- Coloquei daquele teu perfume que me põe louco;
fiquei todo o dia desejando amar-me ! (josé torres)
O VIDEIRINHO
quarta-feira, junho 22, 2016
PAPA-JANTARES
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Li algures por aí que, um tipo de 25 anos que não estuda nem trabalha deverá abandonar a casa dos pais, por ordem de um juiz dum tribunal de Málaga (Espanha).
E agora, digo eu: o que faz um tão grande marmanjão a viver ainda com os seus pais?
E como é que isto parece o mais normal neste país?
Chamam-lhe a geração “nem-nem”: nem estudam nem trabalham, nem querem trabalhar nem querem formar-se, nem vivem nem deixam viver, nem planos, nem projectos, nem com os seus pais nem sem os seus pais, porque estes é que entram com o dinheiro.
Para além dos problemas de emprego e acesso à habitação, que são indiscutíveis, subjaz uma profundidade educacional, o de uma geração acomodada e sem ambições, que não valoriza a liberdade nem a independência se custa dinheiro, uma geração desconcertada e imatura, com pais tão tolerantes que lhes cedem o seu cadeirão até os trinta e muitos.
Do rio Minho para baixo não se compreende.
São mais de duzentos e cinquenta mil os “nem-nem” portugueses, uma percentagem significativa da população, sem distinção de classe (sem contar, evidentemente, com os que procuram trabalho e não o encontram, os quais somam mais 30%), e cedo serão muitos mais, porque isto é já um mal social.
A ociosidade é o caldo de cultura de muitas feridas e pode ser uma doença do entendimento, um apoltronamento vital, a que Pascal Bruckner chamou: “cultura da irresponsabilidade”: tratar de escapar dos próprios actos nessa tentativa de gozar dos benefícios da liberdade sem sofrer nenhum de seus inconvenientes.
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terça-feira, junho 21, 2016
DEUSES TERRÁQUEOS
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Todos somos deuses de carne e osso, imperfeitos e
frágeis, instáveis e inquietos e em nós está a imensidão do Universo.
O nosso interior encerra mil perguntas e um pouco mais ao fundo, as respostas aos mistérios.
Mas estão tão escondidas que se torna muito difícil aceder-lhes.
Em nós estão as pequenas e as grandes misérias, os desejos, a culpa e a recompensa, mas igualmente somos deuses de carne e osso.
Há muito que os deuses moravam no seu mundo, criadores simples e aborrecidos que, não tendo outra coisa para fazer, tão só se dedicavam a alterar o tempo.
Tendo criado este mundo e o Universo inteiro e desconhecendo o ser que os tinha criado a eles, os deuses estavam tristes, os deuses não tinham consolo.
E decidiram um dia (não tinham outra alternativa) renunciar aos seus postos e abandonar os céus.
Ao baixar à terra converteram-se em deuses novos, transformaram-se em homens de carne e osso.
Mas ao perderem os seus poderes, ao deixarem de ser eternos, descobriram a soberba, a ira, a dor e o medo; e ao conhecerem o amor, surgiu neles um desejo: voltar a ser deuses, mas não deuses de carne e osso.
Deuses na terra como antes tinham sido no céu e, através dos seus poderes perderiam a dor e o medo, derrotariam a morte e dominariam a seu bel-prazer os desejos.
Então inventaram deuses lá nos tectos do céu.
Primeiro ofrendaram sacrifícios, depois criaram cultos e escreveram mandamentos.
Prometeram aos seus descendentes um paraíso eterno, e por outro lado, ameaçaram-nos com o inferno.
Tudo isto sem saber que lá em cima, tinha ficado um deles.
Esse Deus, o maior, o mais sábio, o mais velho, prometeu fazer regressá-los a todos, desde que fossem justos e verdadeiros.
Mas nenhum quis continuar a escutar, e terminaram rebelando-se contra o velho.
