O VIDEIRINHO

sábado, maio 31, 2014


- Hoje deparamo-nos com o facto espantoso de que a fama carece absolutamente de base e está baseada na infâmia !

MUNDIAL

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Apesar dos folhetos na minha mesa e das mesas na minha cabeça, noto que breve começará o Mundial de futebol, com tudo o que isso tem de regresso à adolescência de há uns minutos, (com recordações tão bem gravadas que assustam), a imagens icónicas (as que perduraram e as que virão nestes dias e não esqueceremos), a decepções sempre próprias e êxitos sempres alheios, ambos exagerados. 

A áridos momentos de aborrecimento e a poesia inesperada e fugaz, versos de um drible impossível ou de um golo que ninguém viu, salvo a ilusão partida em tantos pedaços como papelitos que povoam alguns estádios. 

Regressa o Mundial, com o que tem de volta ás apostas que quiçá possam falir (como quando digo agora que, para mim os favoritos são Brasil, Portugal e Espanha). 

 

 O primeiro jogo é com a Alemanha

A jogadores que elevam os seus olhos e dedos ao céu quando metem ou falham um golo. 

A um público rendido que crava os seus olhos e os seus dedos nesses jogadores, vestidos de deuses em calções curtos, vociferando sermões com os pés ante uma audiência multimilionária que crê, durante um mês, que a sua nação não sofre com as suas crises sangrantes, senão que voa ou se afunda, dependendo de onde acabe uma bola sem pátria. 

Começa o Mundial com tudo o que tem de emoção. 

Emoção irracional, claro: a única credível. 

A única perigosa. 

Há outros jogos possíveis. 

Sabem-no os grandes filósofos e as noites de sexta-feira.

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sexta-feira, maio 30, 2014


- Nem todos os homens bonitos têm namoradas... Muitos deles têm namorados !

BOCA A BOCA

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Recordas-te como foi o teu primeiro beijo? 
Recordas o último? 
Sem dúvida que o primeiro foi tímido, desajeitado, tirando para o foleiro. 
Procuraste beijar como nos filmes, mas não esperavas que aquele contacto fosse fofo (acolchoado) e tivesse sabor. 
Não é fácil imaginar os sentidos do gosto e do tacto de outra boca novata sem mais referências que as do cinema e, é claro, dos teus sonhos. 
Depois, com o segundo e terceiro e quarto beijo, foste aperfeiçoando a técnica, quebrando pouco a pouco a barreira das línguas e recreando um leque de beijos cada vês mais amplo. 
Passaram pela tua boca várias “garinas”  (namoradas, amantes…) e então, compreendeste que nenhuma beijava da mesma maneira, nem utilizava a língua com a mesma técnica. 

 
  (“A ETERNA PRIMAVERA”, 1888, uma das cenas de “O BEIJO” idealizadas par  Auguste Rodin)

Algumas abriam e fechavam a boca como peixes fora de água ou bonecos ventríloquos. 
Outras retesavam a língua; ou moviam-na em círculos monocórdicos, quase industriais; outras retesavam os lábios ou, inclusivamente, sugavam, como quem come um iogurte sem colher e sem mãos. 
A ti agradava-te mais de as confundires. 
Procuravas beijos criativos, interactivos, ou pelo menos que nenhum fosse igual ao anterior. 
Aos lábios carnosos davas-lhe o protagonismo suave que mereciam. 
Aos lábios finos, a textura de meigos mordiscos com os teus lábios. 
Chegaste inclusive a refinar o teu modo de controlar os tempos e portanto, de variar a intensidade, o calor e o desejo. 

 
 'O Beijo' Constantin Brancusi - 1876-1957

Depois chegaram relações mais longas e então compreendeste que os beijos também podem acabar por morrer de sucesso e fortalecem-se, ou diluem-se em meras formalidades e aí, pode suceder que recordes ‘outras bocas’ e acabes por ir à procura de ‘outras bocas’. 
Quando os beijos secam, o amor escaqueira-se e já não há saliva capaz de reavivar o que quer que tenha existido no início. 
Não há reanimação possível. 

