O VIDEIRINHO

quarta-feira, março 05, 2014

VALHACOUTO


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Só Felipe ficou para trás e, sacando de uma navalha artesanal Palaçoulo, de Trás-os-Montes, esculpiu uma cruz no tronco do choupo mais próximo. 

Fixou o olhar na casa de pedra que se via do outro lado do rio, parecia em ruínas e estava quase coberta pela hera, mas o ruído valetudinário que produzia, confirmou que o vetusto moinho continuava activo. 

Limpou a navalha passando-a pelas suas calças de veludo de cor terra seca, fechou-a e dirigiu-se para o grupo. 

Ao sair para a zona mais ampla para cruzar a ponte romana de regresso, deitou uma vista de olhos para a zona mais próxima onde uma mula grande e esforçada, conduzida por um rapaz coberto com um chapéu de palha, dava voltas puxando uma espécie de debulhadora. 

Um cão corria por perto e ladrava aos pardais que levantavam voo. 


A impotência e um laivo de raiva brilharam nos olhos de Filipe. 

Sentou-se numa pedra e apoiando a cara numa das mãos, à maneira de “O Pensador” de Auguste Rodin, foi capaz de abstrair-se do mundo ao seu redor e reflexionar sobre a encruzilhada em que se encontrava naquele momento, sem trabalho e sem futuro. 

Não se moveu até que tomou a decisão mais importante da sua vida: o seu casamento programado para depois da colheita que a inundação tinha arrasado, teria que esperar. 

Iria para longe, muito longe, onde pudesse começar uma nova vida. 

França sempre foi um país de oportunidades para os portugueses, por que não ir e encontrar a sua? 

Seria mais um emigrante… 

(Não como o pensador, mas como o parlapatear do parlapatão que dizem ser 1º. ministro).
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terça-feira, março 04, 2014

- A maior parte das mulheres são incapazes tanto de fazer o seu marido feliz dentro de casa, como de permitir que ele seja feliz com outra fora de casa.

SEM TECTO

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Flutuei a uns cinquenta metros por cima dos telhados da cidade, rodeado de “desalmofadas” de nuvens baixas e vapores altos que emergiam das cozinhas dos matadores. 

Certamente, para os que me olhavam a partir do solo, eu parecia um anjo gigante ou um morcego desperto, capaz de desafiar a luz do sol e as colunas de ar turbulento que fervilhavam trepando para o infinito. 

Em pouco tempo vi uma formosa mulher nua sobre uma cama numa habitação destelhada.

 

Desci para o seu lado, sem pensar, imaginando que estava adormecida. 

Pensei em dizer-lhe algo, mas ela despertou de repente; ao ver-me, sorriu perversamente e disse uma data de obscenidades. 

Tardei muito a reagir, a criatura tinha-me aprisionado com a sua teia de aranha; nasceram-lhe oito patas e dois caninos gigantescos. 

Naquele instante compreendi porque os homens voadores do meu país nunca descem a uma casa sem telhado.

Nota: 
Mulheres que não aceitam homens voadores para que dormem nuas?
Os homens que voam, são as delícias das mulheres...
Não concordam???


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segunda-feira, março 03, 2014


- Um amante nu, é suave como um clítoris !

OBTUSO

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Sou moderadamente imbecil, ou pelo menos pareço-o. 

Olho quadros com os olhos fechados, mordisco o caroço das azeitonas, corro atrás de autocarros fora das paragens. 

A minha família já me deu por irrecuperável e o médico de família receita-me colecções de ansiolíticos com cujas embalagens vou construindo o puzzle da minha outra vida.  

Agora, bem, estou ciente de que não deveria  desenhar-me a meias-tintas. 

E mais, para não continuar a fingir, reconhecerei que sou rematadamente idiota. 

Muito para lá do acima exposto. 

