O VIDEIRINHO

quinta-feira, junho 30, 2011

- O sexo tântrico é um problema.
Atrasa-me todas as coisas que tinha marcado para depois !

BEIJO

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Neste preciso momento, um casalinho está a beijar-se no banco traseiro do meu táxi. 

Tenho os seus rostos perfeitamente enquadrados no meu espelho retrovisor: ele beija-a com o olhar nos lábios dela e ela, por sua vez, mantém os seus olhos fincados nos olhos dele. 

Ela vê que ele olha para os seus lábios. 

Delicioso enlace aquele que se retro-alimenta. 

Agora ambos abrem mais a boca e fecham os olhos.

Abandonam-se.


É curioso o poder de coordenação dos beijoqueiros; ambos sabem quando abrir e fechar a boca, ou em que momento decidem ultrapassar a barreira do outro com a ponta da língua, ou qual será o preciso instante para voltar a abrir os olhos e regressar ao mundo real. 

Torna-se curioso o beijo em si, o porquê de se atraírem tanto as bocas alheias, porque tendemos a juntar o nosso par de lábios e não, por exemplo, as cabeças, os joelhos ou a planta dos pés (as outras coisas que pensam, são para outras coisas!). 



Será talvez a necessidade de unir duas línguas numa: calar-se a boca mutuamente para não dizer nada e dizer tudo ao mesmo tempo.

Provar as palavras do outro auscultando com a sua língua ou analisando o sabor da sua saliva. 

Ler entre lábios. 

De repente, o meu táxi bate no carro que está à frente. 

Não se pode estar atento a tudo.
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quarta-feira, junho 29, 2011

- A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas ! (Fernando Pessoa)

MAÇÃ INOX

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Li por aí algures que a empresa canadiana de biotecnologia, Okanagan Specialty Fruits of Summerland, solicitou a aprovação nos EUA de uma maçã que não se oxida depois de cortada ou descascada. 

A oxidação das maçãs é o 'escurecimento enzimático' resultante da combinação do oxigénio do ar com uns compostos químicos da fruta chamados fenóis. 

Segundo o presidente da dita cuja empresa canadiana, NEAL Carter, a nova maçã transgénica chamada “Artic”, embarateceria a produção de “preparações, com cortes frescos” indispensáveis em muitos pratos. 

Parecem-se com todas as maçãs e quando são cortadas não enegrecem”, defende. 

A aceitação da nova maçã dependerá dos consumidores que, finalmente, são quem decide se a comem ou não, acrescentou o empresário. 


Nós, os grandes cozinheiros (rsrsrs) manipulamos produtos que, ao serem cortados, oxidam-se em contacto com o ar e adquirem uma tonalidade parda, que tentamos camuflar, porque não é muito atractivo. 

Ninguém gosta de comer uma compota de maçãs de cor ocre. 

Para evitar o seu escurecimento, juntam-se-lhes aditivos. 

Chega-se ao paradoxo do ‘pessoal’ preferir compota com conservantes, a uma natural com o tom enegrecido. 

Ao refectir sobre a maçã transgénica “Artic”, interrogo-me: 
O que sucederia se alguns vegetais não se oxidassem em contacto com o ar? 

Ou, por exemplo, estão a imaginar uns cogumelos ou umas alcachofras cortadas com certa antecedência que mantenham o seu tom inicial? 



Sem dúvida que essa pequena modificação na sua química seria uma autêntica bomba para nós, os grandes cozinheiros (já sorri mais acima) porque há muitos pratos à base de vegetais que não se podem manusear nos restaurantes já que requerem um grande volume de produto na sua elaboração e devem ser cortados no momento para evitar que escureçam.

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terça-feira, junho 28, 2011

- Alguns 'amigos' são como os táxis, quando está mau tempo escasseiam !

VOATA

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Sempre que podia escapulia-me sem que ninguém o notasse. 

Era bastante fácil evadir-me ao guarda do corredor — conseguia-o com uns quantos cigarros —, dobrar à direita antes de chegar ao pátio e subir os cinco lanços de escadas. 

Só, aliviado de tudo e de todos, o terraço era o meu lugar preferido, principalmente na Primavera. 

