O VIDEIRINHO

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

- O político converte-se num estadista quando começa a pensar nas próximas gerações e não nas próximas eleições !

AREIAS TINGIDAS

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Não há copo meio cheio e meio vazio, senão sede de mudança. 

Bebo um trago: o whisky oprime mais do que afoga. 

Penso na Líbia, penso em Gadafi. 

Peço outro whisky. 

Brindo ao ar, à brisa morna das pás do ventilador de tecto. 

Nisto, uma mosca choca contra o meu copo. 

Apesar do impacto a mosca consegue retomar o voo. 

Eu não. 

O meu táxi continua em segunda fila com os quatro piscas acesos, o taxímetro desligado e um cartaz, saído do meu punho e letra, à vista de todos: 
“Estou no bar. Não me buzines: Junta-te”. 

Iniciarei a minha revolução particular neste mesmo bar. 

Sem armas, sem câmaras nem microfones, só whisky. 


O mundo está feito em merda, amigo. 

Os representantes do meu país tiram fotos com ditadores em troca do petróleo. 

Mohamed VI, Teodoro Obiang, Chavez. 
Gadafi (ou Muammar al-Khadafi), este certamente o último führer do povo líbio, matando o seu próprio povo. 

A Galp na Líbia. 

O motor do meu táxi consome sangue humano. 

Fazem-me cúmplice do filho da p*ta. 

Peço outro whisky. 

A ânsia de poder corrompe-nos as entranhas. 

O dinheiro. 

As fronteiras. 

Governos que limpam o cu ao teu voto. 
Ao nosso voto.

PSD e PS, a mesma merda. 

Políticos corruptos arrasam nas sondagens. 

José Sócrates visita o ditador Kadhafi, Luís Amado abraça a cáfila do deserto. 

Ambos declaram: “é muito mais o que nos une que o que nos separa”. 


Alguém entra no bar. 

Oiço-o dizer: 
“De quem é este táxi?”. 

Até que enfim: o meu cartaz surtiu efeito. 

Será outro fastidioso com veneta de entrincheirar-se comigo em prol da sensatez. 

Volto-me para ele. 

É um polícia municipal. 

‘Caça-me’ com o whisky na mão. 

Aproxima-se. 

– Dou-lhe duas opções. 
Ou retira o seu táxi e submeto-o a um controle de alcoolémia, ou chamo o reboque. 

Selecciono a segunda opção e peço outro whisky duplo. 

Vou continuar aqui no bar, neste bar, até que alguém se junte e partilhe a minha luta. 

Ou acabe em coma.
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quinta-feira, fevereiro 24, 2011

- Existe apenas um bem, fazer amor; um mal, não acertar com o local ! (josé torres)

HEXACOSIOIHEXECONTAHEXAFOBIA (Parte II)

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… Continuação





“Os primeiros cristãos usavam números para ocultar a identidade de pessoas que queriam atacar: 616 referia-se a Calígula”, asseverou David Parker, professor de Paleografia e Crítica dos Textos do Novo Testamento, na Universidade de Birmingham.


Seja qual for, 666 ou 616, parece que era uma maneira secreta de escrever e referia-se especificamente a uma pessoa, não ao diabo.


Um revés para os clássicos de terror adereçados de “seises” (neste caso, o plural de seis, inventado por mim, eh!eh!eh!).


E para os que gastaram uma pequena fortuna para evitar o ‘ex’ número maldito.


Em 2003 a auto-estrada 666 nos EUA, foi rebaptizada como 491, segundo o descrito por John Lloyd e John Mitchinson em “O Livro da Ignorância Geral”, (edição da Ideias de Ler).







Moscovo renumerou em 1999 a linha de autocarros 666, (ironia demoníaca: escolheu o autêntico número da besta, o 616).


No Parlamento Europeu fica vago o assento 666, (são 736 deputados dos 27 países da União Europeia).


O medo ao número diabólico tem um nome, diabolicamente arrevesado de pronunciar, (Vade retro Satanas): 
hexacosioihexecontahexafobia.


Anotação do Trivial Pursuit”:
“Se somarmos os números de uma roleta, o resultado é 666”, acrescentam Lloyd e Mitchinson.





Como reflexão, não acredites em tudo o que te diz o catolicismo, são crenças e são simbolismos, tão rudes são, que fazem acreditar em todo o monólogo inconexo da numerologia (aproveitando-se da imensa ignorância que, Jesus é o messias – não vou falar da veracidade disto –) e que todos temos de ser católicos por isso.


