- Falência, é o estado civil dos indivíduo que colocou o dinheiro no bolso das calças e entregou o casaco aos credores !
O VIDEIRINHO
sexta-feira, setembro 30, 2011
CARÍSSIMOS DOUTOS SENHORES
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Pela presente, lamento comunicar-lhes que decidi cortar em 5% a importância da prestação mensal da hipoteca, da minha habitação, que tenho subscrita com o V/banco.
O mesmo irá suceder com o crédito automóvel da minha viatura que adquiri naquelas condições vantajosas a que me incentivaram aderir.
Idem, idem, para aquelas compritas a que fui quase empurrado para fazer, face à baixíssima taxa de juro oferecida.
Também, aquele pequeno crédito, daquela viagem às Maldivas, cujo panfleto de publicidade V. Exas. tiveram a amabalidade de me enviar por duas ocasiões sucessivas e insistentemente contactar pelo telefone.
Também o material de informática a que quase tive de aceder sob a vossa premente e continuada pressão de um preço irrecusável.
Foi uma decisão difícil, mas é-me imprescindível ajustar os gastos para salvar a minha economia particular e reduzir o meu galopante défice microeconómico.
Em situações críticas como estas todos devemos ajudar, pelo que lhes peço compreensão e solidariedade para com tão dolorosa medida.
Ao fim e ao cabo eu, como o resto dos meus comparsas cidadãos, colaborámos, no vosso dia-a-dia, na injecção de liquidez (que receberam) como uma tábua de salvação do sistema financeiro nacional, pelo que isto agora corresponde, para ser feita justiça, a que paguem o seu quinhão, os pecadores pelos justos.
Na realidade vi-me forçado a tomar esta decisão porque os meus familiares consanguíneos e políticos, ao terem tido conhecimento indirecto do estado calamitoso das minhas finanças, temem ver-se na penosa obrigação de me emprestar dinheiro a fundo perdido e vocês, como banqueiros que são, conhecem melhor do que ninguém o absurdo de toda a contribuição de capital que não traga de volta pingues benefícios.
Documentei-me a este respeito e cheguei à conclusão de que é licito tomar este tipo de decisões de forma unilateral e sem prévia negociação (há precedentes de legalidade, acolhendo-me eu, em tal sentido, às declarações dos ministros e quejandos do fenecido governo e do moribundo actual).
- José Torres, um funcionário e cidadão hipotecado.
PS:
Aproveito a ocasião para comunicar-lhes que já disponho de suficientes baterias de cozinha e pequenos electrodomésticos, bem como de todas as colecções de moedas e afins, para além de todos os cartões de crédito isentos de tachas, perdão, taxas, pelo que não necessito que me ofereçam mais nada como contrapartida ás minhas contribuições de capital.
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quinta-feira, setembro 29, 2011
A COMIDA DA COMIDA
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A fumaça da extraordinária sopa que se exala da selva, manifesta-se fisicamente em forma de mão.
Os dedos engancham-se nos orifícios do nariz de um indígena e a vítima, seduzida, deixa-se levar de bruços, levitando horizontalmente, serpenteando sobre o ar até chegar ao lugar donde se origina o aroma.
As verduras fervem numa imensa panela enquanto um bruxo revolve a água borbulhante com o seu bordão.
O indígena, notando o perigo, esperneia no ar tentando desprender-se do fumo e enquanto avança até à panela onde será cozinhado, ocorre-lhe tapar o nariz.
Automaticamente o feitiço desaparece, cai ao chão e ao ver o bruxo desarmado, opta pela melhor estratégia.
Desembainha a sua adaga que pende da sua cintura e corre até ao seu inimigo, decidido a esquartejá-lo em pedaços, arrojar as extremidades para a panela e cozinhar um lauto e suculento jantar.
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quarta-feira, setembro 28, 2011
TEIAS
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Uma teia de aranha no canto superior direito do tecto.
Amanhã digo-o a Teresa.