Acelerava-se-me o coração cada vez que me acercava da beira do edifício e punha-se-me pele de galinha quando me imaginava saltando no vazio. 

Que arrepio. 

Mas naquele dia decidi deixar de duvidar e interrogar-me se era ou não possível. 

PARKOUR AND FREERUNNING


Coloquei-me a jeito e desatei a correr como um louco a toda a velocidade até ao precipício e, a meio metro da borda, firmei o meu pé direito e impulsionei-me para a frente. 

Estando já no ar, coloquei-me em posição horizontal, estiquei os braços e abri as mãos. 

De repente pensei como o meu psiquiatra estava rotundamente enganado, quando me tentava convencer de eu que não tinha capacidade para voar.
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segunda-feira, junho 27, 2011

- A glória é a imortalidade do fim !

MERDELINS???

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Sente-se diferente e encontra-se com outro que se sente diferente e estes dois com outro mais, e com outro, e outro, e outro e quando já são vários decidem reunir-se e falam entre eles da sua diferença e sentem afinidade na sua diferença e já não são tão diferentes, são iguais a eles mesmos e ao seu grupo, cada vez mais numeroso.

A palavra corre veloz: o conjunto vulgar também quer ser diferente, sonha alternativo e cool ou diferente e agora sabe que há um grupo de indivíduos que se sentem diferentes e alguns decidem escapar da reunião e unir-se a eles. 

O grupo de diferentes converte-se em legião de iguais que reivindica a sua diferença até ao resto dos iguais. 

Os diferentes iguais, carecem de líderes (consideram-se iguais, sem categoria). 

Os iguais iguais aliás, necessitam de alguém que os guie por um dos tantos pensamentos únicos. 

Os iguais iguais farão sempre o que lhes disser o seu líder. 

Os diferentes iguais, por seu lado, actuarão por consenso; cada decisão passará por todos eles e procederão segundo a maioria e, os desconformes, acatarão com resignação a maioria e ver-se-ão frustrados ainda que ‘agasalhados’ pelo resto. 

Os iguais iguais, por sua vez, só verão frustração se o seu líder fraqueja e sentirão orgulho quando o seu líder vença sobre o resto dos líderes.


Em qualquer caso, tanto o súbdito do grupo como o indivíduo agrupado sentirá, nalgum momento da sua vida essa frustração. 

No meu táxi sou sozinho e são as minhas normas e são as minhas ruas; e os meus grupos de, no máximo cinco indivíduos (condutor e quatro passageiros), sempre surgem da casualidade e se dissolvem ao final da cada trajecto. 

Algumas vezes junto-me com outros taxistas talvez relacionados mas não iguais e com eles, quando somos muitos, demasiados, não posso evitar comportar-me como um perfeito imbecil (penso depois, quando estou só) e isto deprime-me e frustra-me

Stéphane Delaprée

Quantos mais ingredientes agregares numa pizza, mais difícil será diferenciá-los ao paladar, excepto o mais picante, o que anula os demais sabores: o líder.

Só sou eu, sinto-me eu, nas distâncias curtas, quando retomo as minhas rédeas e as minhas normas e as minhas ruas e os meus grupos com o máximo de 1+4 indivíduos que surgem a esmo e depois, por sorte, se dissolvem. 

E tenho um prazer enorme sentir-me eu. 

Como todos. 

P.S. – Quanto mais nós, menos eu. 
Brindo por um individualismo atroz como a única saída a este espanto em grupo que não representa nada e, talvez, nos represente a todos.
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domingo, junho 26, 2011

- Os homens costumam chamar destino àquilo que lhes sucede quando perdem as forças para lutar !

ARTIFICIALIDADES

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Gelocatil para a dor de cabeça. 

Lorazepan para os “atolamentos” ('quedas' na vida). 

Prosac quando não há trabalho. 

Redbull para o sono/sonho. 

Viagra como vasodilatador para os tempos de crise… 

Xanax, Risperidona, Ketanina, Seroxat, Lexotan, é um fartar vilanagem: 
Não é necessário roçar a ilegalidade para andar todo o dia 'chapado'. 

Podes inclusive levá-las no porta-luvas do teu carro ou táxi e à vista de todos: 
Não há problema. 


