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Os milagres existem e a prova desta minha asserção, para que acreditem, é o que vos vou contar.
Há muitos anos, quando comerciava miuçalhos, miudezas e miúdas, estava de passagem por uma pequena localidade do interior.
Como não conhecia ninguém e o dinheiro não abundava para me hospedar, decidi aconchegar-me numa funerária para passar a noite; não é nada do outro mundo ou uma manobra risível, mas sim o acomodar do corpo e do espírito a um destino que ninguém foge.
Fazia-o regularmente.
Reinava um silêncio tenso.
Acomodei-me para fechar as "persianas" e dar um descanso ás pestanas, quando de repente estalou uma algaraviada.
A viúva agarrou-se ao esquife, chorava e esperneava desalmadamente histérica.
Abanava de tal forma o ataúde, que temi, que em qualquer momento o fosse a tombar.
Instantes depois chegou a primeira mulher do defunto e, pese levar vários anos divorciados, foi também agarrar-se ao “caixote” e armou outro show que em nada cedia ao anterior.
A viúva considerou que o morto era pertença sua, que a outra não tinha direito a dar semelhante espectáculo e fê-lo saber.
Foi o fim da picada; armou-se a confusão e quase arrancavam os cabelos.
Temi novamente que entornassem o caldo, quero dizer, tombassem o féretro.
Tive que intervir; acalmei-as e consegui uma trégua entre ambas.
Uma simples trégua, porque com o avançar da noite e romper da alvorada, voltaram as hostilidades.
Foi quando ouvi a viúva perguntar:
- Onde está o relógio do meu defunto marido?
Uma fulana respondeu-lhe:
- Tenho-o eu; ele deu-mo antes de morrer.
Como uma mola, a viúva saltou do assento e expressou com energia:
- Pois dá-mo, pertence-me porque sou sua mulher.
A fulana insistiu que lhe tinha sido ofertado a ela.
Então a primeira mulher precipitou-se até perto do relógio e exclamou:
- Disto…? Nada!!!
Esse relógio comprou-o quando estava casado comigo e fui eu que lhe dei a maior parte do dinheiro, portanto, é meu.
A fulana que o tinha reiterou a sua reclamação com mais energia.
A viúva gritou com um tom de voz que até deixava gagas as sopranos.
A ex-mulher atirou-se ao ar.
"Armou-se o baile" entre as três ao lado do catafalco.
E agora, “tanto foi o cântaro á fonte…”, que o “caixote” foi parar ao chão.
No meio do caos onde imperava a gravata, o relógio veio cair a meus pés.
Apanhei-o, aproximei-me do ataúde, cuja tampa se tinha aberto e ante o assombro de todos, coloquei-o no pulso do cadáver.
Olhei as três mulheres e disse com voz firme:
- A que julgue ter mais direitos que o retire do morto!
Remédio santo!!!
As três belicosas damas tranquilizaram-se e permitiram fechar o caixão com o relógio no pulso do que “ia partir”.
Três ou quatro anos depois, passei, por casualidade, na citada povoação e por suposta casualidade casual que a vida por vezes nos reserva, soube que iam exumar os restos do “dito cujo morto morrido”.
Também por um casualismo casual, ou melhor, curiosidade, fui até ao cemitério, onde se prantavam, a dita cuja fulana, a viúva e a ex-mulher e o ambiente pressagiava uma nova batalha.
Mas para surpresa dos assistentes… o braço do esqueleto não tinha nada.
- E o relógio de ouro? Perguntou alguém.
- Deve tê-lo levado consigo para o céu, disse a fulana.
– Talvez tenha voltado pó com a humidade da terra” especulou a viúva.
– Talvez o tenham comido as ratas, comentou a primeira mulher do morto.
Todos zarparam e fiquei a matutar sobre o assunto.
Já quando me ia embora, perguntei as horas ao coveiro.
Subiu a manga e vi o relógio de ouro.
Então compreendi tudo.
Era um milagre!
O morto tinha-o colocado ali para as mulheres não brigarem.
Há coisas do além que os homens do aquém não conseguem explicar.
30DEZ2010
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