O VIDEIRINHO

domingo, janeiro 19, 2014

ENTREGA DA ALMA

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Algo falha ou eu não entendo. 

Duas adolescentes de apenas 18 anos, olhos maquilhados, lábios pintados sem comedimento, amplos decotes, saias curtíssimas e tacões enormes, tão vermelhos como a cauda de Satã, interrogavam-se se tinha chegado o momento de “entregarem o seu corpo” aos seus respectivos e amadíssimos namorados (o entre comas não é casual). 

Foi mesmo assim que o disseram “entregar o meu corpo”, primeiro uma e depois a outra repetiu-o. 

Fiquei banzado e sem fôlego. 

Esta maneira de conceber o sexo como um presente para o macho, ou a sua própria virgindade como um selo de garantia (a romper só em caso de amor eterno), soou-me tão anacrónico nos tempos que correm como incompatível com aquele look tão minuciosamente estudado: ambas sabiam de sobra como vender a sua potencial sensualidade (quem realça propositadamente as suas mamas ou veste uma saia que mais parece um cinto, sabe de sobra o efeito visual que provoca nos homens e não do ponto de vista místico). 
 
Além disso, aquele contraste soava contraditório: pareciam querer exportar uma imagem não pelo prazer de desfrutar, elas também, do efeito provocado, mas sim "a modo" de reclame à mudança de sacrifício, de confiança cega, de abandono à sua sorte, de entrega fiel e submissa. 
Aquelas adolescentes, em suma, debatiam-se entre dois mundos. 
Por um lado, a mais tradicional e machista tradição católica. 
Aquela que ensina a mulher a “entregar-se” aos desejos do homem. 
A tradição do medo e do pecado, a mesma que anulou a tantas mulheres a simples possibilidade de desfrutar com o sexo, ou de fazer amor por puro divertimento . 
Quantas abnegadas avós consideram repugnante o sexo oral, ou nunca saberão o que é um orgasmo? 
E quantos avôs? 
Muitíssimos menos, sem qualquer dúvida. 
Por outro lado o bombardeamento de sexo implícito na televisão, nas revistas, nos anúncios ou internet. 
As modas cintadas, modelos sem pitada de vestuário ou pornografia ao alcance de todos. 
 
 
É inevitável, mesmo que não o queiras, encontras conotações sexuais em qualquer parte e a qualquer hora. 
O sexo desinibiu-se, normalizou-se. 
Já nem sequer é possível censurá-lo ou diabolizá-lo a golpes da Bíblia. 
Ainda que em certos casos, aqui por exemplo, essa machista e hipócrita tradição baseada no medo deixe marcas que impeçam o normal funcionamento e o prazer do mais básico instinto humano. 
NOTA: 
As duas 'fêmeas' em questão pediram-me para parar o táxi à porta de uma conhecida discoteca. 
Em pé no passeio estavam à espera os seus respectivos (e acriançados) noivos. 
Ao saírem do táxi, os dois deram um toque cúmplice com os cotovelos e alçaram as sobrancelhas como mostra de aprovação e orgulho por semelhantes “modelaços”. 
Com efeito, aqueles dois jovens desprendiam amor por cada poro do seu acne. 
Mas sémen também.
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sexta-feira, janeiro 17, 2014


- Reciclagem: apaixona-te por esta ideia: come lixo!

COUSICA “VINTAGE”

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Papiro com oito linhas, revelado pela historiadora, Raren L. King (Havard), onde aparece escrito em copto: “Jesus disse-lhes: Minha esposa…”. O papiro contém outra frase ‘provocadora’ imediatamente abaixo de “esposa”,  “ela poderá ser meu discípulo”.

