O VIDEIRINHO

sábado, maio 17, 2014

O CESTO



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Sou ateu e estou desempregado. 

Ontem e só ontem, por curiosidade, aproximei-me da igreja da minha zona. 

Em momentos de crise, dizem, a gente busca refúgio, espera que deus faça por ele o que ele não faz enquanto olha para o televisor sentado no sofá… porque deus proverá… e que se fo..., digo, que se lixe! 

A lotação estava completa, havia mais gente que na linha azul do metro em hora de ponta. 

Não tinha pensado entrar, mas novamente a curiosidade venceu-me. 

Será que sou gato e nasci em Lisboa, de pais lisboetas? 

Misturei-me entre o pessoal, de pé, no final do “aposento” e escutei toda a liturgia até ao fim. 

O cura falava-nos de que a culpa era nossa porque tínhamos pecado, mas que deus pressiona mas não afoga… e para que tivesse piedade de nós devíamos rogar ao senhor e que ele nos ouvia. 

 

Não sei, a mim parece-me que o senhor deve estar muito farto e surdo. 

Isto sim, num determinado momento da missa pediram-nos colaboração para com a igreja e passaram um cesto. 

Umas duas pessoa por fileira de assentos ia-o passando. 

Quando chegou a mim, não pude desfazer-me de um cêntimo. 

Estou no desemprego, tenho a hipoteca e um longo percurso... 

Este último não tem nada a ver com o cesto, ou talvez até tenha. 

Como sabeis estou desempregado. 

Pude observar que o cesto que me calhou estava cheio de moedas, sujas, escuras, pequenas. 

As notas escasseavam. 

Deu-me a impressão que Jesus não ficaria muito contente no final desta missa, por isso, como mais ninguém pensou assim, todos contentes viemos em paz. 

 

Quando saí, não senti a minha alma mais limpa nem menos rancor à corja que nos governa. 

Não, não me senti reconfortado. 

Creio que o cura se equivocava, qualquer um o poderia contrariar mesmo contra a autoridade com que falava. 

Sou da opinião de Guillermo Fesser, "Cuando Dios aprieta, ahoga pero bien"

Intuo que comprar um cesto de vime e passá-lo pela comunidade dos meus vizinhos, não me solucionará o futuro, ainda que tal me permitisse comprar pão. 

Mau mesmo é que não tenho cheta para comprar pão, quanto mais um cesto de vime. 

Vou voltar a enviar, resignado um par de currículos a um par de empresas para ver que porra se passa… 

Desculpem lá, mas não sei rezar.
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sexta-feira, maio 16, 2014

- Não tenho sexo no sábado à noite, pois, se chover no domingo, não saberei que fazer !

1ª. VEZ

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Beatriz advertiu-me dos riscos e incómodos que poderia sentir ao princípio, mas animava-me, dizendo que com a prática a sensação é cada vez mais prazenteira. 

Ela iniciou-se com o negro, dizia que apesar do seu grande tamanho e da sua rude aparência era bastante cuidadoso com as jovens sem experiência; várias amigas e conhecidas tinham-se estreado com ele anteriormente. 

Eu, pelo contrário, sentia uma predilecção pelo de olhos claros, adorava o brilho do seu cabelo, o seu corpo musculoso e delgado, enamorei-me da sua beleza ao vê-lo pela primeira vez, da sua forma de caminhar, do seu olhar profundo… 

 

Quando chegou o momento não sabia bem qual a posição a adoptar, estava tão nervosa; montei suavemente sobre ele, sussurrei-lhe ao ouvido enquanto acariciava o seu pelo e deixei-me levar; o meu coração batia com força ao sentir o seu vigor selvagem entre as minhas pernas. 

Nunca tinha sentido tanta liberdade como galopando no lombo daquele formoso e fogoso corcel.
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quinta-feira, maio 15, 2014

- Em vista do que visto me desvisto, dispo-me a mim mesmo e mantenho-me, encanta-me este ter o que não tenho !

