O VIDEIRINHO

quarta-feira, setembro 17, 2014


- Entretanto os pássaros continuam cantando patranhas, cagando impunes sobre as cabeças dos homens brancos. 
Por vezes desejo ser pássaro !

EM CADEIA


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A mulher não parava de falar, que sim o $#&§T0P, que sim o calor, que sim a nova digressão de Bruce Spingsteen, mas eu não podia evitar aquela mala isotérmica que agora repousava a seus pés sobre o tapete, a meu lado, no assento do pendura. 

Enquanto ela me falava eu fazia uns cálculos: a mulher tinha saído da loja dos congelados e apanhou o meu táxi ás 18:28 (viu-me sair da postura), suponhamos que transcorreram, previamente, com os produtos fora do congelador,  outros dois ou três minutos. 

O que poderia acontecer entre tirá-los do frio, chegar à caixa, pagá-los e colocá-los na mala térmica. 

O trajecto era curto, mas até agora tínhamos apanhados três semáforos no vermelho e dois carros a tentar estacionar, azar, mas já tinham transcorrido uns sete ou oito minutos desde que a passageira sacou a mercadoria do frio, até este momento. 

 


 

 

Quanto demorariam os produtos a descongelar apesar da mala isotérmica? (Não faço a mínima ideia. 

Seria como perguntar: quanto tempo dura um peixe fora de água?).

De qualquer maneira, faltavam-me dados. 

Desconhecia que produtos transportava na mala térmica. 

Não é o mesmo uma pescada congelada, que gelados cremosos. 

Se se tratasse de gelados, com toda a certeza que demorariam muito menos tempo a descongelarem-se e então, qual cadeia de frio qual carapuça: um gelado descongelado é como um peixe morto. 

E eu não gostaria de matar ou ser cúmplice à força de nenhum assassinato. 

Não no meu táxi. 

Então ocorreu-me uma ideia. 

Com a intenção de aumentar uns graus, accionei o ar condicionado no máximo, a menor temperatura possível e dirigido para a mala térmica.


 

 

 

A mulher continuou a falar como se nada se tivesse passado, mas nisto, dei conta que calçava sandálias e o jacto do ar frio nos seus pés nus, deve-lhe ter percorrido o corpo, pois instalou-se nos seus mamilos que se intumesceram e emergiram como bóias na praia-mar (do outro lado do seu top de alças, sem sutiã). 

Agora não só continuava angustiado, vítima de uma angustia crescente e proporcional ao estado intrínseco da mala, senão naquela imagem dos seus mamilos erectos, que para além disso me excitou. 

Estranha mistura de sensações, sem dúvida. 

E digo já que será por culpa de uma associação inconsciente de ideias, mas depois daquele trajecto, cada vez que vejo derreter-se algo, não posso evitar sentir uma certa excitação sexual. 

E quando vejo um peixe morto.

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terça-feira, setembro 09, 2014



- Ontem à noite tive um sonho: numa sala estavam todas as mulheres que “papei” ao longo da minha vida. 
Ao fundo, o meu ataúde !

REPIMPADOS



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Quando o amor não é garantia suficiente, compramos frigoríficos a prazo. 

Deixamo-nos levar pela publicidade,  “pague em doze meses sem juros”, o que é rotundamente falso, ou pelo menos inexacto: oculta "os interesses, (juros)” de continuarmos juntos para o resto das prestações. 

De maneira que assinar um pagamento a prazo, acaba por converter-se numa outra forma de ampliar a temporalidade dos casais. 

O compromisso agora chama-se frigorífico e cada vez que o usem e saquem uma Tetra Brik de leite, ou as sobras do frango de ontem, ou coloquem meia dúzia de ovos, ou umas cervejolas, aquele mesmo golpe de ar frio conservará também a vontade de continuarem juntos. 

 

E esse amor “No Frost” perdurará porque é tangível, não como os outros. 

Refiro-me, por exemplo, às viagens adiadas.

 Refiro-me a desfrutar de quinze dias, com tudo incluído em Bora Bora (por exemplo no The St. Regis Bora Bora Resort) e pagar a posteriori, a seis ou a doze meses (sempre um número par). 

Ali não há porta fria para abrir, só recordações. 

Por isso o quadro sobre a TV com uma foto dos dois no resort, refastelados e morenos, bebendo ‘daiquiris’. 

Aquela foto dar-vos-á motivos para continuarem a pagar. 

Ainda que agora viajeis em silêncio no meu táxi, desinteressados um do outro, no trajecto do aeroporto para casa.