No escaparate da loja, os objectos acumulavam-se amontoados. 
Entrei e uma campainha anunciou a minha presença. 
Não apareceu ninguém a perguntar-me o que desejava. 
Desde os armários abarrotados de utensílios que foram novidade noutras épocas, chamou-me a atenção uma colecção de bonecos macabros. 
Havia-os de todas as épocas. 
Vestidos com batina e cartola, damas com vestidos armados, militares com medalhas, hippies, jovens yuppies vestidos com Armani, donas de casa com o carrinho de compras incluído. 
Disse que eram macabros, porque ao olhar atentamente para as suas diminutas cabeças, divisava-se um fio de sangue e o que parecia ser um disparo, desfigurava os seus rostos. 
Disparos na boca que tinham deixado um buraco negro por sorriso. 
Disparos na têmpora, com uma enorme brecha de saída e massa encefálica escorrendo pelo ombro. 

 
 Tirada daqui
 
Senti um calafrio e desviei o olhar. 
Sobre uma mesa no centro da loja, pareceu-me curioso, não a tinha visto ao entrar, uns quantos objectos ocupavam toda a sua superfície. 
Um velho caderno com palavras escritas com uma refinada e elegante escrita, convidavam-me a beber de um copo transbordante do que me parecia ser vinho tinto. 
Fi-lo. 
No caderno, apareceu escrito “despede-te” e vi-me a mim mesmo a escrever umas linhas no papel. 
Agora o que estava escrito era ”queima-o”. 
Na mesa estavam os fósforos. 
Senti-me na obrigação de não deixar de fazer o que as palavras me ordenavam, de modo que o fiz, queimei a minha despedida. 
O último objecto, um estranho revólver chegou à minha mão, e sem saber como, comecei a empequenecer...
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sábado, janeiro 11, 2014

- Recebo muitos convites para jogar “Farmville”. 
Alguém me pode elucidar como se utiliza a enxada ?

TREPAR (SALTAR)

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É este individualismo atroz o que me aterroriza: eu ocupo-me do meu e dos meus, que também ‘são’ eu. 

O meu, neste caso, é o dinheiro, mas também a viciante e crescente sensação de poder que o envolve. 

À maior sensação de poder, mais amplo será o muro que os isola do ruído. 

Já podes gritar para o outro lado, inclusivamente matar-te, que o muro aguentará e protegerá “o meu” e “o dos meus”, que é o único que importa. 

Ao invés do que possa parecer, os realmente “meus” não são tantos, apenas eles sozinhos e a sua prole. 

Aliás, militam num grupo porque é assim que se faz: entrando primeiro por baixo ou por amiguismo. 

Dedicam-se depois a fazer favores a todo aquele que está melhor posicionado (aí não se importam de ser servis, chamam-lhe investimento a longo prazo). 

 

E enquanto os de “mais acima” vão ganhando pouco a pouco a sua confiança, eles vão guardando num baú, com chave, os trapos sujos dos outros, nunca se sabe quando serão necessários. 

E se os seus falsos mentores ascendem a outros escalões no público ou no privado, tocará o telefone: 
- O que há para mim? 

Não esqueças nunca quem te fez um favor, porque em algum dia terás que lho devolver (excepto se o outro acaba no cárcere: aí negarão, debaixo juramento, ter-te chamado “amigo do peito”). 

Entretanto à medida que trepam no poder, também crescerá a sua sensação de impunidade. 


Para isso se inventaram os indultos (quem assinar uma confissão de culpa, em que assumiu ter saído ilegalmente de Portugal, com dinheiro, para paraísos fiscais, teve a garantia de ter assinado uma factura em que compra a inocência; esta factura é arquivada no esquecimento do Fisco; pagou 7,5% de imposto, dos milhões sonegados no branqueamento dos impostos e ficou livre. 
Quem comer um pão, já sabe, paga 6% de IVA)

É atroz, como digo, porque uma vez instalados nessa espiral do "narcisismo” todos os outros lhes importarão um chavo. 

Ao menos que tu trepes aos meus ombros, o outro que trepe nos teus e entre todos saltemos o muro.

sexta-feira, janeiro 10, 2014


- A mulher é o motor para o pincel !

HUMORES

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... outro parceiro de café contou-me que se vestia sempre consoante o seu estado de ânimo. 

Um estado de ânimo que, por sua vez, descobria através da música. 

Cada manhã, antes de vestir-se, interrogava-se que canção lhe apetecia escutar. 