RETORNO

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Depois do jantar, na sobremesa, ainda que suspeitando não ser necessário, dissolveu o milagre azulado na infusão de Adonai

Já o foi cortejando durante meia manhã, mostrando as suas carnes através do avental, seduzindo-o com os seus peitos ao servir-lhe o pequeno almoço e, com os pés, por debaixo da mesa, enquanto degustava os menus afrodisíacos que lhe  recomendaram. 

Ele contempla o seu cortejar, silencioso e expectante, interrogava-se se ele dissimula o seu jogo ou resiste à tentação, imaginando os intensos prazeres que o aguardam. 

Quando vê que está pronto, veste o vaporoso e transparente babydoll de seda, levo-a consigo à alcova e aplacam os calores sem mais demoras. 

 

 

 

- Meu senhor, meu Adonai, aquele que há anos provocou que este corpo se apagasse, agora aviva a chama dos meus anseios, incluso em sonhos convulsiono, derramando sobre as virilhas as minhas cálidas paixões. 

E é que todos os dias, desde que tem Alzheimer, amam-se como dois desconhecidos que se entregam ao desejo carnal pela primeira vez.

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quarta-feira, maio 14, 2014

- Cinge-te a mim, noite de mamas ao léu; cinge-te a mim, noite ardente de alimentos mil !

SEM TANGAS

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Chamem-me esquisito, mas pagaria para ter a certeza de não ver nunca o desnudo integral de certas divas. 

Casos como o de Scarlett Johansson só demonstram que a imaginação será sempre mais generosa que a crua realidade, por mais escultural que ela seja. 

Ou dito de outro modo: a imaginação nunca decepciona e sem dúvida que preferimos decepcionar-nos a fim de satisfazer a nossa quota de poder na sombra. 
Esta geração de consumo rápido e massivo, gera tal grau de insatisfação e ansiedade, que tende, sem querer, para o insaciável. 

Assumimos que agora tudo é possível graças ao dinheiro, ainda que nos acabe decepcinando ou acabemos a pensar: 
“Ba!, afinal não era para tanto”. 

 
 
É possível acabar por ver qualquer celebridade desnuda, sempre que por trás exista um nicho de mercado suficientemente rentável (não somos ricos, mas somos muitos: e é que, todos somados convertem-nos em ricos). 

Se o foco do desejo se centra, por exemplo, na ex-cândida Miley Cyrus, não é de estranhar que acabe lambendo “a tocha olimpica” desnuda e o seu vídeo bata todos os rankings de visitas do YouTube. 

Assim somos, enfim, ou é nisto que nos converteram. 

Ainda que não queiramos. 

Ainda que tenhamos saudades de uma ficção integral sem limites.
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terça-feira, maio 13, 2014


- As eleições têm pelo menos dois méritos: é que os futuros membros eleitos observem cuidadosamente as mãos e bolsos dos governados e não possam ser mais incompetentes que aqueles que os elegeram!

MAS VOTA!!!

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No próximo dia 25 de Maio os portugueses que ainda não emigraram podem escolher livre e democraticamente qual será o bando, digo, partido, que se ajoelhará ante Merkel. 
Os grandes já estão em campanha: o PS, que deixou o governo com quase 11% de desempregados, aposta no emprego. 
O PSD dos novecentos mil desempregados (16.5%), sendo que o dos jovens já vai além de 35%  e duma dívida pública que subiu 30% (está perto dos 132%) ao valor que o PS deixou, diz que eles sabem fazê-lo melhor: que se sai da crise taxando os produtos que engordam, comendo yogurtes caducados e encomendando a alma à virgem. 
Por outro lado, o PS aposta num socialismo europeu unido, mas ninguém sabe se se referem ao partido socialista alemão que agora governa coligado com a CDU de Merkel, ou ao socialismo francês dos (re)cortes sem trégua apesar do descontentamento do seu próprio partido. 