 
 ‘O BEIJO’ de STENIEN

Não há boca a boca. 
Com isto estou a tentar dizer-te que hoje me foi dada a oportunidade de comparar aquele primeiro beijo com o último (desta manhã) e entre ambos notei um abismo irreconciliável: definitivamente, sou outro homem. 
Cansei-me de inovar com outras bocas e agora aspiro fixar a minha língua num só par de lábios. 
Os lábios mais perfeitos que, certamente, jamais beijei. 
Talvez seja por isso que me detenho e abandono os beijos furtivos…
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quinta-feira, maio 29, 2014


- Se alguém te dá que pensar, nem o penses !

DE SUPETÃO

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Brinquemos a que hoje se acaba o mundo. 

Imagina que de repente cai uma imensa bola de fogo e pilha-te a limpar os azulejos da cozinha, a ti na sala da fotocopiadora sentado sobre ela tentando fotocopiar o “dito cujo”, a ti na fila do Centro de Emprego, a ti dormitando no Centro de Saúde depois de umas horas à espera do "snr. doutor", a ti seduzindo a professora do teu filho, a ti a comprares dois quilos de tangerinas, a ti a rezares o rosário, a ti a leres "As Cinquenta Sombras de Grey”, a ti na cadeira do dentista, a ti a pintares as unhas dos pés, a ti lendo este blog, ou a mim ao volante do meu táxi a falar de Passos Coelho com o passageiro. 

Imagina que de repente PLOP! Desaba-te o mundo… 

 

Imagina que primeiro aparece um imenso clarão e logo aí damos conta de que os Maias tinham razão. 

E a partir daí, um intervalo de apenas cinco segundos antes do GAME OVER. 

Cinco segundos de reacções absurdas e irracionais, de inverosímeis actos reflexos. 

Imagina que de repente sabes que te restam cinco segundos de vida. 

Tu que limpas azulejos dar-te-ia para repassar no último e deixá-lo perfeito. 

O das fotocópias partiria o vidro da máquina e enterraria os cacos no "dito cujo". 

O da fila do Centro de Emprego abraçaria a loiraça que bambaleava, provocantementeo, o traseiro na fila. 

O do Centro de Saúde agarrar-se-ia à enfermeira noviça. 

O que seduz a professora, beijá-la-ia (sem língua). 

O que compra tangerinas voltaria a guardar o porta-moedas. 

A que reza o o rosário soltaria um “f*da-se!”. 

 

A d’As Cinquenta Sombras de Grey iria imediatamente à última página do livro e leria o final. 

A da cadeira do dentista taparia o buraco do dente com a língua. 

A que pintava as unhas dos pés cairia de cu a assoprá-las com toda a vontade. 

Tu que lês o meu blog pulsarias F5 para ver se alguém comentou no último momento. 

E eu, no meu táxi, sei lá, pararia o taxímetro, ou daria um punhão no meu passageiro. 

A primeira murraça da minha vida. 

Ou talvez pensasse nos anos que me faltam para pagar a hipoteca da casa, ou espatifaria o táxi de propósito para ser o primeiro, ou desligaria o rádio, ou deitaria a cabeça de fora à janela, ou cantaria, ou pensaria em nada, só em desfrutar o momento. 
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quarta-feira, maio 28, 2014


- Todos os homens têm uma mulher no pensamento; os casados, além disso, têm outra em casa !

O FURO

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Circulando pela rua do Campo Alegre, furei um pneu. 

Ia devagar, assim pude parar e encostar-me ao passeio sem problema. 

Saí do táxi, olhei para o pneu e reparei que tinha o furo na base do pneumático com um objecto estranho de metal em forma de “T” espetado. 

Andei, a pé, um pouco e uns metros atrás pude ver sobre o asfalto, na mesma trajectória da roda, uma caixita de cartão esborrachada. 

Pensei que poderia ter alguma relação e assim, acerquei-me. 