Serás um “emplastro” socialmente aceite, um viciado de salão, uma vítima mais do stress urbano. 

Só tens que ir ao teu médico de família, dizer-lhe que sofres de ansiedade, que te encontras um tanto ou quanto ‘apagado’ e apático e a viver. 

A sua receita será o bilhete para o teu próprio paraíso artificial. 

Sentir-te-ás bem sempre que queiras e tranquilo quando necessites. 

Sem sentimento de culpa: 
Cada viagem conta com o aval de um profissional da medicina. 


 E com os tempos procurarás o “atolamento” (queda) como escusa para emalares outra pastilha redonda debaixo da língua,. 

Procurarás problemas por dá cá aquela palha para justificar cada nova ingestão de cápsulas brancas e vermelhas. 

E ao teu crescente vício chamar-lhe-ás sobrevivência. 

E só assim te sentirás o homem mais feliz do mundo. 

É disso que se trata, não é?
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sábado, junho 25, 2011

- O teu deus diz-te que olhes mas não toques... que toques, mas não proves… que proves mas não desfrutes... e enquanto isso, está a morrer de riso !

MAPA MORTAL

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A passagem do tempo sobre o papel origina certas dificuldades para interpretar o mapa. 

Ainda assim, metódico, o pirata organizou-as para seguir cada uma das indicações. 

Imediatamente ao seu desembarque, equipado com uma espada e uma pala, internou-se pela selva e caminhou uns dois quilómetros até chegar ao “ombú morto”, (ombú na Venezuela; no Brasil e Espanha, bela sombra; na Argentina, umbú; França, belombra; Portugal, árvore da sombra (Phytolacca dioica). 

Os enormes ramos desprovidos de folhas no meio de um ecossistema tão cheio de vida causaram-lhe um certo temor.




Escalou a árvore e do cocuruto perscrutou, tanto quanto o olhar permitia divisar, a montanha com a forma de cauda de sereia. 

Desceu do “ombú”, empreendeu a longa viagem e ao chegar à parte mais alta da ilha, encontrou-se com a rocha ilustrada no mapa. 

Caminhar 55 passos para Norte”, explicava a amarelecida folha e ele pirata obediente..., despenhou-se pelo alcantilado no passo 50. 

O mapa tinha causado uma nova vítima.


 
O capitão William Kidd (1645-1701) foi um marinheiro escocês. 

Ainda que sempre se tenha auto-intitulado pirata, há provas de que era corsário do rei Guilherme III de Inglaterra, ao leme do navio "The Adventure Galley". 

São famosos os assaltos a barcos franceses. 

Se bem que não fosse um anjo, Kidd não se destacava pela crueldade, nem pela sua capacidade destrutiva; a fama popular é que lhe adjudicou uma áurea de monstro. 

Foi executado com o conhecimento de quem o patrocinava, para proteger a imagem do poder e da monarquia. 

De facto, um dos investidores que o contrataram foi quem o tramou ao temer que o seu nome fosse relacionado ao corsário. 

O aniversário da execução do capitão Kidd – em Maio de 1701 – serviu ao Museum London Docklands, sede portuária do Museu de Londres, para expor, “Pirates: The Captain Kidd Story”. 

 
Um sarcófago de ferro 

– A mostra revela a estreita relação entre a corrupção política e a pirataria, os mitos e mistérios que rodeiam a ideia que temos destes milhentas vezes retratados personagens. 

Além de recopilar canhões, trajes, gravuras, quadros, mapas do tesouro ou histórias sobre mulheres piratas, a exposição descobre os rituais de execução da sociedade inglesa dos séculos XVII e XVIII. 

Depois de ser enforcado, o cadáver de Kidd foi trasladado para Tilbury (cidade do sueste de Inglaterra e de grande movimento marítimo) e introduzido numa jaula. 

O sarcófago de ferro ficou pendurado numa estrutura de madeira à beira do rio Tamisa durante anos, para serveir de advertência a outros piratas. 



Os restos do corpo foram enterrados num local secreto. 