Ou melhor, ocupo-me eu.
Ou melhor ainda, digo-lhe: para que saibas que me fixo em tudo.
Eu porto-me bem com ela; do mal o menos.
Dez euros à hora está muito bem.
Ainda que seja apenas uma gota.
Continuará a aranha ali?
Não a vejo.
As aranhas dormem?
Recordo aquela canção dos “The cure”, Lullaby.
On candystripe legs the spiderman comes… onde está o commando?
Vamos ver o que fazem.
Pitonisa, pitonisa, pitoniso, pitonisa, Jes Extender, pitonisa, aparelho de ginástica passiva, telejornal.
O mesmo que fizeram há meia hora.
As mesmas imagens.
As mesmas notícias.
Agora vem a dos chavalos que saltam para um rio a partir de uma ponte.
Amanhã digo-o a Teresa.
Ou melhor, ocupo-me eu.
Ou melhor ainda, digo-lhe: para que saibas que me fixo em tudo.
Eu porto-me bem com ela; do mal o menos.
Dez euros à hora está muito bem.
Ainda que seja apenas uma gota.
Continuará a aranha ali?
Não a vejo.
As aranhas dormem?
Recordo aquela canção dos “The cure”, Lullaby.
On candystripe legs the spiderman comes… onde está o commando?
Vamos ver o que fazem.
Pitonisa, pitonisa, pitoniso, pitonisa, Jes Extender, pitonisa, aparelho de ginástica passiva, telejornal.
O mesmo que fizeram há meia hora.
As mesmas imagens.
As mesmas notícias.
Agora vem a dos chavalos que saltam para um rio a partir de uma ponte.
Bingo!
Pitonisa, pitonisa, emissão em experiência, vídeos musicais, vídeos não, que desperto.
Melhor será apagar a TV.
Silêncio.
Que não me esqueça passar amanhã pela gerência.
E Chamar o Afonso que faz anos.
Dois mais do que eu.
Dois ou três?
Bah!, não penses.
Fecha os olhos e não penses em nada.
Muda de posição.
Fecha os olhos e não penses em nada.
Eu tenho que lavar o táxi.
Mas não na lavagem automática, na última vez fiquei banzado.
Aquela máquina não retira bem a espuma.
Cala-te.
Silêncio, silêncio, silêncio.
Pensa em algo que relaxe.
O deserto.
Uma duna.
Deitado numa duna.
Mas faz calor na duna.
Podem aparecer escorpiões.
São perigosos os escorpiões.
Pitonisa, pitonisa, emissão em experiência, vídeos musicais, vídeos não, que desperto.
Melhor será apagar a TV.
Silêncio.
Que não me esqueça passar amanhã pela gerência.
E Chamar o Afonso que faz anos.
Dois mais do que eu.
Dois ou três?
Bah!, não penses.
Fecha os olhos e não penses em nada.
Muda de posição.
Fecha os olhos e não penses em nada.
Eu tenho que lavar o táxi.
Mas não na lavagem automática, na última vez fiquei banzado.
Aquela máquina não retira bem a espuma.
Cala-te.
Silêncio, silêncio, silêncio.
Pensa em algo que relaxe.
O deserto.
Uma duna.
Deitado numa duna.
Mas faz calor na duna.
Podem aparecer escorpiões.
São perigosos os escorpiões.
Mudo de posição.
Agora de lado.
Não.
É melhor do outro lado.
Com a almofada entre as pernas.
Ás três e onze da manhã, nem o penses.
Ás três e doze.
Deitei-me cansado, não entendo.
E nada me preocupa demasiado.
Porquê a insónia?
É este colchão.
Caro pra cara…ças, mas não me acostumo.
Ainda que neste mesmo colchão já tenha dormido milhentas vezes e de tiro.
Sem problemas.
Não é do colchão.
Não pode ser.
E se for para o sofá?
E se for para o sofá, acendo um cigarro e quando o acabar volto e durmo de verdade?