São uns capos e pensar eu que há tanta gente que acredita nisso.


(O sete - da roleta - e o 666, não quero entrar na questão religiosa, mais do que atabalhoadamente entrei)

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20OUT2010

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

- Sei quem conseguiria mudar o mundo, mas para já só me é possível estar deste lado a escrever ! (josé torres)

HEXACOSIOIHEXECONTAHEXAFOBIA (Parte I)

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Numa viagem por aí… acabei por descobrir que o número do demónio não será o 666.

Afinal o número oficial do belzebu é o 616, segundo a cópia mais antiga que se conhece do Apocalipse.

(É também possível que 616 seja uma referência ao número da besta, do capítulo final da Bíblia, o Livro da Revelação).

Um papiro datado de há 1700 anos, foi recuperado numas escavações arqueológicas quando se tentava encontrar os vestígios das cidades de Sodoma e Gomorra, nas cercanias do Mar Morto.

Encontraram os restos de uma ant
iga cultura semítica, até ao momento desconhecida que, nos seus escritos, identificava o fim do mundo num futuro, com um ser ligado a três símbolos.

Foi decifrado em 2005 por uma equipa da Universidade de Birmingham.




O diário britânico “The Independent” publicou o fragmento recém-descoberto do Novo Testamento e confirma que o fatídico número é o 616.

São três símbolos repetidos que alguns associam ao fim do mundo.

Quando encontraram a possível pronuncia destes símbolos, chegaram à conclusão de que correspondiam à letra
“waw” que também se encontra presente no alfabeto hebreu, árabe e aramaico e que justamente representa a letra “W” do alfabeto latino, além de ser a sexta letra nos alfabetos hebreu, aramaico e fenício.

Então o 666 corresponderia ao “WWW”, um grupo de letras com muito significado para todos os que se encontram imersos na Internet e que corresponde à abreviatura do inglês de World Wide Web.




É isto que muitos especulam e dizem que será, precisamente, a Internet, no futuro, o elemento determinante que levará o homem à sua própria extinção.

A notícia que saiu à estampa, é dessas que deixam gelado qualquer um.

A figura do diabo é algo que assusta muitas pessoas, sobretudo os religiosos.

Um simples número, o 666, que foi protagonista de tantos filmes e que por muito tempo foi quase impossível de pronunciar por temor ás consequências.

Segundo os especialistas o texto está escrito em grego antigo e pertence ao século III. .


Continua…
18OUT2010
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segunda-feira, fevereiro 21, 2011

- Quem não compreende um olhar tão-pouco entenderá uma explicação !

ANCIANIDADE SEM ESPERANÇA

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A velhice não tem horários. 

O dia ou a noite são-lhe indistintos e para ela é o mesmo, quer seja um pequeno almoço quer seja um jantar. 

De todas as formas não toca na comida. 

As janelas da sua casa permanecem sempre fechadas. 

Nem sequer a luz do sol logra entrar nas húmidas habitações banhadas por uma ténue luz amarela das lâmpadas. 

Indiferente ás Primaveras, parece não envelhecer. 

Não sente calor nem frio, não transpira nem tremelica.


Simplesmente senta-se na sua habitação, como se fosse um busto esculpido em pedra e permanece imóvel. 

Ao não dormir, tão-pouco costuma despertar. 

Sem piscar os olhos permanece encerrada em sua casa, exilada deste imenso planeta onde ninguém se lembra dela. 

Há anos que não deixa o seu quarto, lugar onde vela o seu próprio corpo que jaz sobre o chão, estendido ao lado da cama, rodeada por um par de comprimidos.
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domingo, fevereiro 20, 2011

- Negociata é todo o bom negócio para o qual não fomos convidados !

ATENÇÃO TAXISTAS

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REMÉDIOS  E  MEZINHAS  PARA  COMBATER ENFADOS,  STRESSES  E  ABORRECIMENTOS :

1 – Abre as persianas (pálpebras) até que te doam.

2 – Pula da cama como a fugires do “velho do saco” ou do diabo, ou como este foge da cruz (dizem).

3 – Ducha-te cantando bem alto a canção que não sabes mas improvisas muito pior.

4 – Dejejua o que te der na real gana pois improvisas muito bem (como fizeste em 3 -).
  
5 – Sai para o trabalho sem lhe chamares trabalho, mas sim hobby (ama, motiva ou enriquece o que fazes e além do mais ainda te pagam ou recebes, por isso).