“Pirates: The Captain Kidd Story” reúne 170 objectos, entre eles a última carta do corsário (em que fala de um tesouro oculto que nunca se encontrou), uma bandeira pirata autêntica, uma jaula como a que encerrou o cadáver de Kidd e objectos exóticos que transportavam barcos mercantes. 

Como curiosidade, o último tesouro que escondeu William Kidd nunca se encontrou.
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terça-feira, junho 21, 2011

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Pessoal da pesada que anda com a carta na mão... sem saber o que fazer.
Está aqui o Garcia  (o que recebe as cartas) para a entregar (ou melhor, receber)...

Bem, não quero qualquer responsabilidade. 
Se não a entregaram a tempo...  "cagarim..., cagarou.se...

Espero que como estamos em Portugal... a nossa maneira de desenrascar.... e...

'E assim que reza a bíblia das nossas estradas, caminhos, carreiros, veredas e outros becos... :

Então vamos olhar para o BI, Cartão de Cidadão... nem sei se há mais portugueses de outros exemplos---

LEIAM!!!   VEJAM!!!   REVEJAM!!!   ESTUDEM!!! e... que se lixe!!!, está aqui tudo.


Estou um pouco afastado pois a minha ferramenta de trabalho foi afectada por um vírus (ou mais. Parece que são 51, uma proporção muito desproporcional à batalha de Aljubarrota. Mas enfim... vou vencê-los!)
Convoquei a Associação de Caçadores de Portugal para "darmos" caça a tão nefasto problema.
Não tenho qualquer dúvida que vencerei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

ÁVANTE CAMARADAS D'ARMAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Muito agradecido pela compreensão... ou não.

Vamos voltarmo-nos a encontrar... ao voltar da esquina.

INTÉ
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terça-feira, junho 14, 2011

- Um surdo-mudo quando tem a doença de Parkinson pode ser considerado um gago ?

CONHECIMENTOS

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Os filósofos do século XVI mantiveram uma apaixonada polémica sobre o conceito de substância que parece especialmente relevante no reino das aparências em que vivemos. 

John Locke observa no seu famoso “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, (um dos livros mais …) que há no mundo que nos rodeia, coisas que se modificam continuamente e outras que parecem estáveis. 

O empírico Locke retoma a velha concepção aristotélica e assinala que as coisas que mudam, são acidentes e as que permanecem, são substâncias. 

Uma árvore por exemplo, cresce, muda as suas folhas, dá frutos. 

Todos estes atributos produzem-se sobre um substrato que não muda, que dá continuidade ao que é uma árvore. 

Mas qual é na realidade a substância de uma árvore ou de um ser humano? 

Locke conclui que a pergunta não tem resposta porque esta noção é um enigma. 

Em grego, a palavra substância (hypokeimenon) significa o que está debaixo. 

Locke recorda que os hindus acreditam que o mundo está suportado pelas costas de um elefante.

 John Locke - Tirada daqui

Perguntado a um sábio hindu sobre em que se apoia esse elefante, assinalou que sobre as costas de uma enorme tartaruga. 

E a tartaruga sobre o que se sustenta? 

O sábio chateou-se e disse que não fazia a mínima ideia. 

Spinoza, o filósofo que ganhava a vida polindo lentes, respondeu à pergunta de Locke com uma sensível e desconcertante afirmação: tudo o que existe é substância. 

A pluralidade dos seres baseia-se nos seus atributos, mas há uma substância única que impregna tudo o que existe no reino do animado e do não animado. 

E essa substância, segundo Spinoza, é Deus. 

Don Ferrante, o personagem de “Os Noivos” (em italiano: I Promessi Sposi) de Alessandro Manzoni, pergunta ironicamente se a peste é atributo ou substância e chega à conclusão de que não pode existir tanto como atributo, quando se é substância. 

Kant deu outra volta ao rabo da porca mais à questão e chegou à conclusão de que só podemos aprender a aparência das coisas, mas não a sua essência porque estamos condicionados pelas formas – as categorias do conhecimento – que determinam como percebemos o que sucede fora do nosso eu.


Portanto, a substância – se existe – é incognoscível. 