 

Em qualquer dos casos, faça o que fizer o PS, recordem que o PSD fá-lo-á sempre melhor. 
É o que dizem os meios de comunicação que eles controlam. 
Di-lo a RTP, SIC e TVI, os peso-pesados "escrevidos" e os diversos diários e pasquins de cores diversas. 
E entre o Freeport, o Processo Furacão, o Portucale e das luvas e contrapartidas pela compra dos submarinos, o Face Oculta, o Apito Dourado, agora enferrujado, o Quinta do Ambrósio, o BPN, o… são como cogumelos, entre os envelopes e a herança recebida, ambos continuam intentando açambarcar tudo. 
Açambarcam primeiras páginas, títulos, minutos de ouro nos telejornais de maior audiência… 
Pretendem dar a entender que não há nem haverá mais opções que o PSD de sempre e o PS de toda a vida, e que todos os demais partidos, sem excepção, são radicais de um e outro lado. 

A estratégia não é casual: aos dois interessa-lhes a saturação do eleitorado. 
Aos dois interessa-lhes que o cidadão indeciso fique em casa e não vote. 
Querem ganhar, ainda quer seja com a ínfima parte do seu eleitorado mais fiel, ainda que seja com níveis de abstenção históricos, e sabem que o voto em branco ou o voto nulo os beneficia face ao resultado final. 
Por isso, agora mais do que nunca há que votar. 
VOTA em quem queiras, MAS VOTA
VOTA no menos mau de entre todos os partidos minoritários, MAS VOTA
Vota à esquerda radical, à direita radical ou ao “extremocentro” radical. 
Elucida-te um pouco mais, lê os programas eleitorais dos demais partidos e vota em consequência. 
Há que mudar este bando de broxotes ladrões, seja de que maneira for. 
VOTA e vais ver...
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quinta-feira, abril 17, 2014



- Das coisas que ocorrem ao teu corpo, sempre aprendo mais que daquelas outras que sucedem ao teu pijama !

PECADO DEIFICADO

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Maria Madalena unge os pés desnudos de Jesus com perfume fresco de açafrão, as suas delicadas mãos massajam com esmero cada ponto sensorial, aliviando o cansaço que o seu amado acumula depois do longo dia. 

Jesus cerra os olhos, inclina a cabeça e manifesta toda a sua alegria ousando exalar longos suspiros. 

Maria Madalena olha-o enamorada experimentando uma efusão contida de desejo, a sua boca emite discretos sibilos que tentam, com ternura, sossegar a mente de Jesus. 

Com os seus longos cabelos fricciona as mãos entre os dedos, cantarolando suavemente uma doce canção de amor. 

 

Quando termina, não pode evitar acercar-se e beijar os seus lábios; Jesus abre os olhos recebendo a oferenda e responde rodeando-a com os seus braços. 

Maria Madalena retira lentamente a túnica que a cobre, levanta os braços e deixa que descubra os seus encantos. 

Deitados, compartem sem pruridos os prazeres carnais, entregando-se, fogosos, ao pecado. 

Amanhece, Jesus desperta junta à nota de Maria Madalena: 
Bons dias meu amor, recorda que terça-feira ficámos de nos disfarçar de Marco António e Cleópatra”.
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sexta-feira, abril 11, 2014

- Para garantir a máxima concentração dos nossos cirurgiões, solicitamos aos pacientes guardar absoluto silêncio. Pelo menos, enquanto perdure a greve dos anestesistas!
(Num hospital perto de ti)

TERAPÊUTICA

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A minha disfunção eréctil, conjugada com a frigidez que causava à minha mulher, empurrou-nos para uma consulta com um famoso sexólogo nos arredores. 

 

Àquele médico jovem, depois de explicar-lhe a nossa vida sexual, desnudou a minha bela esposa diante dos meus olhos, indicando-me como devia estimulá-la.

 

As suas mãos percorreram a pele de Raquel com suavidade, detendo-se ao mínimo suspiro que ela emitisse. 

 

O rosto de Raquel revelava voluptuosidade, gozo e assombro quando as pontas dos dedos friccionavam, sem cessar, o rosado das suas auréolas e o turgido dos seus mamilos. 

 

 

 

Comprovei que as suas bochechas se afoguearam quando o médico acercou os seus lábios à parte interior das coxas. 