6 – Arranca com o teu táxi pensando: 
vamos ver que sorte de ‘freaks’ hoje me calham em sorte” (a incerteza é o melhor investimento contra o tédio) (e a redundância é propositada).


7 – Dá voltas pela tua cidade procurando as ruas que mais te motivam.

8 – Quando acolheres um qualquer passageiro, observa-o com atenção. 
Procura encontrar algo que o diferencie dos demais mortais (todos somos diferentes).

8.1 – Se algum passageiro te motiva em especial, retém-no. 
Qualquer escusa será válida para prolongar o trajecto: por exemplo, fingir uma avaria na auto-estrada, ires ao encontro de um engarrafamento, convidá-lo directamente para um café… etc…. desembrulha-me essa tua improvisação.

8.2 – Se alguma passageira te “motiva” interiormente, selecciona a canção apropriada e estuda bem os seus pontos fracos (todos os temos).


9 - Quando já tenhas saciado a tua carência do dia ou tenhas fome ou até um encontro, estaciona o táxi.

10 – Escreve alguma coisa, seja lá o que for, mas sempre com a intenção de provocar algo, qualquer que seja, no leitor e em ti mesmo. 
Escreve sem qualquer tipo de preconceito. 
Escreve mais e melhor do que ontem. 
Escreve como se não existisse um amanhã.

11- Procura um bar qualquer e celebra o dia.

12 – Dorme só quando tiveres sono. 
Nem antes nem depois.

13 – Segue o meu lema: 
Sou imortal enquanto não me demonstrarem o contrário”.
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domingo, fevereiro 13, 2011

- Quando conseguirá o ponteiro dos segundos superar a marca de 60 segundos para dar a volta ao círculo ?

MÓDICAS MULTAS

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Ontem chegou-me a casa outra multa de trânsito por uma infracção que não tenho a mais leve ideia de ter cometido. 

Segundo o papelucho, em 17/12/2010 (que coincidência coincidente, dia dos meus anos), ás 3 horas (da matina), circulava a 110 km/h num troço duma estrada limitado a 90. 

Naquela estrada não há nenhum radar fixo, pelo que, assim suponho, a foto junta, terá sido tirada por um qualquer veículo camuflado da GNR. 

Nessa foto posso ver com atemorizante nitidez, a traseira do meu táxi com a matrícula bem legível. 

No interior também pude divisar a minha silhueta com o cabelo “à escovinha”, por cima do encosto de cabeça e, a meu lado, no assento do pendura a silhueta de outra cabeça de cabelo comprido ondulado virada para mim. 



Não podia ser uma passageira (para além de viajar á frente, as luzes exteriores do tejadilho estavam desligadas), tão-pouco um qualquer relacionamento fortuito da noite (recordar-me-ia). 

Peguei numa lupa e fiz uma biopsia à foto. 

Não reconheci a fulana, mas pareceu-me que estava a falar comigo e a sorrir-se ao mesmo tempo. 

O caso é que tinha um perfil atractivo e uns caracóis desses que parecem espirais de infinitas voltas. 

Era a exacta criatura dos meus sonhos e tal e qual eu imaginava uma mulher arrebatadoramente sedutora. 

Aquela mulher que aparecia na foto, nunca existiu mas sempre ansiei que existisse: uma mulher de caracóis de ouro e perfil grego, sempre a meu lado, no meu táxi, fugindo os dois para Sul, mais rápido que os radares, como viciados em busca da urgência, do sal do mar.

A óptica daquele radar tinha conseguido captar o etéreo dos meus desejos em forma de mulher. 

E tudo por só 60 euros. 

Parece-me que é barato.
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sábado, fevereiro 12, 2011

- Um ladrão é um comerciante da escuridão !

FABULOSO

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O bom de falar com desconhecidos que não voltarás a ver é que podes fingir ser outro... inventares outras vidas sem te denunciares. 

A um passageiro ontem, disse-lhe que o táxi, na realidade, era do meu pai e que eu trabalhava pelas tardes para pagar os gastos com mulheres e vinho, para além dos estudos… 

E o que estuda? Perguntou-me. 

– Teologia, disse-lhe. 
Foi a primeira coisa que me veio à cabeça. 

– Prepara-se para padre? Perguntou-me. 

Já não. 
Quis sê-lo, mas acabei por abandonar o seminário. 

 
– Uma dessas crises de fé? 

– Não exactamente. 
Uma mulher. 

– Quer dizer que abandonou o seminário por uma mulher? 

