- Quando por fim se converteu no primeiro ser humano a viver fora do tempo, contactou-nos para pedir-nos uma só coisa: um relógio !
O VIDEIRINHO
sexta-feira, fevereiro 28, 2014
DUCHE
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Do outro lado da cortina do duche, um corpo
esborratado em gel e meio-dia.
Faz uns minutos pertencia-me, pertencíamo-nos um ao outro, debaixo desta obstinação de amantes com o rosto aberto ao vendaval do desapego.
Desfruto estes momentos, amolecido nos músculos desse corpo, explorando a via dos seus humores como um conquistador de territórios membranosos.
Mas também me aborrece, tão presunçoso na sua dinâmica de sístoles e digestões, estúpido conjunto de engrenagens com o destino traçado.
Por isso aproveito os momentos mais íntimos para abandonar-te.
O banho, por exemplo, já to disse.
Mas também, os esquemas de sexo, as tardes frente ao espelho enferrujado, o momento desse vago gesto ao abrir um contentor amarelo.
Naqueles momentos, posto em fuga, aproveito para olhar para ela.
Sem que ela me veja, claro, os seus olhos têm um alcance limitado e também induzem uma franja de “vista cansada” na relação.
Não sei, um destes dias, decido mesmo emancipar-me.
Viver sem amarras, se me entendem.
Não, não pensem que pretendo mudar para outro corpo diferente.
Por esta altura, com o que tenho visto, prefiro a solidão dos aquedutos, o passo errante pelas vielas sem destino fixo, a ausência de humores e misérias.
Um dia destes já verei…
Agora devo preparar-me, já saíste do duche e não quero que me vejas, assim, como se estivesse a murmurar nas tuas costas.
Além do mais, estás tão atractiva, com o teu cabelo brilhante e esse cheiro a gel e a meio-dia…
Faz uns minutos pertencia-me, pertencíamo-nos um ao outro, debaixo desta obstinação de amantes com o rosto aberto ao vendaval do desapego.
Desfruto estes momentos, amolecido nos músculos desse corpo, explorando a via dos seus humores como um conquistador de territórios membranosos.
Mas também me aborrece, tão presunçoso na sua dinâmica de sístoles e digestões, estúpido conjunto de engrenagens com o destino traçado.
Por isso aproveito os momentos mais íntimos para abandonar-te.
O banho, por exemplo, já to disse.
Mas também, os esquemas de sexo, as tardes frente ao espelho enferrujado, o momento desse vago gesto ao abrir um contentor amarelo.
Naqueles momentos, posto em fuga, aproveito para olhar para ela.
Sem que ela me veja, claro, os seus olhos têm um alcance limitado e também induzem uma franja de “vista cansada” na relação.
Não sei, um destes dias, decido mesmo emancipar-me.
Viver sem amarras, se me entendem.
Não, não pensem que pretendo mudar para outro corpo diferente.
Por esta altura, com o que tenho visto, prefiro a solidão dos aquedutos, o passo errante pelas vielas sem destino fixo, a ausência de humores e misérias.
Um dia destes já verei…
Agora devo preparar-me, já saíste do duche e não quero que me vejas, assim, como se estivesse a murmurar nas tuas costas.
Além do mais, estás tão atractiva, com o teu cabelo brilhante e esse cheiro a gel e a meio-dia…
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quinta-feira, fevereiro 27, 2014
SER FELIZ
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Revolve
o baú da avó, da tia, ou duma vizinha com fama de adivinhadora, das que sacam o
mal de olhar e deitam as cartas do Tarot de Marseille; certamente que
encontrarás uma antiga receita para viver melhor.
Substitui os ingredientes por outros, similares, ou algo assim.
Copia as instruções, agregando-lhe ou tirando-lhe quartos de quantidade.
Agrega ênfase a gosto, uma arrogância à prova de balas e a mais absoluta convicção a respeito do que dizes, sem que te importe se acreditas ou não.
Não é imprescindível, mas se quiseres e puderes, faz-te convidar para um programa de televisão.
