- Das
coisas que ocorrem ao teu corpo, sempre aprendo mais que daquelas outras que
sucedem ao teu pijama !
O VIDEIRINHO
quinta-feira, abril 17, 2014
PECADO DEIFICADO
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Maria Madalena unge os pés
desnudos de Jesus com perfume fresco de açafrão, as suas delicadas mãos massajam
com esmero cada ponto sensorial, aliviando o cansaço que o seu amado acumula depois
do longo dia.
Jesus cerra os olhos, inclina a cabeça e manifesta toda a sua alegria ousando exalar longos suspiros.
Maria Madalena olha-o enamorada experimentando uma efusão contida de desejo, a sua boca emite discretos sibilos que tentam, com ternura, sossegar a mente de Jesus.
Com os seus longos cabelos fricciona as mãos entre os dedos, cantarolando suavemente uma doce canção de amor.
Quando termina, não pode evitar acercar-se e beijar os seus lábios; Jesus abre os olhos recebendo a oferenda e responde rodeando-a com os seus braços.
Maria Madalena retira lentamente a túnica que a cobre, levanta os braços e deixa que descubra os seus encantos.
Deitados, compartem sem pruridos os prazeres carnais, entregando-se, fogosos, ao pecado.
Amanhece, Jesus desperta junta à nota de Maria Madalena:
“Bons dias meu amor, recorda que terça-feira ficámos de nos disfarçar de Marco António e Cleópatra”.
Jesus cerra os olhos, inclina a cabeça e manifesta toda a sua alegria ousando exalar longos suspiros.
Maria Madalena olha-o enamorada experimentando uma efusão contida de desejo, a sua boca emite discretos sibilos que tentam, com ternura, sossegar a mente de Jesus.
Com os seus longos cabelos fricciona as mãos entre os dedos, cantarolando suavemente uma doce canção de amor.
Quando termina, não pode evitar acercar-se e beijar os seus lábios; Jesus abre os olhos recebendo a oferenda e responde rodeando-a com os seus braços.
Maria Madalena retira lentamente a túnica que a cobre, levanta os braços e deixa que descubra os seus encantos.
Deitados, compartem sem pruridos os prazeres carnais, entregando-se, fogosos, ao pecado.
Amanhece, Jesus desperta junta à nota de Maria Madalena:
“Bons dias meu amor, recorda que terça-feira ficámos de nos disfarçar de Marco António e Cleópatra”.
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sexta-feira, abril 11, 2014
TERAPÊUTICA
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A minha disfunção eréctil, conjugada com a frigidez que causava à minha mulher, empurrou-nos para uma consulta com um famoso sexólogo nos arredores.
Àquele médico jovem, depois de explicar-lhe a nossa vida sexual, desnudou a minha bela esposa diante dos meus olhos, indicando-me como devia estimulá-la.
As suas mãos percorreram a pele de Raquel com suavidade, detendo-se ao mínimo suspiro que ela emitisse.
O rosto de Raquel revelava voluptuosidade, gozo e assombro quando as pontas dos dedos friccionavam, sem cessar, o rosado das suas auréolas e o turgido dos seus mamilos.
Comprovei que as suas bochechas se afoguearam quando o médico acercou os seus lábios à parte interior das coxas.
A minha esposa consentia pressionando a cabeça do médico contra o seu ventre; senti um prazeiroso formigueiro percorrer a minha pélvis.
Consegui ter uma bela bem firme erecção, quando a levou ao orgasmo, penetrando-a sobre a marquesa. Enquanto Raquel se vestia entusiasmada, paguei ao médico agradecendo-lhe o seu êxito.
Muito amavelmente, recomendou-nos marcar nova consulta para prosseguir a terapia para um tratamento mais personalizado.
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quinta-feira, abril 10, 2014
SINAIS AO TEMPO
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Não fico satisfeito em espreitar-te através das cortinas e
atrás da janela, vizinha, quero tocar-te cada dia pela manhã.
Sobretudo pela manhã, na primeira hora, quando estás sem maquilhagem, quando ainda ninguém te colocou a manápula em cima.
Ser o primeiro a acariciar a tua cara, o teu peito, o teu pescoço, essa melena dourada.
Sem maquilhagem, sem lacas, sem extensões nem estiramentos.
