O VIDEIRINHO

sexta-feira, dezembro 23, 2016

- Utente do meu táxi: 
"Foi-me mais difícil deixar de fumar que deixar a minha mulher; e olhe que anos depois, ainda continuo a lembrar-me muito bem do cigarro".

OLHAR (D)OS OLHOS

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Os que sempre olham os olhos quando falam. 

Os que não olham nunca os olhos. 

Os que só olham os olhos quando o interlocutor é conhecido ou íntimo. 

Os que só olham os olhos dos completos desconhecidos. 

Os que fixam a vista nos lábios dos que falam. 

Os que olham para cima ou para baixo ou para o infinito quando escutam. 

Os que olham os olhos mas sem ver, com o olhar fixo mas ausente. 


Os que olham para os olhos reflectidos no espelho retrovisor do táxi mas depois se te voltas e aí, cara a cara, evitam o teu olhar.

Os que fecham os olhos ao falar de certos temas importantes, ou trágicos. 

Os que olham para um ponto fixo entre as sobrancelhas de seu interlocutor. 

Os que só olham os olhos quando tu não olhas os olhos deles e vice-versa. 

Os que aguentam o teu olhar como provocação. 


Os que se ocultam atrás da desculpa de uma franja demasiado comprida ou dos seus óculos de sol. 

Os que só olham os olhos quando se trata de seduzir. 

Os que só olham os olhos quando dizem a verdade. 

Ou vice-versa. 

Não saberia se me fiar mais ou menos dos que olham os olhos quando falam como daqueles que evitam o teu olhar. 

Alguns olhos são sempre tímidos ou temem ser despidos (ou caçados) através da íris. 


Outros, no entanto, são tão frios que jamais sacarás conclusão alguma através deles. 

Ou cristalinos; sem nada para ocultar. 

Ou despojados de medo. 

Ou noutro mundo. 

Agora olha-me nos olhos e conta-me coisas. 

Consegues olhar os olhos do teu interlocutor?



segunda-feira, dezembro 19, 2016

- Vou oferecer todos os meus bens.
Para cada um irá uma embalagem com quinze dos meus males !

CONTIGÊNCIAS

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Tu e eu nascemos, fruto da casualidade inexplicável, num primeiro mundo, sem fome nem epidemias. 

Esta mesma casualidade situou-nos no Porto, nos ventres de umas famílias que também não escolhemos. 

Essas mães e esses pais e esse meio converteu-nos no que agora somos, com as nossas virtudes e os nossos defeitos. 

Nunca nos faltou um prato de sopa, um tecto, roupa e medicamentos.

 
Agora, inclusivamente, temos internet e uma ou mais TV com dezenas de canais. 

Agora sou pensionista como poderia ser qualquer outra coisa. 

Foi um cúmulo de casualidades, já vêem. 

Tive opções que desaproveitei ou fui descartando segundo o rodopiar da minha má cabeça. 

Cometi erros, muitos. 

Continuo a cometê-los. 

Aqui, no primeiro mundo, podemos permitir-nos cometer erros. 

Muitos outros, a grande maioria neste vasto e injusto planeta, cometam ou não erros, passarão fome e sofrerão epidemias. 

 
Com isto quero dizer que quero-te, como também se podem querer duas pessoas no terceiro mundo. 

Mas eu quero-te, tu e eu, numa cama com cinco camadas de látex. 

Abraçados, esquentados e famintos só de beijos. 

É importante que tenhas em conta isto.
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sexta-feira, dezembro 09, 2016

- O azar existe mesmo, basta perguntar a um fracassado !

CRISES

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Diz-se que cada um fala da feira segundo o que necessita dela e isso explica porque há tanta gente calada. 

Não vão os tempos propícios a lançar foguetes, mas tão-pouco para não atirar nenhum. 

As feiras do constrangido Verão português continuaram a registar uma importante descida, já que diminuíram, não só os calhambeques, como os orçamentos. 

Quando não há pão, o circo também se ressente e muitos municípios optaram obrigatoriamente por reduzir os seus reduzidos gastos. 

Este ano também haverá menos dispêndios em luzes de ornamentações, já que os presidentes de câmara, nas suas esbanjadas luzes, deram conta de que não são, em geral, nenhumas luminárias e já neste Verão, os mais sensatos interrogaram-se, “porque vamos atirar em fogos de artifício o pouco dinheiro que temos para dar algum calor ao pessoal?” 


O português médio continua conservando o “festivaleiro sentido da existência”, por isso entre nós continua sendo mais ilusória a véspera que o dia da comemoração. 

Está claro que o melhor momento do amor é o de subir as escadas e a ocasião cimeira dos festejos nos municípios pequenos situa-se na véspera, quando todo o mundo selvático as promete muito felizes. 

Daí o inolvidável programa das festas que aquele poeta, convicto nativo, pudesse escrever uns estimulantes versos dizendo que a “letra não batia com a careta”. 

Mural do Edifício Paulo Guerra - Malangatana

Cada um diverte-se como pode. 

O grande Saramago disse que o homens é um animal inconsolável, mas isso não impede a busca da diversão. 

Nada mais nada menos, Santo Agostinho perdoava e dizia: 
"fazer de louco uma vez por ano é algo aceitável". 

As alegres festas estivais, este ano, perderam alegria, já que esse vivo movimento de ânimo sempre esteve em estreita relação com a mobilidade dos orçamentos.
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