– E acabei por casar com ela e ter um filho. 

– Bom, pelo menos formou uma família. 
Poderá educar o seu filho nos valores cristãos. 

– Duvido. 
A minha mulher e eu separámo-nos faz três meses. 

– Puxa! Disse o homem surpreendido. 

– E ainda por cima abarbatou-se com a casa e com o filho, que lhe parece? 
Nem sequer me deixa vê-lo! 
Que Deus me perdoe, mas… valente filha da p*ta! disse, exaltado. 


– Sinto-o… 

E eu agora, já me vê: com 50 anos, a viver em casa de meus pais, que são uns santos, tratando de retomar a minha vocação pelas manhãs e trabalhando o táxi do meu pai pelas tardes.

É que quando se tira a fé a qualquer um, tira-se-lhe tudo. 

NOTA: 
O passageiro deu-me quase cinco euros de gorjeta. 
Foi então que soube da minha vocação frustrada. 
A de actor.
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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

- Ah, o eterno feminino! 
Dizia o indivíduo cuja mulher nunca mais morria !

AMORES A DOIS

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Depois de saber que Natália, o meu borracho, não podia esquecer-se da sua ex, depois de saber que esse ex não era um homem, mas sim uma mulher, depois de saber que essa sua ex se chama Eduarda, o mesmo nome da minha ex Eduarda, compreendi que lá no fundo eu também continuava enamorado da minha ex, não de Natália. 

Mesmo assim, ou precisamente por isso, Natália e eu decidimos continuar a nossa relação de namoro. 

Agora Natália utiliza-me para esquecer a sua Eduarda e eu utilizo-a, a ela, para esquecer a minha. 

Somos a nossa mutua terapia. 


A simbiose perfeita. 

O curioso é que agora nos entendemos melhor do que nunca. 

Falamos muito, abertamente: ela da sua Eduarda e eu da minha. 

Também fazemos amor com muita mais frequência. 

O sexo converteu-se numa rotina tão estranha como deleitosa. 

Agora sempre que nos começamos a beijar parece que ambos procuramos os lábios da Eduarda, de duas Eduardas distintas mas unidas pelo seu mesmo nome. 

Como se estivéssemos os dois a beijar a mesma pessoa que não seja ela nem eu. 




Inclusivamente excito-me só de pensar que Natália pensa na minha Eduarda e eu na sua, enquanto me beija. 

Finalmente, também me excita pensar na sua Eduarda. 

Não sei o fim que isto terá mas, de momento, parece que funciona. 

Lambermos as feridas mutuamente, está a ajudar-nos a esquecer e a recordar ao mesmo tempo. 

Assim como os outros casais, mas com mais animalidade.
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quinta-feira, fevereiro 10, 2011

POSTIGO DO CARVÃO



"Polvo assado no forno" 

- Não te esqueças de provar.

A amabilidade e o profissionalismo sempre presentes.

Atreve-te e já agora convida-me!!!
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- Uma amiga deve ser como o dinheiro; o valor já conhecemos, falta saber a qualidade do material ! (josé torres)


OBCESSÃO (II)

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... Continuação

Natália saiu da RTP, mais ou menos à hora que eu calculei e apanhou o primeiro táxi na postura. 

Parado no outro lado da rua arranquei com o meu e, mantendo uma certa distância prudente, de três ou quatro carros, dispus-me a segui-la. 

Atravessámos a ponte, circulámos por diversas ruas até à rua Júlio Dinis. 
 
Deteve-se frente a uma entrada de prédio, vi-a pagar, saiu do táxi e entrou no portal do prédio. 

Estacionei e dei uma pequena corrida para entrar logo atrás dela. 

Escutei a fechar-se a porta do elevador. 

Acerquei-me e comprovei o seu destino: quinto piso. 

Com este dado procurei nas caixas do correio de algum quinto piso onde aparecesse o nome de Mário Coração. 

Encontrei-o imediatamente. 

Tinha que ser aquele. 

Era no 5º, sala F. 

Tinha a seguinte indicação: 
“Mário G. R. – Psicanalista”. 

Natália nunca me mencionou que consultara qualquer psicanalista. 

A ser assim, por que o tinha como “Mário Coração” no seu telemóvel. 

De qualquer maneira saí dali. 

Apenas duas horas depois recebi uma chamada da Natália. 

Parecia furibunda: 
- Por que leste as mensagens do meu telemóvel? Perguntou-me antes de desligar. 