Porquê a insónia?
Agora de lado.
Não.
É melhor do outro lado.
Com a almofada entre as pernas.
Ás três e onze da manhã, nem o penses.
Ás três e doze.
Deitei-me cansado, não entendo.
E nada me preocupa demasiado.
Porquê a insónia?
É este colchão.
Caro pra cara…ças, mas não me acostumo.
Ainda que neste mesmo colchão já tenha dormido milhentas vezes e de tiro.
Sem problemas.
Não é do colchão.
Não pode ser.
E se for para o sofá?
E se for para o sofá, acendo um cigarro e quando o acabar volto e durmo de verdade?
Porquê a insónia?
terça-feira, setembro 27, 2011
ELOS INVISÍVEIS
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Gostas do azul dos olhos de Laura, porque adoras a Laura no seu conjunto todo.
De agora em diante essa cor exacta marcará, sem tu o saberes, os teus hábitos consumistas.
A camisa que usas, por exemplo.
É do mesmo azul que o azul dos olhos de Laura.
Tu acreditas que a compraste simplesmente porque te pareceu bonita.
Rotundamente equivocado.
Tão-pouco recordas, mas a tua mente sim, que no instante em que a compraste soava em som de fundo um dos temas dos “The Smiths”, o mesmo que tocou no meu táxi quando te levei ao encontro com Laura.
Nesse preciso trajecto, enquanto soava aquela canção, também associada aos olhos de Laura, fixaste-te, sem querer, no cartaz de um partido político.
Era época de eleições.
Não associaste o fundo azul do cartaz com os olhos de Laura, mas o teu subconsciente uniu cabos.
Sem saber muito bem porquê, acabaste votando nesse partido.
E graças ao teu voto esse partido acabou por ser um vencedor.
Tirada DAQUI
E meses depois, esse mesmo partido (acolitado com outro e encapotadamente) acabou despedindo milhares de professores.
Tu eras um desses professores e agora estás na rua.
Jamais te ocorreria associar o teu despedimento aos olhos de Laura, mas foi mesmo assim.
Como vês, no mundo inconsciente da estética e da propaganda, só se salvam os daltónicos.
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segunda-feira, setembro 26, 2011
VIVER COM O PORNO
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Suponhamos que é certo o que me contou ontem mesmo aquele passageiro no meu táxi.
Suponhamos que conheces uma mulher, enamoras-te dela e vice-versa e que, nesse ponto de não retorno, ela diz-te que não é recepcionista de congressos, mas sim actriz porno.
Seguindo o seu relato ponhamo-nos por um momento na pele do passageiro:
Ele sabe que o amor dela é sincero.
Ela assegura-lhe que se trata de um trabalho e nada mais e nos seus olhos pode-se ver que lhe diz a verdade.
Tão-pouco será justo apartá-la de um mundo que ela escolheu antes de o conhecer e executa como muito profissional, incluso artístico.
“Basta de preconceitos:
A actriz porno não é nenhuma puta”, diz-lhe uma e outra vez.
Em parte tem razão.
E ganha muito mais dinheiro do que o que poderia obter em qualquer outro trabalho.
Em qualquer caso, prometeu-lhe que em quatro ou cinco anos “pendurará os tacões” para sempre.
O meu passageiro tenta conduzir a situação com extrema cautela e naturalidade.
Mas em certos momentos não pode evitar sentir os ciúmes mais estranhos que já sofreu em toda a sua vida.
De facto, nunca quis ver uma cena sua.
Nem o fará.
Não quer sequer imaginar como outros homens a penetram, ainda que sem amor, sem qualquer sentimento, mas que outros, muitos milhares mais, se masturbem do outro lado do ecrã.
– Neste caso, que a tua mulher excite outros homens, não tem a mínima graça, diz-me.
De facto, desde que se inteirou daquilo, a sua vida sexual com ela é tensa.
Não pode evitá-lo.