Era uma embalagem de farmácia. 

Saquei como pude o prospecto e nele vi um desenho do mesmo objecto que tinha provocado o furo. 

Tratava-se de um dispositivo intra-uterino, mais conhecido por DIU

Um contraceptivo feminino, para ser mais exacto. 

Mas o que fazia um DIU sobre o asfalto? 

Com a minha fértil imaginação, imaginei (a redundância assenta como uma luva), uma briga de casal dentro de um carro e que ela, a ‘modos que’, de chantagem genital, acabasse por lançar o DIU pela janela. 

Ou melhor: que num preciso instante os dois tivessem decidido ser pais, em pleno semáforo e ela, feliz da vida, lançara aquela caixa pela janela. 

Em qualquer dos casos, o DIU de sempre acabou perfurando o pneu do meu táxi. 

O destino dos objectos é bizarro, ainda que, também, excitante. 

Saquei-o com força do pneu e fiquei a olhá-lo. 

Aquele DIU poderia muito bem estar num qualquer útero e entretanto, agora, tinha-o na mão. 

E estava frio. 

Senti-me por uns instantes como que dentro de um útero e a rua deu-me a sensação de húmida. 

Começou a chover. 

Junto ao passeio, precisamente frente ao hotel Ipanema Porto, há uma árvore. 

Fiz um pequeno buraco na terra e enterrei o contraceptivo com a intenção de arriscar no DIU. 

Prometo regá-lo cada dia e esperar que cresça algo, seja lá o que for. 

Uma flor peculiar, um bebé fora do seu meio. 

Comprei um regador só com esse propósito e agora transporto-o sempre na mala do táxi. 

O amor tornará fértil o impossível. 

Manter-vos-ei informados. 
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terça-feira, maio 27, 2014

- Quando finalmente fechou os olhos já era muito tarde; os carneiros já tinham morrido !

CORNO OU DESEMPREGADO???

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Naquele dia chegou a casa mais cedo e encontrou a mulher na cama com o chefe…
Ela não me pede dinheiro para nada; nem pra comprar roupas, sapatos, joias... e anda toda bonitona, muito bem vestida e calçada. As crianças estão num colégio dos melhores;  o frigorífico está sempre cheio, transbordando fartura; as contas de telefone, água, luz, Internet, etc., estão sempre em dia; tenho cartão de crédito, cerveja à vontade e uísque do melhor. O tipo paga tudo: hipotecas da casa e do carro e ainda por cima vou para a cama com ela todos os dias...!

E, fechando a porta no maior silêncio, concluiu:

 - Pensando bem, o corno aqui é ele!


Marta esqueceu-se de uma carta do seu amante no bolso traseiro das calças que acabaram na máquina de lavar juntamente com a roupa do seu marido. 

A lavagem e centrifugação desfizeram a carta, mas ficaram pedaços no tambor e colados à roupa. 

Não foi ela, mas sim o seu próprio marido quem depois tirou a roupa da máquina para a estender a secar e encontrou, em pedacitos dessa carta, palavras soltas e esmaecidas pela lavagem, cuja caligrafia assemelhava-se muito à do director de recursos humanos do grupo hoteleiro onde trabalhava. 

Num pedacito de papel leu “gostosa”, noutro, “dor profunda”, num outro, “aquela noite”, noutro, “jantar”, num outro, “aquele hotel” e ainda num outro, “outra alternativa que despedir-te”. 

O marido de Marta deitou as mãos à cabeça. 

Pensou que era uma carta para ele próprio. 

Uma carta de despedimento. 

Tudo encaixava: fazia um par de noites que tinha ido a um jantar da empresa num dos hotéis do grupo e acabou a discutir com o inútil do filho do chefe. 

 

Mas não esperava que aquilo fosse ter consequências tão drásticas e através de uma carta. 

Furioso saiu de casa, apanhou o meu táxi em direcção ao escritório. 

