- Hoje deparamo-nos
com o facto espantoso de que a fama carece absolutamente de base e está baseada
na infâmia !
O VIDEIRINHO
sábado, maio 31, 2014
MUNDIAL
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Apesar dos folhetos na minha mesa e das mesas na minha cabeça, noto que breve começará o Mundial de
futebol, com tudo o que isso tem de regresso à adolescência de há uns minutos,
(com recordações tão bem gravadas que assustam), a imagens icónicas (as que
perduraram e as que virão nestes dias e não esqueceremos), a decepções sempre
próprias e êxitos sempres alheios, ambos exagerados.
A áridos momentos de aborrecimento e a poesia inesperada e fugaz, versos de um drible impossível ou de um golo que ninguém viu, salvo a ilusão partida em tantos pedaços como papelitos que povoam alguns estádios.
Regressa o Mundial, com o que tem de volta ás apostas que quiçá possam falir (como quando digo agora que, para mim os favoritos são Brasil, Portugal e Espanha).
O primeiro jogo é com a Alemanha
A jogadores que elevam os seus olhos e dedos ao céu quando metem ou falham um golo.
A um público rendido que crava os seus olhos e os seus dedos nesses jogadores, vestidos de deuses em calções curtos, vociferando sermões com os pés ante uma audiência multimilionária que crê, durante um mês, que a sua nação não sofre com as suas crises sangrantes, senão que voa ou se afunda, dependendo de onde acabe uma bola sem pátria.
Começa o Mundial com tudo o que tem de emoção.
Emoção irracional, claro: a única credível.
A única perigosa.
Há outros jogos possíveis.
Sabem-no os grandes filósofos e as noites de sexta-feira.
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sexta-feira, maio 30, 2014
BOCA A BOCA
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Recordas-te como foi o teu primeiro beijo?
Recordas o último?
Sem dúvida que o primeiro foi tímido, desajeitado, tirando para o foleiro.
Procuraste beijar como nos filmes, mas não esperavas que aquele contacto fosse fofo (acolchoado) e tivesse sabor.
Não é fácil imaginar os sentidos do gosto e do tacto de outra boca novata sem mais referências que as do cinema e, é claro, dos teus sonhos.
Depois, com o segundo e terceiro e quarto beijo, foste aperfeiçoando a técnica, quebrando pouco a pouco a barreira das línguas e recreando um leque de beijos cada vês mais amplo.
Passaram pela tua boca várias “garinas” (namoradas, amantes…) e então, compreendeste que nenhuma beijava da mesma maneira, nem utilizava a língua com a mesma técnica.
Algumas abriam e fechavam a boca como peixes fora de água ou bonecos ventríloquos.
Outras retesavam a língua; ou moviam-na em círculos monocórdicos, quase industriais; outras retesavam os lábios ou, inclusivamente, sugavam, como quem come um iogurte sem colher e sem mãos.
A ti agradava-te mais de as confundires.
Procuravas beijos criativos, interactivos, ou pelo menos que nenhum fosse igual ao anterior.
Aos lábios carnosos davas-lhe o protagonismo suave que mereciam.
Aos lábios finos, a textura de meigos mordiscos com os teus lábios.
Chegaste inclusive a refinar o teu modo de controlar os tempos e portanto, de variar a intensidade, o calor e o desejo.
Depois chegaram relações mais longas e então compreendeste que os beijos também podem acabar por morrer de sucesso e fortalecem-se, ou diluem-se em meras formalidades e aí, pode suceder que recordes ‘outras bocas’ e acabes por ir à procura de ‘outras bocas’.
Quando os beijos secam, o amor escaqueira-se e já não há saliva capaz de reavivar o que quer que tenha existido no início.
Não há reanimação possível.
Não há boca a boca.
Com isto estou a tentar dizer-te que hoje me foi dada a oportunidade de comparar aquele primeiro beijo com o último (desta manhã) e entre ambos notei um abismo irreconciliável: definitivamente, sou outro homem.