Era o seu método particular, um tipo de atalho que o ajudava a conhecer de que humor se tinha levantado: optimista, deprimido, tranquilo, sensual, romântico, tristonho... 

Cada canção ou estilo seleccionado (rock, hardcore, pop, hip-hop, blues, soul ou inclusivamente clássica) acompanhava, por sua vez, uma vestimenta concreta: camisas mais ou menos coloridas, calças formais ou joviais, acessórios (ou no seu lugar, minimalismos), contrastes cromados, sapatilhas de desporto, botas, sapatos. 

 

Hoje, por exemplo, tinha despertado com Master of Puppets de Metalica

- Dissidente mas cheio de energia, disse-me. 

Jeans, t-shists de alças, jaquetas de couro... 

Também me confessou que algumas vezes tinha tentado enganar-se a si mesmo; colocar uma canção diferente à que lhe pedia o corpo, ou uma roupa diferente à que lhe pedia a música, mas nestes casos não podia evitar sentir-se ridículo, disfarçado, como se de um impostor se tratasse. 

Via-se incapaz de sentir-se triste e vestir, por sua vez, uma camisa de flores, ou jovial e vestir-se de negro. 

Como se tudo nele, o seu interior e o seu envoltório, significasse o mesmo. 

Sempre transparente. 

Sempre desnudo.
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quinta-feira, janeiro 09, 2014


-  Agora quando dizes: 
“Foi um passarinho que me contou”, referes-te ao Twitter? 
Será?

TABELIÃES

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Agora devido à descida dos seus pingues rendimentos pela forte queda na venda de andares, talvez fosse boa época para os notários meterem-se a fundo no negócio do amor. 

Neste momento são cerca de 40% os portugueses que se sujeitam a dois casamentos, católico e obrigatoriamente o civil e ainda o baptismo, outra obrigação. 

Outros, muitos, vão a Espanha casar-se, não pagam impostos e continuam a usufruir de benefícios fiscais (se os tiverem). 

Ah! 
E deste lado continuam solteiros... 

São os que optam por fugir da cruz; cerca de 60%. 

Os notários podem atestar que tu e eu nos queremos, minha vida, meu amor, e que a fé moverá montanhas: montanhas da administração competente. 

 

Finalmente que podemos, meu amor, ir juntos a um notário e mostrar os nossos sentimentos a um homem com bigode. 

Despejar o teu coração e o meu sobre a sua mesa de roble ou nogueira, esperar que a biopsia determine que, efectivamente, a minha aurícula esquerda encaixa na perfeição com o teu ventrículo direito e depois o notário corrobore com a sua assinatura que, em consequência, nos amamos e queremos. 

Tudo isto préviamente pago, isto sim, da sua correspondente lista de preços. 


Mas por acaso tem preço o nosso amor? 

Talvez sim, já estás a vê-lo. 

E quem fixa esse preço?

Eles, que são quem sabe. 

E depois de casarmos partiremos de lua-de-mel no meu táxi. 

Apanharemos tantas autoestradas com portagem, quantas as necessárias (por acaso tem preço o nosso amor?). 

Porque quero levar-te a ver o mar, (onde há ir e voltar...)

(As novas tarefas que o Governo espanhol quer implementar é que os notários tenham competência para casar e aprovar divórcios de mutuo acordo.

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quarta-feira, janeiro 08, 2014


- Que o Poder Legislativo está na mão de criminosos, prova-o o facto de que, um honrado cidadão na posse da verdade, necessita de um advogado para defender a sua causa !

CARPIR...

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Isto é algo que há algum tempo mantinha em banho-maria, digamos que há uns tempitos … mas avante com ele… 

O que fazer quando a tua vida está voltada do avesso? 

Quando nada está no seu sítio? 

Quando o teu mundo se retorceu sobre si mesmo até quase desaparecer? 

Quando nem tu mesma sabes o que és e o que eras? 

Que se pode fazer? 

Improvisar, esta é a resposta. 

Improvisar e tentar passar o dia sem pensar em tudo aquilo que te faz sofrer em cada minuto como se fosse o mais eterno dos infernos. 