– Um momento. 
Bom, dois. 
Necessito ver-te. 
Quem raio é Mário Coração? 

– O meu psicanalista, disse-me. 

– Desde quando tens um psicanalista? 
Por que lhe chamas Coração? 

– Chamo-lhe coração porque me ajudou a superar a minha ruptura com a Eduarda. 

– Espera lá. Eduarda? 
Quem é essa Eduarda? 

– É… era a minha noiva. 

– Tua noiva? És lésbica? 

– Não. Sim. Não sei… 

Desatou a chorar. 

– Bissexual? 

– Não o entenderias…, disse-me entre soluços. 

– O quê? 
Tenho uma namorada lésbica? 

– Liguei ao Mário porque de repente lembrei-me muito dela… 

– Enquanto jantavas comigo? 

– Pensei que só me conseguiria esquecer saindo com alguém completamente oposto. 

– Porreiríssimo. 
Nem mais nem menos, que aqui, com este tipo. 

– Necessito continuar a teu lado Zé. 
Estes dias têm sido incríveis. 
Amo-te. 

– Adeus. 

Desliguei confuso. 
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quarta-feira, fevereiro 09, 2011

- Sou monoteísta.
O meu único deus?
Um corpo de mulher !

OBCESSÃO (I)


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Enquanto Natália toma banho, toca o seu telemóvel. 

Sinal de SMS. 

Gatinho meio colchão até à sua mesa-de-cabeceira, olho para o ecrã e leio: 
Uma (1) mensagem de Mário Coração”. 

Fico estarrecido, meio morto. 

Que raio, quem é Mário? 
Porquê Coração? 

Carcomido por dentro abro a mensagem e leio: 
Esta tarde ás 7 e meia?".

Debaixo aparece outra mensagem anterior enviada ontem pelas 22,30h de Natália para o tal Mário Coração: 
Necessito ver-te”. 

Ontem aquela hora estava a Natália comigo a jantar num restaurante japonês. 

Recordo que se ausentou um par de vezes para ir ao WC. 

Enviou-a a partir daí. 

Não há dúvida. 



Volto a pousar o seu telemóvel na mesa-de-cabeceira. 

Desabei-me. 

A Natália continua no duche. 

Não posso suportar o ruído da água. 

A água a cair sobre a suja cabeça de Natália. 

O impacto de cada gota de água no sacana de cada recanto do seu corpo desnudo. 

Cada gota agora convertida na língua daquele Mário lambendo o seu pescoço, descendo até aos seios, aos seus cálidos mamilos, ás suas costelas, ao seu ventre, ao seu triângulo com um escanhoado bem apurado, à sua infectada ferida (não mais do que a minha…). 

Natália acaba o duche. 

Silencia-se a água mas a língua de Mário continuará esta tarde, ás sete e meia, lambendo o seu corpo e violando a recordação do seu tacto na minha cabeça. 

Sai do WC com uma toalha em redor do corpo bastardo. 

– Já estás desperto? Pergunta-me sorridente. 

– Sim, digo-lhe. 

– Dormiste bem?

– Sim, volto a dizer. 

Não faço nada. 

Prefiro esperar pelas sete e meia. 

Seguirei como um fantasma os passos da Natália desde o seu curro até á porra do Coração. 

Quero surpreendê-la em flagrante. 

Necessito ver as suas duas caras. 

As duas caras da Natália.

CONTINUA...

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terça-feira, fevereiro 08, 2011

- Natália, desfrutemos da luxúria, do sexo e da paixão, façamos amor cada dia e nunca me digas não !

VIAGEM EM SILÊNCIO

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Nunca participo nas conversas privadas que mantêm entre si os meus passageiros, mas dado as dimensões do habitáculo de um táxi, tão-pouco posso evitar escutar o que dizem. 

Os homens, naquela ocasião, começaram a falar de doenças, de vírus, de fármacos raros. 

Dado o seu verboso conhecimento (seriam médicos, supus), apenas consegui entender palavras soltas: plaquetas, glóbulos vermelhos, rinovírus, anticorpos… 

Anticorpos, anticorpos… 

 
Curiosa palavra, pensei eu. 

Anti, prefixo que significa “em lugar de “ ou “contra”, seguido do lexema ou semantema “corpo”. 

Fazendo um guisado disto, teríamos algo como, “no lugar do corpo” ou “contra o corpo” .

Contra o corpo? 

O que pode existir contrário ao corpo? 

Conheço gente complexada com o seu físico, que não gosta dele ou rechaça-o. 