 

A minha esposa consentia pressionando a cabeça do médico contra o seu ventre; senti um prazeiroso formigueiro percorrer a minha pélvis. 

 

Consegui ter uma bela bem firme erecção, quando a levou ao orgasmo, penetrando-a sobre a marquesa. Enquanto Raquel se vestia entusiasmada, paguei ao médico agradecendo-lhe o seu êxito. 

 

Muito amavelmente, recomendou-nos marcar nova consulta para prosseguir a terapia para um tratamento mais personalizado.

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quinta-feira, abril 10, 2014



- O amor furtivo é tão agradável para uma mulher como para o homem: o homem não sabe dissimulá-lo, mas ela deseja-o mais escondidamente !

SINAIS AO TEMPO

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Não fico satisfeito em espreitar-te através das cortinas e atrás da janela, vizinha, quero tocar-te cada dia pela manhã. 
Sobretudo pela manhã, na primeira hora, quando estás sem maquilhagem, quando ainda ninguém te colocou a manápula em cima. 
Ser o primeiro a acariciar a tua cara, o teu peito, o teu pescoço, essa melena dourada. 
Sem maquilhagem, sem lacas, sem extensões nem estiramentos. 
Sem pestanas postiças nem lábios delineados. 
Tenho o meu quarto cheio das tuas fotografias. 
Todos os que consegui encontrar na internet. 
É o bom que tem o seres famosa. 
Encontro centenas de fotos tuas. 
Disfarçada de natural. 
Mas sempre com outros. 
Nunca comigo. 
Sei onde tens tudo até ao sinal ou verruga mais pequeno, pelas tuas poses na espanhola Interviú

 

Mas não, não gosto de exibí-los num quadro no meu quarto. 
Gosto de imaginá-los de noite. 
Os teus sinais como luas novas. 
Comprei um telescópio para vê-los a partir da minha janela, enquanto te despes, languidamente, para te meteres na cama. 
Enquanto calças umas meias coloridas e zebradas para desceres a correr pelas escadas com os sapatos na mão para não caires rolando. 
Na lufa-lufa do dia, na acalmia da noite. 
Olhar os teus sinais e verrugas. 
Trinta e dois sinais. 
Tens trinta e dois sinais. 
Tenho quase a certeza que nunca os contaste. 

 

É certo que nunca te poderei dizer que te amo, nem te poderei contar que no meu quarto guardo uma foto de cada sinal. 
Decerto que qualquer dia te irás do terceiro andar do bloco defronte e eu terei que guardar o meu telescópio. 
Certamente que então porei um nome a cada lua nova do teu corpo e criarei um universo paralelo em que continuarei a sonhar contigo. 
Até lá… sim, por favor, descalça de novo as meias, gosto do sinal na tua virilha. 
A esse, quando partires, chamar-lhe-ei Estrela em tua honra. 
Pequeno. 
Oculto. 
Insinuante. 
Como tu atrás das cortinas.
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quarta-feira, abril 09, 2014


- Antropologia é o estudo do homem a abraçar a mulher !

JOGADOR

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Apaixonava-o jogar xadrez e transportava sempre, num dos bolsos, um pequeno tabuleiro portátil com as respectivas peças. 

Assim que subiu para o comboio, travou conversa com o companheiro de viagem que ocupava o assento situado em frente ao seu e instou-o a jogar uma partida. 

O convidado negou-se. 

— Conheço muito pouco, quase nada, do jogo ciência — respondeu-lhe cortesmente. 

Então ele insistiu com tanta porfia que conseguiu convencer o renitente viajante. 

Iniciou-se a partida. 

Como o seu forçado oponente jogasse de forma inusitada, extravagante, perdeu a serenidade, caiu no erro, e ao quarto movimento, deixou um cavalo à mercê das peças inimigas. 

O seu adversário, talvez distraído, ia passar ao lado da jogada que o favorecia, mas ele, cavalheirescamente chamou-lhe a atenção. 

 


Coma o cavalo, disse-lhe, assinalando a peça indefesa. 