Cansei-me de inovar com outras bocas e agora aspiro fixar a minha língua num só par de lábios.
Os lábios mais perfeitos que, certamente, jamais beijei.
Talvez seja por isso que me detenho e abandono os beijos furtivos…
Recordas o último?
Sem dúvida que o primeiro foi tímido, desajeitado, tirando para o foleiro.
Procuraste beijar como nos filmes, mas não esperavas que aquele contacto fosse fofo (acolchoado) e tivesse sabor.
Não é fácil imaginar os sentidos do gosto e do tacto de outra boca novata sem mais referências que as do cinema e, é claro, dos teus sonhos.
Depois, com o segundo e terceiro e quarto beijo, foste aperfeiçoando a técnica, quebrando pouco a pouco a barreira das línguas e recreando um leque de beijos cada vês mais amplo.
Passaram pela tua boca várias “garinas” (namoradas, amantes…) e então, compreendeste que nenhuma beijava da mesma maneira, nem utilizava a língua com a mesma técnica.
(“A ETERNA PRIMAVERA”, 1888, uma das cenas de “O BEIJO” idealizadas par Auguste Rodin)
Algumas abriam e fechavam a boca como peixes fora de água ou bonecos ventríloquos.
Outras retesavam a língua; ou moviam-na em círculos monocórdicos, quase industriais; outras retesavam os lábios ou, inclusivamente, sugavam, como quem come um iogurte sem colher e sem mãos.
A ti agradava-te mais de as confundires.
Procuravas beijos criativos, interactivos, ou pelo menos que nenhum fosse igual ao anterior.
Aos lábios carnosos davas-lhe o protagonismo suave que mereciam.
Aos lábios finos, a textura de meigos mordiscos com os teus lábios.
Chegaste inclusive a refinar o teu modo de controlar os tempos e portanto, de variar a intensidade, o calor e o desejo.
'O Beijo' Constantin Brancusi - 1876-1957
Depois chegaram relações mais longas e então compreendeste que os beijos também podem acabar por morrer de sucesso e fortalecem-se, ou diluem-se em meras formalidades e aí, pode suceder que recordes ‘outras bocas’ e acabes por ir à procura de ‘outras bocas’.
Quando os beijos secam, o amor escaqueira-se e já não há saliva capaz de reavivar o que quer que tenha existido no início.
Não há reanimação possível.
‘O BEIJO’ de STENIEN
Não há boca a boca.
Com isto estou a tentar dizer-te que hoje me foi dada a oportunidade de comparar aquele primeiro beijo com o último (desta manhã) e entre ambos notei um abismo irreconciliável: definitivamente, sou outro homem.
Cansei-me de inovar com outras bocas e agora aspiro fixar a minha língua num só par de lábios.
Os lábios mais perfeitos que, certamente, jamais beijei.
Talvez seja por isso que me detenho e abandono os beijos furtivos…
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quinta-feira, maio 29, 2014
DE SUPETÃO
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Brinquemos a
que hoje se acaba o mundo.
Imagina que de repente cai uma imensa bola de fogo e
pilha-te a limpar os azulejos da cozinha, a ti na sala da fotocopiadora
sentado sobre ela tentando fotocopiar o “dito cujo”, a ti na fila do Centro de
Emprego, a ti dormitando no Centro de Saúde depois de umas horas à espera do
"snr. doutor", a ti seduzindo a professora do teu filho, a ti a comprares dois
quilos de tangerinas, a ti a rezares o rosário, a ti a leres "As Cinquenta Sombras de Grey”, a ti na
cadeira do dentista, a ti a pintares as unhas dos pés, a ti lendo este blog, ou
a mim ao volante do meu táxi a falar de Passos Coelho com o passageiro.
Imagina
que de repente PLOP! Desaba-te o mundo…
Imagina que primeiro aparece um imenso
clarão e logo aí damos conta de que os Maias tinham razão.
E a partir daí, um
intervalo de apenas cinco segundos antes do GAME OVER.
Cinco segundos de
reacções absurdas e irracionais, de inverosímeis actos reflexos.