Pelo caminho ligou ao Vasconcelos: 
“- Vasconcelos? 
Ouve, acabo de ler a tua carta, bem, inteira não, saquei-a meia desfeita da máquina de lavar roupa e só consegui ler algumas palavras. 
Despedido, dizes? 
Mas despedido como? 
Olha, vou já para aí e depois contas-mo. 
E sem deixar o interlocutor falar, desligou. 

Na realidade Vasconcelos não o tinha despedido, simplesmente estava a atirar-se à sua mulher. 

Deduzi-o por aquela breve conversa telefónica, mas também porque ao sair do táxi encontrei, colado no assento, outro desses troços de papel. 
Dizia: “o sabor dos teus pés”. 

Nota: 
Suponho que, aproveitando-se da situação e para evitar o verdadeiro conteúdo daquela carta, Vasconcelos dir-lhe-ia que sim, que está despedido. 

Agora digam-me o que será pior: inteirar-se de um par de cornos ou ir para o desemprego?
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sábado, maio 24, 2014

- Ter tudo é sonhar com a mulher que dorme a meu lado !

AZAR OU MÁ SORTE...

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Espero que não interpretem mal as minhas palavras. 
Só digo que há homens e mulheres que tendem continuamente a equivocar-se nas suas relações sentimentais e ainda assim imputam-no ao azar. 
Conheço mais do que um (e mais do que uma) que não lhes duram nada os idílios ainda que anseiem estabilidade e sempre é o contrário quem a estropia (‘apanhei-o com outra’, ‘simplesmente marchou-se’, ou ‘levantou-me a mão’ são exemplos clássicos). 
Acontece é que, numa relação seguinte, a nova parelha cumpre exactamente o mesmo perfil do anterior. 
Há mulheres, por exemplo, que sentem atracção pelos “pérfidos”, ou certos homens pelas “mulheres dominadoras” e acabam, cada um para seu lado, pelo mesmo motivo que em princípio os atraiu. 

 

Há homens que confiam que o oitavo casamento da sua nova mulher será o último. 
Há mulheres que confiam em que, “aquela vez que me levantou a mão, estou certa, que nunca mais voltará a fazê-lo”. 
Não amiga. 
Há homens violentos por natureza e ao mínimo sinal, ao mínimo gesto, convém fugir deles como o diabo da cruz. 
Espero que não me interpretes mal as minhas palavras. 
NENHUMA MULHER MERECE SER AGREDIDA, que fique claro e, o homem que maltrata só pode “pagar” com duríssimas penas de prisão. 



Agora bem: noutro dia, uma vizinha da minha rua, chegou a confessar-me algo que despertou poderosamente a minha atenção (e de certo modo me inspirou estas linhas). 
A mulher assegurou-me ter sido vítima de maus tratos por parte dos últimos cinco companheiros, o que atribuiu ao “seu azar ou má sorte” ao amor. 
Oxalá que esses cinco apodreçam na prisão, sem qualquer dúvida. 
Por outro aldo, desconheço qual é a percentagem de maus tratos por cada homem bom. 
Será uma percentagem residual, suponho. 
De modo que posso estar equivocado e na realidade seja isso, má sorte, mas pensei que talvez, a priori, a mulher em questão se visse atraída por certo perfil de homens.

Jamais direi que merecesse semelhante inferno, mas…
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quinta-feira, maio 22, 2014

- O melhor para mim, sou sou eu mesmo.
Sigo-me a mim mesmo, sou o meu Mestre !

FÉ DERRUÍDA

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 (Ananda Sibilia)

A princípio a fé movia montanhas só quando era absolutamente necessário, mas a paisagem permaneceu igual a si mesma durante milénios. 

Mas quando a fé começou a propagar-se,  ao "pessoal" pareceu-lhe divertida a ideia de mover montanhas, estas não faziam mais do que mudar de sítio e cada vez era mais difícil encontrá-las no lugar em que se tinham deixado na noite anterior;  coisa que supostamente criava mais dificuldades do que as que resolvia. 