Desde então a pergunta sobre a natureza da substância que se tornou politicamente incorrecta, ainda que a polémica voltasse pela porta de trás na obra dos grandes metafísicos do século XX, como Heidegger e Sartre e inclusivamente heterodoxos como Wittgenstein. 

Ainda que alguns se agarrem a ideias desgastadas como a nação ou a raça, os avanços da biotecnologia induziram a acreditar que a substância dos seres humanos é o seu próprio código genético que define a identidade de cada espécie. 

Eu não acredito nesta hipótese e continuo a pensar – como Locke – que a substância é um enigma num mundo onde prima a lógica de um espectáculo que se renova de forma permanente. 

Os atributos dessa grande mentira da aparência ocultam a substância que está debaixo. 

Com a vénia de Descartes e voltando ao revés de Spinoza, eu diria: 
sou substância, logo existo!

28DEZ2010

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segunda-feira, junho 13, 2011

- Saúde, é a forma mais simples de morrer !

MEU QUERIDO DENTISTA

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Noutro dia fui ao dentista. 

Foi uma sessão de hora e meia – algo que a convenção de Genebra deveria ter terminantemente proibido – durante a qual o meu dentista se enfureceu, torturando-me à tripa forra. 

Já sabia o que tinha de fazer, assim, não se incomodou com os rituais, preliminares habituais, durante os quais me costuma escarafunchar as gengivas com seu maligno ganchito gazua. 

Não. 

Desta vez afinfou-me imediatamente três injecções, com lentidão e persistência, através dos tecidos macios e menos macios e depois disto agarrou o seu maldito “berbequim” e não mais o soltou durante os seguintes trinta minutos. 

Há coisas na vida que não deixam de me deixar perplexo. 

Uma delas é que, todavia não se tenha já inventado o “berbequim” silencioso.

Emite este aparelho infernal um ruído tão intenso como penetrante, tão agudo como vil, que eu acho que aos dentistas lhes compraz.

E que por isso mesmo, não o silenciaram. 

 Chegou um momento em que o meu dentista, que eu acredito que me odeia, já não lhe ocorria nenhuma outra maneira de me infligir dor, ou qualquer outro tipo de sofrimento e deu por finalizada a sessão. 

Bem, não totalmente.

Ainda me podia fazer sofrer mais um pouquito com as suas intervenções finais: a primeira foi o recordar-me as várias desgraças dentárias que me poderiam ocorrer no futuro, como por exemplo o esmalte dos meus molares, que poderia finalmente sucumbir, deixando o nervo a descoberto, o que parece me faria descobrir todo um mundo de novas e fantásticas dores, que por agora desconheço. 

A aguilhoada final foi a conta, a enorme soma que lhe devia, por me ter feito sofrer tanto, durante aquela tarde de uma quarta-feira. 

Os sofrimentos que qualquer um sabe que vão durar só um tempo determinado, e não mais, são surpreendentemente fáceis de suportar. 

Tirada DAQUI
Até à invenção da anestesia, os cirurgiões amputavam membros numa questão de segundos, incluindo a tarefa de atar as artérias para que o enfermo não se esvaísse em sangue, o que seria sempre um contratempo. 

O enfermo sofria estoicamente porque não tinha mais remédio, mas também porque a dor lhe ia durar muito pouco. 

Se lhe tocasse passar mal, consola muito saber que o sofrimento vai terminar cedo. 

Como disse Macbeth na obra de Shakespeare: 
passe-se o que se passar, o tempo consegue atravessar inclusive o pior dos dias". 

O sofrimento crónico no entanto, o duradouro e imutável, pode ser mais difícil de tolerar, mas inclusive para esse também há um final. 

Agradeci ao meu dentista e fui-me… esgotado pela experiência e pálido, mas também muito mais aliviado!
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domingo, junho 12, 2011

- Os problemas da minha mulher com o Sindicato começaram quando ela entrou em trabalho de parto, no dia do trabalhador !

MILAGRE

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Os milagres existem e a prova desta minha asserção, para que acreditem, é o que vos vou contar. 

Há muitos anos, quando comerciava miuçalhos, miudezas e miúdas, estava de passagem por uma pequena localidade do interior. 