Imagina que de
repente sabes que te restam cinco segundos de vida.
Tu que limpas azulejos
dar-te-ia para repassar no último e deixá-lo perfeito.
O das fotocópias
partiria o vidro da máquina e enterraria os cacos no "dito cujo".
O da fila do Centro de Emprego abraçaria a loiraça
que bambaleava, provocantementeo, o traseiro na fila.
O do Centro de Saúde agarrar-se-ia à
enfermeira noviça.
O que seduz a professora, beijá-la-ia (sem língua).
O que
compra tangerinas voltaria a guardar o porta-moedas.
A que reza o o rosário
soltaria um “f*da-se!”.
A d’As Cinquenta Sombras de Grey iria imediatamente à
última página do livro e leria o final.
A da cadeira do dentista taparia o
buraco do dente com a língua.
A que pintava as unhas dos pés cairia de cu a
assoprá-las com toda a vontade.
Tu que lês o meu blog pulsarias F5 para ver se
alguém comentou no último momento.
E eu, no meu táxi, sei lá, pararia o
taxímetro, ou daria um punhão no meu passageiro.
A primeira murraça da minha
vida.
Ou talvez pensasse nos anos que me faltam para pagar a hipoteca da casa,
ou espatifaria o táxi de propósito para ser o primeiro, ou desligaria o rádio,
ou deitaria a cabeça de fora à janela, ou cantaria, ou pensaria em nada, só em
desfrutar o momento.
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quarta-feira, maio 28, 2014
O FURO
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Circulando pela rua do Campo Alegre, furei um pneu.
Ia devagar, assim pude parar e encostar-me ao passeio sem problema.
Saí do táxi, olhei para o pneu e reparei que tinha o furo na base do pneumático com um objecto estranho de metal em forma de “T” espetado.
Andei, a pé, um pouco e uns metros atrás pude ver sobre o asfalto, na mesma trajectória da roda, uma caixita de cartão esborrachada.
Pensei que poderia ter alguma relação e assim, acerquei-me.
Era uma embalagem de farmácia.
Saquei como pude o prospecto e nele vi um desenho do mesmo objecto que tinha provocado o furo.
Tratava-se de um dispositivo intra-uterino, mais conhecido por DIU.
Um contraceptivo feminino, para ser mais exacto.
Mas o que fazia um DIU sobre o asfalto?
Com a minha fértil imaginação, imaginei (a redundância assenta como
uma luva), uma briga de casal dentro de um carro e que ela, a ‘modos que’, de
chantagem genital, acabasse por lançar o DIU pela janela.
Ou melhor: que num preciso instante os dois tivessem decidido ser pais, em pleno semáforo e ela, feliz da vida, lançara aquela caixa pela janela.
Em qualquer dos casos, o DIU de sempre acabou perfurando o pneu do meu táxi.
O destino dos objectos é bizarro, ainda que, também, excitante.
Saquei-o com força do pneu e fiquei a olhá-lo.
Aquele DIU poderia muito bem estar num qualquer útero e entretanto, agora, tinha-o na mão.
E estava frio.
Ou melhor: que num preciso instante os dois tivessem decidido ser pais, em pleno semáforo e ela, feliz da vida, lançara aquela caixa pela janela.
Em qualquer dos casos, o DIU de sempre acabou perfurando o pneu do meu táxi.
O destino dos objectos é bizarro, ainda que, também, excitante.
Saquei-o com força do pneu e fiquei a olhá-lo.
Aquele DIU poderia muito bem estar num qualquer útero e entretanto, agora, tinha-o na mão.
E estava frio.
Senti-me por uns instantes como que dentro de um útero e a rua
deu-me a sensação de húmida.
Começou a chover.
Junto ao passeio, precisamente frente ao hotel Ipanema Porto, há uma árvore.
Fiz um pequeno buraco na terra e enterrei o contraceptivo com a intenção de arriscar no DIU.
Prometo regá-lo cada dia e esperar que cresça algo, seja lá o que for.