A boa gente preferiu então abandonar a fé e agora, as montanhas permanecem, no geral, no seu sítio. 

Quando na estrada se produz uma derrocada debaixo da qual morrem vários viajantes, é que alguém, muito longe ou relativamente perto, teve um ligeiríssimo atavismo de fé.
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quarta-feira, maio 21, 2014


- Por isto tudo é que não acredito em qualquer deus; não haverá um único que corra a pontapé este laparoto e restante ninhada ?

COINCIDÊNCIAS

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Há uns dias caiu algo na minha cabeça, tratava-se de um balão, desses que se vendem nas feiras. 

Pensei que seria simples casualidade, procederia de alguma festa ou arraial dum povoado próximo, ainda que o estranho era que unido a ele pendia a mão terna de um menino. 

Ontem outro balão dos que se vendem nas feiras, com a sua mão terna, voltou a bater-me na cabeça e isto já não poderia ser fruto da casualidade. 

Hoje não tenho tirado os olhos do céu. 

Não consigo deixar de pensar naqueles meninos sem balões, sem mãos.
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terça-feira, maio 20, 2014



- Quando finalmente fechou os olhos já era muito tarde. 
Os carneiros já tinham morrido todos !

MAR DE ROSAS

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É um mar injusto, mas é o nosso mar! 

Assentem submissamente os peixes pequenos a ponto de serem devorados pelo peixe grande. 

O grande tubarão branco aproveita-se sempre das águas revoltas para reivindicar novas vítimas. 

Primeiro ataca os crustáceos: tira-lhes as conchas pela raiz e especula com elas pelos mares do Sul. 

Para isso, vale-se das piranhas a soldo, que de certo modo disfrutam com o que fazem. 

E como são insaciáveis, depois atacam o peixe comum. 

Atacam o peixe desempregado, o peixe pensionista, o peixe subalterno; vão-lhes cortando a fuga, tornando-os vulneráveis. 

E uma vez descamados, devora-os. 

Não há que procurar explicação: está na sua natureza. 

 

O curioso, sem dúvida, é a reacção dos peixes pequenos. 

São milhares, milhões. 

Mas em vez de se unirem e encurralarem o peixe gordo, dividem-se, formando pequenos grupúsculos. 

Grupúsculos à esquerda, grupúsculos à direita. 

Estes últimos criticam os outros porque acreditam que algum dia, com afinco e muito plâncton, chegarão a converter-se em peixes gordos. 

E continuarão acreditando, ainda que já estejam dentro da barriga de Moby Dick.
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domingo, maio 18, 2014

- A energia sexual é a luz vaporosa que sai debaixo dos lençóis e é compartilhada através de dois corpos ! (josé torres)

MIRONE

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 Tirada DAQUI

Não posso evitar sentar-me sozinho (ou sentir-me) nas esplanadas e observar o pessoal que se senta nessas mesmas esplanadas (ou se sente), sobretudo aos pares, sobretudo aos casais jovens. 

Observo o seu comportamento talvez para aprender com eles, ou para aprender a não ser nunca como eles. 

E bebo, claro, que os olhos necessitam de lubrificação (já pensaram o que seria as pálpebras rangerem por falta de lubrificante?) e é o corpo que o fornece. 
Normalmente umas “brutas” cervejadas. 

Sentam-se, pedem algo ao empregado e enquanto aguardam, sacam os telemóveis e ignoram-se com total naturalidade, como se não fosse a última vez que se ignoram e não será a última. 
Falam, inclusivamente, com outras pessoas ao telemóvel, o que quer dizer que são sociáveis; fazem chamadas e ao desligarem, permanecem em silêncio.
Nem sequer se interrogam: “quem te telefonou”, afim de iniciarem uma nova conversa. 

 

Depois chega o empregado com sua cerveja e a sua Coca Zero (agora as garinas pedem Coca Zero e se não têm soltam um desabafo surdo, mal imperceptível, bufff, e então dizem: “Pois então uma Light”. Mas dizem-no como ressentidas ou ressabiadas) e voltam aos seus telemóveis ou deixam-nos sobre a mesa e mesmo assim, não se olham, nem falam. 