É belíssima, mas encontra o seu corpo sujo, frio, como um escritório vazio.
E sente não estar à altura de qualquer dos seus actores.
O sexo com amor é outra coisa, sabe-o, mas não pode evitá-lo.
Mesmo sob os efeitos de todo o amor mútuo do mundo, não pode evitá-lo.
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domingo, setembro 25, 2011
BARRAS CODIFICADAS
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Agora há outro corpo ‘desplumado’ na minha cama.
Está adormecida.
Ou morta.
Exibe uma pequena tatuagem na nuca.
Não reparei nela ontem à noite.
Cobria-a o cabelo ou talvez fosse a minha cegueira.
É um código de barras, com as suas linhas verticais e o seu código numérico debaixo.
Fiquei intrigado com o produto a que se referiria.
Introduzi a sequência numérica no navegador do meu telemóvel: 7891000148105.
É do leite em pó para bebés.
![]() |
| Tirada daqui |
Procuro na mesinha de cabeceira (criado mudo), no chão, debaixo da cama, no caixote do lixo.
Não há preservativos usados, nem embalagens de preservativos abertas.
Comprovo a caixa de 12 na gaveta; não falta nenhum.
Ela está nua.
Há manchas brilhantes nos lençóis.
Sensação de vazio inguinal.
Elementar, querido Watson.
Afasto-lhe o cabelo do seu rosto.
Não sei o seu nome, não sei quem é, mas recorda-me algo.
Recordam-me os seus olhos reflectidos no espelho retrovisor do meu táxi.
Recorda-me que parecia deprimida.
Recorda-me de um bar.
Recorda-me outro bar.
E um terceiro.
E um quarto bar...
Acerco-me devagar dos seus lábios adormecidos ou mortos.
Encosto os meus.
Beijo-a.
Outro flash-back: ao quinto whisky ela disse-me:
- “Necessito sentir algo dentro, que se mova algo dentro de mim”.
Pensei que era uma metáfora.
Voltei-o-lhe o corpo adormecido.
Ou morto.
Apoio a minha cabeça no seu ventre.
A minha orelha aspirando o seu umbigo.
Oiço coisas.
Adormeço.
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INTERIORES
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Reparei nelas pouco depois de sair, quando o bater da porta cortou o cordão umbilical que nos unia.
Era um saco de uma famosa marca de lingerie deixada sobre o tapete traseiro do meu táxi.
Peguei no saco como quem levanta o cadáver de um pássaro com dois dedos e, no seu interior, descobri umas calcinhas mínimas, pretas, de corte brasileiro e finas rendas, excepto na sua “Zona Zero” (de seda tão suave quanto um “cu de menino”).
Ainda conservava a sua etiqueta ao dependuro e o ticket da compra: 33 euros.
A passageira deve tê-las comprado para uma ocasião especial, ou para sentir-se especial em qualquer ocasião.
Só ela.
O seu segredo sexy.
Conduzindo o meu táxi com as calcinhas na mão, acariciando o seu complexo tacto, invadiu-me uma estranha tristeza.
Aquela ‘vestimenta’ jamais cumpriria a sua função.
Não terá pele que recheie as suas costuras, nem ‘racha’ a esconder ainda que se intua.
E esse elástico nunca alcançará a sua máxima tensão sexual, nem será rasgado pelos dedos da urgência, nem cruzará a borda das calças, despistado, procurando oxigénio ou talvez olhares: os olhos perplexos do adolescente, ou os olhos cativos do casado.
E o seu olor.
Nunca exalarão a nada.
Nem para a frente e para trás.
Mudas e quedas.
Afastei-me da cidade e no campo acendi uma fogueira com ramos secos.
Depois beijei e lancei as calcinhas para o fogo.
Começaram a arder desprendendo um fumo tóxico que inalei de perto.
Assim cheira a morte em vida, pensei.
Aturdido e agoniado pela fumaça tóxica das calcinhas, comecei a masturbar-me pensando numa ‘greta’ que inventei.