Sem pestanas postiças nem lábios delineados.
Tenho o meu quarto cheio das tuas fotografias.
Todos os que consegui encontrar na internet.
É o bom que tem o seres famosa.
Encontro centenas de fotos tuas.
Disfarçada de natural.
Mas sempre com outros.
Nunca comigo.
Sei onde tens tudo até ao sinal ou verruga mais pequeno, pelas tuas poses na espanhola Interviú.
Mas não, não gosto de exibí-los num quadro no meu quarto.
Gosto de imaginá-los de noite.
Os teus sinais como luas novas.
Comprei um telescópio para vê-los a partir da minha janela, enquanto te despes, languidamente, para te meteres na cama.
Enquanto calças umas meias coloridas e zebradas para desceres a correr pelas escadas com os sapatos na mão para não caires rolando.
Na lufa-lufa do dia, na acalmia da noite.
Olhar os teus sinais e verrugas.
Trinta e dois sinais.
Tens trinta e dois sinais.
Tenho quase a certeza que nunca os contaste.
É certo que nunca te poderei dizer que te amo, nem te poderei contar que no meu quarto guardo uma foto de cada sinal.
Decerto que qualquer dia te irás do terceiro andar do bloco defronte e eu terei que guardar o meu telescópio.
Certamente que então porei um nome a cada lua nova do teu corpo e criarei um universo paralelo em que continuarei a sonhar contigo.
Até lá… sim, por favor, descalça de novo as meias, gosto do sinal na tua virilha.
A esse, quando partires, chamar-lhe-ei Estrela em tua honra.
Pequeno.
Oculto.
Insinuante.
Como tu atrás das cortinas.
Sobretudo pela manhã, na primeira hora, quando estás sem maquilhagem, quando ainda ninguém te colocou a manápula em cima.
Ser o primeiro a acariciar a tua cara, o teu peito, o teu pescoço, essa melena dourada.
Sem maquilhagem, sem lacas, sem extensões nem estiramentos.
Sem pestanas postiças nem lábios delineados.
Tenho o meu quarto cheio das tuas fotografias.
Todos os que consegui encontrar na internet.
É o bom que tem o seres famosa.
Encontro centenas de fotos tuas.
Disfarçada de natural.
Mas sempre com outros.
Nunca comigo.
Sei onde tens tudo até ao sinal ou verruga mais pequeno, pelas tuas poses na espanhola Interviú.
Mas não, não gosto de exibí-los num quadro no meu quarto.
Gosto de imaginá-los de noite.
Os teus sinais como luas novas.
Comprei um telescópio para vê-los a partir da minha janela, enquanto te despes, languidamente, para te meteres na cama.
Enquanto calças umas meias coloridas e zebradas para desceres a correr pelas escadas com os sapatos na mão para não caires rolando.
Na lufa-lufa do dia, na acalmia da noite.
Olhar os teus sinais e verrugas.
Trinta e dois sinais.
Tens trinta e dois sinais.
Tenho quase a certeza que nunca os contaste.
É certo que nunca te poderei dizer que te amo, nem te poderei contar que no meu quarto guardo uma foto de cada sinal.
Decerto que qualquer dia te irás do terceiro andar do bloco defronte e eu terei que guardar o meu telescópio.
Certamente que então porei um nome a cada lua nova do teu corpo e criarei um universo paralelo em que continuarei a sonhar contigo.
Até lá… sim, por favor, descalça de novo as meias, gosto do sinal na tua virilha.
A esse, quando partires, chamar-lhe-ei Estrela em tua honra.
Pequeno.
Oculto.
Insinuante.
Como tu atrás das cortinas.
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quarta-feira, abril 09, 2014
JOGADOR
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Apaixonava-o
jogar xadrez e transportava sempre, num dos bolsos, um pequeno tabuleiro
portátil com as respectivas peças.
Assim que subiu para o comboio, travou conversa com o companheiro de viagem que ocupava o assento situado em frente ao seu e instou-o a jogar uma partida.
O convidado negou-se.
— Conheço muito pouco, quase nada, do jogo ciência — respondeu-lhe cortesmente.
Então ele insistiu com tanta porfia que conseguiu convencer o renitente viajante.
Iniciou-se a partida.