Como não conhecia ninguém e o dinheiro não abundava para me hospedar, decidi aconchegar-me numa funerária para passar a noite; não é nada do outro mundo ou uma manobra risível, mas sim o acomodar do corpo e do espírito a um destino que ninguém foge. 

Fazia-o regularmente.

Reinava um silêncio tenso. 

Acomodei-me para fechar as "persianas" e dar um descanso ás pestanas, quando de repente estalou uma algaraviada.



A viúva agarrou-se ao esquife, chorava e esperneava desalmadamente histérica. 

Abanava de tal forma o ataúde, que temi, que em qualquer momento o fosse a tombar. 

Instantes depois chegou a primeira mulher do defunto e, pese  levar vários anos divorciados, foi também agarrar-se ao “caixote” e armou outro show que em nada cedia ao anterior. 

A viúva considerou que o morto era pertença sua, que a outra não tinha direito a dar semelhante espectáculo e fê-lo saber. 

Foi o fim da picada; armou-se a confusão e quase arrancavam os cabelos. 

Temi novamente que entornassem o caldo, quero dizer, tombassem o féretro. 

Tive que intervir; acalmei-as e consegui uma trégua entre ambas.



Uma simples trégua, porque com o avançar da noite e romper da alvorada, voltaram as hostilidades. 

Foi quando ouvi a viúva perguntar: 

- Onde está o relógio do meu defunto marido? 

Uma fulana respondeu-lhe: 

- Tenho-o eu; ele deu-mo antes de morrer. 

Como uma mola, a viúva saltou do assento e expressou com energia: 

- Pois dá-mo, pertence-me porque sou sua mulher. 

A fulana insistiu que lhe tinha sido ofertado a ela. 

Então a primeira mulher precipitou-se até perto do relógio e exclamou: 

- Disto…? Nada!!! 
Esse relógio comprou-o quando estava casado comigo e fui eu que lhe dei a maior parte do dinheiro, portanto, é meu. 

A fulana que o tinha reiterou a sua reclamação com mais energia.


A viúva gritou com um tom de voz que até deixava gagas as sopranos. 

A ex-mulher atirou-se ao ar. 

"Armou-se o baile" entre as três ao lado do catafalco. 

E agora, “tanto foi o cântaro á fonte…”, que o “caixote” foi parar ao chão. 

No meio do caos onde imperava a gravata, o relógio veio cair a meus pés.  

Apanhei-o, aproximei-me do ataúde, cuja tampa se tinha aberto e ante o assombro de todos, coloquei-o no pulso do cadáver.
Olhei as três mulheres e disse com voz firme: 

- A que julgue ter mais direitos que o retire do morto! 

Remédio santo!!! 

As três belicosas damas tranquilizaram-se e permitiram fechar o caixão com o relógio no pulso do que “ia partir”.
 
 
Três ou quatro anos depois, passei, por casualidade, na citada povoação e por suposta casualidade casual que a vida por vezes nos reserva, soube que iam exumar os restos do “dito cujo morto morrido”. 

Também por um casualismo casual, ou melhor, curiosidade, fui até ao cemitério, onde se prantavam, a dita cuja fulana, a viúva e a ex-mulher e o ambiente pressagiava uma nova batalha. 

Mas para surpresa dos assistentes… o braço do esqueleto não tinha nada. 

- E o relógio de ouro? Perguntou alguém. 

- Deve tê-lo levado consigo para o céu, disse a fulana. 

– Talvez tenha voltado pó com a humidade da terra” especulou a viúva. 

– Talvez o tenham comido as ratas, comentou a primeira mulher do morto. 



Todos zarparam e fiquei a matutar sobre o assunto. 

Já quando me ia embora, perguntei as horas ao coveiro. 

Subiu a manga e vi o relógio de ouro. 

Então compreendi tudo. 

Era um milagre! 

O morto tinha-o colocado ali para as mulheres não brigarem. 

Há coisas do além que os homens do aquém não conseguem explicar.

30DEZ2010

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sábado, junho 11, 2011

- Os alto-falantes reforçam a voz, não os argumentos !

TARADO SEXUAL EU???

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Surpreendeu-me escutar sussurros no banco traseiro. 