Mas a improvisação tem os seus perigos. 

Não há guião. 

Não há princípios. 

Não há planos para o futuro. 

Nem objectivos. 

O teu mundo converte-se num caos onde qualquer coisa pode acontecer. 

Onde podes ser qualquer personagem excepto tu mesma. 

Porque TU tinhas guião, princípios, objectivos e futuro. 

Agora é tudo incerto. 

Novo. 


E por isso mesmo, deverá tratar-se de uma aventura excitante. 

Mas a ti parece-te terrivelmente aterradora. 

Tentemos pois viver assim. 

Tentemos fazer como tantos outros. 

Deixa de pensar, esse será o começo desta nova aventura. 

Só actuar. 

Por instinto… de sobrevivência, suponho… ou tratar-se-á na realidade de uma péssima intenção de procurar a felicidade perdida? 

Não sei bem… mas se fosse assim, não tentaria procurá-la da mesma maneira que a encontrei a última vez? 

Seria o mais sensato… no entanto para que isso fosse possível teria que ser a mesma pessoa de então, o meu mundo deveria ser o de antes, mas… realmente sou a mesma? 

Pode ser que em essência continue a sê-lo e que algum dia volte a aproximar-me de mim mesma de novo, mas hoje por hoje… sou diferente, estou ferida, destroçada no mais íntimo... mudei, ainda que não saiba como nem quanto, não sou objectiva para poder quantificá-lo, mas é seguro que mudei. 


Uma vez, há muito tempo, alguém me disse que eu era a pessoa mais feliz que tinha conhecido na sua vida… não sei se agora pode dizer o mesmo… e não sei se o poderá dizer nalgum momento. 
E o meu mundo? 

Já nem sequer é meu. 

É absolutamente diferente, não o reconheço no mais ínfimo, a vida que levo sem ele não é a mesma, tudo mudou e o que permaneceu estático vi-me obrigada a deitá-lo abaixo para sobreviver… 

E esta nova vida, de mãe solteira (nego-me a chamar-me a mim mesma viúva)  faz-me sentir perdida, desfasada, inclusive antiquada!!! 

Como se desde a juventude até agora tivessem passado diversas gerações. 

Agora para adaptar-me tenho que reinventar-me, o pior é que não sei em quê ou como quero ser. 


Bem… façamos uma lista de coisas que nunca faria, coisas que gostaria de fazer e que quiçá não fiz por mil motivos diferentes, façamos uma lista de fantasias, anseios e desejos que não levei à prática porque “eu sou assim”… façamo-lo… vejamos quem sou agora. 

Descartarei só aquilo que uma vez provado não tenha gostado, dessa maneira verei como quero que seja o meu futuro. 

Esse futuro que sem me aperceber estou a construir e convertendo-o em presente. 

O único princípio iniludível é não prejudicar os demais, o resto está permitido neste novo mundo desconhecido. 

Vai ser uma aventura… espero. 

Comecemos.

17FEV2012
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terça-feira, janeiro 07, 2014


- A beleza alcançada pelos seios de uma mulher, não será a glória mais resplandecente da evolução da Humanidade ???

BELEZURAS FRIAS

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Inquietam-me as mulheres que vêm do frio, do Norte da Europa ou do Leste. 

Quando alguma delas roçagam por mim, com o seu rosto de cristal de Bohemia e olhar antibalas, olhos gélidos, inexpressivos, de cor azul gelo, quase sempre loiras, graves quase sempre, tento olhar mas com medo de ser visto. 

Acho que, como digo, belíssimas, duma perfeição quase desapaixonada, mas por sua vez parecem-me distantes, como se todas elas escondessem um muro intransponível e electrificado que não deixa saltar para o outro lado das suas costas. 

Atraem-me, mas metem-me medo. 

Quiçá por isso é que me atraem, suponho. 