Como o seu forçado oponente jogasse de forma inusitada, extravagante, perdeu a serenidade, caiu no erro, e ao quarto movimento, deixou um cavalo à mercê das peças inimigas.
O seu adversário, talvez distraído, ia passar ao lado da jogada que o favorecia, mas ele, cavalheirescamente chamou-lhe a atenção.
— Coma o cavalo, disse-lhe, assinalando a peça indefesa.
— O cavalo?
Essa peça é uma cavalo?
Quere que eu o coma?
— Sim.
É imperativo que o coma.
Não quero vantagem. Por favor, coma-o.
— Se o senhor o pede tão ferverosamente…, disse com voz submissa.
Pegou na peça que lhe assinalaram e engoliu-a de um trago.
Nesse instante levantou-se pressuroso, aproveitou a baixa velocidade do comboio, que se acercava de uma estação, saltou para terra e afastou-se em ligeiro trote, relinchando, por uma vereda que seguramente o conduzia a um estábulo por perto.
Assim que subiu para o comboio, travou conversa com o companheiro de viagem que ocupava o assento situado em frente ao seu e instou-o a jogar uma partida.
O convidado negou-se.
— Conheço muito pouco, quase nada, do jogo ciência — respondeu-lhe cortesmente.
Então ele insistiu com tanta porfia que conseguiu convencer o renitente viajante.
Iniciou-se a partida.
Como o seu forçado oponente jogasse de forma inusitada, extravagante, perdeu a serenidade, caiu no erro, e ao quarto movimento, deixou um cavalo à mercê das peças inimigas.
O seu adversário, talvez distraído, ia passar ao lado da jogada que o favorecia, mas ele, cavalheirescamente chamou-lhe a atenção.
— Coma o cavalo, disse-lhe, assinalando a peça indefesa.
— O cavalo?
Essa peça é uma cavalo?
Quere que eu o coma?
— Sim.
É imperativo que o coma.
Não quero vantagem. Por favor, coma-o.
— Se o senhor o pede tão ferverosamente…, disse com voz submissa.
Pegou na peça que lhe assinalaram e engoliu-a de um trago.
Nesse instante levantou-se pressuroso, aproveitou a baixa velocidade do comboio, que se acercava de uma estação, saltou para terra e afastou-se em ligeiro trote, relinchando, por uma vereda que seguramente o conduzia a um estábulo por perto.
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terça-feira, abril 08, 2014
OS MEUS MONSTROS
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Os meus monstros não são originais: visitam-me sempre de
madrugada.
Os meus monstros sempre viram muito cinema mau: entram sempre pela varanda.
Os meus monstros começam pela sala: riscam o parquê, estragam a minha biblioteca e violam as minhas janelas.
No corredor mordem os quadros e lambem a textura rugosa das paredes.
E sempre que entram no meu quarto encontram-me sentado na cama, abraçado aos meus joelhos, sereno como uma estátua, com um sorriso do tamanho de uma dissimulação e com os meus olhos cravados em todos eles, que dançam em meu redor e riem, e gritam e enchem de baba os meus lençóis.
Quando se aborrecem, um deles agarra-me pelo pescoço e maldiz-me enchendo a minha cara com o seu bafo envelhecido.
E, tal como vêm, se vão.
Quando o ruído dos meus monstros cessa, começa o meu: um pranto infantil, uma tremedeira de todo o meu corpo que agita a cama, um grito de dor interior que greta as paredes.
E a certeza de que voltarão a visitar-me muito brevemente; voltarão a destruir o que me pertence e a encontrar-me tranquilo sobre o meu colchão, engolindo o medo que depois vomitarei.
Porque os meus temores não são originais.
Os meus monstros sempre viram muito cinema mau: entram sempre pela varanda.
Os meus monstros começam pela sala: riscam o parquê, estragam a minha biblioteca e violam as minhas janelas.
No corredor mordem os quadros e lambem a textura rugosa das paredes.
E sempre que entram no meu quarto encontram-me sentado na cama, abraçado aos meus joelhos, sereno como uma estátua, com um sorriso do tamanho de uma dissimulação e com os meus olhos cravados em todos eles, que dançam em meu redor e riem, e gritam e enchem de baba os meus lençóis.