Uma 'greta' com penas de pato, ferrolho e código de barras.
Dessa 'greta' saíam formigas transportando sementes de sésamo.
Ejaculei-me quase no mesmo instante, no tronco de uma árvore.
Não sei quantas horas depois, já dia, despertou-me uma guarda florestal.
Levantou-me dois autos de notícia por ter estacionado num parque protegido e por acender uma fogueira numa zona de risco de incêndios.
Peguei nos papeis das multas sem tugir nem mugir.
Pagá-las-ei.
Nota:
A guarda florestal tinha um corpo escultural e uns olhos divinais.
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sábado, setembro 24, 2011
HAJA LUZ
Não há que exagerar.
Não é que se tenha aberto uma porta à esperança, mas sim um resquício.
Temos tantas ganas de ver claridades depois da noite escura da alma, segundo a doutrina de São João da Cruz, (Séc.XVI) e da noite escura do emprego que diriam os lideres dos pacientes sindicatos, que a chegada de um pouco de luz nos parece um deslumbramento.
A queda do desemprego (0,3…??? % - porca miséria!!!) depois de meses que nos têm feito bem mais longos, especialmente os caídos no combate laboral, tem alegrado e de que maneira, os maneiros governantes e a todos nós.
Nem todos por igual.
O CDS crê que tem que se tratar com cautelas os números, porque nem eles acreditam em tal patranha.
Talvez uma “maquilhagem” pós-eleitoral, para “inglês ouvir e ver”, com a conivência e benevolência do Verão, que sempre logra uma espécie de amnistia para com os pobres.
Desempregados - António Berni, pintor argentino
Mas o facto de haver menos gente ás segundas-feiras ao sol deveria ser saudado jubilosamente por todos.
Não parece ser assim: há patriotas que desejam que as coisas piorem, mais que não seja, para demonstrar que eles podem salvar a pátria.
A esperança considerada como uma virtude teológica, o mesmo é dizer, da ciência que trata do(s) deus(es) e dos seus atributos e perfeições, ou seja de um dos ramos da imaginação dos homens, é o único que evita o desespero, ainda que, o que espera, desespera inevitavelmente.
Não lhe cerremos as portas porque então não há abertura possível.
Como pode alegrar-se alguém de que as coisas vão algo melhor?
E o que é ainda mais grave, como pode deplorar que não continuem piorando para que sejam mais credíveis as suas soluções?
Em terras alentejanas que aproveitei percorrer, noutras épocas da minha vida, por não haver curvas, recordo um dito que nunca mais esqueci:
“com quão pouco nos conformamos nós os pobres: que a enxada nos saia boa”.
Para comprovar que esse instrumento foi bem desenhado necessitamos que haja trabalhadores.
Não preguiçosos ou indolentes involuntários.
Loreena McKennitt - The dark night of the soul
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sexta-feira, setembro 23, 2011
CLONAR
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Ainda que se veja idêntica, continua sendo falsa.
Clonar a minha mulher, via-a como uma boa ideia a princípio — principalmente para que o nosso filho não tivesse que lidar com a morte da sua mãe — mas agora dou-me conta do grave erro que cometi.
Desde que está connosco, em nossa casa, não faço mais do que arrepender-me.
A pobre não se dá conta do motivo porque a desprezo, mas se soubesse que na realidade não é ela, seguramente entenderia o que sinto quando tenta beijar-me, quando tenta acariciar-me, quando tenta iniciar uma conversação.
De há uns meses a esta parte, deitar-me a seu lado faz-me sentir como se tivesse uma nota de 100 euros de cor vermelha, ou uma vaca que dá leite materno.
Hoje perguntou-me porque tento esquivá-la a todo ou qualquer momento.
“Já estás morta” deveria ter-lhe replicado, mas não me atrevo a feri-la.
Não lhe posso dizer isso à minha esposa, por mais que ela não o seja.