Uma flor peculiar, um bebé fora do seu meio.
Comprei um regador só com esse propósito e agora transporto-o sempre na mala do táxi.
O amor tornará fértil o impossível.
Manter-vos-ei informados.
Começou a chover.
Junto ao passeio, precisamente frente ao hotel Ipanema Porto, há uma árvore.
Fiz um pequeno buraco na terra e enterrei o contraceptivo com a intenção de arriscar no DIU.
Prometo regá-lo cada dia e esperar que cresça algo, seja lá o que for.
Uma flor peculiar, um bebé fora do seu meio.
Comprei um regador só com esse propósito e agora transporto-o sempre na mala do táxi.
O amor tornará fértil o impossível.
Manter-vos-ei informados.
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terça-feira, maio 27, 2014
CORNO OU DESEMPREGADO???
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Naquele dia chegou a casa mais cedo e encontrou a mulher na cama com o chefe…
“Ela não me pede dinheiro para nada; nem pra
comprar roupas, sapatos, joias... e anda toda bonitona, muito bem vestida e
calçada. As crianças estão num colégio dos melhores; o frigorífico está sempre cheio, transbordando
fartura; as contas de telefone, água, luz, Internet, etc., estão sempre em dia;
tenho cartão de crédito, cerveja à vontade e uísque do melhor. O tipo paga tudo:
hipotecas da casa e do carro e ainda por cima vou para a cama com ela todos os
dias...!
E, fechando a porta no maior silêncio, concluiu:
- Pensando bem, o corno aqui é ele!”
Marta
esqueceu-se de uma carta do seu amante no bolso traseiro das calças que
acabaram na máquina de lavar juntamente com a roupa do seu marido.
A lavagem e centrifugação desfizeram a carta, mas ficaram pedaços no tambor e colados à roupa.
Não foi ela, mas sim o seu próprio marido quem depois tirou a roupa da máquina para a estender a secar e encontrou, em pedacitos dessa carta, palavras soltas e esmaecidas pela lavagem, cuja caligrafia assemelhava-se muito à do director de recursos humanos do grupo hoteleiro onde trabalhava.
Num pedacito de papel leu “gostosa”, noutro, “dor profunda”, num outro, “aquela noite”, noutro, “jantar”, num outro, “aquele hotel” e ainda num outro, “outra alternativa que despedir-te”.
O marido de Marta deitou as mãos à cabeça.
Pensou que era uma carta para ele próprio.
Uma carta de despedimento.
Tudo encaixava: fazia um par de noites que tinha ido a um jantar da empresa num dos hotéis do grupo e acabou a discutir com o inútil do filho do chefe.
Mas não esperava que aquilo fosse ter consequências tão drásticas e através de uma carta.
Furioso saiu de casa, apanhou o meu táxi em direcção ao escritório.
Pelo caminho ligou ao Vasconcelos:
“- Vasconcelos?
Ouve, acabo de ler a tua carta, bem, inteira não, saquei-a meia desfeita da máquina de lavar roupa e só consegui ler algumas palavras.
Despedido, dizes?
Mas despedido como?
Olha, vou já para aí e depois contas-mo.
E sem deixar o interlocutor falar, desligou.
Na realidade Vasconcelos não o tinha despedido, simplesmente estava a atirar-se à sua mulher.
Deduzi-o por aquela breve conversa telefónica, mas também porque ao sair do táxi encontrei, colado no assento, outro desses troços de papel.
Dizia: “o sabor dos teus pés”.
Nota:
Suponho que, aproveitando-se da situação e para evitar o verdadeiro conteúdo daquela carta, Vasconcelos dir-lhe-ia que sim, que está despedido.
Agora digam-me o que será pior: inteirar-se de um par de cornos ou ir para o desemprego?
A lavagem e centrifugação desfizeram a carta, mas ficaram pedaços no tambor e colados à roupa.