Quando se aborrecem, um deles agarra-me pelo pescoço e maldiz-me enchendo a minha cara com o seu bafo envelhecido.
E, tal como vêm, se vão.
Quando o ruído dos meus monstros cessa, começa o meu: um pranto infantil, uma tremedeira de todo o meu corpo que agita a cama, um grito de dor interior que greta as paredes.
E a certeza de que voltarão a visitar-me muito brevemente; voltarão a destruir o que me pertence e a encontrar-me tranquilo sobre o meu colchão, engolindo o medo que depois vomitarei.
Porque os meus temores não são originais.
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domingo, abril 06, 2014
ESTRANHO VIZINHO (PARTE II)
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Chegado ali, abriu o frigorífico e sacou uma lata de cerveja Finkbrau, do Lidl: a primeira em muitas semanas, tal como se tinha comprometido consigo próprio, na noite anterior ao seu primeiro dia de trabalho.
Olhou-a longamente, abriu-a, voltou a olhá-la e quase de um só trago, e sem se separar do frigorífico, bebeu-a.
Já vazia, deixou-a na bancada.
Com a garganta fresca, foi até ao seu quarto, despiu-se olhando a sua cama como se da sua defunta esposa se tratasse e deitou-se.
Tinha imaginado inúmeras vezes este momento: enquanto o sol e o cansaço o golpeavam com força e o muro custava a crescer, ele via-se sobre o seu colchão, mergulhado num longo e completo sono.
Mas a imaginação é isso mesmo: imaginação.
A realidade era um homem esmagado que não podia nem fechar os olhos porque, quando o fazia, centenas de fileiras de tijolos e toneladas de cimento esmagavam a sua paz de espírito.
Era impossível.
Voltou a rezingar algo, mas desta vez sim, entendeu ele mesmo o que se escapava entredentes: um “p*ta que pariu”.
Depois desse “p*ta que pariu”, levantou-se, voltou à cozinha ás escuras e bebeu outra cerveja.
E outra.
E outra.
E da cerveja (que, entretanto, acabara), passou ao vinho e do vinho ao whisky e do whisky a deixar cair, sem amortecer, a sua cabeça sobre a mesa.
E daí até despertar, treze horas depois, olhando através da janela da cozinha o seu muro, cheio de um imenso e vermelho.
Porquê?
Estancou o génio do seu amanhecer e alegrou-se (e pela primeira vez em muitos anos a sua alegria, sim, era como a nossa; chamar-lhe humano, agora sim, era justo) de não saber a resposta e de ter aprendido, por fim, a viver num mundo no qual podia fazer as coisas sem qualquer razão, sem nenhum porquê.
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sábado, abril 05, 2014
ESTRANHO VIZINHO (Parte I)
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Só descansava para dormir e fazia-o apoiado na parte do muro
que tinha erguido na anterior jornada de trabalho.
Comer, comia, com uma mão, alguma fruta que agarrava da sua abandonada horta, enquanto com a outra prosseguia com o seu labor.
O dia, de que nos ocupamos, fez o que fazia cada dia ao terminar, ao esconder-se o sol, o seu rotineiro trabalho: afastar-se uns passos e olhar o resultado a partir de uma perspectiva de pinacoteca.
Como de costume, franziu a testa e, como quase sempre, colocou algum problema coçando a sua suada cabeleira e resmungando algo que nem ele sabia o que era.
Mas desta vez havia algo diferente: o muro já estava acabado.
Tinham-se acabado as maratonas de “tijolamento”; acabaria por dormir o necessário.
Acabou-se, supôs ele, ao acercar-se para confirmar a estabilidade do muro e a necessidade de revogar de novo algumas partes com cimento e a curiosidade dos vizinhos, que lançavam palpites sobre a profunda razão pela qual o estranho vizinho tinha decidido, apesar de não ter uma moradia a menos de cem metros em redor, alçar uma parede de cinco metros, num bairro em que a tranquilidade reinava desde o final da revolta dos anti-Terry Richardson e, além disso, dormir mal debaixo da fria Lua, em lugar de fazê-lo no aconchego dos seus cobertores.