Elevei a vista até ao nível do espelho retrovisor: era o meu cliente (40 anos, casaco e gravata folgada, lentes grossas) encobrindo a boca para que eu não percebesse o movimento dos seus lábios. 

Sussurrava algo enquanto olhava de soslaio a sua esquerda. 

À sua esquerda não havia nada; só viajávamos, no carro, eu e ele. 

Juro-o. 

Como sabem, oiço um bocado mal, mas agucei o ouvido o melhor que pude. 

Só conseguia ouvir palavras soltas: “querida”, “garantia”, “Mariana”, “futebol”. 

Depois deixou de falar e inclinou ligeiramente a cabeça, como para escutar a sua interlocutora invisível (supus que se tratava de uma mulher chamada Mariana; talvez a esposa ou a sua noiva imaginária, ou até uma amante). 

Voltou a sussurrar, subindo um pouco o tom de voz ainda que com a mão tapando a boca. 
 
Aí sim, pude escutar com exagerada nitidez: 
“o que é o Porto, porra…”. 


E voltou a inclinar a cabeça. 


O seu gesto parecia cada vez mais sério (cenho franzido, aproveitando ter a mão na boca para morder um dedo. 


“Não me berres”, sussurrou claramente incomodado.

Ela deve ter-lhe dito algo ofensivo, já que ele reagiu levantando as sobrancelhas e dizendo: 

“Sabes o que te digo? 
Ficas aí!”. 

Pigarreou e, já sem a mão na boca, disse-me em voz alta: 

– Desculpe… 

– Sim?
Diga-me. 

– Podia parar aqui? 
Esqueci-me que… tenho de fazer umas compras em… nessa loja, disse-mo apontando a mercearia do outro lado da rua. 

– OK. 

Detive o táxi, parei o taxímetro e o homem pagou-me. 


"O Grande Masturbador" - Pablo Picasso
 
Antes de sair voltou a olhar para o assento vazio à sua esquerda e sussurrou chateado: 

“Espero-te em casa”. 

Bateu a porta violentamente. 

Retomei a marcha. 

Instantes depois, sózinho, conduzindo o meu táxi pela rua de Santos Pousada abaixo, comecei a sentir-me estranhamente observado por aquela mulher imaginária. 

Inclusivamente cheguei a notar o seu ar ofegante no meu pescoço. 

Um sopro cada vez mais cálido e nítido, como se os seus lábios estivessem perto de roçar a minha pele. 

Senti uma tremulação.

Vítima de uma excitação sem precedentes, curvei para a Rua Cardeal D. Américo; detive o meu táxi e comecei a masturbar-me.

13JAN2011
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sexta-feira, junho 10, 2011


- Todos falam nos benefícios da dieta Mediterrânica, mas para emagrecer mesmo, nada melhor que a dieta sub-Sahariana !

ARCA DO JOSÉ TORRES

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01 – Entrou no meu táxi um passageiro no aeroporto de Pedras Rubras com destino ao Porto.

02 – Ao entrarmos na A28 começou a chover.

03 – Aumenta a intensidade da chuva ao ponto de ter que reduzir drasticamente a velocidade.

04 – A água cobre completamente a autoestrada. 
Circulamos a escassos 20 Km/h.

05 – O nível da água da chuva continua a subir. 
Incompreensivelmente, o meu táxi também sobe sem perder aderência.

06 – Agora circulamos por cima dos “railes” laterais de protecção (aproximadamente um metro acima do asfalto).


Tirada DAQUI

07 – Continua a chover impiedosamente e subindo nós também, tendo alcançado a altura dos faróis. 
Agora já só vemos algumas casas, as mais altas.

08 – O meu passageiro pede-me que não me detenha e que continue em linha recta.

09 – A chuva já conseguiu inundar o edifício mais alto da cidade. 
Agora circulamos por uma infinita superfície de água.

10- Alcançámos a nuvem que provocou o dilúvio. 
Por motivos óbvios, já não chove.

11 - No epicentro da nuvem (o nevoeiro invade-a toda), o meu passageiro manda-me deter o táxi.





12 – Dá-me uma nota de 50 euros e diz-me:

13 - …!


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Pretexto para interagir com os leitores: 

O que me disse o meu passageiro???
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