- Gosto de levantar-me
ao meio-dia ao domingo e continuar a locomover-me pela casa deitando-me
esporadicamente em todos os locais propícios.
O VIDEIRINHO
segunda-feira, fevereiro 29, 2016
SONOS E SONHOS
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Um sonho
de, “O Livros dos Sonhos”, escrito e ilustrado por Frederico Fellini.
Para mim, um dos
melhores momentos do dia é quando ele finaliza... uma vez na cama, os breves
segundos que antecedem o sono são extraordinários, o corpo ignora a gravidade,
as pálpebras sabendo da sua inutilidade, caem rendidas, sem resistência.
Esses segundos não
têm medida de tempo, podes sentir como tudo o que te rodeia passa a fazer parte
de um cenário sem importância, a escuridão apaga-se e o raciocínio desvanece-se
dando passo à criatividade.
É nesse instante
que o cérebro aproveita a noite para actuar sem ser observado e desfrutar sem
ser julgado, provavelmente esses instantes representam a verdadeira liberdade
do ser humano.
Eu tenho sonhos
maus e sonhos bons, cheguei a sonhar que um desalmado me apunhalava, sentindo
mesmo o frio metal entre as minhas “tripas” e asseguro que isso dói.
Mas à poucos sonhos
atrás, recebia outra visita com melhores intenções, umas mãos femininas
moldavam suavemente o meu pescoço e com delicadeza faziam-me entrega de um
delicioso beijo com sabor a lágrima, menta e açúcar, um beijo desses que não se
esquecem, parecendo que esse beijo se tivesse preparado minuciosamente antes da
sua entrega, entrega que curiosamente provinha de uns lábios inacessíveis, para
mim, durante o dia... quando acordas, o teu peito inunda-se com uma estranha
sensação de ressaca sentimental e emocional.
Através dos sonhos
podes fazer tudo, inclusivamente o mais íntimo com a pessoa mais inverosímil
que possas imaginar; podes visitar e abraçar os ausentes, caminhar nu no lombo
de um elefante azul, podes ser um anti-herói, chorares até encharcares a
almofada, fazer amor sem sexo, teres muito sexo sem amor, conhecer outro tipo
de desconhecidos, estrangular o teu chefe, viajar sem pesadas malas, sentar-te
na tua velha carteira de escola, mergulhares entre nuvens e whisky, ou ser
lapidado por trinta e sete notários sem gravata...; reconhecerão que durante o
dia as nossas possibilidades se reduzem consideravelmente em rígidos
emaranhados e complexas barreiras.
Creio sinceramente
que os sonhos são uma ferramenta natural para não enlouquecermos quando estamos
despertos, digamos que são um refúgio natural nocturno do pântano do nosso
social diário.
Os sonhos são tão
'flipantes' que nunca me interessei interpretá-los, compreendê-los ou
desencriptá-los, creio que este esforço é preferível aplicá-lo no que ocorre
durante o dia ao meu redor.
A privação do sono
é um dos mais efectivos métodos de tortura e a proibição e esterilização dos
sonhos o mais cruel dos pesadelos.
Faz agora cinco
anos que “ensinei a voar”, o meu despertador.
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domingo, fevereiro 28, 2016
FÁBULAS
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Os táxis servem-lhes para as pressas.
Chegam tarde ao trabalho.
Quanto mais perto vivem do
trabalho mais tarde chegam.
Chegam tarde a um encontro.
Quanto mais importante
é o encontro mais tarde chegam, ou maior é a angústia, ou o relógio pesa mais.
E os semáforos em vermelho, são o inimigo.
E aquele inepto do carro que tenta
estacionar numa rua estreita, é o inimigo.
Ou o taxista fleumático.
Matá-lo-iam
ali mesmo.
Ou a impotência de um engarrafamento.
A pressa é um vírus que flutua
ao comprido e largura do habitáculo; cola-se aos tapetes como sémen adolescente.
A passageira de olhos vermelhos tem pressa e naquele instante entra-me uma dor
no útero que não tenho e acho que se me romperam as águas, saco o lenço mental
pela janela imaginária e sorteio carros, persegue-nos a policia e eu Thelma e
tu Louise, que Brad Pitt espera-nos ao fundo do precipício de seu destino.