O cavalo? 
Essa peça é uma cavalo? 
Quere que eu o coma? 

Sim. 
É imperativo que o coma. 
Não quero vantagem. Por favor, coma-o. 

Se o senhor o pede tão ferverosamente…, disse com voz submissa. 

Pegou na peça que lhe assinalaram e engoliu-a de um trago. 

Nesse instante levantou-se pressuroso, aproveitou a baixa velocidade do comboio, que se acercava de uma estação, saltou para terra e afastou-se em ligeiro trote, relinchando, por uma vereda que seguramente o conduzia a um estábulo por perto. 
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terça-feira, abril 08, 2014


- Falo em italiano quando como pizzas, em espanhol quando como paella, em inglês quando como pudding, em alemão quando como salsichas, em francês quando como mulheres e em mandarim quando falo com Deus !

OS MEUS MONSTROS

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Os meus monstros não são originais: visitam-me sempre de madrugada. 

Os meus monstros sempre viram muito cinema mau: entram sempre pela varanda. 

Os meus monstros começam pela sala: riscam o parquê, estragam a minha biblioteca e violam as minhas janelas. 

No corredor mordem os quadros e lambem a textura rugosa das paredes. 

E sempre que entram no meu quarto encontram-me sentado na cama, abraçado aos meus joelhos, sereno como uma estátua, com um sorriso do tamanho de uma dissimulação e com os meus olhos cravados em todos eles, que dançam em meu redor e riem, e gritam e enchem de baba os meus lençóis. 

Quando se aborrecem, um deles agarra-me pelo pescoço e maldiz-me enchendo a minha cara com o seu bafo envelhecido. 

E, tal como vêm, se vão. 

Quando o ruído dos meus monstros cessa, começa o meu: um pranto infantil, uma tremedeira de todo o meu corpo que agita a cama, um grito de dor interior que greta as paredes. 

E a certeza de que voltarão a visitar-me muito brevemente; voltarão a destruir o que me pertence e a encontrar-me tranquilo sobre o meu colchão, engolindo o medo que depois vomitarei. 

Porque os meus temores não são originais.
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domingo, abril 06, 2014


- O que nos tirará da crise será o sector da destruição !

ESTRANHO VIZINHO (PARTE II)

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... CONTINUAÇÃO 



Chegado ali, abriu o frigorífico e sacou uma lata de cerveja Finkbrau, do Lidl: a primeira em muitas semanas, tal como se tinha comprometido consigo próprio, na noite anterior ao seu primeiro dia de trabalho. 

Olhou-a longamente, abriu-a, voltou a olhá-la e quase de um só trago, e sem se separar do frigorífico, bebeu-a. 

Já vazia, deixou-a na bancada. 

Com a garganta fresca, foi até ao seu quarto, despiu-se olhando a sua cama como se da sua defunta esposa se tratasse e deitou-se. 

Tinha imaginado inúmeras vezes este momento: enquanto o sol e o cansaço o golpeavam com força e o muro custava a crescer, ele via-se sobre o seu colchão, mergulhado num longo e completo sono. 

Mas a imaginação é isso mesmo: imaginação. 

A realidade era um homem esmagado que não podia nem fechar os olhos porque, quando o fazia, centenas de fileiras de tijolos e toneladas de cimento esmagavam a sua paz de espírito. 

Era impossível. 

 

Voltou a rezingar algo, mas desta vez sim, entendeu ele mesmo o que se escapava entredentes: um “p*ta que pariu”. 

Depois desse “p*ta que pariu”, levantou-se, voltou à cozinha ás escuras e bebeu outra cerveja. 

E outra. 

E outra. 

E da cerveja (que, entretanto, acabara), passou ao vinho e do vinho ao whisky e do whisky a deixar cair, sem amortecer, a sua cabeça sobre a mesa. 

E daí até despertar, treze horas depois, olhando através da janela da cozinha o seu muro, cheio de um imenso e vermelho.

 Porquê? 

