirurgiões.
No que foi a sua infância ou pior, a sua adolescência.
Muda o teu corpo por um corpo do sexo oposto.
Desnuda-te e explora essas zonas diferentes.
Sente a rejeição reflectida no espelho, essa estranha claustrofobia para ti mesmo.
Escuta a camuflagem da sua voz.
Fixa-te na maçã-de-adão.
E nesse queixo.
E nesses pulsos.
Salta à vista que nasceu num corpo equivocado.
Mulher por dentro e homem por fora.
Talvez se confundisse o invólucro na distribuição.
Ou Deus fuma crack, mas o que importa o motivo?
Bendita cirurgia em qualquer caso.
Agora tenta meter-te nela.
Na sua cabeça.
Na sua alma sempre virgem de cirurgiões.
No que foi a sua infância ou pior, a sua adolescência.
Muda o teu corpo por um corpo do sexo oposto.
Desnuda-te e explora essas zonas diferentes.
Sente a rejeição reflectida no espelho, essa estranha claustrofobia para ti mesmo.
Odeia-te por fora e observa como os demais também te odeiam.
A gente estúpida odeia tudo aquilo que não entende.
Assim reforçam o seu neurónio: isolando-o.
Agora, é indiferente que sejas gay, lésbica ou heterossexual, pensa em ti.
No teu próprio corpo.
Gostas ou simplesmente o assumes?
Mudarias alguma coisa?
Os teus peitos, os teus lábios, o teu ventre?
O teu timbre de voz?
Os teus gemidos?
Os teus ataques de ciumes?
As tuas úlceras?
O teu passado?
Talvez tu não sejas, também, “trans-tu-mesmo”?
Por acaso tu não crês, às vezes, que nasceste num mundo equivocado?
A gente estúpida odeia tudo aquilo que não entende.
Assim reforçam o seu neurónio: isolando-o.
Agora, é indiferente que sejas gay, lésbica ou heterossexual, pensa em ti.
No teu próprio corpo.
Gostas ou simplesmente o assumes?
Mudarias alguma coisa?
Os teus peitos, os teus lábios, o teu ventre?
O teu timbre de voz?
Os teus gemidos?
Os teus ataques de ciumes?
As tuas úlceras?
O teu passado?
Talvez tu não sejas, também, “trans-tu-mesmo”?
Por acaso tu não crês, às vezes, que nasceste num mundo equivocado?
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sexta-feira, março 14, 2014
ROCAS SEXÍPARAS
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Não gosto de ver como as ondas morrem nas rochas.
Sei que me direis que não é assim, que não morrem, chocam contra elas, mordem-nas, abrem-lhes as pernas, empapam-nas e retornam para trás para regressar, desta vez nas entranhas de ondas maiores, mais famintas.
Tenho-o escutado tantas vezes…
Mas cada vez que as vejo arrojando-se contra as rochas, creio (e faço-o firmemente) que morrem.
Aproximam-se de nós para morrer.
Dói-me saber que sou o único que as oiço gritar enquanto se retorcem junto à rocha e ejaculem a sua última espuma.
Posso então enrolar um cigarro, ver subir o fumo até ás ensolaradas asas das gaivotas e limpar o suor salgado da minha fronte mas os meus pensamentos sempre serão irrecuperáveis, como as ondas, naquelas pedras lá em baixo que em silêncio, dizem mais do que toda a nossa verborreia de observadores cegos da natureza.
Sei que me direis que não é assim, que não morrem, chocam contra elas, mordem-nas, abrem-lhes as pernas, empapam-nas e retornam para trás para regressar, desta vez nas entranhas de ondas maiores, mais famintas.
Tenho-o escutado tantas vezes…
Mas cada vez que as vejo arrojando-se contra as rochas, creio (e faço-o firmemente) que morrem.
Aproximam-se de nós para morrer.
Dói-me saber que sou o único que as oiço gritar enquanto se retorcem junto à rocha e ejaculem a sua última espuma.
Posso então enrolar um cigarro, ver subir o fumo até ás ensolaradas asas das gaivotas e limpar o suor salgado da minha fronte mas os meus pensamentos sempre serão irrecuperáveis, como as ondas, naquelas pedras lá em baixo que em silêncio, dizem mais do que toda a nossa verborreia de observadores cegos da natureza.
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quinta-feira, março 13, 2014
SORTE
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Apesar
de saber que as probabilidades estatísticas me superavam em excessivas progressões
e que me abalizavam, tal como a qualquer outro, um quase seguro perdedor, eu, sabia que algum dia ganharia o prémio maior.
Para começar, não sou um
qualquer.
Ao longo da minha vida venho vencendo adversidades, pelo simples
facto de contar com a fé e a persistência necessária para obter resultados
positivos.
Restava-me a tendência de alcançar a riqueza e do meu campo
profissional, ainda que tenha uma reforma digna, não podia esperar que me caísse
no colo uma fortuna.
Inclusive tinha-me comprometido a não cair na má administração
e em dispêndios como as que cometem a maioria dos ganhadores.
Nem tão-pouco
seria vítima de enfarte pelo desbordo emocional de ganhar; tudo foi previamente
calculado e antecipei-me manter-me sereno e além do mais, dar um meio sorriso
como a da Mona Lisa e continuar avante com a minha existência livre de ir a qualquer
lugar para comer ou viajar e, para lá de tudo, mantendo o meu triunfo em
absoluto segredo, ajudaria anonimamente os seres queridos mas não, convertendo-os
em meus parasitas, nem voltaria a ser alvo de invejas ou candidato a sequestros
na minha família.
Um dia foi dia, cobrei os milhões, vi com desmesurada
satisfação que se tinha cumprido todas as minhas esperanças.
O máximo que
comentei com a minha mulher foi a seguinte pergunta:
– Sabes o que me preocupa
mais no dia de hoje?
– O que é? disse-me ela.
– Nada! respondi-lhe.
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quarta-feira, março 12, 2014
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Apresentou-se em casa da amante do seu marido com uma pistola na mão.
Espumava pela vindicta que imaginara; ia humilhá-la obrigando-a a tirar as roupas, a dançar pela casa toda, exigindo-lhe que lhe explicitasse, tim-tim por tim-tim, com uma almofada, as técnicas amatórias com que o tinha deslumbrado…
Quando no final do dia ele, vaidoso como era, penteadinho e bem cheiroso, abriu com a sua própria chave a casa da sua amante, encontrou-as abraçadas, desnudas, “esfregando-se” uma na outra, no sofá.
(Nota: neste momento já se “desapartaram” e estão
apontando-lhe a quatro mãos!)
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