Impossível compará-las com as nativas do outro lado do charco, as de genes cálidos: brasileiras, colombianas, cubanas, de beleza muito diferente da nórdica, mas belas também e sem dúvida, ao contrário das que vêm do frio, expressivas ao máximo, com aqueles olhos que parecem sempre “procurar alimento”, gestos ardentes, sentimentos que se escutam do lado de fora pelo poder da sua pulsação. 

São tão belas e tão ardentes que me atraem, mas ao mesmo tempo metem-me medo. 

Talvez por isso me atraem, suponho.

E por isso estou, entre o frio e o calor, entre atracções e diferentes medos que não são mais que uma mesma atracção enfatizada e um mesmo medo ao desconhecido. 

E o desconhecido está em mim, suponho. 

Eu sou atérmico.
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segunda-feira, janeiro 06, 2014


- A palavra religiosa "AMÉN" será a equivalente ao "ENTER" dos computadores ?

AGOUROS

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Procuremos desculpas. 

Achaquemos a culpa a uma quarta dimensão. 

Ante a falta de equilíbrios, Power Balance

Torneiras com filtros de iões para purificar a alma. 

Moedas da sorte, amuletos, medalhas de ouro (o cobre está muito mal visto). 

E no topo os teus bifidus activos. 

E não te esqueças de colocar velas à virgem da, (do, de)..., escolhe a tua, para o próximo EuroMilhões, ou sorteio da lotaria da Páscoa ou do próximo Natal (que é sempre uma barrigada). 

A casualidade e as leis da probabilidade não existem se realmente tens fé na tua virgem. 

As matemáticas, como bem sabes, são coisas de ateus. 

E não entornes sal, que traz má sorte: se suspendes esse exame ou cais da bicicleta, lembrar-te-ás daquela graça. 

 

E rezemos pela enfermidade do meu Felismino. 

Caso se salve, prometo percorrer 100 quilómetros de joelhos. 

Se morrer, denunciarei o serviço médico. 

Ontem fui testemunha de um acidente entre tantos. 

Um táxi passou um STOP e colidiu contra outros dois carros. 

Quando me acerquei para lhes prestar ajuda, chamou-me a atenção um autocolante que levava o próprio táxi na porta da mala. 

Rezava: 
Eu conduzo. Cristo guia-me”. 

Chama-o, se queres, paradoxo!
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sábado, janeiro 04, 2014


- Hoje no meu primeiro serviço, 22€, o cliente saca de uma nota de 500. 
– Tem troco?
– Sim, mas aqui não, na Suíça !

METEREOLOGIA

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Baixei o vidro da janela do carro e ao passageiro quase lhe voava a peruca. 

Por sorte, foi bastante rápido: segurou-a com a mão na cabeça e manteve-se em silêncio, até que reparei nele e voltei a fechar o vidro.

Chamou a minha atenção a naturalidade com que aquele tipo segurou a sua prótese contra o vento como quem segura um chapéu. 

A peruca já era parte dele, um prolongamento da sua própria personalidade sem a qual se sentiria nu, incómodo, diferente. 

Imaginei-o em sua casa, lavando a peruca com champô protésico no escorredouro da banca de cozinha, secando-a com um secador de mão e penteando-a antes de encaixá-la na cabeça. 


Procurando imediatamente que o cabelo irreal do telhado se funda com o escasso cabelo real das têmporas e da nuca, numa união que ninguém perceberia e que eu também não me apercebi (a não ser pelo vento). 

Soa estranho que o maior inimigo daquele homem fosse o vento, que só o vento pudesse destapar um segredo medido ao milímetro. 

Todos temos os nossos pontos fracos ou débeis, “esses” segredos inconfessáveis, “essas” rachadelas na parte macia da alma. 

Neste caso, o seu ponto fraco, dependia da parte meteorológica. 

Enfim…
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sexta-feira, janeiro 03, 2014


- FUMAR NÃO É QUESTÃO DE HÁBITO, É QUESTÃO DE ÓBITO !

DEIXAR DE FUMAR

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As tuas mamas provocam-me ansiedade. 