Diz que a vida te submeteu a uma duríssima prova, decisiva, e que esse trance extremo iluminou o teu entendimento.
Nem dá para acreditar que lograste alcançar um resultado muito superior ao do Flautista de Hamelin, mas sem usares ratas.
Substitui os ingredientes por outros, similares, ou algo assim.
Copia as instruções, agregando-lhe ou tirando-lhe quartos de quantidade.
Agrega ênfase a gosto, uma arrogância à prova de balas e a mais absoluta convicção a respeito do que dizes, sem que te importe se acreditas ou não.
Não é imprescindível, mas se quiseres e puderes, faz-te convidar para um programa de televisão.
Diz que a vida te submeteu a uma duríssima prova, decisiva, e que esse trance extremo iluminou o teu entendimento.
Nem dá para acreditar que lograste alcançar um resultado muito superior ao do Flautista de Hamelin, mas sem usares ratas.
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terça-feira, fevereiro 25, 2014
"PINGO DE MEL"
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- “Arranca.
Acabo de sacar outros três mil a este gajo.
Segue, segue”, disse-me a mulher referindo-se a um tipo de uns cinquenta anos que tinha entrado noutro táxi.
Acelerei e abandonámos o terminal do aeroporto.
Disse-me o seu destino já depois de ter iniciado a marcha.
Também me disse que vinha de Zurique, de um serviço expresso que aquele tipo tinha contratado na noite anterior.
Simplesmente telefonou-lhe e disse-lhe:
- Estou em Zurique.
Apanha o primeiro avião e depois um táxi que te traga até ao Hotel “Baur au Lac”, quarto 303.
Pagarei o habitual mais os gastos.
“o habitual” significava que aquele homem contratava os seus serviços com frequência.
Costumava telefonar à mulher a qualquer hora e de qualquer local do globo; ela apanhava o primeiro voo, plantava-se lá, davam um par de quecas de luxo e depois de receber, sempre a contado, apanhava outro voo de volta para casa.
Nesta ocasião ele teve que regressar com ela ao Porto para um assunto de negócios, mas ontem à noite, em Zurique, não podia esperar, queria vê-la quanto antes: um capricho urgente.
E três mil por serviço mais despesas de deslocação não era nada para um dos homens mais ricos da City, um autêntico tubarão das finanças.
Ela, por seu lado, sentia-se a mulher mais invejada da terra.
Cito textualmente da sua boca:
- “Todas, no fundo, gostariam de levar a vida que eu levo.
A moral, ou a ética, ou como queiras chamar-lhe, não é mais do que uma invenção cultural para tapar o que na verdade move o mundo: a hipocrisia”.
Depois, quando parei o táxi à porta da sua luxuosa moradia e me pagou a corrida, acrescentou antes de se ir:
- “Ganho de trinta a quarenta mil ao mês por abrir as pernas.
Não te ofendas, mas os homens, desde o princípio dos tempos, sois e sereis sempre parvos”.
E com estas palavras foi-se.
Fiquei pensativo, acariciando a nota de 100 euros que me tinha dado.
Uma nota que antes era sua e antes de ser sua foi daquele tipo de Zurique, o tubarão das finanças.
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segunda-feira, fevereiro 24, 2014
COMO NÃO CONQUISTAR UMA MULHER
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Um homem de olhar triste contou-me o seu falhado plano desta noite.
Vinha de um género de encontro ás cegas, em grupo, organizado por uma pseudo-colectividade.
O encontro consistia no seguinte: sete homens sós, sete mulheres sós e sete mesas.
Cada homem tinha um total de sete minutos para numa mesa, frente a frente, conversar com cada uma das sete mulheres.
Passados os sete minutos, soava um gong e então, rodavam para a mesa seguinte.
A ideia era que todos acabassem por falar com todas as mulheres, em rondas de sete minutos.
Depois disto, anotavam, secretamente, num papel, com quem tinham tido mais empatia e, se o nome escrito por ela, coincidisse com o nome escrito por ele, podiam continuar a conversar durante o tempo que quisessem (e tudo o mais que depois surgisse).