Por isso ainda somos deuses, deuses de carne e osso.
O nosso interior encerra mil perguntas e um pouco mais ao fundo, as respostas aos mistérios.
Mas estão tão escondidas que se torna muito difícil aceder-lhes.
Em nós estão as pequenas e as grandes misérias, os desejos, a culpa e a recompensa, mas igualmente somos deuses de carne e osso.
Há muito que os deuses moravam no seu mundo, criadores simples e aborrecidos que, não tendo outra coisa para fazer, tão só se dedicavam a alterar o tempo.
Tendo criado este mundo e o Universo inteiro e desconhecendo o ser que os tinha criado a eles, os deuses estavam tristes, os deuses não tinham consolo.
E decidiram um dia (não tinham outra alternativa) renunciar aos seus postos e abandonar os céus.
Ao baixar à terra converteram-se em deuses novos, transformaram-se em homens de carne e osso.
Mas ao perderem os seus poderes, ao deixarem de ser eternos, descobriram a soberba, a ira, a dor e o medo; e ao conhecerem o amor, surgiu neles um desejo: voltar a ser deuses, mas não deuses de carne e osso.
Deuses na terra como antes tinham sido no céu e, através dos seus poderes perderiam a dor e o medo, derrotariam a morte e dominariam a seu bel-prazer os desejos.
Então inventaram deuses lá nos tectos do céu.
Primeiro ofrendaram sacrifícios, depois criaram cultos e escreveram mandamentos.
Prometeram aos seus descendentes um paraíso eterno, e por outro lado, ameaçaram-nos com o inferno.
Tudo isto sem saber que lá em cima, tinha ficado um deles.
Esse Deus, o maior, o mais sábio, o mais velho, prometeu fazer regressá-los a todos, desde que fossem justos e verdadeiros.
Mas nenhum quis continuar a escutar, e terminaram rebelando-se contra o velho.
Por isso ainda somos deuses, deuses de carne e osso.
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sexta-feira, junho 17, 2016
AMOR INDECISO
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Escutei uma vez a definição de amor:
“é quando uma pessoa é tão importante para ti, que serias capaz de sacrificar-te por ela, sem medires as consequências”.
E aqui estou eu.
Vendo como um autocarro está prestes a atropelar a minha mulher.
Talvez seja porque o subconsciente é capaz de processar dados à velocidade da luz, ou simplesmente me assaltam dúvidas, mas antes de cometer alguma estupidez, interrogo-me se a pessoa que está na passadeira a ponto de ser esmagada por uma enorme roda, merece o maior dos sacrifícios; a minha vida.
O autocarro avança inexoravelmente para ela, eu sei-o.
Estou a ver como o motorista tenta sem sucesso detê-lo.
Vai com muita velocidade e a sua cara já não tem pinga de sangue, convertida numa tela em branco.
Como é possível que me assaltem dúvidas, se eu gosto dela?
Como pode acontecer a quem sempre acreditou ser uma pessoa nobre; dessas que enchem a boca, dizendo, oxalá me tivesse acontecido a mim?
No entanto, agora tremem-me as pernas ao pensar que, ou é ela ou eu.
Que porra faço?
Quiçá seja o instinto de sobrevivência, ou não, o facto é que a minha cabeça só procura escusas e pretextos para não fazê-lo.
Por um lado tenho o tema do andar, se a minha mulher falece, tenho a hipoteca para pagar, por outro lado, certamente que a companhia de transportes urbanos me dará uma pingue indemnização a fim de minimizar o grande abalo que me produziram e assim, assaltam-me um sem fim de pensamentos que me aparafusam os pés ao passeio.
Até me recordo das discussões triviais em que tenho razão.
Só quando me sinto o homem mais mesquinho e mau que existe à face da terra, um grito traz-me de volta à horripilante cena.
– Estás cego ou quê?
É a minha mulher vociferando com o motorista.
- És estúpido!