Amiúde,quando chegamos e travo de repente, pagam-me rapidamente, agradecem-me e saem a
correr; e eu fico com o coração ainda latejando, bombando as amígdalas da minha
garganta e irrigando, além disso, a minha cara de idiota.
E costumo aproveitar
a inércia para telefonar-te, ofegando:
Amo-te.
E tu assustas-te porque crês que
voltei para as drogas, mas não.
Ou pelo menos creio nisso.
A testosterona
continua a ser legal.
E telefono-te porque o amor é também urgente nesses
casos.
Ou mais que amor é a ansiedade por ter-te ou por saber que te tenho, que
ainda estás aí, no outro lado, e pensando em mim tal e qual como eu mas num
ritmo diferente.
E digo-te: acabo de arriscar a vida por ti.
É mentira, mas
vivo num país de mentira.
Posso permitir-mo.
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sábado, fevereiro 27, 2016
ÚLTIMO CIGARRO
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Os pais de Irene dirigem uma tabacaria perto do centro da cidade.
Poderia dizer-se que Irene cresceu entre pacotes de tabaco, caixas de cubanos e artefactos para os fumadores.
Ainda se recorda como brincava, em pequena, a esconder-se atrás de caixas de "SG Gigante", ou a formar figuras com os cartões das embalagens de "Gama" ou "Mayflower".
Também costumava observar, desde a cortina da parte traseira da loja, os clientes que os seus pais atendiam.
De entre eles havia um que se destacava sobre os demais.
Chamava-se Cosme, snr. Cosme e entrava na tabacaria todos os dias com o seu sorriso impecável, o seu fato de alfaiate, o seu chapéu, para pedir com aquela voz de actor de cinema, dois maços de tabaco "Português Suave" sem filtro.
Irene chegou a sentir um certo amor platónico por aquele homem.
Irene cresceu e acabou por ajudar os seus pais no atendimento do negócio.
Recorda que um dia o snr. Cosme, já um pouco entradote na idade, mas ainda atractivo entrou como sempre para comprar os seus dois maços de tabaco, despediu-se com um “até amanhã” mas nunca mais voltou.
A sua mãe disse a Irene que o snr. Cosme se tinha mudado para Braga, o que me parece ter sido mentira.
Na realidade o snr. Cosme tinha morrido aos 55 anos, de um enfisema pulmonar.
A partir de então Irene começou a interessar-se pelos efeitos do tabaco.
Fumou o seu primeiro cigarro aos 24 anos e não gostou absolutamente nada.
Fazia-a tossir e ficar enjoada.
Não entendia como havia tanta gente dependente de uma droga que, longe de provocar algum prazer, matava, não só o snr. Cosme, mas também a milhares de pessoas em cada dia.
No entanto, ela também se viciou.
E então, não só compreendeu a armadilha do tabaco, mas começou a ver os seus próprios pais do lado dos carrascos.
Tinham dedicado toda a sua vida a vender uma droga que matava irremediavelmente.
Também começou a desconfiar do mundo, a ver o mundo como uma farsa: “como é possível que todos os governos do planeta não só legalizem, mas também lucrem com semelhante veneno genocida?”.
Nota:
Irene instalou-se no Porto não só para se ausentar do seu mundo anterior, vítima duma desconfiança enfermiça, como também, de certo modo, porque necessitava acreditar que o snr. Cosme continuava vivo.
Necessita acreditar que acabará por chocar com ele enquanto caminha.
E enquanto me contava isto, eu apaguei o último cigarro.
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sexta-feira, fevereiro 26, 2016
SEM TRONO
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Mataste tantos passados que algum dia sentir-te-ás assassino de ti mesmo.
Ou pior: o teu próprio coveiro.
Não tiveste em conta que os sedimentos acabam colapsando a alma; que as mentiras pesam mais que o ar e deixam recordações lá onde os olhos não chegam.
Beijarás novos lábios mas as línguas, além de néctar, injectam memória; e o suor corrói tantas máscaras como as que utilizes.
E não há mal que sempre dure.
E não é possível voltar a estrear caricias ainda que envolvas em látex as tuas mãos.
E as pupilas sabem latim, e não há pior cego que o que não sabe ler.