Não foi ela, mas sim o seu próprio marido quem depois tirou a roupa da máquina para a estender a secar e encontrou, em pedacitos dessa carta, palavras soltas e esmaecidas pela lavagem, cuja caligrafia assemelhava-se muito à do director de recursos humanos do grupo hoteleiro onde trabalhava.
Num pedacito de papel leu “gostosa”, noutro, “dor profunda”, num outro, “aquela noite”, noutro, “jantar”, num outro, “aquele hotel” e ainda num outro, “outra alternativa que despedir-te”.
O marido de Marta deitou as mãos à cabeça.
Pensou que era uma carta para ele próprio.
Uma carta de despedimento.
Tudo encaixava: fazia um par de noites que tinha ido a um jantar da empresa num dos hotéis do grupo e acabou a discutir com o inútil do filho do chefe.
Mas não esperava que aquilo fosse ter consequências tão drásticas e através de uma carta.
Furioso saiu de casa, apanhou o meu táxi em direcção ao escritório.
Pelo caminho ligou ao Vasconcelos:
“- Vasconcelos?
Ouve, acabo de ler a tua carta, bem, inteira não, saquei-a meia desfeita da máquina de lavar roupa e só consegui ler algumas palavras.
Despedido, dizes?
Mas despedido como?
Olha, vou já para aí e depois contas-mo.
E sem deixar o interlocutor falar, desligou.
Na realidade Vasconcelos não o tinha despedido, simplesmente estava a atirar-se à sua mulher.
Deduzi-o por aquela breve conversa telefónica, mas também porque ao sair do táxi encontrei, colado no assento, outro desses troços de papel.
Dizia: “o sabor dos teus pés”.
Nota:
Suponho que, aproveitando-se da situação e para evitar o verdadeiro conteúdo daquela carta, Vasconcelos dir-lhe-ia que sim, que está despedido.
Agora digam-me o que será pior: inteirar-se de um par de cornos ou ir para o desemprego?
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sábado, maio 24, 2014
AZAR OU MÁ SORTE...
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Espero que não interpretem mal as minhas palavras.
Só digo que há homens e mulheres que tendem continuamente a equivocar-se nas suas relações sentimentais e ainda assim imputam-no ao azar.
Conheço mais do que um (e mais do que uma) que não lhes duram nada os idílios ainda que anseiem estabilidade e sempre é o contrário quem a estropia (‘apanhei-o com outra’, ‘simplesmente marchou-se’, ou ‘levantou-me a mão’ são exemplos clássicos).
Acontece é que, numa relação seguinte, a nova parelha cumpre exactamente o mesmo perfil do anterior.
Há mulheres, por exemplo, que sentem atracção pelos “pérfidos”, ou certos homens pelas “mulheres dominadoras” e acabam, cada um para seu lado, pelo mesmo motivo que em princípio os atraiu.
Há homens que confiam que o oitavo casamento da sua nova mulher será o último.
Há mulheres que confiam em que, “aquela vez que me levantou a mão, estou certa, que nunca mais voltará a fazê-lo”.
Não amiga.
Há homens violentos por natureza e ao mínimo sinal, ao mínimo gesto, convém fugir deles como o diabo da cruz.
Espero que não me interpretes mal as minhas palavras.
NENHUMA MULHER MERECE SER AGREDIDA, que fique claro e, o homem que maltrata só pode “pagar” com duríssimas penas de prisão.
Agora bem: noutro dia, uma vizinha da minha rua, chegou a confessar-me algo que despertou poderosamente a minha atenção (e de certo modo me inspirou estas linhas).
A mulher assegurou-me ter sido vítima de maus tratos por parte dos últimos cinco companheiros, o que atribuiu ao “seu azar ou má sorte” ao amor.
Oxalá que esses cinco apodreçam na prisão, sem qualquer dúvida.
Por outro aldo, desconheço qual é a percentagem de maus tratos por cada homem bom.
Será uma percentagem residual, suponho.
De modo que posso estar equivocado e na realidade seja isso, má sorte, mas pensei que talvez, a priori, a mulher em questão se visse atraída por certo perfil de homens.