- Não viste? pergunta-me. Eh! Estás aí!? Vamos embora que temos pressa.
Agarro com renovadas forças os sacos das compras e afasto-me do local agradecido por não ter que fazer nenhum sacrifício humano.
Enquanto caminho pela passadeira de peões fixo-me na cara do motorista.
Suspiramos os dois ao mesmo tempo.
Quando chego ao outro lado do passeio dou-me conta de uma coisa.
Não amo, tanto assim, a minha mulher.
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segunda-feira, junho 13, 2016
PÁSSAROS DO TEMPO
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Em pequeno escaqueirei um relógio de cuco suíço do século XIX que adornava o escuro hall da residência de verão dos meus avós.
Era de madeira talhada à mão em forma de árvore; dependuravam-se duas pesadas pinhas de umas longas correntes.
Intrigava-me que aquele pássaro pintado que batia as suas asas de mecanismo fizesse questão de marcar o tempo com exactidão matemática, quando saía do relógio por uma portinhola.
Não o entendia porque na infância o tempo (como eu o vivia então) não era algo que pudesse ser marcado por umas rodinhas dentadas, mas sim algo difuso, elástico, que se ampliava e esticava dependendo do momento.
Por exemplo, durante uma manhã dedicada a averiguar porque a cochinilha da humidade ou “bichos da conta” podiam enroscar-se em forma de bolas rodantes ou rolantes, o tempo detinha-se porque eu assim o desejava.
Só começava a correr outra vez quando tinha resolvido o mistério.
Não entendia aquele relógio de cuco, medindo um tempo que não podia ser medido.
Uma manhã, querendo ver o funcionamento de perto, destripei o relógio e o passarito, a quem dei a liberdade, não voltou a marcar com precisão as horas.
Lembro-me sempre daquele cuco.
Desde então raramente possuí um relógio, nem de pulso, porque nunca teria podido ser tão bonito como aquele que arruinei na minha infância.
Só quando escutei algum “cu-cu” em certos bosques tive a sensação de que o tempo daquele desaparecido relógio suíço se reiniciava por um momento.
De qualquer maneira, continuo acreditando que aquela percepção que tinha do tempo quando era pequeno, era verdadeira.
O passar do tempo não é algo preciso, mas vem em catadupas, mais concentrado ou mais diluído e cai-nos em cima e oxida-nos, não de maneira perceptível e linear mas sim irregular.
Na vida, nunca sessenta minutos duram o mesmo.
Os homens passam através do tempo, também, em ondas de espessura variável.
Há gente que, por motivos inexplicados, rejuvenesce de repente vinte anos após passar por uma prematura velhice.
De qualquer modo, a situação mais inquietante é a que ocorre hoje, com o prolongamento da juventude graças aos novos hábitos higiénicos e aos avanços médicos.
A juventude dura hoje demasiado, algo que não é natural.
Isto motivou que a gente inicie a sua velhice no dia seguinte a perder a juventude, sem passar pela maturidade.
Devido ás alterações climáticas, em muitas partes do mundo o outono, essa estação intermédia, desapareceu.
Devido ás alterações do tempo sobre a vida dos homens, a maturidade, essa estação intermédia, desapareceu também.
Do Verão passa-se directamente para o Inverno como da juventude para a velhice.
De um minuto para outro.
Ocorreu algo surpreendente: uma redução do tempo de maturidade por troca de um alargamento do tempo correspondente à adolescência e juventude.
Isto observa-se à vista desarmada em culturas que se agarram a uma juventude eterna, como a norte americana.
É muito comum ter um ar fisicamente adolescente muito para lá dos cinquenta.
E que a essa adolescência eterna lhe suceda, depois de uma má noite, uma velhice inesperadamente.
Numa certa idade, quando se esticou a juventude até bem mais para lá do aconselhável, uma sozinha má noite, vale por muitos anos.
Hoje uma pessoa deita-se com ar ainda juvenil e amanhã acorda arrastando os pés.