Saber que posso e poderei tocá-las quando queira, ainda a meio da noite, ou estando tu no escritório e eu dando voltas com o meu táxi e num dado momento possa chamar-te e dizer-te: 
- “Necessito que desças do escritório nos próximos dez minutos para te apalpar as mamas. 
Espero-te no mesmo local de sempre”, e tu que o faças, divertida. 

Tudo isto produz-me ansiedade. 

E também que me olhes a boca. 

Que eu te fale enquanto tu me olhas a boca. 

E depois me fales e eu te olhe a boca, e depois tu a mim, e eu a ti, como que, os dois, a jogar ténis, do verbo ter. 

Ou quando me escondo nas tuas costas e abro caminho entre o teu cabelo usando o nariz, movendo o nariz entre o teu cabelo até atingir a tua nuca, até notar o calor da tua nuca. 

 

Não sabes quanta ansiedade me produz isso. 

E pensar no futuro. 

Pensar que o meu futuro será metade do teu. 

Pensar noutra casa maior, com mais quartos e visitas ao interior do teu mundo, em comprar um táxi novo com assentos Isofix e sem espelhos e essas noites de insónia quando a minha cabeça se converte numa folha do Excel com a sua coluna do Deve, com o seu Haver de onde o saco, com o seu Saldo negativo e o amanhã só Deus o dirá. 

E os versos que deixei por escrever, e tu cantares-mos, e esses centos de relatos pendentes que inventámos juntos, e viajar contigo até Manchester, e beijar-te sem língua, numa fábrica vazia. 

Tudo isto produz-me ansiedade. 

E quando tenho ansiedade, fumo.
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quinta-feira, janeiro 02, 2014


- Aproxima-se o dia do final de simulacro de paz natalício e já poderás guardar o marisco e voltar a insultar os teus sogros e cunhados !

DECLARAÇÃO

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Sabes que nunca serás uma estrela do rock e as drogas são caras. 

O salário na loja apenas te permite um par de gramas por mês, o suficiente para te contagiar à grande festa do primeiro sábado, já sabes, dares tudo e sentires-te como deus por uma noite. 

A Susana não gosta que te drogues, ela é mais tranquila e diz que já viu demasiadas coisas, gente perder a cabeça por essa merda e bla, bla, bla. 

Tu gostas muito da Susana, darias uma mão por ela, mas um par de gramitas ao mês não causam dano a ninguém. 

Nunca estiveste perto do Lance Amstrong ou do Contador e a Susy já sabe que quando casarem e tenhais filhos (ainda não, há que esperar por aforrar dinheiro) o deixarás. 

Prometeste-o depois daquela movida do último sábado e tu és um tipo de palavra. 

 

Entretanto, que porra... és jovem e esta vida ás vezes pode ser muito puta. 

Não há futuro, madrugas como um sacana e suas a estopinhas para uma merda que ganhas. 

Mereces divertir-te e desligar de tudo ainda que a Susy não o entenda. 

É o que têm as drogas: dão-te um speed que até te borras todo, mas de repente tudo com que te importas é uma porra. 

Depois ficas dois dias feito em merda e lixado por gastares metade do salário numa noite, mas nada nem ninguém é perfeito. 

E é meio-dia... sacana do sol. 

Sobrou-te o “pastel” à justa para o táxi de volta e um último charro para quando despertares. 

No táxi olhas-me através do espelho retrovisor enquanto pensas, "que puta de vida também é a do taxista", (um tipo entradote e a trabalhar no primeiro dia do ano e a esta hora...). 

 

Cruzando a Ponte do Infante, saco um Kleenex do porta-luvas e estendo-lho. 

- Está a sangrar do nariz, disse-lhe. 

- Vá. Eu. Já sabe... diz-me segurando o lenço. 

Limpas o sangue e ficas a olhá-lo como se não fosse teu. 

Depois olhas para mim, suspiras e sacas do telemóvel. 

Teclas uns algarismos, aproxima-lo do ouvido e esperas que atendam. 

- Susy. Já sei que não são horas, que não é o local nem o momento, mas escuta: quero casar-me contigo. Tão rapidamente quanto possível.Agora mesmo. E para toda a puta da vida.
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