Jamais direi que merecesse semelhante inferno, mas…
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quinta-feira, maio 22, 2014
FÉ DERRUÍDA
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A princípio a fé movia montanhas só quando era absolutamente necessário, mas a paisagem permaneceu igual a si mesma durante milénios.
Mas quando a fé começou a propagar-se, ao "pessoal" pareceu-lhe divertida a ideia de mover montanhas, estas não faziam mais do que mudar de sítio e cada vez era mais difícil encontrá-las no lugar em que se tinham deixado na noite anterior; coisa que supostamente criava mais dificuldades do que as que resolvia.
A boa gente preferiu então abandonar a fé e agora, as montanhas permanecem, no geral, no seu sítio.
Quando na estrada se produz uma derrocada debaixo da qual morrem vários viajantes, é que alguém, muito longe ou relativamente perto, teve um ligeiríssimo atavismo de fé.
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quarta-feira, maio 21, 2014
COINCIDÊNCIAS
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Há
uns dias caiu algo na minha cabeça, tratava-se de um balão, desses que se
vendem nas feiras.
Pensei que seria simples casualidade, procederia de alguma festa ou arraial dum povoado próximo, ainda que o estranho era que unido a ele pendia a mão terna de um menino.
Ontem outro balão dos que se vendem nas feiras, com a sua mão terna, voltou a bater-me na cabeça e isto já não poderia ser fruto da casualidade.
Hoje não tenho tirado os olhos do céu.
Não consigo deixar de pensar naqueles meninos sem balões, sem mãos.
Pensei que seria simples casualidade, procederia de alguma festa ou arraial dum povoado próximo, ainda que o estranho era que unido a ele pendia a mão terna de um menino.
Ontem outro balão dos que se vendem nas feiras, com a sua mão terna, voltou a bater-me na cabeça e isto já não poderia ser fruto da casualidade.
Hoje não tenho tirado os olhos do céu.
Não consigo deixar de pensar naqueles meninos sem balões, sem mãos.
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terça-feira, maio 20, 2014
MAR DE ROSAS
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É um
mar injusto, mas é o nosso mar!
Assentem submissamente os peixes pequenos a ponto de serem devorados pelo peixe grande.
O grande tubarão branco aproveita-se sempre das águas revoltas para reivindicar novas vítimas.
Primeiro ataca os crustáceos: tira-lhes as conchas pela raiz e especula com elas pelos mares do Sul.
Para isso, vale-se das piranhas a soldo, que de certo modo disfrutam com o que fazem.
E como são insaciáveis, depois atacam o peixe comum.
Atacam o peixe desempregado, o peixe pensionista, o peixe subalterno; vão-lhes cortando a fuga, tornando-os vulneráveis.
E uma vez descamados, devora-os.
Não há que procurar explicação: está na sua natureza.
O curioso, sem dúvida, é a reacção dos peixes pequenos.
São milhares, milhões.
Mas em vez de se unirem e encurralarem o peixe gordo, dividem-se, formando pequenos grupúsculos.
Grupúsculos à esquerda, grupúsculos à direita.
Estes últimos criticam os outros porque acreditam que algum dia, com afinco e muito plâncton, chegarão a converter-se em peixes gordos.
E continuarão acreditando, ainda que já estejam dentro da barriga de Moby Dick.
Assentem submissamente os peixes pequenos a ponto de serem devorados pelo peixe grande.
O grande tubarão branco aproveita-se sempre das águas revoltas para reivindicar novas vítimas.
Primeiro ataca os crustáceos: tira-lhes as conchas pela raiz e especula com elas pelos mares do Sul.
Para isso, vale-se das piranhas a soldo, que de certo modo disfrutam com o que fazem.
E como são insaciáveis, depois atacam o peixe comum.
Atacam o peixe desempregado, o peixe pensionista, o peixe subalterno; vão-lhes cortando a fuga, tornando-os vulneráveis.
E uma vez descamados, devora-os.
Não há que procurar explicação: está na sua natureza.
O curioso, sem dúvida, é a reacção dos peixes pequenos.