Sucede inesperadamente.
É como se durante a obscuridade, enquanto todos dormiam, o tempo tivesse contado a toda a velocidade, tornando loucos os ponteiros.
Continuar a funcionar hoje, aquele cuco autómata do relógio dos meus avós, espantado porque o tempo na sua casa de madeira actuasse desta forma estranha e não seguindo uma ordem matemática, teria aberto a sua portinhola e saído a voar desajeitado pela janela.
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domingo, junho 12, 2016
O MEU MAU GÉNIO
Numa
destas tardes comprei uma garrafa de vinho tinto que se encontrava solitária
num escaparate da mercearia da esquina.
Pela grossa camada de pó que a recobria supus que se tinham passado vários anos desde que foi engarrafada, mas ao ver que dizia Quinta do Portal, Reserva de 2011, com grande perspicácia deduzi que ali eram pouco afectos à limpeza.
Ao chegar a casa bebi uma cervejola e dispus-me a desarrolhar a garrafa e, posteriormente, a comprovar se havia muita borra no fundo da mesma.
Mal a destapei invadiu-me uma fragância penetrante, ainda que não tenha conseguido distinguir os “aromas muito frutados e frescos de fruta vermelha e preta, elegantes aromas florais em perfeita harmonia com as notas de carvalho. Na boca mostra-se harmonioso com taninos firmes e expressivos, com uma elegante e refrescante acidez. Final longo, e complexo que augura um belo perfil após algum tempo mais em garrafa”, descrição que brilhava presumida no auto-colante.
O que pude notar foi um estranho e ligeiro eflúvio que saiu da garrafa, que imediatamente se transformou numa densa fumarada para posteriormente tomar a forma humanóide que acabou por ser um génio, com evidentes sinais de estar completamente borracho.
Em seguida encorajou-me a escolher três favores que me seriam concedidos com todo o prazer, com a condição de só beber um copo de vinho.
Totalmente irritado e à velocidade do raio esvaziei na banca o conteúdo inteiro da garrafa, conseguindo assim o imediato desaparecimento do insolente e malvado génio.
Pressuroso voltei à mercearia da esquina e comprei uma outra qualquer Quinta do Portal, na qual pude comprovar, continha um pouco de borra no fundo.
Pela grossa camada de pó que a recobria supus que se tinham passado vários anos desde que foi engarrafada, mas ao ver que dizia Quinta do Portal, Reserva de 2011, com grande perspicácia deduzi que ali eram pouco afectos à limpeza.
Ao chegar a casa bebi uma cervejola e dispus-me a desarrolhar a garrafa e, posteriormente, a comprovar se havia muita borra no fundo da mesma.
Mal a destapei invadiu-me uma fragância penetrante, ainda que não tenha conseguido distinguir os “aromas muito frutados e frescos de fruta vermelha e preta, elegantes aromas florais em perfeita harmonia com as notas de carvalho. Na boca mostra-se harmonioso com taninos firmes e expressivos, com uma elegante e refrescante acidez. Final longo, e complexo que augura um belo perfil após algum tempo mais em garrafa”, descrição que brilhava presumida no auto-colante.
O que pude notar foi um estranho e ligeiro eflúvio que saiu da garrafa, que imediatamente se transformou numa densa fumarada para posteriormente tomar a forma humanóide que acabou por ser um génio, com evidentes sinais de estar completamente borracho.
Em seguida encorajou-me a escolher três favores que me seriam concedidos com todo o prazer, com a condição de só beber um copo de vinho.
Totalmente irritado e à velocidade do raio esvaziei na banca o conteúdo inteiro da garrafa, conseguindo assim o imediato desaparecimento do insolente e malvado génio.
Pressuroso voltei à mercearia da esquina e comprei uma outra qualquer Quinta do Portal, na qual pude comprovar, continha um pouco de borra no fundo.
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