Quando o amor não é garantia suficiente, compramos
frigoríficos a prazo.
Deixamo-nos levar pela publicidade, “pague em doze meses sem juros”, o que é
rotundamente falso, ou pelo menos inexacto: oculta "os interesses, (juros)” de
continuarmos juntos para o resto das prestações.
De maneira que assinar um
pagamento a prazo, acaba por converter-se numa outra forma de ampliar a
temporalidade dos casais.
O compromisso agora chama-se frigorífico e cada vez
que o usem e saquem uma Tetra Brik de leite, ou as sobras do frango de ontem,
ou coloquem meia dúzia de ovos, ou umas cervejolas, aquele mesmo golpe de ar frio conservará também
a vontade de continuarem juntos.

E esse amor “No Frost” perdurará porque é
tangível, não como os outros.
Refiro-me, por exemplo, às viagens adiadas.
Refiro-me a desfrutar de quinze dias, com tudo incluído em Bora Bora (por
exemplo no The St. Regis Bora Bora Resort) e pagar a posteriori, a seis ou a
doze meses (sempre um número par).
Ali não há porta fria para abrir, só
recordações.
Por isso o quadro sobre a TV com uma foto dos dois no resort,
refastelados e morenos, bebendo ‘daiquiris’.
Aquela foto dar-vos-á motivos para
continuarem a pagar.
Ainda que agora viajeis em silêncio no meu táxi,
desinteressados um do outro, no trajecto do aeroporto para casa.