Suponho que estão na fase de conhecerem-se de memória, ou pelo menos de não quererem saber mais do outro, ou conformarem-se com o que já sabem. 
Apenas contam a anedota do dia, ou nem isso. 

Simplesmente estão “bem”, juntos, e não necessitam mais: bastam-se com a serenidade que lhes proporciona a companhia do outro, como um bafejar do campo gravitacional compartido, ou um espelho cálido e discreto defronte. 

Horroriza-me, mas por sua vez espanto-me ver que já não têm nada que dizer um ao outro, ou até novas inquietudes. 

 

Procurar no Google, por exemplo, a elaboração das azeitonas recheadas com pimentos vermelhos que têm debaixo das beiças (sobre a mesa). 
E lê-lo em voz alta e aprender algo novo juntos. 

Parecem derrotados mas conformes com a sua derrota. 

Não falar significa não ter nada que dizer ou não querê-lo dizer, o que pode significar duas coisas: ou estás morto, ou a vida já deixou de te impressionar. 

Sempre que observo estes casais nos muitos bares e esplanadas que frequento, acabo sempre a pensar que eles são dois meio mortos. 

Como será a vida sexual deles? 
Tê-la-ão?

Mas eu estou vivo e estou sozinho.
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sábado, maio 17, 2014


- Por troca de certeza quase nova, dou fé (com pouco uso) !

O CESTO



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Sou ateu e estou desempregado. 

Ontem e só ontem, por curiosidade, aproximei-me da igreja da minha zona. 

Em momentos de crise, dizem, a gente busca refúgio, espera que deus faça por ele o que ele não faz enquanto olha para o televisor sentado no sofá… porque deus proverá… e que se fo..., digo, que se lixe! 

A lotação estava completa, havia mais gente que na linha azul do metro em hora de ponta. 

Não tinha pensado entrar, mas novamente a curiosidade venceu-me. 

Será que sou gato e nasci em Lisboa, de pais lisboetas? 

Misturei-me entre o pessoal, de pé, no final do “aposento” e escutei toda a liturgia até ao fim. 

O cura falava-nos de que a culpa era nossa porque tínhamos pecado, mas que deus pressiona mas não afoga… e para que tivesse piedade de nós devíamos rogar ao senhor e que ele nos ouvia. 

 

Não sei, a mim parece-me que o senhor deve estar muito farto e surdo. 

Isto sim, num determinado momento da missa pediram-nos colaboração para com a igreja e passaram um cesto. 

Umas duas pessoa por fileira de assentos ia-o passando. 

Quando chegou a mim, não pude desfazer-me de um cêntimo. 

Estou no desemprego, tenho a hipoteca e um longo percurso... 

Este último não tem nada a ver com o cesto, ou talvez até tenha. 

Como sabeis estou desempregado. 

Pude observar que o cesto que me calhou estava cheio de moedas, sujas, escuras, pequenas. 

As notas escasseavam. 

Deu-me a impressão que Jesus não ficaria muito contente no final desta missa, por isso, como mais ninguém pensou assim, todos contentes viemos em paz. 

 

Quando saí, não senti a minha alma mais limpa nem menos rancor à corja que nos governa. 

Não, não me senti reconfortado. 

Creio que o cura se equivocava, qualquer um o poderia contrariar mesmo contra a autoridade com que falava. 

Sou da opinião de Guillermo Fesser, "Cuando Dios aprieta, ahoga pero bien"

Intuo que comprar um cesto de vime e passá-lo pela comunidade dos meus vizinhos, não me solucionará o futuro, ainda que tal me permitisse comprar pão. 

Mau mesmo é que não tenho cheta para comprar pão, quanto mais um cesto de vime. 

Vou voltar a enviar, resignado um par de currículos a um par de empresas para ver que porra se passa… 

Desculpem lá, mas não sei rezar.
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