Colecciono pasteis meio fritos, leio jornais da semana que vem e, quando me explicam as delícias do amor, finjo que escuto com atenção, como se acreditasse que algo assim possa existir.
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domingo, março 02, 2014


- Já que tudo carece de sentido, estamos obrigados a ser extraordinários !


LOUCO

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Sou moderadamente louco, ou pelo menos pareço-o. 

Olho quadros com os olhos fechados, mordisco o caroço das azeitonas, corro atrás de autocarros fora das paragens. 

A minha família já me deu por irrecuperável e o médico de família receita-me colecções de ansiolíticos com cujas embalagens vou construindo o puzzle da minha outra vida.  

Agora, bem, estou ciente de que não deveria  desenhar-me a meias tintas. 

E mais, para não continuar a fingir, reconhecerei que sou rematadamente alienado. 

Muito para lá do acima exposto. 

Colecciono bolinhos de bacalhau meio fritos, leio jornais da semana que vem e, quando me explicam as delícias do amor, finjo que escuto com atenção, como se acreditasse que algo assim possa existir.

É que quando um louco se cala, geralmente é incluído entre os inteligentes.

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sábado, março 01, 2014


- Fiz com as minhas 'escrevinhices' uma fogueira, mas continuo tiritando !

LAPSOS

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Aquele dia não se concluiu na hora vinte e quatro. 

Os relógios começaram a patinar no vazio de um tempo incógnito e misterioso. 

Milhões de humanos, ante a desprogramação televisiva e o caos horário dos meios de transporte, fugiram a pé para um futuro que não figurava escrito. 

Quando ás duas e vinte e três se restaurou o horário correcto, apanhou-os fora das coordenadas temporais válidas. 

Foram considerados legalmente desaparecidos, fizeram-se funerais massivos e, como emotiva homenagem, esse dia passou a considerar-se festivo. 

Por decisão administrativa, instituiu-se oficialmente uma Jornada Anual da Ausência. 

Em cada aniversário celebrava-se a comemoração. 

Ás vinte e quatro em ponto, em honra aos ausentes, paravam-se os relógios durante duas horas e vinte e três minutos. 

Amigos e familiares dos fugitivos juravam que, nesse lapso de tempo, aqueles apareciam outra vez, vestidos com a mesma roupa de então, semblante distraído, aparentemente (in)felizes, como se nada tivesse acontecido.
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sexta-feira, fevereiro 28, 2014


- Quando por fim se converteu no primeiro ser humano a viver fora do tempo, contactou-nos para pedir-nos uma só coisa: um relógio !


DUCHE

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Do outro lado da cortina do duche, um corpo esborratado em gel e meio-dia. 

Faz uns minutos pertencia-me, pertencíamo-nos um ao outro, debaixo desta obstinação de amantes com o rosto aberto ao vendaval do desapego. 

Desfruto estes momentos, amolecido nos músculos desse corpo, explorando a via dos seus humores como um conquistador de territórios membranosos. 

Mas também me aborrece, tão presunçoso na sua dinâmica de sístoles e digestões, estúpido conjunto de engrenagens com o destino traçado. 

Por isso aproveito os momentos mais íntimos para abandonar-te. 

O banho, por exemplo, já to disse. 

Mas também, os esquemas de sexo, as tardes frente ao espelho enferrujado, o momento desse vago gesto ao abrir um contentor amarelo. 

Naqueles momentos, posto em fuga, aproveito para olhar para ela. 

Sem que ela me veja, claro, os seus olhos têm um alcance limitado e também induzem uma franja de “vista cansada” na relação. 

 

Não sei, um destes dias, decido mesmo emancipar-me. 

Viver sem amarras, se me entendem. 

Não, não pensem que pretendo mudar para outro corpo diferente. 

Por esta altura, com o que tenho visto, prefiro a solidão dos aquedutos, o passo errante pelas vielas sem destino fixo, a ausência de humores e misérias. 

Um dia destes já verei… 

Agora devo preparar-me, já saíste do duche e não quero que me vejas, assim, como se estivesse a murmurar nas tuas costas. 

