O VIDEIRINHO

terça-feira, março 15, 2016


- O apóstolo Pedro foi crucificado em Roma, de cabeça para baixo, numa cruz em forma de X.

O apóstolo Paulo foi torturado e depois decapitado pelo maligno imperador Nero em Roma em 67 d.C.
Ó tempo volta para trás !

ESQUECER

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Hoje escrevo de Roma, cidade eterna. 

Participo num colóquio sobre mobilidade urbana, que o Sindicato dos Tesos e Motoristas de Táxi teve a lembradura de organizar longe do bulício da minha cidade, que não é tão eterna, mas é “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta”. 

Compartirei mesa, se encontrar uma mesa, com grandes cérebros taxistas, ou tesos de nível mundial. 

É tudo um luxo. 

Cheguei de táxi e avião, ou de avião e táxi, (a ordem pouco importa), há apenas umas horas. 

Depois de me instalar no hotel e comprovar que o vermelho, aqui também, corresponde à água quente, deu-me para sair à rua e seguir o primeiro viandante com que me cruzasse. 

É a minha particular forma de fazer turismo. 


Primeiro segui um homem carregado de carteiras, mas acto contínuo meteu-se num portal e perdi-lhe a pista. 

Depois comecei a seguir um casal que caminhava da mão dada, em passo lento. 

Pareciam innamorato

Depois de dez ou quinze minutos a prudente distância, entraram num café, e eu segui-os. 

Sentei-me um par de mesas afastado e pedi uma cerveja. 

Ele levantou-se e foi ao quarto banho e depois de regressar não sei muito bem porquê, começaram a discutir. 

Em italiano, pois claro. 

Ela parecia realmente ofendida por algo que não cheguei a compreender. 

Logo o "boy" pagou a conta e arrancou sem ela. 

Também paguei a minha e segui-o.

 

Aquele tipo conduziu-me a outro bar. 

Começou a beber só. 

Eu também. 

Pensei que aquilo acabaria rapidamente, mas ele pediu outra bebida e depois outra e mais outra. 

E assim, por culpa do despeito daquele desconhecido, acabei às duas da madrugada bêbado e perdido.

Literalmente. 

Não só perdi o meu sentido de orientação; também a chave e a direcção do hotel. 

E assim, desta maneira, perdido como estava na imensidão histórica de Roma, senti-me livre. 

Não encontrar a forma de chegar a casa e tão longe de casa, converteu-se no melhor caminho para me esquecer de ti.
25NOV2011 
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segunda-feira, março 14, 2016

- Sê céptico com os cientistas. 
Essa gente trabalha para grandes grupos. 
Dizem que os telemóveis matam, mas também o disseram do tabaco e olha para ti, continuas aí !

VONTADES

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Suponhamos que todos os dias começamos planos: sem cor, nem olor, nem sabor, nem tacto. 

Suponhamos que cada manhã, nos sentimos obrigados a erguer as nossas vontades desde o zero, procurando matizes ou argumentos que lhe deem  volume e resposta a cada gesto. 

Suponhamos que essa soma de gestos acaba por criar, pouco a pouco, o nosso mundo. 

Um mundo diferente cada dia que se destruirá imediatamente ao cerrar os olhos, todas as noites. 

Já sabes, reais motivos que ajudam a levantarmo-nos da cama, ou a preparar o primeiro café do dia, ou a escolher entre um colete de tweed ou uma camisola ás riscas, ou a sair de casa rumo a esta ou aquela direcção; não por inércia, não como uma de muitas condutas aprendidas, mas sim porque realmente sintamos alguma motivação ou finalidade concreta em nos levantarmos da cama, ou nesse café com dois torrões de açúcar (porquê sempre o mesmo café e não o mudamos, talvez hoje, pelo sumo de pera?), ou no par de calças com pregas, ou em seguir a direcção exacta. 

 

Realmente acreditas que tudo o que fazes te apetece, te edifica, te surpreende  ou a maior parte das vezes são só cópias do teu passado, uma e outra vez? 

Somos tradicionalistas ou só apáticos? 

Acreditamos realmente que a vida é tão longa e monótona, ou a culpa é nossa? 

Desde os meus primórdios ao volante deste táxi e por arrasto com o meu “INSÉTE”, nunca comecei a trabalhar à mesma hora, nem segui um mesmo itinerário, nem sequer repeti uma linha na minha escrita. 

Nunca transportei duas vezes a mesma passageira, nem imaginei dois corpos desnudos iguais. 

Tão-pouco ganho em dois dias o mesmo dinheiro, nem acabo sempre no mesmo bar, ou na mesma cama, brindando com a mesma marafona. 


Deixo-me levar pelas luzes, pelo âmago exacto das sensações que gere cada rua, definitivamente, por essa capacidade de assombro que todos temos (ainda que alguns não a usem). 

E os dias mais difíceis, esses que exalam a tédio, visto-me com roupa interior feminina  e tudo muda e torna-se fascinante.

Nada melhor que jogar a ser outra personagem. 

Nota: 
As vontades nunca chegam sós: procuram-se. 

Conheço uma narco-vontade em cada esquina. 

E sim. 