Em tais casos, poder-se-ia dizer que a mente estaria contra o próprio corpo. 

Que o anticorpo seria, precisamente a sua cabeça. 

Mas também, se a mim me derem a escolher “em lugar do” meu corpo, prefiro o corpo da Natália. 


Deleito-me mais com a sua pele do que com a minha. 

As suas curvas, as suas nádegas, o seu ventre, o seu peito, o seu pescoço, o seu andar bamboleante… 

Será a Natália, por acaso, o meu particular anticorpo? 

Mal se apearam os médicos (?) do táxi, telefonei à Natália: 

- És o meu anticorpo, disse-lhe. 

E desliguei. 

Minutos depois recebi um SMS dela: 

Não pude evitar encerrar-me no quarto de banho da redacção para masturbar o teu anticorpo enquanto penso em ti”.
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domingo, fevereiro 06, 2011

- Esquivar-se da filosofia é, certamente, filosofar !

“ O PROTAGONISTA”

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Ontem encontrei novamente a Natália. 

Propôs-me um “negócio” em que ela servia de isca. 

A ideia consistia em fazer entrevistas fictícias aos clientes do meu táxi (valendo-se de um microfone da RTP que trouxe “emprestado" lá do trabalho), um plano para repórter co-piloto, enquanto eu conduzia. 

Queria com isso que me fixasse na mudança que experimenta qualquer pessoa quando acredita que o seu testemunho será escutado por milhares de ouvintes. 

Há uns tempos reparei neste curioso, mas inversamente. 

Quando alguém gravou com uma câmara oculta e os “pessoais” não sabiam que estavam a ser gravados até ao final da brincadeira. 

Quando se inteiravam, a grande maioria raciocinava com um certo nervosismo, encantados por aparecerem na TV. 

Inclusivamente falavam ao telefone para dizer ( a quem estava do outro lado da linha) o que lhes acabava de ocorrer e que, sorte a deles, iam sair na televisão! 


Assim, Natália sentou-se ao meu lado e de microfone na mão, começou a abordar cada cliente. 

Não havia gravação alguma. 

De facto, ligou o outro extremo do cabo a um pacote de lenços dentro do seu bolso. 

Imaginai a sequência: entra o cliente para o banco traseiro, dá-me as indicações da viagem e então a Natália diz: 

– Olá! Sou a Paula Fino do programa, “Praça da Alegria”. 
Conhece-o? 

– O do Jorge Gabriel e Sónia Araújo? 

– Sim, sim, esse. 
Agora vão ter uma nova rubrica, “O Protagonista do dia”. 
Sabia? 

– Não. 
E de que trata? 

– Cada dia escolhemos um cidadão ao acaso e convertemo-lo no protagonista. 
Hoje, foi você o escolhido, o que lhe parece? 

– Não sei… o que tenho que fazer? 

– Contar-nos o que quiser. 

– E isto é escutado por muita gente? 

– Milhares e milhares, de Norte a Sul do país, incluindo as ilhas e a RTP África.


– Está bem. 
Espere que tire o casaco. 

Ao longo do dia de ontem foram sete os clientes “protagonistas” de um total de oito. 

Só um declinou a proposta da Natália (alegou que não tinha nada importante para dizer, nem ninguém em especial para se dirigir; mas contou-nos igualmente a sua vida, com o microfone fechado. 

Os sete restantes, antes de iniciar a suposta gravação, modulavam a voz de um modo diferente e os seus gestos, efectivamente, mudavam. 

Ficavam mais hirtos. 

Mais solenes. 

Uma cliente chegou até a dizer-nos: 

- Espere, espere. 
Não comece já a gravar… e passou as mãos para afeitar o cabelo. 

– É só um microfone, não uma câmara, senhora, aclarou Natália, esforçando-se por conter o riso. 


Ao finalizar todos eles perguntaram quando era transmitida a gravação. 

– Amanhã mais ou menos ás 11,30 h será o protagonista do dia, disse-lhes a Paula Fino, aliás Natália, a cada um deles. 

Todos eles, enfim, amanhã ás 11,30 estarão de olhos na TV. 

Eles mesmos e muitos familiares e amigos também (estes acontecimentos correm céleres). 

Agora deleitar-me-ia saber como reagirão quando não se virem ou se dêem conta de que esse programa nem sequer existe. 

– Chingados, dizes? 
Não o creio. 
Pelo menos, durante uns instantes, sentiram-se protagonistas.

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