Além do mais, estás tão atractiva, com o teu cabelo brilhante e esse cheiro a gel e a meio-dia… 
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quinta-feira, fevereiro 27, 2014


- O meu corpo é generoso: sempre tem mais um espaço para uma dor !

SER FELIZ

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Revolve o baú da avó, da tia, ou duma vizinha com fama de adivinhadora, das que sacam o mal de olhar e deitam as cartas do Tarot de Marseille; certamente que encontrarás uma antiga receita para viver melhor. 

Substitui os ingredientes por outros, similares, ou algo assim. 

Copia as instruções, agregando-lhe ou tirando-lhe quartos de quantidade. 

Agrega ênfase a gosto, uma arrogância à prova de balas e a mais absoluta convicção a respeito do que dizes, sem que te importe se acreditas ou não. 

Não é imprescindível, mas se quiseres e puderes, faz-te convidar para um programa de televisão. 

Diz que a vida te submeteu a uma duríssima prova, decisiva, e que esse trance extremo iluminou o teu entendimento. 

Nem dá para acreditar que lograste alcançar um resultado muito superior ao do Flautista de Hamelin, mas sem usares ratas.
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terça-feira, fevereiro 25, 2014


- O asno enquanto está deitado não pode estar levantado !

"PINGO DE MEL"



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- “Arranca. 
Acabo de sacar outros três mil a este gajo. 
Segue, segue”, disse-me a mulher referindo-se a um tipo de uns cinquenta anos que tinha entrado noutro táxi. 
Acelerei e abandonámos o terminal do aeroporto. 
Disse-me o seu destino já depois de ter iniciado a marcha. 
Também me disse que vinha de Zurique, de um serviço expresso que aquele tipo tinha contratado na noite anterior. 
Simplesmente telefonou-lhe e disse-lhe: 
- Estou em Zurique. 
Apanha o primeiro avião e depois um táxi que te traga até ao Hotel “Baur au Lac”, quarto 303. 
Pagarei o habitual mais os gastos. 
“o habitual” significava que aquele homem contratava os seus serviços com frequência. 
Costumava telefonar à mulher a qualquer hora e de qualquer local do globo; ela apanhava o primeiro voo, plantava-se lá, davam um par de quecas de luxo e depois de receber, sempre a contado, apanhava outro voo de volta para casa. 
Nesta ocasião ele teve que regressar com ela ao Porto para um assunto de negócios, mas ontem à noite, em Zurique, não podia esperar, queria vê-la quanto antes: um capricho urgente. 
E três mil por serviço mais despesas de deslocação não era nada para um dos homens mais ricos da City, um autêntico tubarão das finanças. 
Ela, por seu lado, sentia-se a mulher mais invejada da terra. 
Cito textualmente da sua boca: 
- “Todas, no fundo, gostariam de levar a vida que eu levo. 
A moral, ou a ética, ou como queiras chamar-lhe, não é mais do que uma invenção cultural para tapar o que na verdade move o mundo: a hipocrisia”. 
 
Depois, quando parei o táxi à porta da sua luxuosa moradia e me pagou a corrida, acrescentou antes de se ir: 
- “Ganho de trinta a quarenta mil ao mês por abrir as pernas. 
Não te ofendas, mas os homens, desde o princípio dos tempos, sois e sereis sempre parvos”. 
E com estas palavras foi-se. 
Fiquei pensativo, acariciando a nota de 100 euros que me tinha dado. 
Uma nota que antes era sua e antes de ser sua foi daquele tipo de Zurique, o tubarão das finanças.
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segunda-feira, fevereiro 24, 2014


- Na cafeteria mais escondida da cidade contamos as rugas que não tínhamos quando éramos todo beijos, mordiscos e suor. 
O café, como os nossos sonhos, fica frio.

COMO NÃO CONQUISTAR UMA MULHER

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Um homem de olhar triste contou-me o seu falhado plano desta noite. 