Estancou o génio do seu amanhecer e alegrou-se (e pela primeira vez em muitos anos a sua alegria, sim, era como a nossa; chamar-lhe humano, agora sim, era justo) de não saber a resposta e de ter aprendido, por fim, a viver num mundo no qual podia fazer as coisas sem qualquer razão, sem nenhum porquê.
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sábado, abril 05, 2014


- Depois de tantas reformas laborais, a qualquer coisa chamam trabalho !

ESTRANHO VIZINHO (Parte I)

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Só descansava para dormir e fazia-o apoiado na parte do muro que tinha erguido na anterior jornada de trabalho. 

Comer, comia, com uma mão, alguma fruta que agarrava da sua abandonada horta, enquanto com a outra prosseguia com o seu labor. 

O dia, de que nos ocupamos, fez o que fazia cada dia ao terminar, ao esconder-se o sol, o seu rotineiro trabalho: afastar-se uns passos e olhar o resultado a partir de uma perspectiva de pinacoteca. 

Como de costume, franziu a testa e, como quase sempre, colocou algum problema coçando a sua suada cabeleira e resmungando algo que nem ele sabia o que era. 

Mas desta vez havia algo diferente: o muro já estava acabado. 

Tinham-se acabado as maratonas de “tijolamento”; acabaria por dormir o necessário. 

 
 
Acabou-se, supôs ele, ao acercar-se para confirmar a estabilidade do muro e a necessidade de revogar de novo algumas partes com cimento e a curiosidade dos vizinhos, que lançavam palpites sobre a profunda razão pela qual o estranho vizinho tinha decidido, apesar de não ter uma moradia a menos de cem metros em redor, alçar uma parede de cinco metros, num bairro em que a tranquilidade reinava desde o final da revolta dos anti-Terry Richardson e, além disso, dormir mal debaixo da fria Lua, em lugar de fazê-lo no aconchego dos seus cobertores. 

Feitos os diversos testes e comprovações e achando-se razoavelmente satisfeito (o seu “razoavelmente satisfeito”, não era como o do resto dos mortais; chamar-lhe exigente era um eufemismo), entrou em sua casa, respirou o pó que impregnava o ar e dirigiu-se, a passo lento, para a cozinha. 
... CONTINUA

sexta-feira, abril 04, 2014


- A mulher que renuncia a martirizar vários homens e prefere encarniçar-se com um só, é a esposa permanente !

UTOPIA

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Ontem à noite estive mesmo para atropelar um palhaço. 

Na realidade a culpa não foi de ninguém, ou se foi… 

O palhaço caminhava pela borda do passeio com um pedestal debaixo do braço e, de repente, o pedestal resvalou justamente para a frente do meu carro. 

Instintivamente, tratou de agarrá-lo antes de cair no chão, eu por sorte, consegui travar a tempo: o meu carro ficou a poucos centímetros da sua cabeça. 

Ao ver que não tinha sucedido absolutamente nada, o palhaço levantou os olhos na minha direcção, apoiou-se na ponta do capot e lançou um suspiro de alívio. 


Uma vez recomposto do susto, acercou-se da minha janela, sorriu e fez o gesto de entregar-me uma flor imaginária. 

Eu "apanhei-a" pelo pé e continuei a marcha. 

Foi absurdo, mas fiquei com a flor imaginária na mão durante um momento e depois, fingi deixá-la no porta-copos do tablier. 

Imediatamente surgiu a boazona da minha vizinha do 3º Dto. 

Esfreguei as mãos de contente.

Dei-lhe boleia e notei que se fixava no porta-copos. 

– Bonita flor, disse-me. 

Banzei. 
Não percebi patavina, mas ás vezes, sobretudo com mulherões como aquela, o melhor é isso mesmo: não entender nada.
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quinta-feira, abril 03, 2014



- Não há nada como o amor de uma mulher casada. É uma coisa de que nenhum marido tem a menor ideia !