Feitos os diversos testes e comprovações e achando-se razoavelmente satisfeito (o seu “razoavelmente satisfeito”, não era como o do resto dos mortais; chamar-lhe exigente era um eufemismo), entrou em sua casa, respirou o pó que impregnava o ar e dirigiu-se, a passo lento, para a cozinha.
Comer, comia, com uma mão, alguma fruta que agarrava da sua abandonada horta, enquanto com a outra prosseguia com o seu labor.
O dia, de que nos ocupamos, fez o que fazia cada dia ao terminar, ao esconder-se o sol, o seu rotineiro trabalho: afastar-se uns passos e olhar o resultado a partir de uma perspectiva de pinacoteca.
Como de costume, franziu a testa e, como quase sempre, colocou algum problema coçando a sua suada cabeleira e resmungando algo que nem ele sabia o que era.
Mas desta vez havia algo diferente: o muro já estava acabado.
Tinham-se acabado as maratonas de “tijolamento”; acabaria por dormir o necessário.
Acabou-se, supôs ele, ao acercar-se para confirmar a estabilidade do muro e a necessidade de revogar de novo algumas partes com cimento e a curiosidade dos vizinhos, que lançavam palpites sobre a profunda razão pela qual o estranho vizinho tinha decidido, apesar de não ter uma moradia a menos de cem metros em redor, alçar uma parede de cinco metros, num bairro em que a tranquilidade reinava desde o final da revolta dos anti-Terry Richardson e, além disso, dormir mal debaixo da fria Lua, em lugar de fazê-lo no aconchego dos seus cobertores.
Feitos os diversos testes e comprovações e achando-se razoavelmente satisfeito (o seu “razoavelmente satisfeito”, não era como o do resto dos mortais; chamar-lhe exigente era um eufemismo), entrou em sua casa, respirou o pó que impregnava o ar e dirigiu-se, a passo lento, para a cozinha.
... CONTINUA
sexta-feira, abril 04, 2014
UTOPIA
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Ontem
à noite estive mesmo para atropelar um palhaço.
Na realidade a culpa não foi de
ninguém, ou se foi…
O palhaço caminhava pela borda do passeio com um pedestal debaixo do
braço e, de repente, o pedestal resvalou justamente para a frente do meu carro.
Instintivamente, tratou de agarrá-lo antes de cair no chão, eu por sorte, consegui
travar a tempo: o meu carro ficou a poucos centímetros da sua cabeça.
Ao ver
que não tinha sucedido absolutamente nada, o palhaço levantou os olhos na minha
direcção, apoiou-se na ponta do capot e lançou um suspiro de alívio.
Uma vez recomposto do susto, acercou-se da minha janela, sorriu e fez o gesto de entregar-me uma flor imaginária.
Eu "apanhei-a" pelo pé e continuei a marcha.
Foi absurdo, mas fiquei com a flor imaginária na mão durante um momento e depois, fingi deixá-la no porta-copos do tablier.
Imediatamente surgiu a boazona da minha vizinha do 3º Dto.
Esfreguei as mãos de contente.
Dei-lhe boleia e notei que se fixava no porta-copos.
– Bonita flor, disse-me.
Banzei.
Não percebi patavina, mas ás vezes, sobretudo com mulherões como aquela, o melhor é isso mesmo: não entender nada.
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quinta-feira, abril 03, 2014
FALAR PRÓ BONECO
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Giuseppe Dangelico (Pino Dangelico)
Não
sou daquelas pessoas que consultam e tentam tirar as suas dúvidas com o
travesseiro; de facto, para mim, o meu travesseiro não fala, se aperto muito a
cara contra ele pode escutar o meu próprio coração, mas ele, como se sabe,
nunca foi um bom conselheiro.
Nem tão-pouco me incluo nas pessoas indecisas que consomem meia vida para tomarem decisões.
Tenho tudo muito “arrumado” e bem esclarecido,
- Coca-cola ou Pepsi ?
Cerveja!
- Carne ou peixe ?
Carne!
- Frio ou quente ?
Frio!
- Acima ou abaixo ?
Talvez os dois, pois há momentos para tudo ao mesmo tempo (ritmado)!
Tudo bem se te equivocas numa decisão fácil, é possível que um dia entres numa pizzaria e quando estejam a ponto de te servir a tua quatro estações com dupla dose de queijo penses, “merda, agora mataria por comer uma posta mirandesa com três dedos de altura”, mas tudo bem, porque seguramente também desfrutarás da quatro estações com dupla dose de queijo.