Descobri-te quando entraste no meu táxi com essa nova garota.
Ela queria deixar-se querer e tu beijavas o seu pescoço como quem joga ao Drácula das metáforas, piscando um olho a ti mesmo.
Já só te saciam os amores alheios; coleccionas dependências como um idoso colecciona sacos do supermercado.
Agora sentes-te monarca no reino do teu umbigo, mas no final vencerá a república.
Sei-o porque eu, antes, fui o que tu agora és.
Foi uma princesa que me destronou.
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quinta-feira, fevereiro 25, 2016
FALAR PRÓ BONECO
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Não sou daquelas pessoas que
consultam e tentam tirar as suas dúvidas com o travesseiro; de facto, para mim,
o meu travesseiro não fala, se aperto muito a cara contra ele pode escutar o
meu próprio coração, mas ele, como se sabe, nunca foi um bom conselheiro.
Nem tão-pouco me incluo nas pessoas indecisas que consomem meia vida para tomarem decisões.
Tenho tudo muito “arrumado” e bem esclarecido, Coca-cola ou Pepsi ? Cerveja!
Carne ou peixe ? Carne!
Frio ou quente ? Frio!
Acima ou abaixo ? Talvez os dois, pois há momentos para tudo.
Tudo bem se te equivocas numa decisão fácil, é possível que um dia entres numa pizzaria e quando estejam a ponto de te servir a tua quatro estações com dupla dose de queijo penses, “merda, agora mataria por comer uma posta mirandesa com três dedos de espessura” mas tudo bem, porque seguramente também desfrutarás da quatro estações com dupla dose de queijo.
Nem tão-pouco me incluo nas pessoas indecisas que consomem meia vida para tomarem decisões.
Tenho tudo muito “arrumado” e bem esclarecido, Coca-cola ou Pepsi ? Cerveja!
Carne ou peixe ? Carne!
Frio ou quente ? Frio!
Acima ou abaixo ? Talvez os dois, pois há momentos para tudo.
Tudo bem se te equivocas numa decisão fácil, é possível que um dia entres numa pizzaria e quando estejam a ponto de te servir a tua quatro estações com dupla dose de queijo penses, “merda, agora mataria por comer uma posta mirandesa com três dedos de espessura” mas tudo bem, porque seguramente também desfrutarás da quatro estações com dupla dose de queijo.
As decisões importantes?
Bom, suponho que todo o mundo tem claro esse tipo de coisas, não é ?
A gente sabe se quer ter filhos ou não, se quer viver no campo ou em pleno Central Park, se amam o seu parceiro ou se aguentam por obrigação e costume.
A única coisa que os torna em seres indecisos e temíveis, é a ideia de desistir de tudo, uma vez que foram eles que escolheram.
Bom, suponho que todo o mundo tem claro esse tipo de coisas, não é ?
A gente sabe se quer ter filhos ou não, se quer viver no campo ou em pleno Central Park, se amam o seu parceiro ou se aguentam por obrigação e costume.
A única coisa que os torna em seres indecisos e temíveis, é a ideia de desistir de tudo, uma vez que foram eles que escolheram.
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quarta-feira, fevereiro 24, 2016
DEUS BEIJOU
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Deus
parou no caminho, olhou em redor, para um lado e para o outro.
Sacou a ‘pila’ para fora e
começou a urinar; imediatamente apareceram insectos de todo o tipo que
começaram a beber naquele charco.
Estava em pleno êxtasis evacuatório quando
alguém lhe tocou no ombro.
“Não tens vergonha, na tua idade?”.
"Justamente por isso é que eu não tenho vergonha,
idiota”.
Chegaram, como sempre, ao local, à hora de sempre e os dois vestidos com
elegantes trajes negros, chapéus, sapatos brilhantes, etc.
Deus com um cravo
branco, o outro com um vermelho.
”Sempre foste um insolente”, disse sorrindo.
Deus, também sorrindo, beijou-o na boca.
Foi um beijo em grande estilo (ups),
ardente (ups, ups).
Ali não havia ninguém a olhar, só os insectos e os dois
homens beijando-se como só podem beijar os condenados ao amor clandestino.
Uns tantos
encontros em lugares secretos, coisas que ninguém deve saber, coisas que
ninguém pode evitar.
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