Esta também é a idade de silicone, tudo é tão falso como a nota que mencionei, já só falta que nos clonem.
E é tudo o que necessitamos… ser clonados, algo que eu mesmo já senti quando li um comentário com o meu nome e não ter sido eu a fazê-lo.
Na Argentina foi apresentada uma vaca clonada que será capaz de produzir “leite amaternizado” quando for adulta.
É uma criação do Instituto de Tecnologia Agropecuaria (INTA) e da Universidade Nacional de San Martín.
Os cientistas informaram que há uma alta probabilidade de que “Rosita ISA” (o nome de baptismo do bicho), passe os seus genes modificados à sua descendência, criando uma nova raça de vacas produtoras de leite humano, evitando que tenham de passar pelos processos de intervenção genética porque ela passou.
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quinta-feira, setembro 22, 2011
TUDO ISTO É MENTIRA
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Tratam de minar o nosso ânimo ou pior ainda: não lhes importa pívia.
Toma nota disto: tudo está mau e será fatal amanhã.
Vale de lágrimas sobre as notícias, os especialistas com olheiras, luto constante nas vozes, luto do meu táxi…
A esperança é mentira ou convém matá-la porque senão contagia.
O optimismo não é real.
Mete-o na cabeça.
Eu não me posso divorciar se não há dinheiro.
E não me posso casar se não há empréstimo bancário para a barraca (para não dizer que é, também, para alimentar a famelga).
O comité gestor do amor estudará o teu caso.
Tremer não aqui, ali: na sala de espera.
Mas não faças barulho.
O ruído incomoda.
Os jornais são obituários com cupões.
Recorta cada dia o teu cupão com muito cuidado: não saias da linha pontilhada.
Cola os cupões, um a um, nas casas correspondentes ao teu livro da vida.
Envia um SMS para confirmar que estás nas mãos da nossa linha editorial.
Dar-te-emos um código individual e intransmissível porque tu és único.
Com esse código irás, em estrito prazo, à loja que te indicaremos, entregarás ao empregado a tua cartilha perfeitamente completada, pagarás a verba que já sabes qual é e, na volta, receberás um televisor ou um detector de radares ou um minicomputador com Z-RAM ou um secador para o cabelo ou uma placa vitrocerâmica portátil ou um jogo de pratos de Bob Esponja ou o que te aconselhamos que necessitas (*).
Só terás necessitado um mês de rios de bílis, uma mão cheia de euros, tesouras, cola e uma tarde num centro comercial para conseguires os teus objectivos.
E à saída entrarás no meu táxi e estarás marimbando-te em Passos Coelho ou no pascácio do Paulo Portas, ou ambos, em conformidade com a promoção do jornal que te calhou em sorte.
E nas tuas noites de insónia confundirás essas saliências da pintura do tecto com pastilhas de Prosac coladas nesse mesmo tecto.
Leste tudo isto bem?.
Pois é mentira.
Tudo isto é mentira.
As coisas não estão tão mal como as pintam os jornais.
A tua pele continua lustrosa e as plantas dos meus vasos crescem a um ritmo que até ‘flipas’.
E se não mastigares as borboletas chegarão intactas ao estômago.
E ontem telefonou-me um amigo que pensei ter morrido.
E acabei pela quinta vez a leitura daquele livro de Jonh Irving.
E escrevi um par de frases decentes naquela ‘boite’ indecente.
E os guionistas de “Lost” estão chilados.
E eu não estou surdo porque continuo a escutar a porra, nítida, de "Like a Rolling Stone".
E o meu táxi é pura casualidade e a casualidade é poesia e poesia é quem tu queiras que seja.
Que não te enganem os quatro “sopragaitas” ou idiotas que dizem governar o mundo (Merkel, Sarkozy, Trichet, Lagarde).
Que não te enganem os lambe-cus desse bando dos quatro.
Não te deixes deprimir.
Só querem dinheiro.
O teu e o meu dinheiro!!!