FALAR PRÓ BONECO

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 Giuseppe Dangelico (Pino Dangelico)

Não sou daquelas pessoas que consultam e tentam tirar as suas dúvidas com o travesseiro; de facto, para mim, o meu travesseiro não fala, se aperto muito a cara contra ele pode escutar o meu próprio coração, mas ele, como se sabe, nunca foi um bom conselheiro. 

Nem tão-pouco me incluo nas pessoas indecisas que consomem meia vida para tomarem decisões. 

Tenho tudo muito “arrumado” e bem esclarecido, 

- Coca-cola ou Pepsi ? 
Cerveja!

- Carne ou peixe ? 
Carne!

- Frio ou quente ? 
Frio!

- Acima ou abaixo ? 
Talvez os dois, pois há momentos para tudo ao mesmo tempo (ritmado)!

Tudo bem se te equivocas numa decisão fácil, é possível que um dia entres numa pizzaria e quando estejam a ponto de te servir a tua quatro estações com dupla dose de queijo penses, “merda, agora mataria por comer uma posta mirandesa com três dedos de altura”, mas tudo bem, porque seguramente também desfrutarás da quatro estações com dupla dose de queijo. 




As decisões importantes? 

Bom, suponho que todo o mundo tem claro este tipo de coisas, não é ? 

A gente sabe se quer ter filhos ou não, se quer viver no campo ou em pleno Central Park. 

Se amam o seu parceiro ou se aguentam por costume.

A única coisa que os torna hesitantes e seres temíveis, é a ideia de desistir de tudo, uma vez que foram eles que escolheram.

quarta-feira, abril 02, 2014


- A mulher perde a sua virgindade quando quer, o homem, quando pode !

BALANCEIOS

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Nos meus quase oito anos de blog atingi todos os extremos da psique imaginável. 

Já me chamaram, num bar, fascista e comunista, uma leitora chamou-me arrogante e chato num pequeno intervalo de apenas três ou quatro sorvos de Chivas, outra ofereceu-me a sua cama via Whatsapp e ao abrir-me a porta lançou-me à cara um DVD dos Radiohead (que certamente ainda conservo). 

Já me chamaram misógino, machista, efeminado, estulto (tive que ir ver ao dicionário), maníaco, sociopata de sofá, inventor dos “tomates”(?), liberticida, ameaçaram-me de morte "prá" aí umas oito vezes (sete das quais eram mulheres), partiram-me um espelho retrovisor do meu táxi com uma pedra envolta numa nota escrita: 
(“Não te queixes pelo espelho. 
O meu coração também está partido em mil pedaços por tua culpa”, dizia a nota).

 

Recebi quatro notificações policiais (uma delas por tentar atropelar uma mulher numa avenida da Cidade do México; país onde nunca estive), quatro usurpações de identidade (duas no Twitter, uma no Facebook e outra num daqueles sites onde se procura "carne", digo, parceiras), dei um autógrafo numa nádega de um indivíduo que podia ser meu pai, quiseram convidar-me para uma sala de “chuto”, heroína, maconha, cogumelos…, speed, êxtase, pastilhas, tartes de queijo, multas, viagens, visitas ao Zoo, putas, travestis e incluso vapores de gasolina (uma tipa insistiu em pagar-me cinquenta euros de gasolina, mas o meu táxi é a diesel), autografei livros que nunca escrevi, num convento, numa sala de espera da urgência de um hospital, em dois comissariados de polícia, num centro de planeamento familiar, numa oficina de chapeiro clandestina, em diversos semáforos, do meu táxi para outro, (o que se consegue fazer com o que se não fez). 

 

E com todo este dinheiro que não ganhei ao longo destes anos, mais de metade foi gasto em terapias e o restante em psicofármacos, álcool, computadores portáteis (esqueço-os nos bares depois de meia dúzia de “entornos”, ou que estropio, derramando néctares, que deveriam ser imperdíveis, sobre os teclados, multas e como não podia deixar de suceder nas mulheres de “bom” porte, suporte, decote, pacote e rapidez de movimentos de vaivém, que eu por aí desempacote. 

Nada de fracote. 



Mas se voltasse a nascer, não duvidem nem um segundo: faria exactamente o mesmo.
 
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