Os demais, os não afins, teriam de marchar do café e cada qual seguiria o seu caminho.
Este homem, como disse, vinha de um desses encontros.
E vinha só.
Confessou-me que era demasiado tímido e não podia evitar comportar-se desajeitado e tenso.
Não era fácil quebrar o gelo com mulheres que procuravam como ele, a centelha forçada para se infamar em catorze minutos, sete em cada vez.
Para ele os primeiros minutos eram a chave:
De que falar sem parecer demasiado óbvio?
O que será melhor, tomar a iniciativa ou deixar que seja ela a começar?
Olhar para os olhos, as mãos ou a boca?
O curioso e, aí está a sua falha, foi que acabou sentindo maior afinidade pela mulher, que a priori, seria a menos atractiva das sete reunidas.
De facto, à medida que falava com ela, ia-lhe parecendo cada vez mais interessante, e foi a única com quem verdadeiramente chegou a sentir-se à-vontade.
No entanto, acabou por escrever o nome da mais atraente mas menos simpática das sete, uma tal Teresa de lindos olhos verdes e lábios sensuais ainda que parca em palavras, um tanto seca.
A menos atractiva, mas bem mais simpática, por sua vez, tinha escrito o nome dele e a tal beldade, tinha escrito o nome de outro, de modo que no final, os dois igualmente mais feiosos mas simpáticos partiram cabisbaixos de “mãos a abanar”.
E agora aquele homem arrependia-se, enfim, por ter pensado só com os olhos.
Se tivesse escrito o nome de Luzia, a simpática e interessante Luzia, agora estariam a conversar e não teria tomado meu táxi sozinho, quem sabe se com ela, na sua viagem de volta a casa ou para o motel.
O mesmo caminho na solidão que o da semana passada.
O mesmo caminho na solidão que a anterior.
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sábado, fevereiro 15, 2014
BANCO TRASEIRO
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Quando viajo de automóvel, escolho sempre
os assentos traseiros.
As nucas em silhueta dos meus acompanhantes, são, de longe, mais apaixonantes que os desfiles de árvores alienados, alinhados na sua monotonia de passeios ou bordas das estradas.
Além disso, desde o meu observatório posso avaliar os comentários e os silêncios dos demais, sem que me confunda a impostura dos seus gestos.
Não sei, viajar nos lugares de trás produz-me uma sensação de oculto poderio, algo assim como assistir a uma repercussão de almas alheias através do seu próprio pescoço.
O mais curioso deste costume é que os outros jamais se apercebem desta sua nudez.
Desde a soberba dos seus assentos dianteiros, olham permanentemente para o futuro.
Uma e outra vez a estrada, essa ficção do porvir que parece desdobrar-se ante os seus olhos.
Para eles, alguém como eu, só existe no espelho retrovisor interior, esse que ninguém lhe liga “puto”.
Pobres coitados, ignorantes em viagem para lugar nenhum, não há passado nas suas vidas.
As nucas em silhueta dos meus acompanhantes, são, de longe, mais apaixonantes que os desfiles de árvores alienados, alinhados na sua monotonia de passeios ou bordas das estradas.
Além disso, desde o meu observatório posso avaliar os comentários e os silêncios dos demais, sem que me confunda a impostura dos seus gestos.
Não sei, viajar nos lugares de trás produz-me uma sensação de oculto poderio, algo assim como assistir a uma repercussão de almas alheias através do seu próprio pescoço.
O mais curioso deste costume é que os outros jamais se apercebem desta sua nudez.
Desde a soberba dos seus assentos dianteiros, olham permanentemente para o futuro.
Uma e outra vez a estrada, essa ficção do porvir que parece desdobrar-se ante os seus olhos.
Para eles, alguém como eu, só existe no espelho retrovisor interior, esse que ninguém lhe liga “puto”.
Pobres coitados, ignorantes em viagem para lugar nenhum, não há passado nas suas vidas.
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