- Café e
amor, só se forem quentes; e o melhor termómetro é a língua!
O VIDEIRINHO
terça-feira, agosto 01, 2017
DUAL VIDA
Abre a porta do frigorífico.
Quatro ovos solitários saúdam-na a partir das prateleiras vazias.
Não há leite para o café.
Suspira e decide preparar um chá.
Enquanto a água ferve, cruza os braços num abraço cálido.
Fecha os olhos e sente os seus, sente saudades, tantas que dói.
O água borbulha no fogo.
Às vezes, também, tem saudades do atarefamento das comidas quando a casa se enchia de cheiros e risos.
Agora só o silêncio a recebe.
Um silêncio de buraco negro que tudo engole. Dá um sorvo ao chá, esqueceu-se de lhe deitar açúcar e amarga, mas não tanto como a sua vida.
Olha o montão de comprimidos dispostos sobre a mesa da cozinha, há-os de todas as cores, ainda que lhe parecem todos iguais, não há diferença.
Só servem para prolongar-lhe a vida.
Mas é isso o que realmente quer?
Interroga-se.
Vai ao quarto de banho e frente ao espelho ensaia sorrisos, ensaia outra cara.
Essa outra cara que mostra todos os dias e que diz ao mundo que não vai poder com ela, que pensa prosseguir na luta, ainda que doa, ainda que a amargure, ainda que a devore.
terça-feira, abril 04, 2017
SEM NOME
.
Anónimo e anonimato são duas palavras de que gosto muito e, nunca tinha
reparado nisso, até que uma vez, no meu blog, alguém sem nome, anónimo, como preferireis,
deixou-me um comentário.
Comecei então a pensar que gostava muito desta
palavra.
Gosto pela entoação e gosto pelo significado.
E atrai-me a ideia de
pensar que há alguém por aí, não sei onde, e que não não sei quem é, que me lê
e me comenta.
Parece-me muito excitante entrar assim na mente de uma pessoa ,
sem sequer lho propor, e só de pensá-lo,
também é um pouco perturbador.
Imagina que entras na mente de uma pessoa e lhe
removes algo do seu interior, desloca-lo e desordena-lo de tal maneira que essa
pessoa, só por ler algo escrito por ti, já não volta a ser a mesma e na sua
cabeça, algo faz clic e acende-se uma luzinha, uma luz muito pequena e muito
débil mas ilumina para além de até onde ele podia ver, que amplia o seu pequeno
e particular horizonte, ou que deixa de olhar a vida como se a vida fosse isso,
um horizonte, algo longínquo, que parece que está aí e o podes tocar se esticares
a mão, mas que na realidade, é inalcançável.
E
que essa luz lhe mostre que não só pode ver o que tem pela frente da seu
nariz, mas para além, bem mais além e, se gira a cabeça, também pode ver o que
há aos lados, e se dá a volta pode olhar detrás da sua.
Quiçá vos pareça uma
imbecilidade tudo isto que vos estou a contar, pode ser que o seja, mas há
gente que se empenha em aprender muito bem a lição que os outros lhe dão sobre
o que é a vida, bom há gente que se empenha em aprender todo o tipo de lições
que lhe dão os demais, como se as vidas, de resto, fossem transmissíveis e
poderem fazer uso delas.
Outros, pelo contrário, decidem averiguar por sua
conta e risco.
Deste tipo de pessoas gosto, costumam ser as que têm mais perguntas que respostas, e não se empenham em
mostrar a ninguém o caminho “acertado”.
Ainda que tudo isto que vos conto seja
questionável e o meu debate interior a este respeito daria para outro texto
porque não deixa de ser uma interpretação, em minha opinião todos oscilamos entre
os dois extremos sem darmos conta, é por isso que gosto e me perturba a ideia
de que alguém anónimo tenha lido um texto meu e tenha partido com alguma
luzinha que lhe revele mais algum outro interrogante.
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