São milhares, milhões.
Mas em vez de se unirem e encurralarem o peixe gordo, dividem-se, formando pequenos grupúsculos.
Grupúsculos à esquerda, grupúsculos à direita.
Estes últimos criticam os outros porque acreditam que algum dia, com afinco e muito plâncton, chegarão a converter-se em peixes gordos.
E continuarão acreditando, ainda que já estejam dentro da barriga de Moby Dick.
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domingo, maio 18, 2014
MIRONE
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Não
posso evitar sentar-me sozinho (ou sentir-me) nas esplanadas e observar o
pessoal que se senta nessas mesmas esplanadas (ou se sente), sobretudo aos
pares, sobretudo aos casais jovens.
Observo o seu comportamento talvez para aprender com eles, ou para aprender a não ser nunca como eles.
E bebo, claro, que os olhos necessitam de lubrificação (já pensaram o que seria as pálpebras rangerem por falta de lubrificante?) e é o corpo que o fornece.
Normalmente umas “brutas” cervejadas.
Sentam-se, pedem algo ao empregado e enquanto aguardam, sacam os telemóveis e ignoram-se com total naturalidade, como se não fosse a última vez que se ignoram e não será a última.
Falam, inclusivamente, com outras pessoas ao telemóvel, o que quer dizer que são sociáveis; fazem chamadas e ao desligarem, permanecem em silêncio.
Nem sequer se interrogam: “quem te telefonou”, afim de iniciarem uma nova conversa.
Depois chega o empregado com sua cerveja e a sua Coca Zero (agora as garinas pedem Coca Zero e se não têm soltam um desabafo surdo, mal imperceptível, bufff, e então dizem: “Pois então uma Light”. Mas dizem-no como ressentidas ou ressabiadas) e voltam aos seus telemóveis ou deixam-nos sobre a mesa e mesmo assim, não se olham, nem falam.
Suponho que estão na fase de conhecerem-se de memória, ou pelo menos de não quererem saber mais do outro, ou conformarem-se com o que já sabem.
Apenas contam a anedota do dia, ou nem isso.
Simplesmente estão “bem”, juntos, e não necessitam mais: bastam-se com a serenidade que lhes proporciona a companhia do outro, como um bafejar do campo gravitacional compartido, ou um espelho cálido e discreto defronte.
Horroriza-me, mas por sua vez espanto-me ver que já não têm nada que dizer um ao outro, ou até novas inquietudes.
Procurar no Google, por exemplo, a elaboração das azeitonas recheadas com pimentos vermelhos que têm debaixo das beiças (sobre a mesa).
E lê-lo em voz alta e aprender algo novo juntos.
Parecem derrotados mas conformes com a sua derrota.
Não falar significa não ter nada que dizer ou não querê-lo dizer, o que pode significar duas coisas: ou estás morto, ou a vida já deixou de te impressionar.
Sempre que observo estes casais nos muitos bares e esplanadas que frequento, acabo sempre a pensar que eles são dois meio mortos.
Como será a vida sexual deles?
Tê-la-ão?
Mas eu estou vivo e estou sozinho.
Observo o seu comportamento talvez para aprender com eles, ou para aprender a não ser nunca como eles.
E bebo, claro, que os olhos necessitam de lubrificação (já pensaram o que seria as pálpebras rangerem por falta de lubrificante?) e é o corpo que o fornece.
Normalmente umas “brutas” cervejadas.
Sentam-se, pedem algo ao empregado e enquanto aguardam, sacam os telemóveis e ignoram-se com total naturalidade, como se não fosse a última vez que se ignoram e não será a última.
Falam, inclusivamente, com outras pessoas ao telemóvel, o que quer dizer que são sociáveis; fazem chamadas e ao desligarem, permanecem em silêncio.
Nem sequer se interrogam: “quem te telefonou”, afim de iniciarem uma nova conversa.