Reconheço: sou viciado.
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sábado, março 12, 2016


- A sua vida era um tango de Gardel.
A minha, um cubo de Rubick nas mãos de um daltónico !


ENCHER BURACOS

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É o medo a esquecer o que me assusta. 

Chegar a casa e jantar uma sandes muito devagar, mastigando lentamente, enquanto observo os peixes de plástico do meu aquário. 

Ou conduzir o automóvel com o rádio desligado, seguindo de perto aquele carro negro pelo simples prazer de deixar-me arrastar por outras vidas. 

Costumo fazê-lo. 

Refiro-me a perseguir carros a esmo. 

O último que segui, para não ir mais longe, levou-me a um parque num velório. 

Aproveitando, já que estava ali, aparquei e entrei no café mais perto. 

Sabes que estás a ficar velho quando o empregado do café, do velório, chama pelo teu nome e serve-te uma cerveja sem a pedires: 

 

- Que tal José Torres, tudo bem? 

É curioso, mas os cafés perto dos cemitérios nunca têm azeitonas normais, nem azeitonas sem caroço. 

Se pedires algo, é sempre o mesmo, uns raquíticos amendoins… uns enfezados tremoços. 

Que estranho. 

Eu quero que nalgum dia me ocorra algo assim. 

Sacar o caroço a uma azeitona e meter no seu lugar um pedaço de pimento vermelho. 

Ou melhor: uma amêndoa. 

O caso é encher buracos. 

Dissimular vazios. 

É o medo a esquecer que estamos vivos. 
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quarta-feira, março 02, 2016


- Disse-me o padre da minha paróquia que é Deus que controla as ondas do WiFi!

POR UM FIO

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Ana é cardiologista e operou ao coração aquele que, anos mais tarde, acabou por ser seu marido. 

Durante aquela intervenção, o coração de Carlos parou oito longos segundos. 

Ana não esquecerá nunca a sensação daquele coração inerte entre as suas mãos. 

Recorda-o a cada noite, quando acaricia a cicatriz no peito de Carlos. 

Enamoraram-se depois, no pós-operatório. 

Carlos tinha chegado á urgência do hospital, vítima de um enfarte. 

‘Marchou’ imediata e directamente da ambulância para a ‘sala do corte e coze’. 

Por conseguinte, quando Ana o “rasgou de alto a baixo”, ainda não se conheciam. 

Ela nunca o tinha visto antes e Carlos estava inconsciente, sedado. 

Deve ser estranho conhecer primeiro o interior do que será o homem da tua vida, manipular os seus órgãos, incluso antes de ter escutado a sua voz, de terem trocado umas palavras. 

Que ao Carlos lhe tenha parado o coração e Ana o salve e ao salvá-lo também se salve a si mesma. 

Que agora, o coração de Ana se acelere cada vez que recorde esses oito segundos. 

Que Carlos deva a vida à mulher da sua vida. 

Que Ana encoste a sua orelha ao peito de Carlos e escute o coração de Carlos e adormeça placidamente com a cadência dos seus batimentos. 

Agora, sentados bem encostadinhos no banco traseiro do meu táxi, depois de me contarem a sua história, brincam: 


- Não teria surgido o amor se Ana, no lugar de cardiologista tivesse sido médica legista. 
Pelo menos eu não me teria enamorado dela. 

– Eu ter-me-ia igualmente enamorado. 
Sempre pensei que caladito estás mais bonito. 

– Por vezes creio que a Ana, naquela sala de operações, ficou com o meu coração. 
Que mo trocou por outro de reposição. 
E que o transporta sempre consigo. 
Mostras-me a carteira? 

– Que tonto és. 

Nisto beijaram-se.
Foi um beijo desses que provocam arritmias.

terça-feira, março 01, 2016


- Sou o titereiro na obra do destino, não o títere no cenário do tempo !

AMOR ANIMAL

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Talvez fosse possível cruzar a vida saltando de amante em amante qual esquilo sem memória. 

Crer em nano fracções mas com loucura. 

Abraçar outros corpos como espelhos do teu próprio corpo. 

Dar tudo por uma noite e um tudo diferente na manhã seguinte. 

Reinventar-te cada vez com Carol, com Marta, com Sara, com Beatriz, contigo. 

Viver o amor das tuas muitas vidas. 

Abrir o teu coração e dar um PIN a Carol, a Marta, a Sara, a Beatriz, mas um PIN diferente a cada uma. 

Um código exacto e personalizado para este preciso fragmento de cama. 

E dizer sempre ‘amo-te’ e não mentir. 

Quero-te com os meus dedos de agora, com a minha boca de agora. 

 Archaeological Reminiscences of Millet's Angelus (Salvador Dali)

Ainda não sei quem serei eu amanhã. 

Talvez fosse possível fugir da rotina, não forçar nem inventar novidades no velho, evitar chamar estreia a outro remake. 

O mesmo de nós em versão dilatada, procurar quadraturas de um círculo inchado pelo medo, medo a quem serei, se não estiveres tu a meu lado, medo ou vertigem cobarde. 

O amor animal não é perene: procura o prazo de validade no dorso do sutiã. 

Talvez fosse possível. 

Só actrizes secundárias para o papel da tua vida. 
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