Vinha de um género de encontro ás cegas, em grupo, organizado por uma pseudo-colectividade. 

O encontro consistia no seguinte: sete homens sós, sete mulheres sós e sete mesas. 

Cada homem tinha um total de sete minutos para numa mesa, frente a frente, conversar com cada uma das sete mulheres. 

Passados os sete minutos, soava um gong e então, rodavam para a mesa seguinte. 

A ideia era que todos acabassem por falar com todas as mulheres, em rondas de sete minutos. 

Depois disto, anotavam, secretamente, num papel, com quem tinham tido mais empatia e, se o nome escrito por ela, coincidisse com o nome escrito por ele, podiam continuar a conversar durante o tempo que quisessem (e tudo o mais que depois surgisse). 

Os demais, os não afins, teriam de marchar do café e cada qual seguiria o seu caminho. 

Este homem, como disse, vinha de um desses encontros. 

E vinha só. 


Confessou-me que era demasiado tímido e não podia evitar comportar-se desajeitado e tenso. 

Não era fácil quebrar o gelo com mulheres que procuravam como ele, a centelha forçada para se infamar em catorze minutos, sete em cada vez. 

Para ele os primeiros minutos eram a chave: 
De que falar sem parecer demasiado óbvio? 
O que será melhor, tomar a iniciativa ou deixar que seja ela a começar? 
Olhar para os olhos, as mãos ou a boca? 

O curioso e, aí está a sua falha, foi que acabou sentindo maior afinidade pela mulher, que a priori, seria a menos atractiva das sete reunidas. 

De facto, à medida que falava com ela, ia-lhe parecendo cada vez mais interessante, e foi a única com quem verdadeiramente chegou a sentir-se à-vontade.

 

No entanto, acabou por escrever o nome da mais atraente mas menos simpática das sete, uma tal Teresa de lindos olhos verdes e lábios sensuais ainda que parca em palavras, um tanto seca. 

A menos atractiva, mas bem mais simpática, por sua vez, tinha escrito o nome dele e a tal beldade, tinha escrito o nome de outro, de modo que no final, os dois igualmente mais feiosos mas simpáticos partiram cabisbaixos de “mãos a abanar”. 

E agora aquele homem arrependia-se, enfim, por ter pensado só com os olhos. 

Se tivesse escrito o nome de Luzia, a simpática e interessante Luzia, agora estariam a conversar e não teria tomado meu táxi sozinho, quem sabe se com ela, na sua viagem de volta a casa ou para o motel. 

O mesmo caminho na solidão que o da semana passada. 

O mesmo caminho na solidão que a anterior.
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sábado, fevereiro 15, 2014


- Queimei o Miró juntamente com o meu lamentável retrato a carvão.
Senti-me bem perto do génio quando vi que a fumaça dos dois era igual !

BANCO TRASEIRO

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Quando viajo de automóvel, escolho sempre os assentos traseiros. 

As nucas em silhueta dos meus acompanhantes, são, de longe, mais apaixonantes que os desfiles de árvores alienados, alinhados na sua monotonia de passeios ou bordas das estradas. 

Além disso, desde o meu observatório posso avaliar os comentários e os silêncios dos demais, sem que me confunda a impostura dos seus gestos. 

Não sei, viajar nos lugares de trás produz-me uma sensação de oculto poderio, algo assim como assistir a uma repercussão de almas alheias através do seu próprio pescoço. 

O mais curioso deste costume é que os outros jamais se apercebem desta sua nudez. 

Desde a soberba dos seus assentos dianteiros, olham permanentemente para o futuro. 

Uma e outra vez a estrada, essa ficção do porvir que parece desdobrar-se ante os seus olhos. 

Para eles, alguém como eu, só existe no espelho retrovisor interior, esse que ninguém lhe liga “puto”. 

Pobres coitados, ignorantes em viagem para lugar nenhum, não há passado nas suas vidas.
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