(*) Stock limitado, só até ao fim das existências; corre antes que acabe!
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quarta-feira, setembro 21, 2011
CAÍDO DO CÉU
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Hoje a liberdade incomoda.
Hoje trocava o meu táxi por um autocarro.
Rota fixa, horário fixo, menu do dia, esposa pintada de loira, um filho estúpido e o Canal Hot 24.
Hoje não me apetece pensar mais além do empréstimo do carro e da casa e muito menos na lua.
Nuvens negras ofuscam a lua.
Ninguém pode controlar as nuvens.
Olha Steve Jobs.
Hoje a liberdade converteu-se numa sacanice.
Deixas voar a tua mente mas infiltram-se abutres ao cheiro do pensamento carniceiro.
Quem sou?
Que merda faço aqui?
Por que não nasci no Connecticut, ou na Terra Média?
Por que não nasci koala?
Para que serve a sensibilidade?
Que loucura é esta?
Por que chegam as nuvens justamente quando o sol bronzeia?
Flashes não controlados.
Memórias como manchas no teu registo.
Este processo não vale a pena repetir.
O meu umbigo não é um botão de RESET.
Sou crítico porque me amo.
Penso demasiado porque estou só.
Não dependo de nada, nem nada depende de mim.
Por isso o amor é um tirano, Biodramina contra os efeitos secundários do livre actuar.
O amor é um Estado mental, como Wisconsin mas em etéreo.
E pode-se encontrar em qualquer lugar e a qualquer hora.
Talvez se encontre naquela mulher que estende a roupa no segundo andar desse edifício.
É bonita.
E limpa.
E tem olheiras.
E antena parabólica.
Nota:
À mulher do segundo andar caiu-lhe um sutiã estilo "tomara que caia" enquanto estendia.
Parei o meu táxi em segunda fila e apanhei-o do chão.
Ela gritou:
- Agora caiu!
Caiu e arrastou as minhas nuvens.
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terça-feira, setembro 20, 2011
MAUS TEMPOS
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Nos álbuns familiares, as fotografias dos parentes mais infortunados amarelecem antes das dos outros.
Quem é este?
Perguntam as mais recentes vergônteas da família quase acomodada.
A avó, que tinha uma magnífica memória, se bem que algo parcial, explicava que o fotografado era alguém de muito má cabeça, ainda que boa pessoa, que pouco a pouco deixou de fazer parte da família.
“Há muito tempo que não o vemos”, dizia, para depois conjecturar que continuava vivo.
Os pobres raramente guardam o dinheiro necessário para pagar a sua necrologia nos jornais.
Oscar Wilde dizia que os parentes pobres não têm a menor ideia de quando devem morrer.
Pois bem, transcendendo o restringido âmbito familiar ao continental, devemos reconhecer que somos o “irmão pobre da Europa”.
Pelo menos assegura-o o semanário “The Economist”, que está convencido de que não temos sofrido a crise com maior intensidade, mas sim que a vamos sofrer quando os demais já tenham saído dela.
Não sei por termos feito alguma coisa mal ou todas.
Sempre que chove, clareia, mas sempre que clareia volta a chover.
O pior não é ter um telhado de cristal ou de fibrocimento, que soa bem mais, o pior é não ter telhado.
O Governo deveria aprovar uma lei de economia sustentável, mas nenhum de nós – eu pelo menos – está a fazer força para sustentá-la.
Creio que os maus tempos nos trazem sempre os outros.
Para isso estão os contemporâneos: para atirar-lhe as culpas de tudo.
Em Portugal temos sido sempre especialistas em voar no vácuo.
Com e sem asas, como as de Almeida Garrett(*).
Que foi um grande escritor, no tempo em que não se faziam estatísticas sobre o desemprego na Terra.
Agora estamos quase a alcançar os 13 ou 14 % (que interessa?) nesta chamada mãe proletária.
(*)AS MINHAS ASAS
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Bati-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
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