Depois chega o empregado com sua cerveja e a sua Coca Zero (agora as garinas pedem Coca Zero e se não têm soltam um desabafo surdo, mal imperceptível, bufff, e então dizem: “Pois então uma Light”. Mas dizem-no como ressentidas ou ressabiadas) e voltam aos seus telemóveis ou deixam-nos sobre a mesa e mesmo assim, não se olham, nem falam.
Suponho que estão na fase de conhecerem-se de memória, ou pelo menos de não quererem saber mais do outro, ou conformarem-se com o que já sabem.
Apenas contam a anedota do dia, ou nem isso.
Simplesmente estão “bem”, juntos, e não necessitam mais: bastam-se com a serenidade que lhes proporciona a companhia do outro, como um bafejar do campo gravitacional compartido, ou um espelho cálido e discreto defronte.
Horroriza-me, mas por sua vez espanto-me ver que já não têm nada que dizer um ao outro, ou até novas inquietudes.
Procurar no Google, por exemplo, a elaboração das azeitonas recheadas com pimentos vermelhos que têm debaixo das beiças (sobre a mesa).
E lê-lo em voz alta e aprender algo novo juntos.
Parecem derrotados mas conformes com a sua derrota.
Não falar significa não ter nada que dizer ou não querê-lo dizer, o que pode significar duas coisas: ou estás morto, ou a vida já deixou de te impressionar.
Sempre que observo estes casais nos muitos bares e esplanadas que frequento, acabo sempre a pensar que eles são dois meio mortos.
Como será a vida sexual deles?
Tê-la-ão?
Mas eu estou vivo e estou sozinho.
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sábado, maio 17, 2014
O CESTO
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Sou ateu e estou desempregado.
Ontem e só ontem, por
curiosidade, aproximei-me da igreja da minha zona.
Em momentos de crise, dizem,
a gente busca refúgio, espera que deus faça por ele o que ele não faz enquanto
olha para o televisor sentado no sofá… porque deus proverá… e que se fo..., digo,
que se lixe!
A lotação estava completa, havia mais gente que na linha azul do
metro em hora de ponta.
Não tinha pensado entrar, mas novamente a curiosidade
venceu-me.
Será que sou gato e nasci em Lisboa, de pais lisboetas?
Misturei-me
entre o pessoal, de pé, no final do “aposento” e escutei toda a liturgia até ao
fim.
O cura falava-nos de que a culpa era nossa porque tínhamos pecado, mas que
deus pressiona mas não afoga… e para que tivesse piedade de nós devíamos rogar
ao senhor e que ele nos ouvia.
Não sei, a mim parece-me que o senhor deve estar
muito farto e surdo.
Isto sim, num determinado momento da missa pediram-nos
colaboração para com a igreja e passaram um cesto.
Umas duas pessoa por fileira
de assentos ia-o passando.
Quando chegou a mim, não pude desfazer-me de um
cêntimo.
Estou no desemprego, tenho a hipoteca e um longo percurso...
Este último
não tem nada a ver com o cesto, ou talvez até tenha.
Como sabeis estou
desempregado.
Pude observar que o cesto que me calhou estava cheio de moedas,
sujas, escuras, pequenas.
As notas escasseavam.
Deu-me a impressão que Jesus
não ficaria muito contente no final desta missa, por isso, como mais ninguém
pensou assim, todos contentes viemos em paz.
Quando saí, não senti a minha alma
mais limpa nem menos rancor à corja que nos governa.
Não, não me senti
reconfortado.
Creio que o cura se equivocava, qualquer um o poderia contrariar
mesmo contra a autoridade com que falava.
Sou da opinião de Guillermo Fesser,
"Cuando Dios aprieta, ahoga pero bien".
Intuo que comprar um cesto de vime e
passá-lo pela comunidade dos meus vizinhos, não me solucionará o futuro, ainda
que tal me permitisse comprar pão.
Mau mesmo é que não tenho cheta para comprar
pão, quanto mais um cesto de vime.
Vou voltar a enviar, resignado um par de
currículos a um par de empresas para ver que porra se passa…
Desculpem lá, mas não
sei rezar.
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