Nem tão-pouco me incluo nas pessoas indecisas que consomem meia vida para tomarem decisões.
Tenho tudo muito “arrumado” e bem esclarecido,
- Coca-cola ou Pepsi ?
Cerveja!
- Carne ou peixe ?
Carne!
- Frio ou quente ?
Frio!
- Acima ou abaixo ?
Talvez os dois, pois há momentos para tudo ao mesmo tempo (ritmado)!
Tudo bem se te equivocas numa decisão fácil, é possível que um dia entres numa pizzaria e quando estejam a ponto de te servir a tua quatro estações com dupla dose de queijo penses, “merda, agora mataria por comer uma posta mirandesa com três dedos de altura”, mas tudo bem, porque seguramente também desfrutarás da quatro estações com dupla dose de queijo.
As decisões importantes?
Bom, suponho que todo o mundo tem claro este tipo de coisas, não é ?
A gente sabe se quer ter filhos ou não, se quer viver no campo ou em pleno Central Park.
Se amam o seu parceiro ou se aguentam por costume.
A única coisa que os torna hesitantes e seres temíveis, é a ideia de desistir de tudo, uma vez que foram eles que escolheram.
Bom, suponho que todo o mundo tem claro este tipo de coisas, não é ?
A gente sabe se quer ter filhos ou não, se quer viver no campo ou em pleno Central Park.
Se amam o seu parceiro ou se aguentam por costume.
A única coisa que os torna hesitantes e seres temíveis, é a ideia de desistir de tudo, uma vez que foram eles que escolheram.
quarta-feira, abril 02, 2014
BALANCEIOS
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Nos meus quase oito anos de blog atingi todos os extremos da psique imaginável.
Já me chamaram, num bar, fascista e comunista, uma leitora chamou-me arrogante e chato num pequeno intervalo de apenas três ou quatro sorvos de Chivas, outra ofereceu-me a sua cama via Whatsapp e ao abrir-me a porta lançou-me à cara um DVD dos Radiohead (que certamente ainda conservo).
Já me chamaram misógino, machista, efeminado, estulto (tive que ir ver ao dicionário), maníaco, sociopata de sofá, inventor dos “tomates”(?), liberticida, ameaçaram-me de morte "prá" aí umas oito vezes (sete das quais eram mulheres), partiram-me um espelho retrovisor do meu táxi com uma pedra envolta numa nota escrita:
(“Não te queixes pelo espelho.
O meu coração também está partido em mil pedaços por tua culpa”, dizia a nota).
Recebi quatro notificações policiais (uma delas por tentar atropelar uma mulher numa avenida da Cidade do México; país onde nunca estive), quatro usurpações de identidade (duas no Twitter, uma no Facebook e outra num daqueles sites onde se procura "carne", digo, parceiras), dei um autógrafo numa nádega de um indivíduo que podia ser meu pai, quiseram convidar-me para uma sala de “chuto”, heroína, maconha, cogumelos…, speed, êxtase, pastilhas, tartes de queijo, multas, viagens, visitas ao Zoo, putas, travestis e incluso vapores de gasolina (uma tipa insistiu em pagar-me cinquenta euros de gasolina, mas o meu táxi é a diesel), autografei livros que nunca escrevi, num convento, numa sala de espera da urgência de um hospital, em dois comissariados de polícia, num centro de planeamento familiar, numa oficina de chapeiro clandestina, em diversos semáforos, do meu táxi para outro, (o que se consegue fazer com o que se não fez).
E com todo este dinheiro que não ganhei ao longo destes anos, mais de metade foi gasto em terapias e o restante em psicofármacos, álcool, computadores portáteis (esqueço-os nos bares depois de meia dúzia de “entornos”, ou que estropio, derramando néctares, que deveriam ser imperdíveis, sobre os teclados, multas e como não podia deixar de suceder nas mulheres de “bom” porte, suporte, decote, pacote e rapidez de movimentos de vaivém, que eu por aí desempacote.
Nada de fracote.
Mas se voltasse a nascer, não duvidem
nem um segundo: faria exactamente o mesmo.
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